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6.1 Proof of Concept

6.1.3 Naïve Bayes: Multinomial vs Complement

O Complexo do Alemão está situado na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, é oficialmente considerado um bairro e está rodeado pelos bairros de Ramos, Higienópolis, Olaria, Inhaúma e Bonsucesso. Até 2011, foram contabilizados, segundo dados do IBGE, 60.583 habitantes (CAVALLIERI & VIAL, 2012) ocupando uma área de 1.730.000m2 (LOPES; AMORIM &

CAVALLIERI, 2011). A região possui o pior Índice de Desenvolvimento Humano - IDH, de toda a capital, de acordo com o Censo realizado em 2000.

A ocupação da região se iniciou nos primeiros anos da década de 1950 quando o antigo proprietário das terras locais, o polonês Leonard Kacsmarkiewiez, dividiu a propriedade em lotes e iniciou sua venda. Devido aos traços europeus e ao sotaque característico do polonês, ele foi apelidado de “alemão”, alcunha que foi transferida, posteriormente, ao local. A abertura da Avenida Brasil, em 1946, acabou por transformar a região no principal polo industrial da cidade. O comércio e a indústria cresceram e diversificaram-se, mas a ocupação desordenada dos

morros adjacentes se acelerou no contexto do primeiro governo de Leonel Brizola, na década de 1980. A região sempre foi conhecida como uma das mais violentas da cidade.

Em 2011, após uma operação policial envolvendo agentes da polícia militar, civil, federal e militares do Exército, foi implantada a primeira UPP na região. Atualmente, existem oito unidade servindo a área: UPP Fazendinha, UPP Nova Brasília, UPP Morro do Adeus/Morro da Baiana, UPP Morro do Alemão/Pedra do Sapo, UPP Morro do Sereno/Morro da Fé, UPP Morro da Chatuba/Morro da Caixa D’água, UPP Parque Proletário e UPP Vila Cruzeiro. Meses após a implantação da primeira UPP, a Fazendinha, foi inaugurado o Teleférico, em julho de 2011, sendo que as obras tiveram início em janeiro de 2009. No evento de inauguração estavam presentes a presidenta Dilma Rousseff e o governador do Estado Sérgio Cabral, além do prefeito Eduardo Paes. Os recursos para a construção do Teleférico foram provenientes do PAC, totalizando R$210 milhões. O equipamento está integrado ao sistema de transporte ferroviário e tem seis estações: Bonsucesso, Adeus, Baiana, Alemão, Itararé e Palmeiras. Possui 3,5 quilômetros de extensão e 152 gôndolas, tem a capacidade de transportar dez passageiros em cada gôndola. O tempo de viagem, da primeira estação à última, é de 16 minutos.

Jorge Mario Jáuregui, autor do projeto do Teleférico, é um arquiteto argentino que vive há 30 anos no Rio de Janeiro. Em entrevista concedida ao jornal O Globo, uma das mídias de maior circulação do estado do Rio de Janeiro e do país, durante um passeio pelo teleférico em julho de 2011, deixa claro, em diversos pontos, que ali se fala de uma obra de ampla repercussão, pensada para fortalecer elementos culturais da cidade e atrair o interesse dos mais diversos públicos.

No caminho, conversa com uma família do Catete que foi conhecer a obra, reconhece uma equipe da televisão coreana que faz reportagem no local, aponta decepcionado para um espaço vazio e reclama: "Ali estava projetado um café..." No ponto final, na Fazendinha - ele insiste em chamar a estação de Fazendinha, como é conhecida a região, embora o painel indique o batismo oficial de Estação Palmeiras - , estranha a música ambiente. Ao fundo, toca um folk americano, música típica de qualquer metrô do mundo ou de elevadores de prédios comerciais. "A música deveria ser mais localista", conclui, revelando que o português não é sua primeira língua. Por exemplo? "Marcelo D2", responde rápido. (O GLOBO, jul. 201146)

                                                                                                               

46 Disponível em: <http://oglobo.globo.com/rio/criador-do-teleferico-do-alemao-se-diz-fazedor-de-conexoes-

FIGURA 48 – Site de empresa de turismo do Alemão criada após a construção do Teleférico FONTE: Disponível em: <http://www.vgta.com.br/>. Acesso em: mar. 2014.

