Entrevista I
Sexta-feira, 27 de outubro de 2006. Zona sul de São Paulo.
Ilícito, 28 anos.
Explico do que se trata a pesquisa e como serão realizadas as entrevistas. Havia uma preocupação dele em ser “mais claro nas idéias”, em “diluir mais as idéias” e “não viajar muito”.
Perguntei se a preocupação era pelo tempo, já que a intenção era ouvir o que ele tivesse pra dizer da forma que ele quisesse dizer. Não responde.
Faço a pergunta: “quem é você e quem você gostaria de ser”.
Ele sai à procura de um texto, pega as folhas impressas e diz “do Luiz Gama”. Ilícito: Acho que a melhor maneira de eu me apresentar é lendo Luiz Gama, que era um advogado, que entrou na política, conheceu de perto e era abolicionista, este texto é de 1859. Na verdade, ele já tinha escrito em 56 e foi publicado acho que em 59, e ele foi um dos maiores da luta abolicionista. E a mãe dele também, era Luiza Mahin, que lutou na Inconfidência dos Malês em 1835 na Bahia e ele foi vendido pelo pai que era branco, fazendeiro, feudal, que perdeu toda a riqueza em jogos, ele era viciado em jogos e vendeu o filho como escravo, porque a mãe dele era negra. Depois ele veio pra cá, pro interior de São Paulo e venceu, tá ligado?, e aqui acho que a melhor forma de eu me apresentar nessa pergunta sua é... “Quem sou eu”. “Quem sou eu? que importa quem? sou um trovador proscrito, que trago na fronte escrito essa palavra: ninguém’. É isso. Eu sou aqueles cara que fico... sou o último do boteco. (silêncio de alguns segundos).
Liliane: como é que isso?
Ilícito: “na hora em que o boteco está fechando eu sou um dos últimos, tá ligado? Tipo, eu não tô preocupado com... (acende um cigarro) tô preocupado de viver, sabe? Os caras... por isso que o mundo tá... o pessoal almeja sucesso, almeja fama, ibope, dinheiro, pá, acredito só num lance que é qualidade de vida, minha religião é o Corinthians e Deus é fiel.
(silêncio enquanto ele sopra a fumaça do cigarro, que sopra e não diz nada) Liliane: tudo isso é você?
Ilícito: É. É. (alguns segundos de silêncio novamente) Liliane: e tem mais coisa?
Ilícito: e tem meu trabalho, que é a minha obra, da minha vida. As pessoas só... hoje como tudo é imediato, é só pesquisar. Minha vida é uma pesquisa. Uma
alquimia, né? Que nem fazer um rango, adoro misturar os ingredientes assim. É isso. Minha vida tá em torno da minha obra. E minha obra não tá nem na metade, tá ligado?
(silêncio)
Liliane: e o que é a tua obra? (o celular dele toca, interrompemos pra ele atender. Ele desliga o aparelho. Voltamos à entrevista. Ele fica parado, esperando que eu recomece).
Liliane: sua obra. Ilícito: oi?
Liliane: sua vida gira em torno da sua obra e sua obra não tá nem na metade, é isso? O que é a sua obra?
Ilícito: a que Deus mandou pra mim. Só tô psicografando, cê tá ligado?, a parada. É bem isso assim, na verdade, é isso. Tudo que é feito tem uma força superior agindo sempre. É isso. (silêncio)
Liliane: e o nome disso qual é, dessa força superior pra você?
Ilícito: é tudo que tá ao redor, né? O ar, o béque (cigarro de maconha), a natureza, o sol... tudo é Deus pra mim. Tudo que é divindade que é sagrado, eu respeito. Tudo que é entidade. Eu acredito em toda essa parada (sopra a fumaça do cigarro). Por isso que eu não tenho religião. Por causa disso. Minha religião é o Corinthians. Nesse sentido de não seguir dogma, não gosto de ninguém... (interrompe a frase). O que age sobre mim são as forças superiores, que tá em tudo assim, não o homem. Só isso que eu não gosto. Cê se apega com as coisas que cê tá enraizado, né?, que nem o Corinthians. Aí cê vai transformando isso assim. Meu não vai confundir que nem... pra confundir a mente dos que se diz sábio. É isso. Chapar a mente da galera. (silêncio de alguns segundos).
