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4.4 Up-regulated genes in visceral adipose tissue (suppressed in dorsal fat)
O fato mais marcante nos últimos anos envolvendo a questão daime e ayahuasca foi o caso do assassinato do Cartunista Glauco Vilas Boas e seu filho Raoni Ornellas Vilas Boas; crime cometido por Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, vulgo "Cadu", que era um frequentador do grupo ayahuasqueiro Céu de Maria, localizado no município de Osasco, no Estado de São Paulo. Este grupo foi fundado e era dirigido pelo próprio Glauco Vilas Boas. O assassino dos Vilas Boas cometido por um jovem de família de classe média paulistana, morador de bairro nobre, frequentador das melhores escolas, afeito a frequência de bares e baladas da noite paulistana, e que segundo a família jamais havia demonstrado comportamento violento anteriormente trouxe repercussão bombástica. A repercussão midiática desse crime foi imensa e produziu um efeito dominó de denúncias em vários locais do Brasil, fatos menores foram sendo notados e ligados a religiosidade ayahuasqueira. Isso voltou a conectar o daime na mídia de forma negativa, e trouxe novamente à tona o debate da questão polêmica da viabilidade social do consumo da bebida, mesmo que sendo feita em ambiente religioso. Levando novamente a uma alta demanda do discurso midiático envolvendo a ayahuasca e seus temas correlatos.
Na revista Veja em sua edição do dia 24/03/2010, sob o título deμ “χlucinação assassina”, matéria escrita pelos jornalistas Kalleo Coura e Renata Betti (2010), trouxe o seguinte conteúdo “no universo das tragédias, há as do tipo previsível e as que fulminam suas vítimas com a imprevisibilidade de um raio” (COURχ & ψETTI, 2010). Citando como exemplo o assassinato do cartunista Glauco Vilas Boas de 53 anos, e de seu filho Raoni Ornellas Vilas ψoas de 25 anos, os autores da matéria escrevem que “certamente esse assassinato não pertence à primeira categoria. Cadu, como é conhecido o criminoso confesso, nascido em família de classe média alta de São Paulo e morador de bairro nobre, frequentava os bares da moda, ia a baladas de black music, e segundo a família nunca havia demonstrado
comportamento violento” (COURχ & ψETTI, 2010).
Nessa reportagem os avós com quem ele morava relatam que sabiam que o neto usava maconha, Carlos Nunes Filho o avô de Cadu diz: "Como fazem hoje em dia 90% dos jovens". Embora lamentando o fato de ele ter começado três faculdades, sem terminar nenhuma: direito, artes visuais e gastronomia; também não viam nisso mais do que uma indecisão em relação ao seu futuro profissional. Glauco e Raoni tampouco tinham perfil ou comportamento que poderia ser classificado como "de risco", nada que contribuísse para fazer deles vítimas potenciais de um assassinato. Nenhum dos dois tinha inimigos, e ambos mantinham como ideário de vida a assistência ao próximo, no caso de Glauco o serviço de reabilitação de drogados em busca de recuperação; no caso de Raoni assistência a assistência a comunidades indígenas isoladas. Ainda assim não se pode dizer que a tragédia ocorrida em Osasco no dia 12 de março de 2010 houvesse dado pistas de que vinha se aproximando.
