6 KONKLUSJON, KONSEKVENSER OG FORSLAG TIL ENDRINGER
6.1 F UNN OG KONKLUSJON
Arad (2003) parte da proposta de Marantz (2000, 2001) ao assumir uma clara distinção entre palavras derivadas de raízes e palavras derivadas de palavras, ou seja, de raízes previamente categorizadas. As estruturas abaixo, respectivamente, pretendem representar esses dois tipos de formação. (55) X 3 √ X (56) X 3 n, v, a.... 3 √ n, v, a....
Com essa distinção entre tipos de formação, é possível representar palavras deadjetivais, denominais e deverbais e distingui-las de palavras formadas diretamente da raiz. Contudo, é preciso que se estabeleçam testes para identificar se uma palavra apresenta uma estrutura que é formada a partir de outra palavra ou simplesmente da raiz. Não é possível, e nem desejável, uma postulação ad hoc, ou somente intuitiva, de quais palavras são ou não deadjetivais, denominais ou deverbais. A autora busca definir esses critérios a partir dos dados.
Em primeiro lugar, Arad defende que, no hebraico, palavras derivadas de raízes podem ter a elas atribuídas múltiplas e variadas interpretações ao passo que palavras derivadas a partir de outras palavras têm sua interpretação vinculada à palavra formadora, no primeiro ciclo da derivação (fase). Nesse sentido, a palavra em um segundo estágio de derivação terá sua interpretação ligada àquela da palavra formadora.
Enquanto, em tese, a derivação a partir de palavras constitui um processo produtivo, sistemático e semanticamente composicional, o primeiro nível da derivação, na junção da raiz com o primeiro categorizador, é o local de idiossincrasias. Discutindo tal fenômeno, Lemle (2008) argumenta que o primeiro merge da raiz com o morfema categorizador é o local da arbitrariedade na composição do significado da palavra. Nesse respeito, seria possível observar a chamada arbitrariedade saussureana, mas não nas fases seguintes de formação de palavras complexas:
“Resumindo, há duas ideias básicas nos alicerces desta teoria: a de que a parte idiossincrásica do significado fica estabelecida na categorização trazida pelo merge do mais interno dos afixos categorizadores; e a de que a parte composicional do significado de palavras complexas depende de cada um dos afixos categorizadores sucessivamente mergidos depois daquele que dá a primeira categorização.” (LEMLE, 2008:3)
A partir de evidências empíricas, Arad sugere a existência de um critério de localidade na atribuição de significado, que forma uma espécie de domínio fechado para a interpretação, e indica que há fases na palavra:
“Locality constraint on the interpretation of roots: roots are assigned an interpretation in the environment of the first category-assigning head with which they are merged. Once this interpretation is assigned, it is carried along throughout the derivation.” (ARAD, 2003:747) 44
É preciso que mostremos algumas evidências levantadas pela autora de que há diferenças significativas entre a formação de verbos derivados de raízes categorizadas e verbos derivados de raízes acategoriais no hebraico para que se possa entender a postulação da Restrição de Localidade. No entanto, não é necessário fazer um levantamento exaustivo dos dados.
Chamaremos a esse tipo de evidência de critério semântico. Além do critério semântico, há também o critério morfofonológico.
Em hebraico, a maioria das raízes consiste de consoantes segmentais, representadas pela autora como √CCC. Essas consoantes não são pronunciáveis independentemente; somente serão pronunciadas quando inseridas em um ambiente de palavra, ou seja, em um padrão vocálico. Uma mesma raiz pode formar verbos e nomes de diferentes significados, apesar de dividirem um tipo de conceito comum45:
(57) √sgr
a. CaCaC (v) sagar v, ‘to close’ (fechar)
b. hiCCiC (v) hisgir v, ‘extradite’ (extraditar)
c. hitCaCCeC (v) histager v, ‘cocoon oneself’ (proteger alguém)
d. CeCeC (n) seger n, ‘closure’ (encerramento)
e. CoCCayim (n) sograyim n, ‘parentheses’ (parênteses) f. miCCeCet (n) misgeret n, ‘frame’ (moldura)
(ARAD, 2003:743)
As formações de a–f, acima, são exemplos de palavras derivadas diretamente de uma mesma raiz. No entanto, em alguns casos, há evidências na língua que mostram que há nomes formados por uma raiz e que passam a formar verbos, em um segundo estágio de derivação, e a opção de tomar múltiplas interpretações não está disponível para esses casos, uma vez que a negociação de significado já foi fechada, na primeira fase da derivação, na concatenação da raiz com o categorizador.
