4. Architectural and Aesthetic Quality in Shopping Centres
4.3. What is Architecture and Aesthetic Quality?
4.3.3. Functionality and Flexibility
Na visão de Ilícito, todos os homens nascem livres. Há os que ficam doentes no decorrer da vida. Há os que se tornam inconscientes... O homem livre é o que luta contra a doença e o seu papel é combatê-la. No combate, não
140 A esse respeito ver CASTRO (2001).
141 A respeito da relação entre saberes africanos no Brasil e novas pedagogias para a produção de
conhecimento, sugiro a leitura de Vanda MACHADO, “Ilê Axé: vivências e invenção pedagógica – as crianças do Opô Afonjá”, Salvador (BA): EDUFBA, 2002; e Nelson PRETTO & SERPA Luiz Felipe, “Expressões de sabedoria: educação, vida e saberes – Mãe Stella de Oxóssi e Juvany Viana”, Salvador (BA): EDUFBA, 2002.
há possibilidade de “mesmice”, de reposição de uma identidade. No combate, estão, também, a metamorfose e a busca de autonomia:
Doente tem em todo lugar, independente da etnia e da raça, né? E infelizmente [eles] nascem pessoas livres... Tem três tipos de pessoas no mundo: o livre, o inconsciente e o doente, entendeu? O livre é o rasta... que nada atinge ele. E o papel desse rasta é não se acomodar, pra combater a doença. O inconsciente é aquele cara que é doente e não sabe?, porque ele segue simplesmente a hierarquia, as regras da sociedade e infelizmente o racismo no Brasil é institucional, se você seguir direitinho as regras você se torna um racista em potencial, entendeu? E... ´Tão, tem várias frases de efeito que cê sabe que tá no popular brasileiro e... E esse inconsciente às vezes fala “chuta que é macumba”, tá ligado? E ele não sabe o que ele tá falando, entendeu? Ele tá falando merda, ele tá equivocado, entendeu? Então esse é o inconsciente, ele é racista e não sabe. E tem o doente. O doente é esse memo, que cê tem que tratar ele. E o papel do homem livre é combater a doença, entendeu? [São os} Outros que se cuidaram e assumiram a vida como uma luta e não deixou ficar doente, que é o meu caso.
O inconsciente não sabe que está doente. Vivendo entre outros inconscientes, a doença fica ainda mais difícil de ser detectada. Chamar a um negro de macaco em uma partida de futebol, como aconteceu com o jogador Grafite na partida da Seleção Brasileira contra a Argentina em 2005. Desábato, o agressor, somente seguiu o que os padrões culturais de sua sociedade lhe prescreveram, tornando-se um “inconsciente”. Como “doentes”, temos os exemplos dos neofascistas, só acobertados por outros “doentes”.
Seguir a hierarquia, como é o caso do inconsciente, é internalizar práticas sociais de forma heterônima, sem autonomia, portanto, sem emancipação possível. Lutar contra a doença, como Ilícito se refere ao racismo, é sinônimo de emancipar-se, de se soltar da “manilha e do libambo” instituídos pelos padrões sociais e culturais seculares impostos pelo “padrão universal branco”, em que o lugar do universal é ocupado por um grupo humano somente, cabendo aos demais a assimilação, a subordinação. A busca
da autonomia no processo de construção da identidade humana de Ilícito foi acompanhada pela narrativa de sua história de vida, quando se propôs a responder à pergunta sobre quem é e quem gostaria de ser.
O hip-hop, como uma rede, uma matriz, viabiliza esse contato com o candomblé. Pelo hip-hop, como forma de linguagem, está se processando uma espécie de “visão mais universalista do candomblé”,142 do qual é possível alimentar-se “retoricamente” ou mesmo no desenvolvimento de um acesso ao sagrado particular, de forma a possibilitar a afirmação de identidades. Utilizando o conceito de Ferreira (2000), identidades “positivamente afirmadas”.
Ilícito foi escolhido para esta pesquisa por ser considerado um sujeito emblemático. Outros hip-hoppers traziam o candomblé e os orixás em letras de rap, em estampas de camisetas... Dentre eles, os que não pertenciam a um egbé chamaram a atenção, exatamente por essa razão: se não são do candomblé, por que expressam essa questão? Ilícito aponta um caminho, caminho escolhido por outros, uma vez que o aumento gradativo dos que comparecem a toques de orixás como “assistência” (como são chamados os que vão para assistir à festa) e para consultas aos búzios têm aumentado gradativamente, enquanto o aumento do número de “iniciados” não se verifica143.
A pretensão universal do candomblé, exemplificada no seu princípio de respeito à alteridade, está – no mesmo movimento da circularidade da “roda sagrada” – “dialogando” com o hip-hop que, como em um movimento de retribuição, difunde uma visão mais universalista desse sistema religioso e filosófico baseado no qual é preciso vivenciar o dia-a-dia para partilhar do axé.
142 Fazendo uso da proposta do professor Juarez Xavier, por ocasião do exame de qualificação desta
Nesse movimento, foi preciso morrer-para-viver-para-morrer-para-viver... Foi necessária a metamorfose.