Uma outra notícia do jornal O Globo47, veiculada em maio de 2013, constata que o Teleférico do

Alemão tem recebido uma quantidade maior de turistas do que outros destinos turísticos clássicos do Rio de Janeiro, como o Pão-de-Açúcar e o Cristo Redentor. De acordo com a reportagem, o Pão-de-Açúcar recebe, na referida época do ano, de 5 mil e 6 mil pessoas nos fins de semana, o Cristo Redentor atrai cerca de 4,5 mil pessoas, enquanto o Teleférico do Alemão já recebe 7 mil turistas. Ao descrever a paisagem que pode ser contemplada a partir das gôndolas de Teleférico, o texto mescla elementos relativos à pobreza local, como os barracos e o lixo nas encostas, com os belos panoramas da Baía de Guanabara e da igreja no alto do morro, destacando essas contradições como o componente autêntico do passeio. Sublinha, ainda, o local que ficou conhecido pela ocasião da fuga dos traficantes no momento da ação policial para tomada do morro e implantação da UPP como parte do espetáculo turístico.

Do alto da Gôndola, vê-se um mar de casas e barracos – alguns ainda de madeira -, moradores nas lajes, lixo em encostas, uma infinidade de becos. A grandiosidade do Complexo do Alemão espanta os marinheiros de primeira viagem, que, de cima, observam também as intervenções públicas pós-pacificação, como a Praça do Conhecimento, na Nova Brasília. A paisagem ainda é composta por bairros da Zona Norte, a Serra da Misericórdia (palco da cena de fuga em massa de traficantes), a Igreja da Penha e a Baía de Guanabara ao fundo. (O GLOBO, mar. 2013)

                                                                                                               

47 Disponível em: <http://oglobo.globo.com/rio/teleferico-do-alemao-bate-icones-do-rio-em-numero-de-visitantes-

Dentre as rotas turísticas oferecidas pelas empresas locais, constam a “Salve Jorge”, que aproveita a utilização do local como cenário de gravação da novela, passando em frente às lajes dos personagens Pescoço e Maria Vanúbia; o “Caminho do Príncipe”, que abrange o percurso feito pelo príncipe inglês Harry na sua visita ao local em 2012; a Nova Brasília, que inclui o comércio popular, a Praça do Conhecimento e o Cine Nova Brasília, e a Serra da Misericórdia, mais explorada por esportistas e interessados em trilhas naturais.

FIGURA 49 – Imagens de cartões-postais do Rio de Janeiro utilizando o Teleférico do Alemão FONTE: Disponível em: <http://www.jauregui.arq.br/teleferico.html>. Acesso em: mar. 2014.

A minha visita ao Complexo do Alemão aconteceu em janeiro de 2014, no auge do período de férias e do verão carioca. O contato com a empresa de turismo, denominada “Turismo no Alemão”, foi realizado uma semana antes, com a guia e empresária Marta da Silva48. Nessa

conversa prévia, combinamos o local de encontro, a data, hora e o valor do passeio, estabelecido em R$50 por pessoa para um passeio com duração de duas horas. Na data                                                                                                                

combinada, nos encontramos, pela manhã, na estação de Bonsucesso para tomar o Teleférico e seguir até a última estação, onde desceríamos e faríamos parte do passeio caminhando por uma área da favela. Já na primeira abordagem, Marta me disse que faríamos o que eles denominavam “turismo social”, ou seja, seriam duas horas para conhecer mais do que a bela paisagem disponível do alto das gôndolas, pois ela me contaria quais eram os principais problemas vividos pela comunidade diariamente e o descaso do poder público com as necessidades básicas daquela população, muito mais básicas do que o próprio Teleférico. Marta nasceu no Complexo do Alemão e nunca viveu em outro lugar. Foi cabelereira e montou sua empresa de turismo na favela pouco tempo após a inauguração do Teleférico. Ela é sócia de sua irmã na empresa “Turismo no Alemão” e realiza passeios em grupos pequenos e em horários fixos, saindo duas vez por dia, todos os dias, da estação de Bonsucesso. Seu marido possui uma outra empresa, a “Rio Favela Tour”, que se especializou em receber grupos maiores para visitar a favela, o que eles chamam de “grupos de incentivo”, quando, por exemplo, uma determinada empresa presenteia seus melhores funcionários com um passeio turístico na favela e, para isso, exigem a contratação de uma empresa maior, mais profissional e mais estabelecida no mercado. Além de empresária do turismo na favela, Marta participa das associações de moradores, promovendo reuniões com agentes públicos para reivindicar assuntos específicos, convocando a visita de empresas e serviços de apoio ao empreendedorismo, como o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE, visando estimular a economia e o empresariado internos, ajudando moradores em pequenos assuntos cotidianos, dentre outras coisas.

Durante todo o trajeto, Marta mantém uma visão crítica do contexto de implantação do Teleférico. Ela conta que não houve nenhuma participação dos moradores locais no processo de decisão de inserção do equipamento na comunidade, que os presidentes das treze associações de moradores organizaram uma reunião para apresentar o projeto pronto que os agentes públicos haviam apresentado a eles. Conta ainda que, devido a alguns desvios dos recursos financeiros para a obra, muitas intervenções que constavam no projeto ficaram comprometidas e não foram realizadas.