Vimos acima que a raiz √sgr pode receber múltiplos significados, dependendo do ambiente em que irá figurar, no entanto, o verbo formado a partir do nome misgeret em (57) (moldura) só poderá significar emoldurar:
(58) √sgr
a. miCCeCet misgeret ‘a frame’ (uma moldura)
45
Para uma discussão extensa acerca das raízes do hebraico e das questões que elas suscitam para a MD, referimos o leitor a Minussi (2008, 2012).
b. CiCCeC misger ‘to frame’ (emoldurar)
(ARAD, 2003:746)
Além do critério semântico para a argumentação de que se deve fazer a distinção, o exemplo expõe de forma clara o critério morfofonológico. O verbo contém as consoantes da raiz √sgr e, além delas, contém o prefixo m- do padrão nominal (miCCeCet), que se preserva no padrão verbal, mas as vogais do novo verbo são típicas do padrão verbal CiCCeC, que é um padrão causativo parafraseado por ‘fazer ficar com moldura’ (MINUSSI, cp). Para a formação do nome moldura e do verbo emoldurar, Arad sugere a seguinte derivação simplificada:
(59) Nome derivado de raiz:
Nmisgeret 3
NmiCCeCet √sgr /misgeret/
(60) Verbo derivado do nome
Vmisger 3
VCiCCeC Nmisgeret
3
Nmisgeret √sgr /misger/
O exemplo de misger (emoldurar) é bem claro, por conter os três tipos de evidências possíveis para a identificação de uma derivação complexa. No entanto, na ausência de evidências claras, como ocorre com os verbos de derivação zero do inglês, as evidências semânticas prevalecem.
Kiparsky (1982a) já havia afirmado que há verbos de derivação zero que implicam a denotação do nome primitivo na descrição do evento, enquanto outros não o fazem. Nos exemplos em (61), a possibilidade de introdução de um adjunto instrumental que não é derivado
diretamente da raiz. Apesar de muito controverso e polêmico, tal argumento vem sendo usado como critério para identificação de categorizações internas. Para Arad, a possibilidade de o nome formador não estar presente nos exemplos em (61) indica que nomes, como hammer (martelo), e verbos como to hammer (martelar) são independentemente derivados de uma raiz comum, como em (62) e (63) (exemplos originais de Kiparsky 1982a:16).
(61) a. I paddled the canoe with a copy of the New York Times. ‘Eu remei a canoa com uma cópia do New York Times.’ b. String him up with a rope!
‘Amarre ele para cima’46 com uma corda!’ c. She anchored the ship with a rock. ‘Ela ancorou o navio com uma pedra.’ d. He hammered the nail with a rock. ‘Ele martelou o prego com uma pedra.’
a. Verbos do tipo Hammer:
(62) V 3 V √hammer (63) N 3 N √hammer
Diferentemente, em (64), tais tipos de adjuntos causam estranheza e, por isso, esses dados seriam derivados de substantivos. Em outros termos, a má formação das sentenças em (64) indica que a formação do verbo depende do nome correlato e esse fato deve estar refletido na estrutura a ser proposta para verbos desse tipo.
(64) a. *She taped the picture to the wall with pushpins. ‘Ela ‘fitou’ o quadro à parede com tachinhas’ b. *They chained the prisoner with a rope.
‘Eles acorrentaram o prisioneiro com uma corda.’
46
Neste caso, não há uma tradução para o verbo instrumental em português que explicite o fato de que o nome que forma o verbo (string ‘barbante, fio, cordão’) é diferente daquele que integra o adjunto (rope ‘corda’).
c. *Jim buttoned up his pants with a zipper. ‘Jim abotoou suas calças com um zíper.’ d. *Screw the fixture to the wall with nails! ‘Aparafuse o suporte à parede com pregos’
(ARAD, 2003:756)
b. Verbos do tipo Tape:
(64) V 3 V N 3 N √tape
Na mesma linha de investigação empírica, mas baseado na proposta de Chomsky (2001) de uma computação sintática cíclica por natureza, Marantz (2001, 2007) investiga na palavra domínios de localidade para processos semânticos e fonológicos.
Assim como Chomsky, considera que núcleos funcionais como CP, vP e DP podem ser núcleos de fases por apresentarem domínios semânticos e fonológicos completos. Marantz propõe que núcleos que formam categorias ‘lexicais’ (adjetivo, nome, verbo) na palavra também podem sê-lo. A ideia de fases é a de que cada operação sintática dentro de um certo domínio de localidade teria uma interpretação e forma fonológica correspondente e cada resultado de um merge de itens se daria em uma fase da derivação. Após a formação de cada fase se daria então o spell-out da formação para LF, onde tal fase receberia a interpretação associada, e para PF, para a atribuição de material fonológico e a aplicação dos processos fonológicos relevantes.