Nos últimos três anos, Cadu, de 24 anos, vinha exibindo claros sinais de que estava sofrendo de distúrbios psíquicos. [...] O comportamento de Cadu, diz Grecchi, começou a se transformar quando ele passou a fazer uso da dimetiltriptamina (DMT) [...] Por diversas vezes, tanto Grecchi como os avós de Cadu ouviram o jovem dizer que era a reencarnação de Jesus Cristo. Também por diversas vezes os parentes flagraram o jovem rezando, numa ocasião debaixo de chuva forte, para plantas que ele dizia serem reencarnações de entidades religiosas. (COURA & BETTI, 2010). Este crime chocou o país e sacudiu os alicerces do Santo Daime e ainda provoca polemica anos após o acontecido. O discurso da mídia sobre fatos relacionados a ayahuasca são referências geralmente preconceituosas, que se demonstram no conteúdo dos textos publicados ou nas matérias veiculadas. Isso é algo já um pouco antigo com relação a ayahuasca, pois segundo Goulart e MacRae (2008) em sua publicação “Estigmas de grupos ayahuasqueiros”, os pesquisadores escrevem que “entre as décadas de 30 e 60, que foi o período de formação dos principais grupos ayahuasqueiros brasileiros, como exemplo: Santo Daime, Barquinha e União do Vegetal; os frequentadores eram acusados e divulgados pela imprensa como charlatões e macumbeiros, tratados similarmente como os praticantes do Candomblé, Umbanda e Espiritismo”. Contudo nessas últimas décadas Goulart aponta, que houve uma transformação nos estigmas sofridos pelos grupos ayahuasqueiros, que deixam de ser tomados como macumbeiros e feiticeiros, passando então a ser associados sobretudo ao abuso de drogas. Por isso a importância de se salientar a existência de um choque midiático, que está sempre presente no assunto e tema, que envolve a ayahuasca e fica evidente o
discurso muitas vezes preconceituoso da mídia em relação ao tema dessas formas de religiosidades.
Sobre isso temos o relato de alguns pesquisadores especialistas com relação ao comportamento midiático no caso dos temas dessas revistas de grande circulação. A antropóloga Beatriz Labate (2010), pesquisadora da ayahuasca chama essa postura da mídia de “Cobertura com muitos equívocos”, se referindo a cobertura da imprensa sobre o caso Glauco/Raoni. Labate se posiciona com prudência esclarecendo que “com a revelação de que o crime fora cometido por um ex-membro da igreja e a proliferação de declarações do assassino e da família, naturalmente uma série de questionamentos começaram a ser feitos, o que é saudável”. Labate (2010) escreve também que neste momentoμ “contudo, ocorreu uma passagem brusca de uma boa parcela da mídia para uma nova fase, onde voltou à tona, sem a menor cerimônia a velha abordagem preconceituosa e estereotipada, que tem pautado o debate público sobre as drogas; o fato levou a um novo despertar de preconceitos com relação a drogas envolvendo o Santo Daime. Levando a um debate que ocorreu em nível de mídia, usando-se como fator de combustão casos isolados como o de Glauco”. (LχψχTE, 2010).
Poder-se-ia, no máximo, sugerir que um quadro problemático (casos de esquizofrenia na família, família desestruturada e uso abusivo de drogas) que eventualmente teria sido agravado pelo consumo da ayahuasca. Mesmo assim, trata- se de especulação, uma vez que não se conhece ao certo os detalhes; O texto em si apresenta mais nuances, porém a ênfase em indagar a relação entre "consumir a ayahuasca e matar" revela o tradicional dispositivo anti-drogas que marca o debate público sobre o tema. χ pergunta poderia ser, por exemploμ “χté que ponto uma família desestruturada de classe média contribui para um desfecho deste tipo?”ν χ ênfase obsessiva no "perigo da droga alucinógena" também deixa de lado a discussão de temas relevantes para entender o caso, como a renda gerada pela proibição do uso de drogas e a facilidade de acesso a armas, além da violência urbana. (LABATE, 2010).
O discurso da mídia nesse caso está cheio de contaminação preconceituosa, evidencia- se isso quando notamos que é usada a situação do crime para apontar a religiosidade como causadora do mesmo, e que seria através da bebida alucinógena que se construiu o crime; sem levar em conta um caso anterior, um problema psíquico já pré-existente de esquizofrenia, problema de origem familiar no assassino, além de seu quadro de abuso de drogas, e essa mesma situação o leva a procurar a ajuda de Glauco. Se por um lado encontramos pessoas que em seu discurso defendem a posição ayahuasqueira no caso Glauco perante a imprensa; por outro lado, também encontramos uma imprensa sensacionalista, que se utiliza de um fato socialmente recriminável e fatídico, tratando tendenciosamente o fato com sensacionalismo, e
utilizando-se do peso das informações, pelo fato de Glauco ser uma figura pública e conhecida no meio midiático; o caso é tratado com uma maximização sensacionalista costumeira, de certa forma fazendo com que isso tenha avolumado ainda mais sua problemática.
