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4. Architectural and Aesthetic Quality in Shopping Centres

4.3. What is Architecture and Aesthetic Quality?

4.3.1. Universal design

Ilícito tinha a manga da blusa arregaçada na primeira vez em que o vi, em um palco. A mão que empunhava o microfone era a mesma da tatuagem que me saltou aos olhos: um oxé de Xangô132. Um machado estilizado, portando duas lâminas. Trata-se do emblema de Xangô que, segundo Pierre Verger (2000), representa freqüentemente um personagem que carrega o fogo

130 Ancestrais do complexo cultural banto.

131 Ainda segundo Carmos (2006, p. 25), o limite desse princípio do candomblé é a injustiça. “Um

indivíduo pode ser esperto, mas não pode ser injusto. Pode ser sensual, amante de várias mulheres, mas não pode tomar a mulher do seu amigo, porque isso lhe traria a ira daquele, e, naturalmente, do orixá que preside a vida do amigo”.

na cabeça e esse fogo é, ao mesmo tempo, o machado de dupla lâmina (p. 308). Verger nos informa que

(...) trata-se de um aspecto da cerimônia denominada ajere, na qual os iniciados de Xangô devem levar na cabeça um alguidar furado (ajere) no qual as chamas se elevam. Os iniciados não devem ser afetados por isso. Essa prova demonstra que o transe não é simulado e é completada por outra, denominada akara, na qual os iniciados devem engolir o fogo sob a forma de mechas inflamadas, enfiando-as com suas mãos em potes que contêm azeite-de-dendê fervendo. (Ibid.)

A cerimônia é realizada entre os iorubás. O quarto rei de Oyó é reivindicado como um ancestral nesse território e, das narrativas coletadas por Verger, quando vivo, tinha o poder de fazer o raio cair quando bem entendesse (Ibid.) .

Xangô, diferente dos orixás relacionados ao mito de criação, foi um ancestral divinizado.

No Brasil, é um orixá amplamente difundido. Em Recife, seu nome é utilizado para designar o culto de matriz iorubá.

No candomblé, durante a sua dança, Xangô “empunha o seu oxê com altivez. Mais tarde, o ritmo acelera-se e, por gestos, o deus parece tirar de uma bolsa imaginária as pedras de raio, lançando-as na terra. Em seguida, sua dança evidencia o caráter libertino e atrevido do Orixá” (Ibid.,p. 320):

Com Xangô que eu não sei explicar, entende? Porque eu gosto muito assim, eu não sei explicar o lance com Xangô. Eu acho que ele rege sobre mim sim. E... Assim, quando eu fui jogar os búzios com o pai de um amigo meu há muito tempo, ele falava que eu sou Iansã e Oxóssi, que é a mata. E Iansã, e

tal. Mas eu tenho uma ligação muito forte com Xangô. Eu gosto de todos os orixás, mas pra mim, comecei a entender a partir de gostar memo, né? E como é resquícios, aos poucos vai, né?, eu vou me reeducando, porque isso aí eu já sei tudo, só preciso vim trazendo as lembranças, tal.

A relação de Ilícito com os orixás é afetiva. O “seu” Xangô não é o Xangô do xirê, que dançando incorporado no corpo de um filho-de-santo, reproduz simbolicamente as passagens míticas presentes na liturgia do candomblé. Não é o orixá Xangô para o qual se fazem oferendas em busca de justiça ou da conquista da pessoa por quem se está apaixonado, mas de quem não tem a atenção.

Ildásio Tavares (2002), em livro dedicado ao orixá Xangô, informa que, mais que um orixá guerreiro, Xangô é um orixá justiceiro.

...Com sua grandeza e majestade guerreira, com seu papel de justiceiro, Xangô serviu muito mais ao povo negro do que a figura pacificadora de Oxalá. Símbolo supremo de vida, de realeza do negro, de luta, de tenacidade e de erotismo, Xangô, sem dúvida, figura como o intenso fogo que alimentou a resistência escrava, que aqueceu, que temperou, que vivificou e solidificou a coesão negra... (Ibid., 69)

O “guerreiro” e o “justiceiro” são figuras com quem Ilícito tem identificação. Essas características estavam presentes no Rei Xangô, no homem de nome Xangô, antes que ele fosse divinizado, como nos conta a lenda133 a seguir:

133 A autoria da história, segundo Verger (2000), é de Martiniano do Bonfim, natural da Bahia, mas que

havia vivido na Nigéria. Martiniano do BONFIM. “Os ministros de Xangô”. In: O Negro no Brasil. Rio de Janeiro, 1940.