Liliane: eu queria pedir pra você falar mais dessa coisa do não ter religião. Ilícito: não, eu não disse que eu não tenho religião.
Liliane: ah, tua religião é o Corinthians, desculpa...
Ilícito: minha religião é o Corinthians. Eu não tenho essa religião dogma, né? Essa coisa... eu tenho o meu estilo de vida rasta, minha filosofia de vida rasta. Não como carne, sô vegetariano não tão radical assim. Mas eu acho que a... rasta cê alcança uma elevação espiritual e na vida de conquista em várias outras coisas que você se torna um rasta com o tempo, então o importante é partir de algum momento. Minha filosofia que eu, que eu me aproximo é o lance rasta. Convivo hoje muito com os irmãos islâmicos, tô ali com o Corão ali assim, com bastante presságios do islão, que eu acho que é uma religião de resistência, ir prum templo, vô, sem nenhum problema, leio, pra mim tudo é
informação. Acho que a religião educa o povo, tá ligado?, muitos tão esperando Jesus voltar pra mim ele já veio e tá voltando de novo, tá ligado? Minha família aqui é espírita, altas famílias são protestantes, outras, a maioria são católicos, eu tenho orixá no meu corpo, acredito nos primeiros habitantes da terra, na ligação forte com o candomblé. Gosto de tomar bebida de poder, tá ligado? Liliane: gosta de quê?
Ilícito: bebida de poder, planta de poder, gosto do daime, leio muito Castanheda, lance de xamanismo, de Xamã, os “brujo” antigo do ... (fala algo parecido com Ibé, não consegui entender). Eu ajo muito nessas coisas voltadas à terra memo, tá ligado?. Reino vegetal, alimentação vital. Que é da natureza, que é vital pro homem se alimentar sem precisar se alimentar dos animais, entendeu? Alimentação vital, comida tradicional dos rastas. Que é baseada em legumes, ervas, frutas, entendeu? Coisas da terra, sem muito extrativismo animal. Mas não tão radical, né?
Liliane: e você pode falar um pouco mais dessa parte em que você falou de ter um orixá no seu corpo. Morando no seu corpo?
Ilícito: não, tenho tatuado. Tenho tatuado Xangô. Eu cultivo muito os orixás. Tenho o maior respeito com o sincretismo religioso africano e também pra mim é um processo de trabalho espiritual. Você chega numa evolução e eu tô nesse processo. (sopra a fumaça e faz silêncio)
Liliane: Fala mais desse processo.
Ilícito: processo de conhecimento mesmo, né? É você chegar ao rito, finalmente. Tô num processo de conhecimento, de evolução mesmo assim. Que nem religião. Eu sou um cara religioso, tenho deus no coração, sou cristão, sem religião (ri e faz silêncio). Eu tava conversando com um ateísta ele falou “eu sou ateísta” e fez um discurso ateísta e tal, mas no final eu falei “firmeza, tal”. E aí ele falou mais uma parada e a gente voltou nessa parada “tu falou que tua religião é o corinthians, eu tenho muita fé no corinthians, sou fiel ao corinthians”, eu falei “pô, véio, se tu tem fé então cê não é ateu” (rindo), e ele falou “pelo corinthians...”, eu acho que o corinthians mudô, tá ligá (silêncio). Acho que tem uma força maior agindo sempre. O lance da poesia, por exemplo. O bagulho vem memo, sabe?, é uma psicografia, meio Chico Xavier a parada, várias forças. Uma parada que a gente viaja no daime é isso. Uma das organizações religiosas hoje, o lance dos hab... (não termina a frase), passar várias entidades, de ter vários leques abertos, de ter várias linhagens, desde o mestre Irineu, mestre Sebastião, da linhagem dos indígenas lá da Amazônia, manipular planta de poder, hinos, cânticos e todo o ritual de dança com os instrumentos, sabe?, toda uma coisa de busca interior e de limpar o espírito e o corpo também e passar todas as entidades com o respeito do sagrado a todas as entidades. E é loco isso.
Liliane: isso é no daime?
