Fernando Henrique Cardoso é eleito, em 1994, à presidência da República. Ex- ministro do governo Itamar Franco, FHC é tido como um homem respeitado nacional e internacionalmente, por sua grande experiência política e intelectual; ex-professor da USP e de diversas universidades no exterior, Fernando Henrique goza de uma imagem muito boa perante a sociedade. Após vinte anos de ditadura militar, e um processo de reabertura política que atingira seu auge em um governo marcado pela corrupção, Fernando Henrique Cardoso aparece como um homem íntegro a assumir as rédeas da nação. Além disso, é interessante lembrarmos que FHC havia lutado, durante os anos de chumbo, contra a ditadura, dividindo o cenário nas ruas com vários sindicalistas, entre eles, Lula, seu adversário político anos mais tarde. Tendo em vista essa trajetória histórica do sujeito Fernando Henrique Cardoso, como professor da Universidade de São Paulo, exilado político, sociólogo renomado, sua imagem construída no seu pronunciamento de posse leva em consideração vários desses aspectos, como não poderia deixar de ser, uma vez que o processo de construção das imagens discursivas são processos históricos, em que entram em jogo todos os sentidos acerca do sujeito.
Como uma forma de marcar sua posição não de contradição, mas de pertencimento aos ideais da nação, FHC apresenta-se como compartilhando os ideais da maioria da nação, numa tentativa de mostrar-se não como uma posição institucional em seu pronunciamento, mas como fazendo parte da mesma sociedade que o levou ao poder. Assim, ele tenta se afastar dessa imagem institucional, pedindo que as pessoas do seu auditório “Permitam
que, antes do Presidente, fale aqui o cidadão que fez da esperança uma obsessão, como tantos brasileiros” (CARDOSO, 1994, p. 373 apud BONFIM, 2004); FHC tenta produzir
uma imagem homóloga à dos brasileiros que lutaram para vencer as dificuldades trazidas pelo regime militar e atingir a liberdade tão desejada. É nessa tentativa que ele vai atribuir seu pertencimento a um lugar de dizer marcado pela luta, pela democracia.
Contudo, da mesma forma como ocorrera com Fernando Collor de Melo, FHC vai basear a construção de sua imagem em sua genealogia social e política, buscando sua legitimidade por filiação. É nesse sentido que ele justifica seu pertencimento tanto a uma geração quanto a uma família que lutou:
(FHC 1) Essa chama eu vi brilhar nos olhos de meu pai, Leônidas Cardoso, um dos generais da campanha do “petróleo é nosso”, como já brilhara no fim do Império nos olhos de meu avô, abolicionista e republicano.
(FHC 2) Para estudantes que jogavam, como eu, todo o seu entusiasmo nessas lutas, petróleo e industrialização eram o bilhete de passagem para o mundo moderno do pós-guerra (…) (CARDOSO, 2004, p. 373 apud BONFIM, 2004)
Observemos que FHC coloca-se como liberal, a favor da abertura econômica desde sua época de estudante. É nessa busca por liberdade, justiça e desenvolvimento que ele subsidiará sua imagem e seu governo. Contudo, ele se apresenta como possuindo a humildade característica do povo, dos trabalhadores; essa sua característica de humildade, junto com sua condição de saber-fazer leva-o a ter a convicção de que “este país vai dar
certo!”. E sua humildade é corroborada em sua justificativa do porquê de tanta certeza: “Não por minha causa, mas por causa de todos nós. Não só por causa dos nossos sonhos – pela nossa imensa vontade de ver o Brasil dar certo, - mas porque o momento amadureceu e o Brasil tem tudo para dar certo.” (CARDOSO, 1994, p. 374 apud
BONFIM, 2004).
Esse “nós” presente no pronunciamento de FHC significa “aqueles que o apoiaram durante a campanha e que, de acordo com suas propostas de governo apresentadas, viram- se representados por ele”, os que lutaram como ele contra o regime militar e contra a corrupção instaurada em outros governos já existentes. Fernando Henrique, tendo sido o responsável pela implantação do Plano Real, quando ainda ministro da Fazenda de Itamar Franco, externa sua gratidão ao ex-presidente, vinculando sua imagem ao governo anterior,
principalmente no que se refere à continuidade do plano econômico, como podemos perceber pelo excerto seguinte:
(FHC 3) Ao escolher a mim para sucedê-lo, a maioria absoluta dos brasileiros fez uma opção pela continuidade do Plano Real, e pelas reformas estruturais necessárias para afastar de uma vez por todas o fantasma da inflação.
