Desde a sua concepção e até o vestibular de 2007, o critério estabelecido pela Comissão de Implementação das Cotas, que não é a mesma que concebeu e aprovou o Plano de Metas, era de que os candidatos a cotas preencheriam uma ficha atestando se eram negros/as e em caso afirmativo, seriam encaminhados/as para serem fotografados/as.
Na primeira ficha do vestibular o/a candidato/a a cotas era orientado/a a responder, segundo as categorias do IBGE, se era preto/a ou pardo/a. Na pergunta seguinte deveria dizer se se considerava negro, caso a resposta fosse afirmativa, responderia se queria ou não participar do sistema de cotas. Em caso afirmativo, o/a candidato/a era encaminhado/a para tirar uma foto, a qual seria avaliada por uma Comissão Avaliadora secreta51.
Os/as candidatos/as com inscrições indeferidas em função da avaliação das fotos teriam direito a entrar com recurso e, então, seriam entrevistados/as por aquela comissão, a qual procuraria indícios contextuais da negritude do/a candidato/a. No entanto, como lembra Carvalho (2006:186) a utilização desse critério para a identificação dos candidatos cotistas é bastante polêmica e é corriqueiramente pautada nos debates.
O autor revela que adotando recomendações da Organização Internacional do Trabalho (OIT), apenas a auto-declaração seria suficiente. Mas, a Comissão de Implementação das Cotas optou pela identificação segundo critérios do IBGE, com a utilização de fotos, contrariando a sua argumentação contra essa proposta, que se baseia na avaliação da constituição étnico-racial do DF.
Até o segundo vestibular de 2007, o/a candidato/a poderia optar pelo sistema de cotas, mas se alcançasse a nota de corte, e em função do preenchimento total das vagas por cotas, poderia ser remanejado/a para o sistema universal caso sobrassem vagas.
Esse tipo de critério foi bastante criticado e, logo, houve problemas práticos quanto a sua utilização. No entanto, no 2º semestre de 2007 houve o caso dos “Irmãos Gêmeos”, que se inscreveram pelo sistema de cotas, mas apenas um foi considerado negro pela Comissão. O gêmeo cuja inscrição não foi homologada recorreu da decisão e teve seu recurso deferido. Em função deste episódio, que foi diuturnamente veiculado na mídia, a UnB foi extremamente pressionada por atores externos a ela. Nesse sentido, o sistema de cotas teve a sua legitimidade mais uma vez questionada, fato que contribuiu para que a UnB decidisse mudar
51 Para Carvalho (2006:188) esse tipo de comissão é contrário ao princípio da transparência que é requerido no processo de uma luta anti-racista.
os critérios para identificar quem seriam os/as candidatos/as cotistas. Assim, no 1º vestibular de 2008 aplicaram-se as mudanças.
Conforme o documento Mudanças no 1º Vestibular de 2008 que institui alterações no sistema de cotas e nas provas de habilidades específicas, os/as candidatos/as a cotas passaram a ter que optar pelo sistema de cotas ou pelo universal. As fotografias foram substituídas por entrevistas pessoais feitas, aproximadamente 15 dias depois da realização das provas de conhecimento, e anterior à divulgação do resultado final do processo. Determinou-se que o número de candidatos/as a serem chamados/as para a entrevista deveria ser até duas vezes maior do que o número de vagas oferecidas, por curso, por cotas.
Ao que parece a determinação de que os candidatos tenham que optar apenas por um dos dois sistemas pode fazer diminuir o número de pessoas oportunistas. Assim como pode estimular apenas aqueles que, de fato, se auto-identifiquem negros/as a se candidatarem pelo sistema. Ao longo da implementação dessas novas medidas é que se vai perceber o quanto elas contribuíram para melhorar a execução da política, resultando ou não na inclusão de mais negros/as na universidade.
Entretanto, não se sabe até que ponto, todo o Plano de Metas vem sendo executado. Nesta dissertação, foram ouvidos/as jovens estudantes de escolas públicas de ensino médio, o que permitirá vislumbrar suas orientações coletivas quanto à política de cotas. E embora não seja o nosso objetivo avaliar as ações previstas no mencionado documento, na medida do necessário, serão identificados na fala dos/as jovens elementos que apontem para a execução ou não das ações afirmativas de acesso, previstas no Plano e que deveriam ser levadas às escolas públicas de ensino médio como forma de tornar mais competitivos/as os/as jovens egressos/as daquele nível de ensino.
2 Procedimentos teórico-metodológicos
A compreensão de que a pesquisa social deve ser conduzida a partir da adoção de um método quantitativo ou qualitativo, a depender dos objetivos do estudo, é bastante difundida entre os estudiosos. A Escola de Chicago representa o início de uma nova forma de se fazer pesquisa. Coulon (1995) destaca a existência de duas Escolas de Chicago, em função dos temas, do tipo de abordagem teórica e metodológica adotadas.
