4 Results
4.3 Up-regulated genes in dorsal adipose tissue
4.3.4 Sugar and energy metabolism
Encontramos muitos fatos que evidenciam a existência de preconceito e linguagem de intolerância nas relações de cobertura jornalística sobre a religiosidade ayahuasqueira. O deputado e escritor Moisés Diniz26 (2011) escreve no site Portal do Sol artigo intitulado “Santo Daimeμ mídia deturpa e agride história da única religião genuinamente brasileira”, esse fala do tratamento preconceituoso da mídia em relação a religiosidade daimista. Diniz (2011) explica que a reportagem da Revista Veja que traz a matéria sobre o caso Glauco/Raoni trata de forma “leviana e irresponsável” a questão do assassinato do cartunista Glauco. Diniz questiona essa postura jornalística da revista Veja, como sendo de estimulo a intolerância religiosa, pois quando acusa de forma sensacionalista as lideranças daimistas, esta propagando intolerância e preconceito com relação as religiões amazônicas e indígenas. O deputado Diniz coloca que a ayahuasca tem função cultural, pois serviu como estabelecimento de diferentes tradições espirituais por comunidades indígenas nos países amazônicos desde tempos imemoriais. Os povos indígenas sempre utilizaram a ayahuasca como um elo imaterial com o divino que estava entre as árvores, os lagos silenciosos, os igarapés e o imaginário florestal. Pois para os povos indígenas a natureza possuía alma e vontade própria.
De forma irresponsável e leviana a revista acusa o uso da ayahuasca como causa do crime, e passa a agredir a história dos três líderes que, aqui no Acre, fundaram religiões amazônicas, de raízes indígenas: o mestre Raimundo Irineu Serra, o mestre Daniel Pereira de Matos e mestre Gabriel. Na tentativa de dar base científica à reportagem, a revista Veja produz um Frankenstein de intolerância religiosa, de desinformação e de preconceito com religiões amazônicas e indígenas. Em nenhum momento cita um estudo científico, com suas fontes e suas provas acadêmicas. (DINIZ, 2011).
Moisés Diniz (2011) escreve que a reportagem não é confiável, pois não apresenta outros casos semelhantes pelo Brasil afora; sendo que existem mais de 200 centros ayahuasqueiros em atividade atualmente no Brasil, contando com mais de 30 mil seguidores ativos. Então, por quê o caso Glauco deveria servir de regra para uma religião que completou mais de meio século sem um único caso de violência ou morte entre aqueles que a praticam? Na concepção de Diniz a reportagem da Revista Veja em sua edição do dia 24/03/2010 é preconceituosa, anticientífica e mentirosa, porque não relata outros casos além do exposto Glauco/Raoni, ficando reduzida a demonizar a religião ayahuasqueira baseando-se em um caso somente. Diniz também escreve que no Estado do Acre existem milhares de seguidores das religiões daimistas, e que esses são pessoas que gozam de prestígio junto a sociedade acreana.
“χqui no χcre, entre as igrejas do χlto Santo, ψarquinha e UDV, são milhares de seguidores gozando de elevada qualidade de vida, respeitados socialmente e livres das pragas do alcoolismo e do consumo de drogas […] entre os seguidores do Santo Daime, da UDV e da Barquinha, há juízes e promotores, jornalistas renomados, deputados e prefeitos, médicos e economistas, empresários, professores de universidades, delegados, policiais, membros de academias e de instituições laicas e respeitadas” (DINIZ, 2011).
Em artigo publicado no jornal Rede Brasil Atual, o jornalista João Peres (2010) escreve sobre a entrevista com a subprefeita da Lapa em São Paulo. Nessa entrevista Soninha Francine (que foi candidata a prefeitura do município de São Paulo nas eleições de 2012) diz que era previsível que isso iria acontecer (se referindo as repercussões causados por causa do assassinato de Glauco e Raoni), pois toda vez que envolve uma droga cuja comercialização é proibida, ou já foi proibida, ou é restrita de alguma maneira, as pessoas acabam questionando aqueles que defendem a liberação dessa mesma droga. Francine diz que a questão em si vai muito além da discussão dos efeitos, dos riscos de uso de qualquer substância para passar a ser um enquadramento de quem defende uma postura de legalização. Peres (2010) escreve que a Revista Veja montou uma “tese” intitulada “O psicótico e o Daime”, ironicamente se
referindo que nem ao menos se deram ao trabalho de ouvir psiquiatras para dar base a sua “hipótese”. χrgumentando que nessa publicação é deduzido que a liberação do chá para fins religiosos em 1992 foi o primeiro de uma sucessão de erros; havendo até mesmo um advogado que apontou que “uma droga não deixa de ser droga se for consumida no meio de um ritual”. O também jornalista Carlos Heitor Cony (2010) que escreve para a Folha de S.