(FHC 4) A isto eu me dedicarei com toda a energia, como Presidente, contando com o apoio do Congresso, dos Estados e de todas as forças vivas da Nação. (CARDOSO, 2004, p. 375-6 apud BONFIM, 2004)
Fernando Henrique coloca-se como comprometido à causa social, especialmente na luta contra a inflação, contando com o apoio daqueles que também estão no poder –
Congresso, Estados e de todas as forças vivas da Nação. De certa forma, FHC conta com a
ajuda dos seus, daqueles que como ele lutaram para que houvesse mudanças no país. Além de lutar para acabar com a inflação, Fernando Henrique coloca como um outro fator desfavorável ao governo a falta de justiça social, quando afirma que “Temos de volta a
liberdade” (CARDOSO, 2004, p. 376 apud BONFIM, 2004), mas ainda “Falta a justiça social” (op. cit.); é na reconquista da liberdade que, segundo FHC, haverá o
desenvolvimento necessário para que atinjamos a justiça social, que afeta o povo, ou seja,
“trabalhadores que souberam reivindicar os seus direitos” e “os excluídos, humilhados por não terem acesso devido a vários serviços públicos básicos, como saúde, educação e moradia”, sentidos apresentados, respectivamente, como POVO 2 e POVO 3, no capítulo
anterior. Desse modo, FHC coloca-se como aquele que garantirá as reformas de base, promovendo o acesso dos “trabalhadores” e dos “excluídos e humilhados” aos seus direitos, sejam eles trabalhistas, ou mais básicos, como saúde, educação e moradia; assim, a imagem que FHC cria para si é a de benfeitor da nação, o que solucionará os problemas existentes relacionados à “parcela da população que soube enfrentar as necessidades e
vencê-las”, o POVO 1.
A preocupação com a economia e com a causa social permite-lhe criar uma imagem de preocupado e, ainda mais, indignado com a situação social por que passam seus compatriotas, mais especificamente, o povo, entendido com “a parcela da população
alijada de seus direitos sociais”. Isso indica um seu jeito de pensar sobre a vida, que lhe
(FHC 5) Também nós nos horrorizamos vendo compatriotas nossos – e ainda que não fossem brasileiros – vendo seres humanos ao nosso lado subjugados pela fome, pela doença, pela ignorância, pela violência. Isto não pode continuar. (CARDOSO, 1994, p. 376 apud BONFIM, 2002)
Nessa esteira, Fernando Henrique compromete-se a ser o governo de todos, responsável por promover a justiça social, com seriedade e firmeza no trato da coisa pública. No excerto acima, podemos verificar a tentativa de construção de uma imagem do presidente relacionada à compaixão, ao respeito pelo próximo, uma vez que FHC coloca-se não como indiferente à situação vivida por seus compatriotas, mas preocupado e com o objetivo de promover as reformas que serão necessárias para que haja uma melhoria na condição de vida da população; assim, ele se coloca como representante do POVO 4,
“aqueles que têm consciência de suas necessidades e, por isso, escolheram pelas reformas estruturais necessárias”, como podemos verificar em seu discurso, ao afirmar que seu
objetivo é unir a nação em prol de melhorias para todos. Vejamos o seguinte excerto:
(…) o movimento por reformas que eu represento não é contra ninguém. Não quer dividir a Nação.Quer uni-la em torno da perspectiva de um amanhã melhor para todos. (CARDOSO, 1994, p. 376 apud BONFIM, 2004)
Junto com a promoção do bem-estar social, FHC compromete-se, também, com a consolidação da democracia, por meio do ajuste da economia e do ataque aos problemas sociais; até seu governo, era isso o que a população esperava, haja vista que todos os presidentes anteriores tocaram nesses aspectos em seus pronunciamentos de posse, sem que a população tenha sentido alguma ação efetiva que corroborasse tais posições. Logo, Fernando Henrique busca promover a inserção do país na lista do que são mais bem- sucedidos mundialmente, mesmo que ainda haja alguns problemas para serem resolvidos, tais como a geração de empregos, que “virá com a retomada do crescimento, mas não
automaticamente. O governo estará empenhado em programas e ações específicas nesse sentido.” (CARDOSO, 1994, p. 380 apud BONFIM, 2002). Aqui, vemos o enunciador se
representar como “o governo”, ou seja, um modo de enunciação delocutivo, que produz um efeito de distanciamento entre o enunciador e aquilo que é prometido.