Figura 24: Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, assassino de Glauco e Raoni: alucinações levaram ao crime. FONTE: http://veja.abril.com.br/240310/alucinacao-assassina-p-066.shtml
O assassinato de Glauco e Raoni ocorreu em 12 de março de 2012 em Osasco/SP e foi um choque para toda a comunidade daimista brasileira. Cadu de 24 anos já vinha sendo diagnosticado com distúrbios psíquicos. E segundo relato do pai de Cadu Carlos Grecchi foi nesse período que seu filho começou a frequentar o grupo chamado “Céu de Maria”, um grupo ayahuasqueiro fundado por Glauco pertencente a linha do Santo Daime. Carlos Grecchi disse que o comportamento de seu filho começou a mudar quando o mesmo iniciou a fazer uso da dimetiltriptamina (DMT). O pai e os avós de Cadu relatam que ele muitas vezes dizia ser a reencarnação de Jesus Cristo, e que também em diversas ocasiões Cadu foi visto rezando, e em uma dessas ocasiões debaixo de forte chuva; ele rezava para as plantas, as quais dizia ele eram a reencarnação de entidades religiosas. Segundo o pai de Cadu era esquizofrênico, porque herdou isso da mãe e possivelmente aqui estaria o estopim para a tragédia que acometeu o Céu de Maria, para Carlos Grecchi a esquizofrenia seria a causa responsável pelos assassinatos.
Por determinação o DMT não pode ser administrado a pessoas portadores de problemas psíquicos, e no caso de Cadu existe o agravante do uso da maconha. Glauco recebeu a advertência para não mais administrar ayahuasca para Cadu, mas segundo relato do próprio jovem, todas as vezes que ele esteve no Céu de Maria fez uso de ayahuasca. O delegado Arquimedes Cassão Veras Júnior, titular da Delegacia Seccional de Osasco na Grande São Paulo, delegado que cuidou do caso afirmou que o suspeito da morte do cartunista Glauco Vilas Boas de 53 anos, e de seu filho Raoni de 25 anos, era conhecido da comunidade onde o crime ocorreu; e na madrugada da sexta-feira 12 de março de 2010 estaria "provavelmente fora de si durante o crime". Em entrevista ao programa Hoje em dia da Rede
Record, quando perguntado pela repórter quanto a possibilidade do envolvimento de outras
crime e depois auxiliado em sua fuga o delegado afirmou que “está totalmente descartado, na declaração do próprio Felipe Oliveira, nas declarações da família e de testemunhas já ouvidas. χ participação foi somente do Felipe e o Cadu”. Em reportagem ao jornalista χlexandre Schneider (2010) da revista Veja o pai de Cadu diz crer que a causa principal da tragédia foi o uso do chá.
O chá que Cadu tomava no Céu de Maria foi o fator desencadeante de um surto psicótico – que, rezo a Deus, não se transformará numa esquizofrenia profunda. Eu sei como é um surto psicótico […] Vocês acham que alguém que fuma maconha teria ficado daquele jeito? Agora, na Polícia Federal, ele não está usando drogas e continua alterado. Que droga teria um efeito tão prolongado? (SCHNEIDER, 2010). Figura 25 Carlos Grecchi, o pai do jovem que matou Glauco: "O chá foi o fator desencadeante" .
FONTE: http://www.veja.abril.com.br/240310/alucinacao-assassina-p-066.shtml
No Jornal da Tarde (pertencente ao Estado de S. Paulo), em sua edição do dia 16/12/2010, foi veiculada a notícia pela Jornalista Marília Lopes (2010) que a Justiça Federal do Paraná teria informado que Carlos Eduardo Sundfeld Nunes (o Cadu), seria transferido para o Hospital Psiquiátrico Complexo Médico-Penal do Paraná, localizado no município de Pinhais. A decisão da transferência teria sido do Juiz Mateus Cavalcanti Costa, tomada após laudo psiquiátrico que concluiu que Cadu seria inimputável28, ou seja, não poderia responder por seus atos perante a justiça. Na época Cadu estaria no Presídio de Catanduvas no Paraná, e segundo a assessoria de imprensa da Justiça Federal, já haveria uma vaga para ele no hospital psiquiátrico, sendo que a data da transferência não seria informada por motivos de segurança. Em nota de despacho o juiz Mateus Cavalcanti Costa afirmou o seguinte:
há elementos indiciários suficientes da doença mental do acusado e da necessidade de seu tratamento em estabelecimento médico-penal compatível com a enfermidade por enquanto constatada.” O laudo aponta que Cadu sofre de esquizofrenia e no momento em que cometeu os crimes era “incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de se determinar de acordo com esse entendimento” e indica que o “acusado necessita de tratamento especializado em regime de internação, preferencialmente em hospital de custódia. (LOPES, 2010).
