Future Work
7.1.4 Using the Full Data Set
O Morro da Providência se localiza na área central portuária da cidade do Rio de Janeiro e até 2011 contabilizava 4.354 moradores (CAVALLIERI & VIAL, 2012) ocupando uma área de 102.088m2 (LOPES; AMORIM & CAVALLIERI, 2011). É considerada a primeira favela brasileira,
construída por veteranos da Guerra de Canudos. A história contada refere-se aos milhares de soldados que voltaram do nordeste e se reuniram no Rio após o término da guerra, em 1897, devido à promessa do governo da época que havia oferecido a eles habitação na capital. Enquanto aguardavam uma “providência” do Estado, os soldados construíram abrigos provisórios no morro central. Como a promessa nunca se concretizou, o assentamento inicial se transformou em uma comunidade permanente, primeiramente chamada de Morro da Favella (alusão à espécie da planta Cnidoscolus quercifolius, popularmente conhecida como favella e que encobria a região onde os soldados viviam durante as batalhas da guerra, no nordeste), vindo a ser conhecida como Morro da Providência, posteriormente, como referência à espera de ações governamentais.
Escravos libertos e seus descendentes também se mudaram para o morro, juntando-se aos moradores originais, chegando na capital em busca de empregos e moradia. Hoje em dia, a Providência se situa numa colina entre a zona portuária e a zona central, onde está a Estação Central do metrô e a avenida Presidente Vargas, e abriga 5,5 mil pessoas. A UPP da Providência foi instalada em abril de 2010, sendo a sétima unidade implantada na capital. A Providência também está situada na área de um dos maiores projetos urbanos em vigência no Rio, o “Porto Maravilha”. Dentre as intervenções, relacionadas a esse projeto, previstas para a comunidade estão o Teleférico da Providência, cuja obra já está concluída desde maio de 2013; um bonde funicular a ser implantado ao longo da escadaria principal da comunidade, além de iluminação pública e habitação. Uma das principais finalidades do projeto “Porto Maravilha” é estimular o turismo nessa porção da cidade, nesse sentido estão sendo criados museus, centros culturais, feiras, sendo que, de acordo com os moradores da Providência, o Teleférico é uma obra que visa, exclusivamente, à criação de mais um marco turístico no centro e não melhorar o transporte na comunidade, de acordo com a justificativa pública oficial. E como parte dos projetos o “Porto Maravilha”, a Providência é a primeira favela a ter investimentos de infraestrutura financiados pela iniciativa privada.
As intervenções que estão sendo realizadas na Providência estão relacionadas ao programa Morar Carioca, rótulo que costuma estar associados com obras de melhorias nas comunidades e com certo caráter participativo. Porém, no caso em questão, as intervenções do Morar Carioca envolvem a demolição de mais de 800 casas além da única praça pública amplamente utilizada pelos moradores, a Praça Américo Brum, que deu lugar a uma estação do Teleférico, o que fortalece mais a justificativa que relaciona as ações a objetivos turísticos. Essas mais de 800 casas que estão destinadas a remoção correspondem a 1/3 das habitações do morro e foram sinalizadas com um determinado número acompanhado das iniciais SMH (Secretaria Municipal de Habitação) sem maiores explicações aos moradores que saiam para o trabalho e quando chegavam encontravam a casa marcada.
FIGURA 56 – Tentativas de resistência da população da Providência contra a demolição da
Praça Américo Brum e o local cercado após a demolição da prefeitura
FONTE: Disponível em: <http://forumcomunitariodoporto.wordpress.com/tag/praca-americo-brum/#jp-carousel-295>. Acesso em: mar. 2014.
Algumas obras do programa “Minha Casa Minha Vida” estão prometidas para reassentar a população removida, além do valor mensal enviado aos moradores referente ao aluguel social. Porém, até agora, somente 34 apartamentos foram construídos, sendo que somente 20 desses foram entregues, sendo que muitas das famílias removidas já não recebem mais o valor do aluguel social e estão vivendo em casas de parentes, amigos e as chamadas “cabeças-de- porco”, termo usado para designar os quartos que são alugados nas casas de terceiros. Além
disso, os apartamentos do “Minha Casa Minha Vida”, no Rio de Janeiro, têm sido caracterizados pela construção de qualidade inferior às casas existentes nas favelas, com maior densidade populacional e por restringirem atividades comerciais nas casas, animais de estimação e a prática de cultos religiosos, práticas muito comuns e tradicionais nas favelas cariocas.
O Teleférico da Providência gerou bastantes controvérsias quanto a sua funcionalidade como meio de transporte para a população local. A comunidade se situa numa colina baixa, não se perde muito tempo para subir as escadarias, além de existirem estradas que dão acesso ao topo da comunidade. Do topo do morro até a estação Central do Metrô são quinze minutos de caminhada. Antes da construção, alguns moradores sugeriram que uma linha de teleférico ao longo do cume do morro, em vez de através do morro, seria mais útil, pois ligaria a Providência às outras comunidades vizinhas, atendendo, assim, a uma necessidade real. Porém, da forma como foi construído, o Teleférico dará aos turistas que passeiam entre a zona do Porto e o centro da cidade uma vista panorâmica da primeira favela do Rio de Janeiro, porém, com um grande prejuízo para a própria comunidade.