Nesse sentido, o modo de enunciação que faz uso do “nós” e, mais especificamente, o uso da enunciação delocutiva, produz um descompromisso do enunciador para com aquilo que é prometido, atribuindo a um terceiro os compromissos estabelecidos. Assim,
em enunciações como as seguintes, Fernando Henrique produz uma imagem de responsável e dedicado aos assuntos que são tema de comentários – produzida pelo uso de verbos tais como cuidar, cumprir e assegurar, que promovem um efeito de sentido de comprometimento para com a “verdadeira revolução social e de mentalidade” (CARDOSO, 1994, p. 381 apud BONFIM, 2004), ao mesmo tempo em que se coloca a responsabilidade por realizar as transformações necessárias, marcada pela presença dos verbos supracitados, como nos exemplos a seguir:
(FHC 6) O governo tem um papel fundamental, e eu cuidarei para que cumpra seu papel (CARDOSO, 1994, p. 381 apud BONFIM, 2004) (FHC 7) Vamos assegurar uma vida decente às nossas crianças, tirando-as do abandono das ruas e, sobretudo, pondo um paradeiro nos vergonhosos massacres de crianças e jovens (CARDOSO, 1994, p. 382 apud BONFIM, 2004)
Há, neste pronunciamento, uma constante alternância entre enunciações elocutivas e delocutivas, de modo que a imagem de FHC esteja relacionada, na maioria das vezes, às enunciações elocutivas em que ele aparece como o promotor das mudanças e fiscal das obrigações que o governo assumiu como suas. O uso do “nós” promove uma inclusão entre o enunciador – FHC – e aqueles que fazem parte do seu governo, como ministros, senadores, deputados e POVO 5, ou seja, os que votaram em FHC e o elegeram possuem características que demonstram suas benesses.
Fernando Henrique Cardoso termina o pronunciamento de posse do seu primeiro mandato elencando uma série de características que constroem para si uma imagem liberal, de que respeita os direitos de todos os cidadãos e que lutará pela igualdade entre as pessoas, promovendo a mudança que todos anseiam, como mostram os seguintes enunciados:
(FHC 8) Nós, brasileiros, somos um povo solidário
(FHC 9) Vamos assegurar com energia direitos iguais aos iguais
(FHC 10) Vamos fazer da solidariedade o fermento da nossa cidadania em busca de igualdade
(FHC 11) Ao Congresso a que pertenci até hoje, e que nesta cerimônia, com a proclamação da Justiça Eleitoral, me empossa como Presidente da República
(FHC 12) Eu os convoco para mudar o Brasil.
Fernando Henrique Cardoso constrói para si uma imagem de total responsável pelas mudanças por que o Brasil terá de passar, contando com a ajuda daqueles que sente como compartilhando os mesmos ideais, ou seja, “aqueles que o apoiaram durante a campanha
e que, de acordo com suas propostas de governo apresentadas, viram-se representados por ele”, sentido presente em POVO 7; que são humildes para juntar suas forças em prol do
bem comum, do bem da nação, mas que também buscam a justiça social, com responsabilidade, consolidando a conquista democrática, com a conquista de melhoria em questões referentes a emprego, saúde, segurança, educação, produção, crescimento econômico etc, coadunando com os sentidos de POVO 4 e 5, ou seja, “aqueles que têm
consciência de suas necessidades e, por isso, escolheram pelas reformas estruturais necessárias” e a “parcela da população alijada de seus direitos sociais”. Ademais, em seu
discurso, criam-se dois níveis de hierarquia e controle, basicamente, quais sejam, o governo, que tem como papel principal a responsabilidade pelas questões sociais, e o presidente, cuja responsabilidade é fiscalizar o governo para que suas tarefas sejam cumpridas a contento. Nessa hierarquização, Fernando Henrique aparece como o responsável maior pelas mudanças que ocorrerão no Brasil, em parceria com “os que
votaram em FHC e o elegeram por ele possuir características que demonstram suas benesses”, sentido presente em POVO 8.
Findos os cinco anos de seu primeiro mandato presidencial, FHC surge como candidato à reeleição presidencial. Fora no seu governo que a possibilidade de reeleição obteve aprovação nas esferas eleitorais mais altas, permitindo, assim que, ele se candidatasse novamente. Em novembro de 1998, Fernando Henrique Cardoso vence as eleições, assumindo novamente a presidência no dia 1º de janeiro de 1999.