Ilícito: isso é no daime, por exemplo. Tem vários rituais indígenas, não só o daime. O daime é mais conhecido e universal hoje . Tem o “unipai”, que é da
tribo dos Kaxinawá. Tem cada tribo indígena mais no norte da Amazônia que usam planta de poder, cada um tem o seu ritual. Eu tive a satisfação de conhecer um jovem que veio estudar aqui, lá da tribo..., príncipe da tribo, né?, filho de um grande pajé, que ele tinha o ritual do “unipai”, eu gosto dessa parada de planta e poder. Tinha um bruxo, um amigo meu que já faleceu, que era paraplégico, ele viajava muito nesse lance de transcender. É loco. Hoje a gente vive na quebrada que é um lance quimical, eu na verdade curto mais um lance das plantas de poder. (Silêncio). Mais pra abrir a percepção, a consciência, entendeu?, pra lidar com as coisas do mundão, que hoje pra sair pro mundão, nossa, tem que ter mó mente mil grau, agir na pura calma (rapeia) ‘o processo é lento, o barato é loco’. Que nem eu tava ouvindo um repentista tem uma música que ele fala isso, né?, ‘o processo é lento, tô desarmado’. Mas a gente fala que é época das colheitas, né?, reparação, época das colheitas. É... Época das colheitas.
Liliane: agora é época das colheitas? Como assim?
Ilícito: É isso, entendeu? Como assim?! A gente plantou, agora tem que colher, né? E é o ciclo natural do ser humano que trabalha. Ser beneficiado com o fruto do esforço dele, né? É natural. Agora pra muitos, (é o que) tô falando entendeu?, vitória é qualidade de vida, dar tranquilidade pra minha família, poder continuar transformando o que tá a sua volta, entendeu?, porque não adianta mudar pra você sendo que a sua volta tá a mesma merda, entendeu?, então pra mim essa situação continua a mesma só que eu sou um ponto de ligação que posso transcender e levar muito mais coisas. E pras pessoas podê acreditar que eu posso levar isso a eles, eu tenho que tá bem. Só que o momento não tá bom pra ninguém. E aí que tá o mundo ilusório, da arte, da fama, de você achar que é antes de ser. Por isso que eu acho que a parada gira em torno da obra, do que você constrói. Tava ouvindo... eu fico ouvindo aqui uns tiozinhos... o Adoniran Barbosa fala ‘eu fiquei a vida inteira cantando errado e todo mundo ria de mim. Um dia um descobriu, estorou, e agora todo mundo tenta falar errado’. Não consegue, porque até pra falar errado tem que saber, entendeu? Uma das coisas que a sociedade tem preconceito com o rap é isso, que a gente fala muito na gíria, tem vários dialetos que... O Alckmin lá acabou de inaugurar a biblioteca de língua portuguesa, tá ligado?, em 2006 eles conseguiram acabar de vez com o iorubá, o tupi-guarani, cortar cada vez mais cortar os dialetos e impor o português que é a quarta, quinta língua mais falada no mundo. Isso aí vem sendo feito desde o início do século 18, 19 que os... (não completa a frase). Até 1900 e pouco, a gente falava vários dialetos que é uma parada que depois os tropicalistas vieram falando que a gente falava brasileiro e tal mas até ins...(não termina) se um país fala tupi-guarani com mais de cem dialetos, pegando todas as etnias indígenas, pegando também todos os povos africanos que veio que era (não termina), basicamente, uma grande parte falava iorubá porque foi a língua que tiveram que se adaptar, né?, pra que tivessem uma informação e mais comunicação entre os negros do Brasil, porque vieram de toda parte da África, entendeu? Então a gente falava iorubá, também. Vieram cortando com o lance do português. Então o lance do brasileiro é de falar brasileiro, porque a gente mistura aqui todos esses costumes que foram cortados pela sociedade, pelo grande centro. E a elite não tem conhecimento. A gente às vezes vai numas festas aí, nuns casarão, e os
