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Em 1992, após denúncias de corrupção que assolaram o governo de Fernando Collor, e a ameaça de um processo de impeachment, Itamar Franco assume a presidência da República após renúncia de Collor, em outubro daquele ano. Temos, nesta situação, a segunda subida ao poder de um vice-presidente, uma vez que o mesmo acontecera com José Sarney. O pronunciamento de posse de Itamar Franco é muito breve, haja vista a conturbada situação em que ele assumia a presidência, sendo apenas um gesto protocolar, para que, de fato, fosse caracterizada sua posse presidencial.

Devido às graves denúncias de corrupção que fizeram cair o presidente Fernando Collor, Itamar Franco deve colocar-se como contrário às atitudes existentes no governo anterior, criando para si a imagem de quem não concorda com as posturas assumidas por Collor, comprometendo-se com “os valores simples dos brasileiros”, ou seja, com as “pessoas corretas, que foram às ruas lutar contra a corrupção”. Assim, Itamar cria para si a imagem de um presidente que buscará atender fielmente o desejo dessas pessoas que lutaram contra a corrupção instaurada no país, estando sempre a serviço da Constituição Federal, de modo a prestar o serviço necessário a toda a população. Temos uma imagem de um presidente que promoverá uma mudança diferente daquela produzida pelos demais: ele não buscará ser o governo dos mais necessitados, mas pretender ser “o Governo de todos,

para não ser o Governo de alguns poucos”, ou seja, Itamar também coloca-se contra o

benefício a determinadas parcelas da população, imagem semelhante àquela produzida por Fernando Collor, quando este asseverava ter de “contrariar vários interesses poderosos”.

Em relação ao emprego das formas linguísticas, no mesmo caminho que Collor, mas de maneira mais comedida, Itamar faz uso, em suas enunciações, de formas linguísticas rebuscadas, com a intenção de mostrar preocupação extrema em relação à norma culta da língua, como podemos observar nos seguintes enunciados: “Repilo por

criminosa e cruel, a modernidade que lhes nega a dignidade do pão, do alfabeto, do trabalho honrado, da saúde e da elegria (...)” (FRANCO, 1992, p. 366 apud BONFIM,

2004), em que temos a presença de vocábulos mais rebuscados, distanciando-se do uso padrão dos brasileiros, além de construções em que aparecem a ênclise, outro fenômeno ligado aos padrões cultos da língua, como em “Desejo, Senhores Ministros, agradecer-lhes

podemos encontrar, também, no pronunciamento de Itamar enunciados em que aparecem formas linguísticas que estão em desacordo com a chamada norma padrão culta, como no enunciado “O que a Nação mais aspira é o que certamente temos para oferecer:

democracia mais forte porque solidária e humana, aliada à honradez na administração do Estado.” (op. cit.), em que a regência do verbo “aspirar” não corresponde ao sentido

preconizado pelas gramáticas da norma culta; no enunciado em questão, o verbo deveria reger a preposição a, possuindo o sentido de “desejar, querer”; da forma como aparece, o sentido produzido, segundo as gramáticas normativas, é o de “sugar, sorver”. Não obstante, essa é a forma vigente no uso da língua, ou seja, se aproxima do falar normal do cidadão brasileiro, aquele que não faz uso de uma linguagem muito elaborada, de vocabulário pouco acessível.

No que tange também ao modo de enunciação, podemos perceber em Itamar a presença de uma enunciação delocutiva, em que ele se afasta da posição de enunciador, colocando sobre o governo a responsabilidade de seu dizer, como no enunciado a seguir:

“Este Governo, dure o tempo que durar, será o Governo de todos, para não ser o Governo de alguns poucos.”, ou “Este Governo não terá segredos – a não ser aqueles que a segurança do país, em suas relações internacionais, assim o exigir.” Nesses enunciados,

observamos a criação de uma imagem discursiva para o “Governo”, mais que para o sujeito que ocupa o lugar político de presidente da República; entretanto, essa imagem será fruto das ações do presidente, uma vez que “A nossa primeira e urgente tarefa é a de

colocar o Governo realmente a serviço do Estado; e o Estado a serviço da Nação (...)”;

em última instância, o presidente da República será o responsável por garantir que o Governo, como um todo, tenha uma abrangência nacional, estando a serviço de uma coletividade, sendo o “Governo de todos”, ou seja, daqueles “que não governam, mas tem o presidente que governa em seu nome”, como apresentado em POVO 3.