Ela conta que existe um intenso fluxo de turistas diariamente, havendo dois passeios fixos, um pela manhã e outro no período da tarde, além dos passeios especializados com grupos menores, como era classificado o nosso, que também era mais caro. Questionada sobre o objetivo do teleférico, ela afirma que a justificativa real para a sua construção é quase que exclusivamente o

turismo, pois como transporte ele só atende a população que vive próximo às estações, no alto dos morros, o que é uma pequena minoria. Ela diz que não faz sentido o morador subir o morro para alcançar uma estação, sendo que, pagando R$1,50, ele pode tomar uma kombi ou um moto-táxi, modalidades de transportes tradicionais em quase todas as favelas cariocas, e chegar direto ao ponto de ônibus ou à estação de Bonsucesso para tomar o trem da Supervia. Afirma ainda que algumas restrições dificultam ainda mais o uso do Teleférico pelos moradores, como, por exemplo, os volumes que podem ser transportados por pessoa que se limitam a uma bolsa pequena e outro volume pequeno que possa ser posicionado embaixo do assento, excluindo compras de supermercado, bicicletas, caixas maiores, dentre outros.

FIGURA 50 – Biblioteca-Parque localizada na estação Palmeiras, no Teleférico do Alemão FONTE: Disponível em: <http://grupopensarcultural.blogspot.com.br/>. Acesso em: mar. 2014.

Quanto ao processo de “pacificação” da comunidade, ela afirma que foi mais uma ação para estimular o turismo no local, já que os traficantes foram, simplesmente, transferidos para outras favelas mais distantes e que os mais poderosos e tradicionais do local continuam lá, exercendo o tráfico exatamente como antes, com a única diferença de não portarem armas. Segundo ela, houve uma negociação entre os agentes de segurança pública e os traficantes para diminuir a “cara” de violência do local, o que, inclusive, contribuiu para os traficantes que não precisam mais investir em armas para se prepararem para os confrontos com a polícia, podendo usar esse recurso para incrementar a produção de drogas. Chegando à última estação do Teleférico, a estação Palmeiras, fui apresentada à nova Biblioteca-Parque do Complexo do Alemão,

construída aos moldes das Bibliotecas-Parque de Manguinhos e da Rocinha. Ali são realizados projetos de audiovisual, de moda, além do acervo de livros, de exposições de esculturas e fotografias e do futuro curso de programação de games. O projeto é da Secretaria Estadual de Cultura e, segundo Marta, foi um dos únicos projetos públicos realizados na comunidade que contaram com a efetiva participação da comunidade. O local ainda possui um auditório que é frequentemente usado para reuniões das associações de moradores.

Marta relatou, ainda, o constante problema de falta de água na comunidade. Segunda ela, a própria comunidade construiu duas caixas d’água no terreno da última estação do Teleférico, porém, a estrutura de distribuição, ou seja, os canos por onde chegaria a água da Companhia Estadual de Águas e Esgotos – CEDAE, não estão adequados à pressão da rede e a prefeitura não atende os pedidos da comunidade para trocar esses canos. Enquanto isso, os moradores solicitam, diariamente, o carro-pipa para encher as caixas, porém, os 20 mil litros disponíveis não são suficientes para atender a quantidade de casas do morro que, de acordo com a contabilidade dos moradores, passam de cinco mil. Muitas vezes, na própria estação Palmeiras falta água nos banheiros e para a limpeza do prédio. Quando isso acontece, os guias sugerem aos turistas o uso dos banheiros da sede da UPP da Fazendinha, para a qual existe um grande reservatório de água exclusivamente disponível.

FIGURA 51 – Caixas d’água construídas pela comunidade para abastecimento das casas do

morro e reservatório de água destinado exclusivamente ao abastecimento da sede da UPP Fazendinha

A guia relatou ainda a mudança no sistema de coleta de lixo após a chegada das UPPs. Ela conta que antes existiam diversas caçambas posicionadas em lugares estratégicos nas vias internas da comunidade para receber o descarte da população, sendo que a coleta municipal era feita uma vez por dia. Esse sistema foi idealizado pela própria comunidade e, segundo ela, funcionava adequadamente. Após a chegada da polícia, houve a retirada das caçambas que, segundo declarações oficiais, atrapalhavam a circulação das viaturas nas ruas, sendo, então, substituídas por pequenas lixeiras que não conseguem armazenar todo o lixo dos moradores, o que gera uma grande quantidade de descartes nas próprias vias.

       

 

FIGURA 52 – Área de descarte de lixo aos pés dos pilares do Teleférico FONTE: Acervo pessoal da autora.

