Na capital paulista, um exemplo do descaso com a qualidade da água é bem conhecido por todos: o Rio Tietê. O rio nasce no município de Salesópolis a 840 metros de alitude e, mesmo estando a apenas 22km do mar, contraria a maioria dos rios e segue por volta de 1150km para o coninente, desaguando no Rio Paraná (DAEE - Departamento de Agua e Energia Elétrica).
Desde a colonização, a vida da cidade de São Paulo ocorria às margens do rio Tietê e em sua extensão. Sua poluição já se demonstrava ao inal do século XIX com o início da industrialização e da urbanização paulista, quando, segundo Morse (1970), o esgoto das residências já alcançava seu leito.
A economia cafeeira gerou riquezas para São Paulo e com ela vieram a abertura de ruas, a impermeabilização crescente e a intensiicação da construção e do comércio. Em 1873, a cidade recebeu pavimentação em paralelepípedos, o que, somado ao seu crescimento, acarretou o início do processo de impermeabilização do solo, que traria consequências ao rio Tietê. Em 1894, as margens do rio Tamanduateí foram reiicadas e, entre 1867 e 1900, as ferrovias ocuparam suas várzeas. Industrias se instalariam em suas margens para se aproximar das ferrovias, fortalecendo o período de industrialização paulista, como airma Fracalanza3 (2004).
Outros rios paulistanos se juntaram ao Tietê no previsível desino, sua morte. Seja por asixia na poluição, seja por enterramento para ceder a superície aos veículos, um a um, os rios foram cedendo lugar ao “desenvolvimento”. Alguns exemplos podem ser citados, como o enterramento do rio Saracura, aluente do Anhangabaú, por moivos sanitários em 1893. Segundo Custódio (2002), também o próprio Anhangabaú foi canalizado e enterrado, ao passo que o Tamanduateí, o Pinheiros,
3 Fracalanza é doutora em Geograia pela UNESP, Campus
Presidente Prudente, professora da Universidade São Francisco – Campi Itaiba e Campinas, além de pesquisadora na área de recursos hídricos: atores sociais, gestão e territorialidade.
67
CAPITULO 2
Figura 10 – Topograia dos Reservatórios do Sistema Cantareira
Fonte: Mapa Topográico do Insituto Nacional de Pesquisa – Elaboração. Elaboração: Ruis (2016)
e muitos outros foram se transformando ao longo dos anos em depósitos de resíduos. Vieram a pavimentação, construção de novas vias, novas pontes, galerias pluviais, e outros. Hoje não se encontra, na cidade de São Paulo, um só rio com a mínima qualidade de suas águas.
Conforme Zanirato4 (2011), em 1930 São Paulo possuía um milhão de habitantes, o que gerou aumento da demanda por habitação e o loteamento de chácaras. As matas das várzeas dos rios e das áreas de mananciais passaram a ser derrubadas para uso da madeira na construção e lenha nos fornos industriais.
A necessidade do crescimento econômico da cidade favoreceu os automóveis em detrimento das pessoas e, entre 1930 e 1940, o canal do rio Tietê foi reiicado e seu leito entre o bairro da Penha e Osasco, reduzido de 45 para 26 quilômetros. Também fazia parte do projeto a criação de vias marginais.
Segundo Fracalanza (2004), a década de 1950 icou marcada pela concentração industrial da cidade de São Paulo e pelo óbvio aumento da poluição dos rios devido aos resíduos industriais. E em 1970, entre as cidades de Guarulhos e Osasco, a nova várzea do rio Tietê, já reiicado, estava totalmente ocupada. Também nessa época a cobertura asfálica se espalhava pela cidade e as águas luviais corriam sobre ela, esgotando a permeabilidade do solo.
A cidade necessita da água para sua higiene e consumo, mas o seu reaproveitamento e o uso consciente são necessários para a sustentabilidade hídrica e para a preservação desse recurso às futuras gerações.
Quanto à gestão das águas pluviais nas precipitações em áreas urbanas, permite-se que ela percorra em áreas impermeáveis como ruas, sarjetas e calçadas, “lavando” e carregando consigo toda a poluição depositada para os leitos dos rios, e contribuindo assim com sua poluição. Por esse caminho, essa água é direcionada para estações de tratamento, onde será somada ao volume de esgoto urbano e tratada como tal, contribuindo com o desperdício do dinheiro público, uma vez que, caso a cidade fosse menos impermeável, as águas pluviais tomariam seu rumo natural iniltrando-se no solo.
4 Zanirato é doutora em História, professora do Curso
de Gestão Ambiental da Escola de Artes, Ciências e Humanidades e integrante dos Programas de Pósgraduação em Mudança Social e Paricipação Políica e de Ciências Ambientais, todos da Universidade de São Paulo.