A primeira Escola estaria preocupada em compreender a sociedade na sua totalidade, adotando para tanto técnicas da pesquisa qualitativa, como longas observações participantes, pesquisa documental, histórias de vida e entrevistas em profundidade. Segundo Coser (1976, apud Coulon, op. cit.) o reinado da primeira Escola de Chicago chega ao fim em 1935, com a explosão de estudos quantitativos validados pela Sociedade Americana de Sociologia. Assim, a sociologia americana passa a ser dominada por uma linha behaviorista, privilegiando a utilização das técnicas quantitativas. Entretanto, uma segunda Escola de Chicago é caracterizada pela realização de trabalhos pautados no Interacionismo Simbólico e posteriormente na etnomedologia (Coulon, op. cit., p. 124).
A metodologia qualitativa, muitas vezes, é utilizada como complementar ao método quantitativo, numa perspectiva que considera aquele tipo de método menos legítimo e que precisa de confirmações fundamentadas em técnicas quantitativas. Entretanto, em outro sentido os dois tipos de metodologia podem ser combinados e integrados sem que se comprometa a qualidade e a legitimidade da pesquisa (Flick, 2004).
As pesquisas qualitativas e quantitativas, em função dos diferentes princípios epistemológicos e metodológicos de uma e de outra são, muitas vezes, percebidas como estando em oposição uma em relação à outra. A representatividade da amostra é muito questionada em pesquisas qualitativas, mas é muitas vezes utilizada nos estudos quantitativos, nos quais adquire legitimidade científica. Há aqueles que reverenciam a superioridade das pesquisas qualitativas em relação aos surveys e levantamentos estatísticos, enfatizando que só aquele tipo de estudo poderia contribuir para a explicação das relações identificadas. (Flick, op. cit.).
Entretanto, Flick (op. cit) ressalta que é possível integrar e unir os dois tipos de pesquisa em um mesmo estudo. Miles e Huberman (1994, apud Flick, op. cit.) destacam que a observação do campo a partir do qual será possível moldar e combinar as estratégias; ou uma combinação que prevê inicialmente a utilização de técnicas qualitativas, posteriormente a
aplicação de questionários e só então se procede ao aprofundamento dos resultados obtidos em uma segunda fase qualitativa; no último plano de integração, uma segunda entrada no campo pode contribuir para aprofundar os resultados da primeira etapa, sendo seguido por uma intervenção experimental no campo para o teste dos resultados das primeiras etapas (Flick, 2004).
Assim, destaca-se que nas diferentes fases da pesquisa podem ser combinados métodos quantitativos e qualitativos. Flick enfatiza, ainda, o papel da triangulação dos dois tipos de métodos:
Empregar ou não os métodos ao mesmo tempo, ou utilizá-los um após o outro, é um fator de menor relevância se comparado à idéia de enxergá-los em igualdade no papel que desempenham no projeto (Flick, op. cit., p. 274). Ressalta-se que os problemas em relação à integração dos dois métodos não foram completamente solucionados. Incorre-se, ainda, na prática de se utilizar uma abordagem depois da outra, ou utilizá-las paralelamente com graus diferenciados de relevância e preferência ou em situações em que uma é sobreposta à outra. Entretanto, é possível aliar as duas abordagens em uma pesquisa de modo a aprofundar o conhecimento que se quer obter de um determinado objeto de estudo.
Na tentativa de conciliar as duas formas de fazer pesquisa, optou-se nesta pesquisa pela aplicação de questionários, pela realização de grupos de discussão e, quando necessário, permite-se a utilização de entrevistas narrativas-biográficas. Ainda que as análises apresentadas neste relatório se detenham à interpretação do material resultante de dois grupos de discussão52, é necessário explicitar todo o percurso trilhado para atingirmos os resultados que ora apresentamos.
Neste capítulo discorre-se sobre o referencial teórico-metodológico adotado na pesquisa. São elucidadas as elaborações teóricas que alicerçam os grupos de discussão, as entrevistas narrativas-biográficas e o método de análise utilizado no processo de interpretação dos dados, o método documentário de interpretação.
52 Em virtude do curto espaço de tempo para a concretização de todas as fases da pesquisa (trabalho de campo, processamento dos dados, análise e redação do relatório), optou-se por selecionar dois grupos de discussão de duas escolas públicas pesquisadas – uma em Ceilândia e outra em Brasília – e fazer uma análise em profundidade. Foi necessário compreender que ao fazer pesquisa é necessário vislumbrar os seus limites e ter a flexibilidade para propor alterações no decorrer do processo, sempre que as mudanças se façam necessárias.