A semana que vem você vai vim falar comigo e eu vou tá diferente, meu. Cada dia eu sou uma pessoa. Tento empilhar os livros no lugar e vejo que no final da noite as coisas que eu tentei concluir durante o dia estão... pelo menos, concluídas. No outro dia, mais um dia. E uma coisa de cada vez. Um tijolo de cada vez, entendeu?
Busca o texto do Luiz Gama de novo e recita o poema todo, “rapeando”:
Amo o pobre, deixo o rico, Vivo como o Tico-tico;
Não me envolvo em torvelinho. Vivo só no meu cantinho: Da grandeza sempre longe Como vive o pobre monge. Tenho mui poucos amigos, Porém bons, que são antigos, Fujo sempre à hipocrisia, À sandice, à fidalguia; Das manadas de Barões? Anjo Bento, antes trovões. Faço versos, não sou vate, Digo muito disparate, Mas só rendo obediência À virtude, à inteligência: Eis aqui o Getulino
Que no pletro anda mofino. Sei que é louco e que é pateta Quem se mete a ser poeta; Que no século das luzes, Os birbantes mais lapuzes, Compram negros e comendas, Têm brasões, não – das Kalendas; E, com tretas e com furtos
Vão subindo a passos curtos; Fazem grossa pepineira. Só pela arte do Vieira, E com jeito e proteções, Galgam altas posições! Mas eu sempre vigiando Nessa súcia vou malhando De tratante, bem ou mal, Com semblante festival. Dou de rijo no pedante De pílulas fabricante,
143 Informação de Juarez Xavier. Vide nota anterior.
Que blasona arte divina, Com sulfatos de quinina, Trabusanas, xaropadas, E mil outras patacoadas, Que, sem pingo de rubor Diz a todos que é DOUTOR! Não tolero o magistrado, Que do brio descuidado, Vende a lei, trai a justiça - Faz a todos injustiça - Com rigor deprime o pobre Presta abrigo ao rico, ao nobre, E só acha horrendo crime No mendigo, que deprime. - Neste dou com dupla força, Té que a manha perca ou torça. Fujo às léguas do lojista,
- Do beato e do sacrista - Crocodilos disfarçados, Que se fazem muito honrados Mas que, tendo ocasião, São mais feros que o Leão Fujo ao cego lisonjeiro, Que, qual ramo de salgueiro, Maleável, sem firmeza, Vive à lei da natureza
Que, conforme sopra o vento, Dá mil voltas, num momento. O que sou, e como penso, Aqui vai com todo o senso, Posto que já veja irados Muitos lorpas enfunados, Vomitando maldições, Contra as minhas reflexões. Eu bem sei que sou qual Grilo, De maçante e mau estilo; E que os homens poderosos Desta arenga receosos Hão de chamar-me Tarelo, Bode negro, Mongibelo, Porém eu que não me abalo, Vou tangendo meu badalo, Com repique impertinente, Pondo a trote muita gente, Se negro sou, ou se sou bode, Pouco importa. O que isto pode? Bodes há de toda casta,
Pois que a espécie é muito vasta... Há cinzentos, há rajados,
Baios, pampas e malhados, Bodes negros, bodes brancos, E, sejamos todos francos, Uns plebeus e outros nobres, Bodes ricos, bodes pobres, Bodes sábios, importantes,
E também alguns tratantes... Aqui, nesta boa terra,
Marram todos, tudo berra; Nobres Condes e Duquesas, Ricas Damas e Marquesas, Deputados, senadores, Gentis-homens, vereadores; Belas Damas emproadas, De nobrezas empantufadas; Repimpados principotes, Orgulhosos fidalgotes, Frades, Bispos, Cardeais, Fanfarrões imperiais,
Gentes pobres, nobres gentes Em todos há meus parentes. Entre a brava militança Fulge e brilha alta bodança; Guardas, Cabos, Furriéis, Brigadeiros, Coronéis Destemidos Marechais, Rutilantes Generais, Capitães de mar-e-guerra - Tudo marra, tudo berra - Na suprema eternidade, Onde habita a Divindade, Bodes há santificados, Que por nós são adorados. Entre o coro dos Anjinhos Também há muitos bodinhos O amante de Syringa
Tinha pêlo e má catinga; O deus Mendes, pelas costas, Na cabeça tinha pontas; Jove, quando foi menino, Chupitou leite caprino; E segundo o antigo mito, Também Fauno foi cabrito. Nos domínios de Plutão, Guarda um bode o Alcorão; Nos lundus e nas modinhas São cantadas as bodinhas: Pois se todos têm rabicho, Para que tanto capricho? Haja paz, haja alegria, Folgue e brinque a bodaria; Cesse pois a matinada, Porque tudo é bodarrada!144
144 Para palavras inteligíveis e grafia correta dos versos, a partir da declamação de Ilícito houve
conferência junto à versão do poema que consta do livro “O negro em versos: antologia da poesia negra brasileira” (SANTOS; GALAS; TAVARES, 2005).