Béri, mais tarde denominado Xangô, conquistou Oyó, se impôs ao rei Arogangan e governou em seu lugar. Dois guerreiros, Timi Agbali-Olofa-Ina e Gbonka- Ebiri, vão aprender com ele a tática da guerra. Voltam-se em seguida contra Xangô, que não os pode vencer. Xangô, sem que ninguém soubesse como, desaparece em meio às tribos estupefatas. Houve grande clamor na terra e, mal Xangô desapareceu, uma tempestade de violência jamais vista abateu-se sobre o mundo, acompanhada de trovões, raios e relâmpagos... Os homens da nação Nagô (Iorubá) sentiram medo e exclamaram: “Xangô tornou-se rei”. Os dois guerreiros que haviam provocado o desaparecimento de Xangô regressaram a seus países de origem. Os ministros de Xangô, os Mangba, instituíram o culto do Orixá, atribuindo-lhe no céu as mesmas preferências que ele tivera na terra por certos animais como o carneiro, e por certos comestíveis como o quiabo etc. Daí se origina a divinização de Xangô. Passado algum tempo, formou-se um conselho de ministros encarregados de manter seu culto. Esse conselho foi organizado com os doze ministros que, na terra, o haviam acompanhado, seis do lado direito, seis do lado esquerdo. Esses ministros, antigos reis, príncipes e governantes dos territórios conquistados pela bravura de Xangô, não permitiram que se extinguisse a lembrança do herói na memória das gerações. É por este motivo que, num terreiro da Bahia, consagrado a Xangô Afonjá, doze ogãs, protetores do templo, têm o título de ministros de Xangô.134

134 Tavares (2000) informa que a criação do corpo dos obás de Xangô na Bahia é atribuída a Mãe Aninha,

do Ilê Axé Opô Afonjá, em 1935. Segundo o autor, os obás de Xangô têm funções litúrgicas, principalmente no ciclo de festas dedicado a Xangô, mas também as exercem em todas as festas e

cerimônias por sua “preeminência hierárquica”. Os obas têm ascendência sobre os ogãs, que são ministros dos outros orixás. Os obás seriam “ministros mais graduados”, reis de uma corte mítica de 12 reis iorubás sob a hegemonia do rei de Oyó, o “super-rei”, orixá, Xangô. Por ocasião do lançamento do livro de Tavares, entre os que ocupavam o cargo de obás de Xangô no Opô Afonjá estavam o escritor Jorge Amado, o pesquisador e escritor Muniz Sodré e o músico Dorival Caymmi (p.53-57).

O autor nos ajuda a compreender a identificação de Ilícito com a figura de Xangô:

Foi o egbé, a comunidade, e principalmente o culto ao vermelho135, centrado

em Xangô, e em sua corte que engendraram a dinâmica de resistência dos escravos embasada no espírito de coesão e preservação identitária que os orixás possibilitam e a conseqüente imitação de suas ações, identificando-se o escravo com seu orixá e seguindo o seu odu, caminho, que é uma lenda, que é uma canção. (Ibid., p. 70-71)

Como “o rei dos reis” responsável por um longo período de apogeu no reino que governou (Oyó) em função de sua estratégia de guerra e da mobilização à coesão de seu povo, Xangô foi grande referência para os africanos e descendentes de africanos no Brasil, não só da etnia iorubá, mas também daqueles que com os iorubás conviveram e a eles se uniram na resistência à escravidão – muitas vezes, indivíduos de etnias inimigas em solo africano se uniram nesse novo contexto que engendraria também novas identidades. O homem guerreiro, referencial de liderança e justiça, faz de Xangô uma figura com que Ilícito se identifica.