Logo após a apresentação do laudo psiquiátrico, a defesa de Cadu pediu sua transferência da Penitenciária Federal de Catanduvas para o Hospital Psiquiátrico Complexo
Médico Penal no Paraná, o que foi deferido pelo juiz Mateus Cavalcanti Costa. Cadu que
confessou ter assassinado o cartunista Glauco de 53 anos, e seu filho Raoni de 25 anos a tiros
28 Código Penal Brasileiro - CP - DL-002.848-1940, Parte Geral, Título III, Da Imputabilidade Penal, Art. 26 - É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar- se de acordo com esse entendimento. (Alterado pela L-007.209-1984).
no dia 12 de março de 2010 em Osasco, na Grande São Paulo; tendo sido preso dois dias depois em Foz do Iguaçu no Paraná ao tentar cruzar a fronteira com o Paraguai. Na prisão ele trocou tiros com policiais rodoviários federais ferindo inclusive um deles. O fato de Cadu ser considerado inimputável por incapacidade gerou revolta na comunidade daimista.
O assassinato do cartunista Glauco e seu filho Raoni trouxe muito mal estar para a comunidade ayahuasqueira brasileira. Por ter sido cometido por um usuário e adepto de um grupo daimista, no caso o “Céu de Maria” fundado e dirigido pelo próprio Glauco traz um peso ainda maior ao ocorrido. Com o agravante do confesso assassino “Cadu” ser também portador de um quadro de possivelmente já conhecido por Glauco de esquizofrenia, e mesmo assim haver o oferecimento do chá a ele, todas as vezes que o mesmo esteve no ambiente de reunião do grupo. Sendo normativa a proibição de uso e oferecimento a pessoas com casos de doenças psiquiátricas como a de Cadu; isso torna toda a situação mais grave e problemática. De certa forma o fato tornou-se “um prato cheio” para a imprensa sensacionalista, e igualmente para as pessoas que antipatizam com os grupos ayahuasqueiros. Ainda existem muitas dúvidas no caso a serem esclarecidas pelas autoridades, como exemplo: se existem outras pessoas com quadro semelhante a Cadu utilizando ayahuasca em outros locais? Se as pessoas que dirigem esses centros estão preparadas para lidarem com situações como a de Cadu? Se a lei tem sido cumprida rigorosamente nesses centros e grupos na tomada da bebida somente por pessoas capazes?
Embora o pai de Cadu acuse o chá do daime e também a igreja daimista de Glauco “Céu de Maria” como culpados pela tragédia; sabemos que o mesmo já apresentava quadro esquizofrênico. A questão dos discursos envolvendo essa tragédia em Osasco tem sempre um caráter de defesa ou de ataque a ayahuasca, e por isso, nunca são desprovidos de complexidade; haja vista a polêmica que sempre cercou o assunto da legalidade do uso dessas substâncias. Nesse caso dos assassinatos em Osasco existe um agravante de complexidade devido ao teor dos fatos. Nos discursos algumas afirmações são do próprio assassino e do pai do mesmo e poucas são da entidade “Céu de Maria”, tornando-se difícil até mesmo para as autoridades policiais terem uma posição mais clara sobre as verdadeiras razões para o crime, por isso sempre o caso foi trabalhado a partir do quadro de doença mental do criminoso. O fato gerou uma bomba midiática que abalou profundamente o daime, e o assunto sempre trouxe incômodo ao ter que ser explicado a mídia por parte do daime. A posição da autoridade
policial sobre o ocorrido atribui o mesmo ao uso de drogas como estopim para o ato criminoso de Cadu.