Após caminhar alguns minutos, depois de sair da área da estação Palmeiras, passamos próximo às casas que abrigaram as gravações dos diversos capítulos da novela “Salve Jorge”, conhecidas como as lajes do Pescoço e da Maria Vanúbia, transformadas em atração turística no morro. A guia reclama que a novela criou uma imagem dos moradores de favela como pessoas que não trabalhavam, que ficavam em casa o dia todo, tomando sol na laje, e que só havia um personagem que trabalhava em todo o núcleo do Alemão.

FIGURA 53 – A “laje do Pescoço”, cenário da novela “Salve Jorge”, da Rede Globo FONTE: Acervo pessoal da autora.

De acordo com a guia, após a chegada do teleférico e da polícia, houve uma valorização de cerca de 1000% no valor dos aluguéis e dos imóveis dentro do Complexo. Ela estima que um aluguel que antes ficava em torno de R$100 a R$150, agora vale de R$800 a R$1000. Um imóvel que antes era vendido por R$20 mil, hoje estão sendo vendidos por R$200 mil. Ela conta que até aquele mês pagaria R$730 de aluguel e que a partir de fevereiro seu aluguel passaria a valer R$1000. Questionei se as pessoas estavam saindo para outras favelas onde a moradia ainda era mais barata e ela disse que as pessoas não queriam sair de lá e faziam de tudo para arcar com os novos valores. Nesse momento, Marta conta que o Complexo é um excelente bairro para se viver e que, ao contrário do que é divulgado, é bastante calmo em relação a outras favelas cariocas. Questionada sobre a fama de ser uma favela violenta, ela diz que essa fama é uma fantasia, uma ficção construída pela Rede Globo que contava com um informante exclusivo, morador do local, que repassava as notícias e, assim, acabou criando um alvo de polêmicas para vender matérias caras ao restante da imprensa.

Marta me relatou que faltam escolas no Complexo. Segundo ela, dentro da comunidade existem duas escolas, o CAIC Theóphilo de Souza Pinto e o Colégio Estadual Jornalista Tim Lopes, essa última inaugurada em 2010, exclusivamente de ensino médio. De acordo com a guia, essas escolas são incapazes de atender a demanda interna da comunidade, sendo que as crianças e adolescentes têm que estudar nas escolas dos bairros vizinhos, que são muito distantes e de

difícil acesso. O Colégio Tim Lopes foi construído com capacidade para 1.800 alunos, porém, quatro anos depois da inauguração, só atende somente 112 alunos que correspondem a somente quatro turmas, sendo que dezesseis salas estão inutilizadas.

Marta afirma que o melhor equipamento cultural implantado no Complexo é a Praça do Conhecimento, localizada na região da Nova Brasília. Foi inaugurada pela SMH, em 23 de dezembro de 2011 e atua com a gestão da ONG CECIP – Centro de Criação de Imagem Popular. Seu objetivo é promover atividades culturais e artísticas para públicos de todas as idades e cursos regulares de formação técnica e profissional em novas tecnologias da informação e comunicação, como Áudio Digital, Computação Gráfica, Design Gráfico, Fotografia, Vídeo e Web Design, destinados a jovens e adultos. Atualmente, está ligada à Secretaria Especial de Ciência e Tecnologia da Prefeitura do Rio.

Nesse espaço ainda existe um cinema acessível à população onde chegam filmes inéditos toda as quintas-feiras, os quais são exibidos ali durante uma semana antes de irem aos cinemas de shoppings da capital. Além disso, há uma biblioteca física, uma biblioteca digital, espaço para jogos interativos e computadores com acesso à internet para uso dos moradores.

FIGURA 54 – Praça do Conhecimento, no Complexo do Alemão

FONTE: Disponível em: <http://www.rj.gov.br/web/imprensa/exibeconteudo?article-id=725328>. Acesso em: mar. 2014.

Marta demonstra ter um grande conhecimento técnico do mercado de turismo e um grande interesse em expandir seus negócios. Para isso, ela, juntamente com a empresa do seu marido, buscam auxílio com o SEBRAE, acessam empresas de franquias e estimulam comerciantes e empresários locais a incrementarem seus negócios visando promover uma estrutura adequada ao crescimento do turismo na favela. Além disso, sua empresa, em conjunto com as demais empresas de turismo locais, luta para evitar a entrada de grandes grupos turísticos de fora que, segundo ela, exercem muita pressão sobre eles para estabelecer uma estrutura no morro, o que acabaria por sufocar os pequenos empresários e absorvê-los como funcionários contratados, o que tiraria a autonomia da comunidade sobre os empreendimentos turísticos.

FIGURA 55 – Cartão de visitas da guia Marta FONTE: Acervo pessoal da autora.

 

MAPA 05 – Trajeto do passeio no Complexo do Alemão FONTE: Elaborado pela autora, 2014.