O trabalho de Dubinsky e Simango (1996) foi um dos primeiros trabalhos lexicalistas a desafiar o lexicalismo estrito. Os autores apresentam dados de verbos da língua Chichewa que fornece evidências em favor do reconhecimento da distinção entre um domínio interno e um externo na formação da palavra. Não nos deteremos nos detalhes dessa proposta, mas apenas apontaremos que, a partir das generalizações desse trabalho, é possível fazer um paralelo com o que foi dito por Arad (2003):
a) A formação interna da palavra é caracterizada por uma potencial não-previsibilidade na fonologia e semântica (forma e significado potencialmente especiais) e uma inabilidade para tomar como input um radical que já foi concatenado a uma categoria lexical.
b) A formação externa da palavra é caracterizada por uma regularidade na fonologia e na semântica e pela habilidade de tomar como input um radical que já foi concatenado a uma categoria lexical.
Em Marantz (2007:5), o autor retoma e reinterpreta a distinção em (a) e (b) como descrito abaixo:
‘Inner morphology’ attaches to roots or complex constituents below the first little x (x = {v, n, a}) node (phase head) above the root. All morphology above the first x node is ‘outer morphology,’ including all ‘category changing’ derivational morphology.47
Figura 2. Morfologia interna e externa por Marantz (2007:5).
Com essa proposta de análise, Marantz consegue evitar a ideia de que toda mudança de categoria na palavra se dá no âmbito lexical. As idiossincrasias não são mais explicadas por ocorrerem no léxico (casos de lexicalização), mas por ocorrerem na primeira fase de formação da palavra, e a sistematicidade ocorre nas fases consecutivas. Embick e Marantz (2008) e Embick (2010) seguem a mesma linha de raciocínio, mas incluem, além da interpretação, previsões sobre alomorfia, de que trataremos no Capítulo 5.
47
A’ Morfologia interna’ se afixa a raízes ou constituintes complexos abaixo do primeiro nó x(zinho) (x=v,n,a) (núcleo de fase) acima da raiz. Toda morfologia acima do primeiro nó x é ‘morfologia externa’, incluindo toda ‘mudança de categoria’ da morfologia derivacional. (Tradução nossa).
Em Bassani (2009), assumimos a Restrição de Localidade na Interpretação das raízes e a ideia de fases na palavra sugerindo que existem verbos verdadeiramente denominais e verbos derivados diretamente da raiz. Por exemplo, sugerimos que traçar é ambíguo frente a seu comportamento nos testes de expressão perifrástica, objeto cognato e adjunto contendo nome com a mesma raiz (cf. (65) e (67)). Por isso, sugerimos naquele momento as duas estruturas abaixo em (66) e (68) (p. 158-9):
(65) Traçar denominal
a. O desenhista traçou o desenho.
b.O desenhista fez os traços do desenho no papel. c. O desenhista traçou traços fortes no papel.
d. O desenhista traçou o desenho com traços precisos.
(66) Estrutura com n v 2 v n 2 n √TRAÇ- (67) Traçar de raiz
a. O técnico traçou a estratégia.
b. ? O técnico fez os traços da estratégia. c. ? O técnico traçou os traços da estratégia
d. ? O técnico traçou a estratégia com traços precisos.
(68) Estrutura sem n v
2 v √TRAÇ
Tratando especificamente de um verbo com prefixo que também apresentava essa amibiguidade, nossa argumentação direcionada para o verbo arrumar era a seguinte (2009:149- 150):
“O verbo arrumar, em sentenças como as testadas, certamente não tem a interpretação de dar rumo a, mas sim de organizar, limpar, melhorar, etc. Nessa leitura, os falantes não reconhecem mais o nome rumo na formação desse verbo. Uma possibilidade de análise diria que a raiz √rum não está presente na estrutura, e, por esse motivo, parece ser possível sugerir que essa raiz tenha gerado outra, nomeadamente, √arrum-. Dessa forma, daríamos conta da inatividade do prefixo a-, que parece ser apenas um elemento fonológico ou mesmo morfológico. Temos palavras na língua como a nominalização arrumação, o particípio arrumado(a), o nome agentivo arrumadeira, todas com sentido de “organizar”, e não com sentido de rumo, e contendo o suposto prefixo a-. Essas palavras poderiam ser evidência da existência da raiz √arrum.