Paulo fez uma investigação com mais profundidade sobre as seitas daimistas, admitindo que
mesmo não sendo um profundo conhecedor das referidas seitas, afirma serem os efeitos do chá semelhantes ao LSD, maconha, e crack, e que podem “desaguar num comportamento social também alterado, como o do assassino do cartunista, que em princípio usava o Daime para curar exatamente o consumo de droga”.
À margem do episódio policial que fez duas vítimas fatais, o cartunista Glauco e seu filho, assassinados por um cara desequilibrado, já é hora de examinar fundamente o que é, o que pretende a seita conhecida como Santo Daime. Ramal de alguma das religiões? Alternativa espiritual para melhorar os seus seguidores? Modismo para chamar a atenção dos outros para si mesmo e para seus problemas? Não sou entendido no assunto nem pretendo me especializar nisso. Conheço dois depoimentos que considero sérios sobre o Daime: o primeiro, da atriz Maitê Proença, que experimentou o tal chá de ervas amazônicas que produzem efeitos alucinógenos, mas provocam náuseas, diarreia e outros derivados. O segundo é o de Otávio Frias Filho, em seu livro "Queda Livre", coletânea em que o autor experimentou diversas modalidades de risco, desde o uso do guarda-quedas à peregrinação ao santuário de Compostela, passando por uma incursão à Vila do Mapiá, onde "uma comunidade de místicos adeptos de uma seita nativa no Acre, o Santo Daime, encontrou sua Terra Prometida". Em tudo semelhante a tantas outras seitas tributárias do cristianismo popular, o Santo Daime se distingue por seu principal sacramento, a ingestão de uma bebida feita à base de duas plantas amazônicas e capaz de induzir a estados de percepção psicológica alterada. Em princípio, o Daime seria uma droga como outra qualquer, revestida de um caráter religioso que as outras drogas no mercado dispensam, como o LSD, a maconha, a coca, o crack. Mas o efeito é semelhante. Leva a práticas que podem desaguar num comportamento social também alterado, como o do assassino do cartunista, que, em princípio, usava o Daime para curar exatamente o consumo de droga. (CONY, 2010).
Soninha Francine, subprefeita da Lapa até 2012 é jornalista por formação, e há alguns anos atrás foi procurada pela Revista Época para falar sobre a legalização da maconha. Quando relatou sua familiaridade com a substância, então Francine foi involuntariamente destacada na capa da publicação, que a considerou propagandista do uso de drogas, por conta disso acabou sendo demitida da TV Cultura onde então trabalhava. Essa demissão serviu para ampliar o debate sobre o tema de drogas no meio jornalístico. Em entrevista a Rede Brasil
Atual em 2010 ao jornalista João Peres, Soninha Francine lamentou que a polêmica sobre o
separação entre as causas e consequências, fatos e boatos que nada têm a ver com o caso Glauco/Raoni. No entendimento da jornalista “é triste notar que os jornalistas e os meios de comunicação em vez de colaborarem para a elevação do nível do debate, sigam mais uma vez pelo caminho do esforço dos preconceitos”. Ela também se manifestou dizendo na ocasião que “Encontraram o culpado. Cuidado! Todos que tomam o daime são assassinos em potencial”. O jornalista João Peres (2010) também escreve sobre o exagero da imprensa em relação aos grupos daimistas, estigmatizando as pessoas que são adeptas de tais religiões diante de suas famílias e da sociedade, indicando que “Se for isso o que restar desse episódio tão lastimável, uma desinformação disseminada, a gente dá um passo atrás”, referindo-se ao exagero da imprensa em relação aos grupos daimistasν e ainda explica “Imagine que alguém tem na família uma pessoa que frequenta as reuniões dos daimistas. Pode ser uma pessoa absolutamente centrada, regrada, mas os pais, os parentes, os vizinhos vão começar a encarar essa pessoa como um malfeitor em potencial. Se já existe algum receio, ele então é aumentado. É uma lástima”. (PERES, 2010).
Figura 21: A jornalista e subprefeita da Lapa (PPS), Soninha Francine (Foto: Danilo Verpa/Folha Imagem/Folhapress)
FONTE: http://www.redebrasilatual.com.br/temas/cidadania/2010/03/para-soninha-francine-era-previsivel-que- daime-seria-201cculpado201d-por-morte-de-glauco