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Todos os estudos sobre verbos derivados insistem em apresentar como ponto de partida a distinção categorial da base de formação do verbo complexo. Distinguem verbos formados por substantivos e verbos formados por adjetivos, mostrando que, por exemplo, o sufixo –iz- liga-se tanto a bases substantivais, como adjetivais, ao passo que o sufixo –ec- liga-se preferencialmente a bases adjetivais.

As bases nominais são descritas como extremamente heterogêneas, podendo denotar objetos ou substâncias, lugares ou espaços, instrumentos, processos, fenômenos, eventos, ou seres humanos cujas propriedades podem ser absorvidas ou imitadas. Alguns exemplos de como tais bases foram classificadas (RIO-TORTO, 2004:81):

(82) Instrumento: faca > esfaquear

(83) Seres humanos: padrinho > apadrinhar (84) Eventos: susto > assustar

(85) Espaços locais: prisão > aprisionar (86) Objetos Materiais: graxa > engraxar

Por outro lado, a semântica das bases adjetivais é tida como mais homogênea: apenas denotam propriedades ocasionais, ou propriedades dos estados, caracterizadas por uma mudança (como (87)). Assume-se que os adjetivos que denotam as propriedades permanentes ou inerentes não sujeitos a mudança não são aceitáveis nestas formações, mas consideramos que é muito difícil encontrar uma propriedade adjetival que seja completamente inerente ou que não possa ser usada em uma interpretação momentânea. Observemos o dado em (88)a., altear ou enaltecer é permitido com sentido de “tornar mais alto” somente com a interpretação de “alto” como uma propriedade momentânea e não como uma propriedade física. A formação do verbo a partir da interpretação de propriedade inerente/permanente resultaria, provavelmente, em uma má- formação nos moldes de (88)b.

(87) fraco > enfraquecer (88) a. alto > altear, enaltecer

b. alto > *a/en/esaltear56

Como já comentado na seção 2.1.2.2. do Capítulo 2, ao assumir a ideia de raízes acategoriais e a ideia de que a primeira categorização pode levar a significados composicionais, não precisamos assumir uma derivação denominal ou deadjetival para que tenhamos a semântica atrelada ao significado do mesmo substantivo/adjetivo formado pela raiz. Além disso, a restrição da categoria da base apresenta-se na forma de tendência e não é uma restrição categórica. Quando tratarmos da semântica do verbo na próxima subseção, mostraremos que há, para uma mesma classe, presença de bases supostamente substantivais ou adjetivais e o que permite a sua presença neste tipo de formação é seu tipo semântico e não a sua suposta categoria.

Por ora, adiantamos que, se analisarmos com cuidado as descrições e os exemplos utilizados, vemos que um substantivo e um adjetivo podem denotar uma mesma propriedade semântica mais refinada, como parece ser o caso de padrinho e vermelho, por exemplo, que denotam estados/propriedades que podem ser adquiridos: ‘tornar-se padrinho’, ‘tornar-se vermelho’, ‘deixar de ser padrinho’, ‘deixar de ser vermelho’. A diferença está em que, no segundo caso, a propriedade é escalar. Assim, não analisamos a semântica do verbo a partir da

semântica da base como dependente de sua categoria, mas a partir da denotação prototípica da raiz que forma o verbo e suas implicações para o evento de que participa.

Além disso, temos outras evidências para supor que, na ausência de evidências morfológicas, a maior parte dos verbos derivados é formada a partir de raízes acategoriais. A literatura tradicional sugere que alguns verbos formados por prefixo-X-ec- teriam bases verbais, no nosso corpus representados por adormecer, estremecer e espairecer. Contudo, não encontramos evidências robustas de que a formação passaria necessariamente pelo verbo, que, a nosso ver, deveria resultar nas formas hipotéticas adormirecer, estremerecer e espairarecer, incluindo, pelo menos, a vogal temática verbal, ou teria de se recorrer a uma operação de truncamento. Consideramos mais adequado, nesse caso, assumir que essas formações sejam derivadas das raízes √DORM-, TREM- e PAIR-, as mesmas que formam os verbos dormir, tremer e pairar e que também está presente em dormitório, dormente, dorminhoco, tremor e tremedeira. As palavras adormecer e dormir, estremecer e tremer, espairecer e pairar têm relação porque são derivadas de uma mesma raiz, que conserva suas propriedades enciclopédicas. O mesmo exercício de classificação foi estendido a outras categorias de base, por exemplo:

Verbo Suposta Base Formação Prevista Base Sugerida

Aquecer Quente *Aquentecer que-

Encher Cheio *Encheiar chei-

Adoecer Doente/(com) Doença *Adoentecer/*Adoencer doe-

Envaidecer Vaidoso * Envaidosecer vaid-

Tabela 10. Evidências para verbos formados da raiz.

Nesses casos, sugerimos uma derivação direta de raiz porque não temos evidências formais suficientes, ou temos evidências formais contrárias, à formação a partir de uma base categorizada nominal (ex. vaid), adjetival (ex. quente) e verbal (ex. tremer).

Assumir que tais verbos são formados a partir de raízes acategoriais é também a solução para o problema acerca da caracterização da base de formação trazido por verbos derivados como envaidecer ou por muitos formados pelo sufixo –iz- e outras palavras derivadas. Os trabalhos tradicionais em morfologia discutem o seguinte problema em verbos que poderiam incluir adjetivos relacionais em –ico/a e nomes em –ia, -ica, -ismo ou –ista (Cf. (89)): se identificados como formações denominais, perde-se a capacidade de explicar a interpretação adjetival (de

mudança de estado), e se considerados como formações deadjetivais, há de se adicionar um processo de truncamento que apaga os sufixos adjetivais e implica no output correto.

Por exemplo, democratizar é corretamente parafraseado com ‘tornar democrático’ e não ‘tornar democrata’. Se considerarmos que o verbo é derivado a partir do adjetivo democrático, ou temos o output incorreto *democraticizar, que é uma sequência fonologicamente possível na língua (que ocorre em misticizar a partir de místico, por exemplo), ou temos que assumir um processo de truncamento que apaga o sufixo –ic(o).

Em uma teoria como DM, tal questão é uma pseudo-questão, pois podemos assumir que a mesma interpretação atribuída ao adjetivo pode ser abstraída diretamente da raiz. A formação a partir da raiz √DEMOCRAT- nos dá a correta interpretação e a correta sequência fônica. Outros casos como esse são os dispostos abaixo.

(89)

a) Átomo/atômico > *atomicizar/ atomizar

b) Democrata/democrático > *democraticizar/ democratizar c) Alegoria/alegórico > *alegoricizar/ alegorizar

d) Arcaico > *arcaicizar/ arcaizar

Diferentemente, no caso da derivação de aromatizar, parece menos custoso optar por uma análise de derivação deadjetival, pois a derivação direta da raiz resultaria na forma *aromizar e nos restaria somente a opção ad hoc de uma interfixação epentética de um elemento –at- para derivar a forma correta ou de um alomorfe contextual aromat-.

e) Aroma/aromático > *aromizar/ aromatizar/aromatismo

Com esse exemplo, mostramos que a metodologia correta consiste em partir do pressuposto de que a análise deve se pautar por uma derivação a partir de uma raiz acategorial, mas que, em alguns casos, os dados não permitem tal análise, embora uma primeira categorização ocorra sempre sobre uma raiz acategorial ([a[n[√ arom]a]-t-ico]).

morfologicamente simples, ou seja, adjetivos ou nomes sem nenhum tipo de sufixação ou prefixação. Observemos os dados a seguir:

(90) [lavagem]N > *alavagenar/*enlavagenar/*eslavagenar (91) [Desfazer]V > *adesfazer/*endesfazer/*esdesfazer

(92) [Informal]A > *ainformalizar/*eninformalizar/*esinformalizar (93) [Nacional]A > *anacionalizar/*enacionalizar/*esnacionalizar