caras põem os preto pra tocar no fundo, reprodução da senzala, sabe? Da época dos casarão antigo. Cê pára no farol os cara te dá um panfleto daquele que, pra você comprar o apartamento, cê vê lá um quarto de empregada, reprodução da época do escravocrata. São várias coisas que eu vejo que hoje o capitalismo condiciona e o capitalismo pelo capitalismo não transforma em nada, entendeu? E essa coisa de condicionar dentro de uma lei de uma forma de sociedade onde a felicidade gira em torno do bem material, entendeu?, e que é um bem material que o cara acha que vai tê, vai tê, vai tê e o rico quando tem não tem, e o pobre fica querendo tê e quando tem se perde porque nunca teve e aí rola todo um processo de adaptação. Muito louca essa parada. Então o lance que eu falei no início é o lance de transcender, o lance do espiritual, uma coisa que vai ficar pra vida, então é todo um (não termina)... Isso aí vai vim como conseqüência do trabalho que cê quer plantar, entendeu? Tenho uma véinha de 86 ano, minha mãe, meu pai, tano doente, meu irmão, a gente tem que ir nos postos do governo, entendeu? Eu queria ter um plano de saúde... esses barato que eu tava falando que eu viajo que é melhor falar da minha coisa que é legal, que é lícito, das coisas que eu posso acreditar que eu posso mudar pra minha vida e pra minha família, ter um plano de saúde, poder pagá as conta... são coisas bestas, supérfluas, que pra quem tem qualidade de vida são detalhes. Poder se alimentá beeem... umas parada assim, sabe? Outra coisa assim, o lance do meu trabalho, tem uma dimensão, essa parada, tentando cada vez tá melhor pras pessoas que ouve o meu som, porque a gente tem realmente um compromisso com a mensagem, entendeu?, é o lance coletivo do grupo e tal, e meu som, eu, pessoa, essa coisa que cê quer falar, ainda não acho (não termina), não tá (não termina) um pouco preparada pra ouvir, mas vai chegar o momento. Pra nóis nunca foi fácil, sabe?, as parada aqui é que nem uma lenda. Aí não tem jeito, “calma, vai sair, tem paciência. Tudo é um processo, da hora que Deus quer, que Jah quer, dessa força quer. Ou quando a gente consegue abrir todos os caminhos, entendeu? É sempre assim, muito loco (Silêncio).
Liliane: então você é tudo isso?
Ilícito: não sei se sou tudo isso. Nóis somos né. Faço parte dessa, desse... minúsculo grão de areia onde você é um ponto de ligação que brilha tá ligado?, às vezes cê tá na praia cê vê um grão de areia que brilha mais que os outro, entendeu, é um ponto de ligação que pode fazê com que a galera que tá passando olhe praquele tanto de areia, entendeu? (traga o cigarro e sopra. Longo silêncio). Cê num acha?
Liliane: Quero continuar te ouvindo.
Ilícito: ah... se cê continuar perguntando. Já tá passando a hora? Tô... no relógio. Tá acabando já, né?
Liliane: Eu gostei dessa história do grão de areia que brilha e que faz com que as pessoas olhem, aquele grão de areia que brilha faz com que as pessoas olhem praquele monte de areia, é isso?
Ilícito: é. (ri e sopra a fumaça do cigarro). O problema que rola é quando esse grão de areia acha que ele é uma estrela (dá risada).
Liliane: hmmmmm...
Ilícito: quer brilhar demais. Por isso que tem uma música do Varal, que é uma banda de reggae aqui da quebrada, que ele fala (cantando) “desapegando do plano material seguindo os meus passos sei que vou chegar, raggamuffin style the roots, raggamuffin black and blues, quero ver a queda da Babilônia, conquistar a paz para caminhar desapegando do plano material seguindo os meus passos sei que vou chegar”.
Liliane: “desapegando do plano material, seguindo os meus passos sei que vou chegar”... (cantarola, em ritmo de reggae)
Ilícito. É (pequeno silêncio). Enquanto os cara usa ouro, a gente usa a arte dos mestres que entorta arame (mostra os braços, cheio de pulseirinhas). “Cada um no seu skate”, que nem diz o Bocão (silêncio). Né não? (sorri e faz silêncio) Liliane (espero um pouco e pergunto): e que mais?
Ilícito: mais o quê, meu?
Liliane: e quem você gostaria de ser? Ilícito: eu mesmo. Ser quem?
Liliane: e como é que é eu mesmo?
Ilícito: É essa coisa que eu me transformei aqui, mutante. Liliane: mutante? Como assim?
Ilícito: que não pára de se transformar, meu. É isso memo. (silêncio)
Liliane: então me fala desse “não pára de se transformar”. Como é que é isso? Ilícito diz algo incompreensível, resmungando baixinho. “Sei lá, é que nem o hip-hop meu. O hip-hop não cresce o tempo inteiro? Os cara acha que é só música. Não é só música. Tem muita coisa acontecendo. Mutante memo”. (silêncio)
Liliane: então você é mutante que nem o hip-hop?
Ilícito: o hip-hop é mutante. Eu sou um hip-hoper mutante. Liliane: você é um hip-hopper mutante.