Entretanto, no sentido de manter uma análise mais uniforme e evitarmos a necessidade da existência de duas raízes na lista 1, √rum e √arrum, que são relacionadas de alguma forma, podemos explicar os fatos novamente pela operação de fissão. Se assumirmos que o prefixo a- é também parte do morfema fissionado, como sugerimos para os outros verbos, damos conta da não relação entre arrumar e rumo somente pela ausência de uma fase nominal. As evidências independentes apontadas para a existência de √arrum- são falseáveis. A observação de que palavras como a nominalização arrumação, o particípio arrumado(a) e o nome agentivo arrumadeira têm o prefixo a- explica-se pelo fato de que as mesmas são deverbais, formadas a partir do verbo arrumar e a explicação da presença de a- se segue da explicitação dada acima. Nessa abordagem, podemos ainda explicar como se dá a formação do verbo para o falante que interpreta “arrumar a vida” como dar um rumo na vida. Ele pode estar formando outra estrutura, diferente daquela em que
a raiz √rum é categorizada por um v diretamente.” 48
Apesar de discordarmos hoje de diversos aspectos da análise sugerida naquele momento, a possibilidade de análise delineada nas primeiras linhas acima se parece muito com a sugerida nesta tese para os verbos que passaram a compor formas simples da diacronia para a sincronia na forma dos dados de tipo 2.1., como afetar e esquecer. Já naquele momento, descartamos a ideia de que se trata de completa reanálise da raiz, pelos motivos apontados acima.
Alguns dados de interpretação especial apontam para uma estrutura em que o prefixo tem papel ativo e o verbo se comporta estruturalmente como um verbo de interpretação composicional e, por isso, primeiramente, não há sentido em assumir uma raiz completamente reanalisada. Tais dados consistem em verbos que se encaixam em uma das 7 classes semânticas sugeridas acima para verbos totalmente transparentes, mas que ainda poderiam ser classificados como verbos de interpretação especial. Focaremos no verbo empedrar para exemplificar tais casos, contrastando-o com o verbo apedrejar, que abordaremos de forma muito rápida e cuja análise completa será oferecida no capítulo 4.
A interpretação da raiz √PEDR é a mesma tanto no verbo apedrejar quanto no substrantivo pedra. Diferentemente, no verbo de mudança de estado empedrar, a interpretação dessa raiz pode ser considerada especial no sentido de que não se pode afirmar que um argumento interno entre no estado denotado pela raiz, isso porque essa raiz não denota um estado originalmente: ela é uma raiz que, geralmente, denota entidades. O estado denotado é derivado por meio de um processo metonímico na interpretação dessa raiz, em que o traço semântico mais saliente e relevante para a correta interpretação é o fato de que √PEDR tem a característica de ser sólida. Assim, uma das acepções do verbo empedrar é entrar no estado similar ao de uma pedra, ficar como pedra(s) (“A massa do bolo empedrou = ficou com pedaços que são como pedras, ficou como pedra, ficou sólida como pedra”). Por isso, apesar de “especial”, a interpretação não é completamente arbitrária.
Em suma, o que queremos enfatizar é que o fato de a raiz não ser interpretada no seu sentido primário convencionado não significa sempre que há uma estrutura diferente daquela em que uma raiz é interpretada em seu sentido literal. O que queremos dizer é que, em muitos casos,
o significado ainda é composicional, mas não é composicional com o significado primário ou mais saliente da raiz: ele é composicional com um significado derivado daquele ou secundário, se acreditamos que existe um significado default para a interpretação das raízes. Em muitos casos, tal possibilidade se dá pela própria polissemia da raiz ou por interpretações metafóricas ou metonímicas do significado da raiz, como vimos. Assim, apesar de nomearmos esta seção como verbos transparentes com semântica não-composicional, queremos deixar claro que essa denominação é imediatista e pode ser repensada.
A fim de embasar empiricamente nossa crítica, exploraremos um exemplo corriqueiro. A raiz que forma o substantivo cachorro tem diversas acepções a ela relacionadas. Duas delas nos parecem mais frequentes (HOUAISS):
(69) Cachorro
A1. Mesmo que cão. Rubrica: mastozoologia. mamífero carnívoro da fam. dos canídeos (Canis familiaris), provavelmente originado a partir de populações selvagens do lobo eurasiático (Canis lupus), encontrado no mundo todo como animal doméstico; cachorro, perro [Na Austrália e Nova Guiné, é encontrado tb. em estado feral.]
A2. Uso: pejorativo. diz-se de ou indivíduo indigno, vil, infame ou que tem mau caráter.