Devido a esse deslocamento de identificação entre o Governo e o Presidente, podemos perceber a presença de um “nós” inclusivo, entre o presidente Itamar Franco, e os ministros, como formando uma junção responsável pelo governo. De certa forma, então, o Governo será formado pelo presidente da República e o ministério, com participação efetiva deste. É frequente a interpelação do auditório como parte integrante do governo, o que nos permite afirmar que a identidade de Itamar Franco está atrelada à do seu auditório, qual seja, os ministros. Observemos os excertos a seguir:

(I 1) Senhores Ministros, não podemos perder um só minuto. Há muito a ser feito, mas deve ser iniciado já. (…) Precisamos reconhecer, entretanto, que há emergências que exigem providências imediatas, a serem adotadas dentro do senso comum, tão desprezado mas tão necessário.

(I 2) Conclamo, portanto, a todos os Ministros para que exerçam extrema vigilância na proteção do interesse público. Todos os negócios do Estado tem de ser analisados à exaustão a fim de se evitar qualquer prejuízo ao bem comum.

(I 3) Desejo, Senhores Ministros, agradecer-lhes a participação no Governo. Quero que cada um se sinta à vontade em sua área e que exerça o Ministério guiado pelo seu saber e pela sua consciência.

Itamar Franco, por meio de uma linguagem sem grandes rebuscamentos lexicais e sintáticos, tampouco por construções semanticamente complexas, com o uso de metáforas difíceis de serem compreendidas, produz uma imagem de si baseada na simplicidade, ao mesmo tempo sustentada pelo pedido de auxílio aos ministros, com quem dividirá a tarefa de governar o país pelos dois anos restantes. Essas marcas linguísticas produzem um efeito de aproximação entre a imagem do presidente Itamar e o que aparece como “povo” em seu pronunciamento, em especial na acepção 2, em que ele – o povo – é compreendido como sendo formado por “pessoas que se afrontam com a fome, o desespero a doença e a

ofensa”, na medida em que será em nome desse povo que ele governará, mas não o inclui

em tal parcela, ou seja, embora seja para esse povo que Itamar governará, não é dessa parcela da população que ele faz parte. Ademais, o uso da primeira pessoa do plural produz um efeito de inclusão entre o Governo, representado por Itamar, e os ministros, que também são convocados para a participação efetiva. Assim, a enunciação elocutiva em primeira pessoa do singular dá lugar àquela centrada na primeira pessoa do plural, em que o “nós” é formado pela inclusão do “eu” + “vocês”, em que “vocês” representam os ministros para quem Itamar dirige seu pronunciamento.

Dessarte, podemos declarar que Itamar cria uma imagem de si ligada ao governo, cujas características são: promoção de uma homogeneidade social, ao afirmar que produzirá um “governo de todos”; ao mesmo tempo em que se coloca a necessidade de convocar os ministros para auxiliá-lo na tarefa de governar o país, conclamando “todos os ministros para que exerçam extrema vigilância na proteção do interesse público”.

Na verdade, Itamar Franco assumiu a presidência por ser legalmente o de direito; ou seja, a Constituição Federal e o Código Eleitoral Brasileiro asseveram que, no

impedimento do titular, o vice ocupará o cargo em questão; assim, necessariamente, teve de fazê-lo Itamar Franco, mesmo sabendo que seu governo seria apenas uma tentativa de manter a ordem política, sendo o “Governo de todos, para não ser o Governo de alguns

poucos” (FRANCO, 1992, p. 366 apud BONFIM, 2002), uma referência àqueles que ainda

detinham grande parte do poder econômico no país, e não promoviam a distribuição de renda; além disso, podemos aventar a possibilidade de que há uma referência a POVO 1: aqueles brasileiros que retomam o Estado em suas mãos, num forma de garantir seu pertencimento àqueles que também lutaram para que o país ficasse livre do jugo que estava sofrendo.

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