Liliane: e o que é ser um hip-hopper?
Ilícito: é ser universal, mano. Todos os lugares do mundo que eu já fui, tem um irmão que é que nem eu (assopra a fumaça do cigarro). Iss´é da hora. Independente da etnia dele. O problema do Brasil é étnico, tá ligado? O lance de não saber respeitar as etnias. Muito mais que a pigmentação e a cor da pele, é respeitar as etnias, entendeu? As etnias indígenas, africanas, européias, árabes, toda a influência mundial, que a raça do planeta tá aqui. Todas. Os orientais... tudo. É saber respeitar isso. (ainda que) as colônias de cada país que não perderam as suas origens. E o mais loco disso é que já se misturaram de uma forma que eu vejo que foi tão agressiva quanto a norte- americana e talvez até muito mais porque trabalhou no inconsciente do povo, tá ligado?, mas que é loco, que é o caldeirão das raças, caldeirão do mundo, e eu luto contra o racismo, acredito nisso, luto contra as diferenças, as indiferenças, minha luta é baseada no lance étnico, tá ligado?, de como a sociedade brasileira, onde o racismo é implantado nas leis e foi jogado pro povo, como lidar e respeitar as etnias, é problema étnico. Assim como o negro teve várias definições, eu fazendo música de preto também, tem várias definições quando eu ando pelo Brasil, tá ligado?, me chamam de várias formas, tá ligado. O último foi “africano de pele clara”. Eu acho que é um lance que vai além da cor da pele, é um lance da poesia de uma poesia que fala “que a pele negra não seja escudo para os que habitam na senzala do silêncio porque nascer negro é conseqüência, ser é consciência”. É isso. (Ele mexe a cadeira e o barulho não me deixa entender as duas primeiras palavras d frase seguinte). ... o conhecimento, que é a definição do quinto elemento, né?, dos cinco elementos que o hip-hop contém, tem uma música do [norte-americano] KRS-ONE que é “Nine Elements”, tem uma música que fala de 12 elementos, outra que fala que tem 20, então, com tantos elementos, elementos que queriam transformar em elementos, o [Áfrika] Bambaataa1, os caras falaram “não, é quatro elementos da forma original – o MC, o DJ, o b-boy, poping, locking, dança original, dança de rua; grafiteiro, e o conhecimento”. Cinco elementos. Pronto. E o conhecimento engloba tudo. Engloba tudo não: adiciona todas essas paradas que as pessoas acham que faz parte do hip-hop, tá ligado? Por isso que eu falo que é mutante, porque tô ouvindo bastante “crunk” do Lil John. Os muleques ainda não sabe o que é crunk. Mas é uma batida que os caras faz lá fora e eu acho bem loco... é do hip-hop. Lá fora tão fazendo “grime”, na Inglaterra. É hip-hop entendeu? Então tem coisa rolano... ouço muito break beat, eletro funk, viajo nuns crônico, que a gente faz aqui, crônico. Liliane: crônico?
Ilícito: é. Viajo nesse lance de Luiz Gonzaga, sabe?, de criar um ritmo, sabe? A gente viaja, eu viajo nesse naipe. Criar um ritmo é da hora. Criar um ritmo, tá ligado? Em meia hora os cara tão criando umas parada. Tô ouvindo “double step”, é uma parada da Inglaterra também. Ragga-core é de fudê. Então tem muita coisa. Hoje os cara denominaro tudo black, né? Os muleque não sabe definir cada ritmo musical. Não sabe o que é um R&B, um Soul, um Funk ou o próprio funk do Rio de Janeiro, um volt mix, ouvir um tamborzão... os meleque
1 DJ do Bronx (Nova York) fundador do hip-hop. Maiores informações em:
não define, é tudo black, tá ligado? Porque a mídia faz que nem fizeram com o break dance, é original funk, b-boy, b-girl, popping, locking. Original dança de rua. Aí vem um cara e fala “ah, é break dance”. Porque eles dançam no break da música, né? A mídia sempre fez isso. E fizeram com o black agora. Antigamente, o cara tinha que subir o morro para ouvir samba de verdade, partido alto, tinha que ir pras favelas ou prumas festa de 1000 grau pra ouvir show de rap. Agora inverteu. Tem que ir pra Vila Olímpia, mano (fala rindo). Só