(94) [Vitalício]A > *avitaliciar /*envitaliciar/*esvitaliciar

(95) [Familiar]A > *afamiliarizar /*enfamiliarizar/*esfamiliarizar (96) [Amedrontado]N/A > *enamedrontizar/*esamedrontizar (97) [Encaixe]N > *aencaixar/*esencaixar

(98) [Externo]N >*aexternar/*enexternar

Embora isso seja verdadeiro para algumas palavras já prefixadas ou sufixadas, como nos exemplos que trazemos de ((90) a (95)) - incluindo palavras prefixadas pelos próprios prefixos parassintéticos ((96) a (98)) - nossos dados apontam fatos diferentes.

Dentre os verbos analisados, pudemos encontrar três tipos de morfologia da base: simples, derivada e derivada fossilizada. As bases derivadas são aquelas com mais de um nível de categorização transparente e sincrônica. Alguns exemplos estão em (99). As bases derivadas fossilizadas são palavras com mais de um nível de categorização em uma perspectiva etimológica, como em (100), mas que atualmente se comportam como palavras simples57.

(99) baiano (>Bahia) > abaianar, brilhante (>brilho) > abrilhantar, cinzento (>cinza) > acinzentar, beleza (>belo) > embelezar, francês (>frança) > afrancesar, fileira (>fila) > enfileirar.

(100) colchão (que não é uma colcha grande) > acolchoar, corrente (que não tem relação com o verbo correr, mas é um objeto58) > acorrentar, padrinho (que não contém um diminutivo) > apadrinhar, e outros que contêm pseudo-sufixos, tais

57

Agradecemos ao Prof. Dr. Mário Eduardo Viaro pela ajuda com esta classificação.

58

Para uma análise para formas como corrente (não eventivas) vs. o homônimo particípio presente, como em ‘água corrente’, cf. Medeiros (2010).

como: pacote > empacotar, salário > assalariar, prateleira > emprateleirar, farelo > esfarelar, bofete > esbofetear, gaveta > engavetar, gatilho > engatilhar, etc.

Parece-nos, então, que a preferência por bases morfologicamente simples é uma tendência e a restrição está, de fato, na prefixação anterior à formação do verbo parassintético, pois somente encontramos uma base supostamente prefixada, que é profundo (aprofundar). No entanto, não é claro o estatuto de prefixo de pro- em profundo, dada sua opacidade semântica e a neutralização do acento na posição pretônica ([prɔ]>[pro]), um fenômeno fonológico típico de interior de palavra fonológica (SCHWINDT, 2001).

Desse modo, a restrição categórica é a de que os prefixos das formações parassintéticas necessitam estar adjacentes ao início da raiz/base, sem nenhum morfema interveniente, no caso, nenhum outro prefixo.

Por outro lado, eles podem ser precedidos por outros prefixos, que não sejam eles mesmos, como mostramos acima. Como os prefixos a-, eN- e eS- são formadores de eventos, conforme exploraremos logo adiante, os prefixos que podem juntar-se a essas formações são os que incidem sobre o evento como um todo. Os mais comuns são o prefixo re-, que denota repetição, des-59, que denota reversão quando somado ao evento (passível de reversão), e super-, que denota intensidade:

(101) Re[engavetar], Re[abastecer], Re[esquentar] (102) Des[engavetar], Des[empilhar]

(103) Super[aquecer], Super[embelezar], Super[escavar]

Concluímos, desse fato, que os prefixos em estudo são prefixos internos em oposição aos outros, que são prefixos externos modificadores de eventos, tais como: re-, deS- e super-. Apesar de esses precederem aqueles linearmente, na estrutura de output, os prefixos a-, eN- e eS- se anexam primeiro às bases para que a formação resultante seja prefixada. Embora exploremos esse achado empírico com mais detalhe na seção de análise, vamos representá-lo de forma simplificada na estrutura em (104), a seguir:

(104) verbo/evento (modificado) 3

Prefixo externo verbo/evento (re-, des-, super-) 3 Prefixo interno

(a-, eN-, eS-)