69
CAPITULO 2
“Nos ambientes urbanos e suburbanos, a água da chuva muitas vezes é tratada como um resíduo que deve ser eliminado do local onde precipita de maneira mais rápida e eiciente permiida pelas leis locais. O escoamento supericial da água da chuva geralmente é canalizado por meio de calhas e rede de esgoto pluvial até bacia de detenção, para armazenagem temporária antes de sua descarga, ou diretamente lançado em sistemas aquáicos, que incluem pântanos, córregos, rios e lagos.” (FARR, 2013, p. 177)
A impermeabilidade do solo e a canalização subterrânea dos rios elimina a possibilidade de dreno natural das aguas pluviais e contribui para a redução do volume de água dos rios.
“A perda de iniltração e da recarga dos lençóis freáicos na bacia hidrográica do entorno combina com o rebaixamento dos níveis normais da água no sistema de tributário, também rebaixando o lençol freáico e deixando de alimentar córregos durante os períodos de seca.” (FARR, 2013, p. 174).
A água sempre foi um meio de aproximação do homem à natureza, e o ambiente de intersecção dessa relação são as margens dos rios, represas, nascentes, entre outros. Esse entorno tem sido gradaivamente despido de cenários atraivos e repleto de inversões de prioridade em seu uso. Gehl (2013) enfaiza a dimensão humana em que os cenários devem ser tratados, item via de regra esquecido nos planejamentos urbanos pelo mundo.
“Por décadas, a dimensão humana tem sido um tópico do planejamento urbano esquecido e tratado a esmo, enquanto várias outras questões ganham mais força, como a acomodação do veriginoso aumento do tráfego de automóveis. Além disso, as ideologias dominantes de planejamento – em especial, o modernismo – deram baixa prioridade ao espaço público, às áreas de pedestres e ao papel do espaço urbano como local de encontro dos moradores da cidade. Por im, gradaivamente, as forças do mercado e as tendências arquitetônicas ains mudaram seu foco, saindo da inter-relações e espaços comuns da cidade para os ediícios individuais, os quais, durante o processo, tornaram-se cada vez mais isolados, autossuicientes e indiferentes.” (GEHL, 2013, p. 3).
Aos poucos, as pessoas deixaram de se importar com seu próprio distanciamento das águas supericiais imposto pelo progresso.
Todo esse cenário paulistano pode ser facilmente transportado para os municípios da RMSP. Entre eles, há o foco dessa pesquisa, Mairiporã.
A impermeabilização do solo, alteração nos cursos dos rios, eliminação de rios e nascentes ocorrem em prol do “progresso”. Junta-se a esse cenário: desmatamento, moradia irregular, industrialização, falta de saneamento básico e descaso da população e dos gestores públicos, causando patologias vividas pela capital paulista e reproduzidas em muitas cidades da RMSP.
A RMSP, composta por 39 municípios e aproximadamente 20 milhões de habitantes5, está praicamente toda dentro da bacia hidrográica do Alto Tietê. A igura 11 sobrepõe a área de inluência da bacia hidrográica do Tietê à área da RMSP e possibilita maior percepção de sua abrangência. Apenas os municípios de Guararema, Juquiiba, Santa Isabel e Vargem Grande Paulista não integram a bacia do Alto Tietê, segundo informações da SABESP (2013).
Segundo classiicação da ONU (Figura 12) e dados da Câmara Municipal de São Paulo (2011), a disponibilidade hídrica por habitante segue valores por metro cubico e por ano, deinindo como: abundante quando esse número está acima de 20.000 m³/hab.ano; correta quando está acima de 2500 m³/hab.ano; pobre abaixo de 2500 m³/hab.ano; e críica quando abaixo de 1500 m³/hab.ano. A Câmara Municipal de São Paulo (2011) informa que a disponibilidade hídrica média brasileira é de 35000 m³/hab.ano e que no estado de São Paulo a realidade chega a 2209 m³/hab.ano. Porém, em regiões metropolitanas os valores icam muito abaixo na faixa críica deinida pela ONU. Na RMSP, a bacia hidrográica do Alto Tietê, que cobre aproximadamente 70% da região, gera uma disponibilidade hídrica de apenas 200 m³/hab.ano, mesmo com índice pluviométrico de aproximadamente 1500mm, devido à baixa permeabilidade do solo na área urbanizada. Soma-se a esse volume quanitaivo, extremamente baixo, a qualidade da água que recebe eluentes industriais e domésicos.
A baixa disponibilidade hídrica da RMSP e a elevada demanda obriga a reirada de água em outras bacias hidrográicas de regiões vizinhas, entre elas o Sistema Cantareira, que é responsável pela reversão das águas da bacia do Rio Piracicaba para o Alto Tietê e abastece aproximadamente 47% da população da RMSP, conforme a Associação dos Engenheiros do Departamento de Água e Energia
Elétrica do Estado de São Paulo - AEDAEESP (2014) (Quadro 01). 5 Censo IBGE 2010 para RMSP. Fonte: IBGE, disponível em: htp://
www.censo2010.ibge.gov.br /sinopse/index.php?uf=35&dados=0 Figura 11 – Sobreposição da Bacia hidrográica do Alto Tietê e da RMSP
Fonte: Câmara Municipal de São Paulo (2011)
Figura 12 – Disponibilidade Hídrica
71
CAPITULO 2
Quadro 01 – Abastecimento de água da RMSP Fonte: AEDAEESP (2014) - Elaboração: Ruis (2016)
A baixa disponibilidade hídrica da RMSP e a elevada demanda obrigam a reirada de água em outras bacias hidrográicas de regiões vizinhas
Em termos de paricipação no atendimento da população da RMSP, o Sistema Cantareira aingiu 47% (Gráico 01). Quanto à capacidade de produção sua paricipação é de 45% (Gráico 02). Em 2015, durante a crise hídrica no Sistema Cantareira, essa produção caiu para 14%.