Para conhecer um pouco mais desse orixá podemos recorrer às suas insígnias. Os símbolos de Xangô mais comumente vistos são a coroa (expressando sua realeza), o xerê, chocalho de cobre que é usado durante o toque em devoção a Xangô, e o oxê, ou machado duplo que Tavares (2000) entende como, “além de símbolo do poder de Xangô sobre o raio e o trovão,

135 “As cores simbólicas ou heráldicas de Xangô são a vermelha, sua cor característica, representando o

fogo, mais a branca, indicando sua origem em Oxalá, a marca da paternidade que não é renegada mas incorporada” (Tavares, 2002, 71).

como a resolução, a conciliação das polaridades como guerra x paz, masculino x feminino, inocente x culpado, bem x mal, e o oriental yin x yang” (p. 104-105).

Faz-se necessário ressaltar ainda que cada orixá possui diversas qualidades que, a rigor, são outros orixás. Xangô possui doze qualidades diferentes, entre elas, o jovem, o velho e o rei. Mas os orixás também interagem: além do orixá principal, uma pessoa tem ainda o “adjuntó” (terceiro orixá) e pode ter outros orixás disputando a sua cabeça. Isso faz com que os modelos de comportamentos psicológicos do candomblé formem um número infinito de combinações possíveis. Se forem tomadas as qualidades já catalogadas, o número pode ultrapassar a casa dos dois quadrilhões. Disso se infere que um valor supremo do culto aos orixás é a valorização da diferença (Carmo, 2006, p.26-27).

Diferente das religiões de “unidade”, relacionadas a existência de um único Deus que se multiplica em atividades, campos de atuação e sub personalidades136, os orixás estão relacionados à diversidade da psique humana:

Um sistema que abarca várias personificações do divino se presta muito melhor à expressão da pluralidade de forças psíquicas, que atuam de maneiras diferentes, do que um sistema unitário, que deve, necessariamente, recorrer a atributos e atuações diversificadas e às vezes contraditórias da divindade. (Carmo, 1998, p. 86)

136 Como as classifica Zacharias (1998, p. 84), em contraposição às religiões de pluralidade, em que cada

Dentre os aspectos da psique humana aos quais Xangô está relacionado, consta o seu atrevimento nas questões relacionadas ao amor e às conquistas. Como no mito que narra o encantamento simultâneo de Xangô por Iansã e Oxum:

Iansã foi mulher de Xangô. Oxum foi sua concubina. Ele sempre ficou com elas. Xangô era famoso por sua maestria com a espada. Sua fama de grande espadachim corria longe. Um dia chegaram três desconhecidos para aprender com ele. Xangô era desconfiado das coisas. Pressentiu a traição e começou a lutar com os três homens. Eles haviam acendido um fogo atrás do lugar onde seria a luta, pois queriam empurrar Xangô para lá. Xangô se defendia e lutava sem parar, mas eles o empurravam para o fogo, porque eram três contra um. Então Xangô reconheceu finalmente que seria derrotado e chamou Iansã e Oxum. Iansã soltou o relâmpago e Oxum deixou que corressem as águas. E os três subiram para o Orum. Os três se encantaram, agora em orixás. (Prandi, 2001, p. 276)

Não será possível, nesta pesquisa, dar real atenção a esse aspecto na mitologia iorubana. O que podemos afirmar é que as várias possibilidades de comportamento humano estão presentes nas ações dos orixás, fazendo com

que seus filhos tenham uma idéia aproximada do destino ao qual estão relacionados, com que características psicológicas estão mais afinados.

No contexto desta pesquisa, cabe registrar que, ao saber que Xangô tem uma vida amorosa agitada, intensa, a figura de Xangô se fortaleceu como uma referência para Ilícito.

Este mito, no entanto, mostra o guerreiro se dando conta de sua vencibilidade na guerra. Para a vencibilidade reconhecida, havia o caminho do orum, o mundo invisível dos iorubás – acompanhado de suas duas mulheres, sem idéia de pecado ou bigamia presentes, mas do arbítrio humano em que o limite é a injustiça. E levando-se em consideração a formulação de Campbell (Campbell & Moyers, 1988), para quem todos os mitos lidam com a transformação da consciência – quando se vinha pensando de um certo modo, é dado o caminho para se pensar de um modo diferente –, é a possibilidade de outros caminhos que está presente, contrariamente à idéia de um único caminho, de um dogma a ser seguido.

7.13 Dos mitos iorubanos para o contexto histórico da