Não há razões para assumir que se trata de homofonia completa, caso em que haveria duas raízes distintas com a mesma forma fonológica. Parece óbvio que a primeira acepção está correlacionada com a segunda por fatos extralinguísticos e específicos do conhecimento de mundo do falante de português49. Nas sentenças em seguida, é fato que essa raiz foi categorizada por um núcleo de tipo n para que possa receber as marcas de classe nominal e para que possa ser tomada como complemento de um determinante. Assim, em ambas as sentenças (70) e (71), a estrutura para o nome cachorro deve ser a representada em (72) com diferentes resultados interpretativos.
(70) Aquele animal é um [cachorro].
49
Isso não implica que outras línguas não possam ter a mesma relação, o que indicaria, talvez, uma relação cognitiva.
(71) Aquele homem é um [cachorro].
(72)
Neste ponto, podemos elucidar a nossa maior questão com relação à formulação da seguinte generalização: a possibilidade, e não a necessidade, de criação de um resultado composicional. Observe o grifo nosso na seguinte formulação:
“Interpretation: The combination of Root-attached x and the Root might yield a special interpretation. When attached in the outer domain, the x heads yield predictable interpretations.” (EMBICK; MARANTZ, 2008:11)50
Ao partirmos para ambientes com mais de uma categorização, como em cachorrada, atentamos para o importante fato de que temos ainda duas formações com sentido composicional: uma derivada da Acepção1 e outra possivelmente derivada da Acepção 2.
(73) A cachorrada está latindo demais hoje. (74) O que ele fez foi uma cachorrada.
Não iremos tentar definir a estrutura de cachorrada nos dois contextos (Cf. MEDEIROS, 2009)51, pois isso fugiria aos objetivos deste trabalho, mas o relevante é dizer que cachorrada em ambas as formações poderia ser derivada do substantivo, já que a derivação do substantivo prevê
50
‘Interpretação: a combinação de um x concatenado à raiz e a raiz pode produzir significado especial. Quando concatenados no domínio externo, núcleos x produzem interpretações previsíveis.’ (Tradução nossa).
51
as duas formações. Ao assumir que cachorrada é derivado diretamente da raiz, como explicamos o fato de que a categorização direta por n em (71) também leva a um mesmo resultado especial?
Uma alternativa óbvia e explorada em diversos trabalhos é a ideia de que, tendo derivações e estruturas argumentais idênticas, o contexto sentencial, na forma da denotação do referente nos pares acima (animal/homem), acaba por desambiguizar a denotação da raiz. No entanto, nos pares abaixo, é difícil encontrar uma explicação estrutural (na sintaxe estrita) que nos leve a definir qual a interpretação correta dentro da sentença52.
(75) Ele é um cachorro.
Contexto 1: Não brigue assim com o Totó por ter rasgado o sofá. Ele é um cachorro.
Contexto 2. Meu chefe me humilhou hoje. Ele é um cachorro.
(76) Que cachorrada!
Contexto 1. Olhando para um canil repleto de animais: que cachorrada! Contexto 2. Comentando sobre uma traição: que cachorrada!
De acordo com a restrição de localidade e a análise sugerida em Bassani (2009) para os dados do português, deveríamos assumir que empedrar e apedrejar são derivações estruturalmente diferentes: empedrar seria derivado diretamente da raiz e a apedrejar deveria conter um substantivo (pedra) a partir do qual o verbo é formado.
A crítica a Bassani (2009) e, por consequência, aos trabalhos em que essa proposta se baseia, reside no fato de que o significado especial pode ser derivado a partir da categorização da raiz e isso não implica que o significado composicional deverá ser formado a partir da categorização indireta. Defendemos agora que o resultado composicional também pode ser obtido por meio da categorização direta da raiz e é tal postura que iremos assumir na ausência de evidência morfofonológica contrária. Como já discutido naquele momento, na ausência de um sufixo nominal aberto, não há evidências morfológicas fortes nos dados do português para que se assuma uma derivação denominal, pois não há presença de vogais temáticas nominais nos verbos
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derivados em discussão, e toda a evidência fica por conta da interpretação. Naquela ocasião, utilizamos testes estruturais (Expressão Perifrástica, Adjuntos Cognatos, Objetos Cognatos, Adjuntos hipônimos e hiperônimos) para classificar um verbo como denominal ou derivado diretamente da raiz. Hoje, entendemos que os testes que fizemos continuam válidos, mas não necessariamente para identificar uma formação denominal em todos os casos, mas em muitos para identificar uma formação com um significado primário ou secundário da raiz (identifica os significados múltiplos contextualizados). O que queremos enfatizar é que empedrar não deriva de fato um significado especial ou idiossincrático, e que apedrejar não precisa derivar necessariamente do substantivo pedra para que seja interpretado como ‘atirar pedras’ (e essa é a