Porém, a grande controvérsia debatida pela população local é o fato de que as obras já estão concluídas desde maio de 2013 e, desde essa data, o Teleférico não funcionou nenhuma vez e, mesmo parado há tantos meses, ainda não houve uma justificativa da prefeitura para a situação. O sistema teve um custo de R$75 milhões e foi projetado para interligar a Cidade do Samba, a Central do Brasil e a Providência. Seriam 16 gôndolas com capacidade para transportar 10 pessoas em cada uma, porém, devido ao grande atraso no funcionamento, o Teleférico recebeu os apelidos de “museu do teleférico” e “elefante branco”. Além de estar parado, o sistema ainda sofre com a total falta de manutenção: lixo, entulho e fezes de animais estão por toda parte, dando um aspectos negativo ao espaço que pretendia ser o cartão-postal do morro. O mirante da estação da Providência, que proporciona uma bela vista da Zona Portuária, está repleto de cacos de vidro e a encosta, abaixo, pouco a pouco, vai se tornando um lixão. As gôndolas estão todas empoeiradas, fortalecendo o aspecto de abandono.
FIGURA 57 – O Teleférico da Providência nunca funcionou
FONTE: Disponível em: <http://noticias.bol.uol.com.br/fotos/imagens-do-dia/2014/02/14/no-rio-teleferico-da- providencia-nao-sai-do-lugar.htm#fotoNav=9>. Acesso em: mar. 2014.
FIGURA 58 – As estações estão abandonadas e servem como depósito de entulhos FONTE: Disponível em: <http://noticias.bol.uol.com.br/fotos/imagens-do-dia/2014/02/14/no-rio-teleferico-da-
providencia-nao-sai-do-lugar.htm#fotoNav=9>. Acesso em: mar. 2014.
A minha visita ao Morro da Providência ocorreu em janeiro de 2014, encontrei o contato do guia que me acompanhou no passeio também no site Guia das Favelas. João Ribeiro49 é um jovem
de 22 anos que nasceu e cresceu no Morro da Providência. Nosso encontro se deu no Cais do Valongo, próximo ao Hospital dos Servidores do Estado, no centro do Rio de Janeiro e seguimos pela ladeira de Nossa Senhora do Livramento que dá acesso ao morro. Combinamos previamente o passeio que teria um valor de R$50 por pessoa, assim como foi no Complexo do Alemão.
João iniciou o passeio contando um pouco sobre a história da Providência citando o fato de ser a favela mais antiga da América Latina, a Guerra de Canudos e outros dados relacionados. Ele afirma que ali vivem cerca de 30 mil pessoas, uma quantidade muito maior que o número oficial, e acrescenta o fato de o local ter sido denominado, recentemente, como Complexo Providência, o qual conjuga todos os morros próximos, e que essa resolução não agradou os moradores locais. Logo no começo da nossa caminhada, ele cita a polêmica obra do Teleférico que pretendia remover 900 famílias do local e que seria impossível reassentar essas famílias próximas dali, pois não existe mais espaço num local tão adensado da cidade. Ele conta que o valor pago pelo aluguel social às famílias removidas é de R$450, porém, após as obras da zona portuária e do Teleférico, o mercado imobiliário local sofreu uma valorização e o aluguel mais barato não é menor que R$800.
Ainda na ladeira de Nossa Senhora do Livramento, ele me apresenta a casa onde o escritor Machado de Assis viveu parte de sua infância. Essa casa, na verdade, é somente uma fachada abandonada para a qual, ele afirma, não existe nenhum projeto de restauração no sentido de mantê-la como um patrimônio local. Próximo dali fica a única quadra esportiva que restou para a prática de esportes para toda a comunidade, após a demolição da Praça Américo Brum. Quando chegamos à ladeira do Barroso, ele aponta as casas antigas do morro e afirma que aquela é a única área da comunidade que não foi afetada pelas remoções, uma vez que os moradores dali estão em dia com os impostos cobrados pela prefeitura, como IPTU, água, luz etc.
Quando questionei sobre um antigo projeto da prefeitura para o Morro da Providência, o Museu a Céu Aberto, João diz que atualmente não existe nenhuma mobilização relacionada a esse projeto, mas que, na época do programa Favela-Bairro, a prefeitura construiu diversos mirantes no morro aproveitando os elementos que já existiam, construídos pelos antigos moradores, e reformou uma praça, chamada de Largo de Nossa Senhora da Penha, onde havia um espaço que os moradores usavam para a prática de esportes, o qual foi inutilizado para a construção de
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uma cruz. Com a demolição da Praça Américo Brum para a construção do Teleférico, a comunidade carece de mais espaços de uso comum.
FIGURA 59 – Antiga praça de esportes transformada pelo programa Favela-Bairro FONTE: Acervo pessoal da autora.