A SABESP opera o Sistema Integrado de Abastecimento de Água (Figura 13) para o atendimento de 31 municípios através do Sistema Adutor Metropolitano (SAM) conforme a ANA (2010).
De maneira conceitual, cada sistema produtor de águas passa por um ciclo de saneamento explicado por Fernandes (2010) e ilustrado na igura 14.
A captação da água é feita com o represamento dos rios. Essa água percorre tuneis e canais entre as represas, seja por gravidade ou por bombeamento, até chegar às Estações de Tratamento e adutoras. O Sistema Adutor Metriopolitano interliga os sistemas produtores de água, fato que permite a transferência da água entre eles em época de baixo volume. A água tratada segue para os reservatórios, e de lá para a distribuição das milhões de ligações residenciais da cidade. O esgoto resultante do consumo residencial, após tratamento nas Estações de Tratamento de Esgoto (ETE), são despejados novamente nos rios ou seguem para abastecimento industrial. O lodo reirado da água durante os tratamentos tanto nas ETAs quanto nas ETEs, devem ser direcionados para a disposição adequada.
Gráico 01 – Contribuição no atendimento de água para a população da RMSP - 2014
Fonte: AEDAEESP (2014) - Elaboração: Ruis (2016)
Gráico 02 – Capacidade de produção de água RMSP - 2014 Fonte: AEDAEESP (2014) - Elaboração: Ruis (2016)
73
CAPITULO 2
Figura 13 – Sistemas de Abastecimento Urbano de Águas
Os Sistemas produtores de água da RMSP são:
Sistema Produtor Alto Coia (Foto 01): Construído em 1914, abastece aproximadamente 400 mil habitantes dos municípios de Coia, Embu, Embu-Guaçu, Itapecerica da Serra e Vargem Grande Paulista.
Sistema Produtor Baixo Coia (Foto 02): Construído em 1963, abastece aproximadamente 361 mil habitantes dos municípios Barueri, Jandira e Itapevi.
Sistema Produtor Alto Tietê (Foto 03): Abastece aproximadamente 5 milhões de habitantes dos municípios Arujá, Itaquaquecetuba, Poá Ferraz de Vasconcelos, Suzano, Mauá, Mogi das Cruzes, Santo André, Guarulhos e São Paulo (Zona Leste). Iniciou-se com a construção da Represa de Taiaçupeba e da ETA de mesmo nome, em 1992.
Sistema Produtor Cantareira (Foto 04): Inaugurado em 1974, abastece aproximadamente 5,3 milhões de habitantes dos municípios Franco da Rocha, Francisco Morato, Caieiras, Cajamar, Osasco, Carapicuíba, São Caetano do Sul, Guarulhos, Barueri, Taboão da Serra, Santo André e São Paulo (Zona Norte, Central, Leste e Oeste).
Sistema Produtor Guarapiranga (Foto 05): Abastece aproximadamente 5,6 milhões de habitantes dos municípios Coia, Embu, Itapecerica da Serra, Taboão da Serra e São Paulo (Zona Sul e Sudoeste). Em 1929, era inaugurada a primeira adutora do sistema.
Sistema Produtor Ribeirão da Esiva (Foto 06): Abastece aproximadamente 38 mil habitantes do município de Rio Grande da Serra, cidade onde se localiza. Foi inaugurado em 1982.
Sistema Produtor Rio Claro (Foto 07): Abastece aproximadamente 1,5 milhões de habitantes dos municípios Ribeirão Pires, Mauá, Santo André e São Paulo (Bairro de Sapopemba). Em 1932, o sistema foi inaugurado.
75
CAPITULO 2
Sistema Produtor Rio Grande (Foto 08): Com a primeira etapa inaugurada em 1958, o sistema abastece aproximadamente 1,5 milhões de habitantes dos municípios Diadema, São Bernardo e Santo André.
Sistema Produtor São Lourenço (Foto 09): Em fase de construção, o novo sistema produtor de São Paulo terá capacidade para tratar 4.700 mil litros de agua por segundo. A esimaiva é para atendimento de 1,5 milhão de pessoas nas cidades de Jandira, Itapevi, Barueri, Coia, Carapicuíba e Vargem Grande Paulista. A previsão de inauguração é outubro de 2017, segundo o Governo do Estado de São Paulo (2015).