Quando chegamos próximo à escadaria que, segundo João foi construída pelos ex-escravos que viveram no morro, no fim do século XIX, ele mostra uma extensa área onde podem ser vistas várias casas demolidas, onde só restam algumas paredes. Dentre os escombros, ele aponta uma área onde havia um prédio grande onde moravam 70 famílias. O prédio foi demolido pela prefeitura para dar lugar ao que seria um ginásio esportivo que nunca chegou à comunidade. Após as manifestações e denúncias à Defensoria Pública por parte dos moradores, houve a interdição de todas as obras da prefeitura no local, havendo permissão somente para a conclusão do Teleférico, para evitar a deterioração dos equipamentos que já tinham sido investidos. João apontou sua casa, onde vivem oito pessoas, que fica do lado esquerdo da escadaria. Ele conta que foi abordado por agentes da prefeitura, à época das demolições, que lhe ofereceram R$40 mil pela casa, porém, desistiram quando eles disseram que não sairiam de lá por menos de R$200 mil, já que a construção equivale a três moradias e mais um terraço. Ele conta que houve uma moradora que aceitou R$45 mil pela casa e só conseguiu comprar um terreno por esse valor em um bairro muito distante dali, na zona oeste da cidade, e que viveria na casa de uma prima até conseguir recursos para construir uma casa no terreno.
João me levou em todos os mirantes do Morro da Providência, todos eles com intervenções do programa Favela-Bairro. No primeiro mirante havia algumas mesinhas de concreto para jogos e um guarda-corpo. De acordo com o guia, aquele espaço era utilizado pela população para a realização de quadrilhas, as quais são tradicionais na comunidade. Porém, a implantação dessas mesinhas prejudicou o espaço para essa atividade, o que resultou na retirada da maioria das mesas pelos moradores para seguirem realizando as danças no local.
FIGURA 60 – Mirante do Morro da Providência com equipamentos implantados pelo programa
Favela-Bairro
FONTE: Acervo pessoal da autora.
É possível perceber uma grande presença de lixo nos becos do Morro da Providência, além de emaranhados de cabos elétricos estendidos a pouco mais de 1,70 metro da piso, o que traz um risco muito grande para a população. De acordo com João, a melhor coisa trazida pelos programas de urbanização da prefeitura foi o calçamento das vias que antes eram de terra batida.
Questionado sobre a atuação das UPPs no morro, o guia afirma que a diferença, após a chegada da polícia, foi a grande diminuição do tráfico armado na comunidade, o que acabou favorecendo os traficantes que não precisam mais se armar e nem pagar vigias, assim como
concluiu Marta, no caso do Complexo do Alemão. Ele afirma que a política de “pacificação” não é nada mais, nada menos que uma estratégia do governo para dar uma nova cara às favelas cariocas e expô-las ao mundo como se houvessem acabado com a atividade do tráfico.
Na descida dos mirantes do alto do morro, rumo ao último mirante que fica na estação do Teleférico, no local da antiga praça, encontramos com a Dona Márcia na janela da sua casa, uma moradora antiga da Providência que ficou famosa na mídia por conseguir resistir às remoções e mover um processo contra a prefeitura. Dona Márcia me reconhece como “turista” e vai logo mencionando o “elefante-branco” do morro, que fica em frente à sua casa. Ela diz que espera que a prefeitura coloque, em breve, o Teleférico para funcionar, já que logo teremos Copa do Mudo e campanhas políticas, mas que acredita que esse não funcionará por muito tempo, pois a estrutura já está deteriorada e necessita de manutenção. Ela diz, bem humorada, que agora não se pode chamá-lo mais de “elefante-branco”, mas sim de “elefante-cinza”, pois já ficou sujo depois de tanto tempo parado. Do último “mirante” é possível perceber a sujeira da estação, totalmente abandonada e fechada, além das ferrugens nos pilares que sustentam os cabos e partes do cabo que já estão arrebentando.
Quanto à atividade do turismo no morro, João diz que o fluxo de turistas varia de acordo com a época do ano. O carnaval e o réveillon são as épocas mais cheias, com grande quantidade de turistas estrangeiros, sendo eles a maioria dos visitantes. Ele diz que existe uma parceria entre as grandes empresas de turismo que indicam os guias de dentro do morro para realizarem passeios com seus clientes. Ele conta que realiza diversos passeios durante todo o ano, mas que essa não é sua atividade principal. Ele é coordenador de um grupo de bateria de uma escola de samba mirim, de uma escola de balé e de uma roda de capoeira, além de sempre se apresentar em grandes escolas de samba nos carnavais do Rio de Janeiro.
FIGURA 61 – Vista do “mirante” na estação do Teleférico da Providência FONTE: Acervo pessoal da autora.
FIGURA 62 – Detalhe do cabo danificado no Teleférico da Providência FONTE: Acervo pessoal da autora.
FIGURA 63 – Interior vazio da estação do Teleférico da Providência FONTE: Acervo pessoal da autora.
MAPA 06 – Trajeto do passeio no Morro da Providência FONTE: Elaborado pela autora, 2014.