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Antes de nos atermos na relação discurso e ideologia, cabe-nos, primeiramente, definirmos e discutirmos o que é ideologia, mesmo que esse termo tenha , ainda hoje, “uma noção confusa e controversa” (BRANDÃO, 2005, p. 18).

Segundo Chauí (2005), o termo ideologia aparece pela primeira vez na França, no início do século XIX, 1801, no livro de Destutt de Tracy, Eléments d’Idéologie. Através dessa nomenclatura, Destutt pretendia elaborar uma ciência da gênese das idéias, tratando-as como fenômenos naturais que exprimem a relação do corpo humano, enquanto organismo vivo, com o meio ambiente. Assim, ele elabora uma teoria sobre as faculdades sensíveis, responsáveis pela formação de todas as idéias do homem: querer, julgar, sentir e recordar.

Com o tempo, esse termo passa a ter um sentido pejorativo, principalmente em Marx e Engels, os quais criticaram essa forma ideológica que partia das idéias para chegar à realidade. Eles identificam a ideologia como a separação que se faz entre a produção das idéias e as condições sociais e históricas em que são produzidas.

Para Marx e Engels (1984), as idéias e normas de ação que permeiam a sociedade são decorrentes da economia, isto é, resultam da maneira pela qual os homens se relacionam para produzir sua existência. Eles consideram que as idéias derivam das condições históricas reais vividas pelos homens ao estabelecerem as relações de produção, isto é, ao se organizarem por meio da divisão social do trabalho. Segundo eles, toda atividade intelectual (mito, religião, moral, filosofia, literatura, ciência) e todas as normas (morais e jurídicas) passam a ser compreendidas como derivadas das condições materiais de produção da existência. Dessa forma, nem sempre o trabalhador tem a clareza da situação na qual se encontra, pois a ideologia faz com que não perceba a exploração de que é vítima.

Chauí (2005, p. 108-109) diz que a ideologia se organiza como

um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (idéias e valores) e de normas e regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer. Ela é, portanto, um corpo explicativo (representações) e prático (normas, regras, preceitos) de caráter prescritivo, normativo, regulador, cuja a função é dar aos membros de uma sociedade dividida em classes uma explicação racional para as diferenças sociais, políticas e culturais, sem jamais atribuir tais diferenças à divisão da sociedade em classes a partir das divisões na esfera da produção.

Diante disso, poderíamos definir que a ideologia é o conjunto de representações e idéias, bem como de normas de conduta, por meio das quais o homem é levado a pensar, sentir e agir de uma determinada maneira, considerada por ele correta e natural.

Por isso, Fiorin (2002) diz que numa formação social, temos dois níveis de realidade: da essência e da aparência, ou seja, um profundo e um superficial. É no nível da aparência que as coisas parecem ser corretas e naturais, todavia, é no nível da essência que existe a verdadeira intenção. Como exemplo: o que no nível da aparência mostra ter uma relação de troca, de ajuda; no nível da essência essa realidade põe-se invertida, pois são relações de exploração, opressão e sujeição.

Transportando essa definição de ideologia para o discurso, temos aquilo que é dito e a intenção do que se diz, ou seja, a aparência do discurso e a sua essência. Segundo Bakhtin (1997, p. 36) “a palavra é o signo ideológico por excelência”, sendo esse signo ideológico mais que um reflexo ou sombra da realidade: um fragmento material dessa realidade. Aquilo que é ideológico possui um significado e remete a algo fora de si mesmo, porque, tudo que é ideológico é um signo. Entendemos que signos são os sinais que o homem produz quando fala ou escreve, havendo a associação entre significante (imagem acústica) e significado (conceito) (SAUSSURE, 1974).

Existem diferenças profundas no domínio do signo, pois ele pode ser ao mesmo tempo uma representação do símbolo religioso, da forma científica, da forma jurídica, etc. Cada campo dispõe de sua função no conjunto da vida social. Bakhtin (1997, p. 37) diz que “o signo é criado por uma função ideológica precisa e permanece inseparável dela”.

Dessa forma, o discurso é formado por processos ideológicos e por fenômenos lingüísticos. Porém, é importante averiguarmos o modo como o discurso é produzido, seu contexto histórico e social, bem como seu papel de relevância. Fiorin (2002, p. 32) afirma que “uma formação ideológica deve ser entendida como a visão de mundo de uma determinada classe social, isto é, um conjunto de representações, de idéias que revelam a compreensão que uma dada classe tem no mundo.” É claro que essa visão está totalmente vinculada a linguagem, pois não existem idéias fora dos quadros da linguagem. Só podemos saber o que o outro pensa e a posição que ele ocupa, quando ele se manifesta através da linguagem. Por isso, “a cada formação ideológica corresponde uma formação discursiva, que é um conjunto de temas e de figuras que materializa uma dada visão de mundo.” (FIORIN, 2002, p. 32)

Brandão (1998, p. 132) falando dos aspectos externos e internos na produção do discurso, ao abordar os externos, fala sobre a interdição e diz:

na interdição não se tem o direito de tudo dizer, não se pode falar de tudo em qualquer circunstância, não é qualquer um que pode falar de

interditos, proibições, que constitui tabus; ou melhor, dentro de cada formação ideológica há toda uma série de elementos que não podem aflorar porque representam perigos, são fatores de desequilíbrio, de desestabilização.

Assim a ideologia dominante e a ideologia de outros grupos da sociedade estão colocadas em discursos e podem ser observadas através de uma análise discursiva, quando observamos as palavras e os signos que mostram a ideologia do sujeito criador e das vozes que foram abafadas ou estão entrelaçadas no discurso.

Bakhtin diz que a comunicação verbal está ligada a uma situação, condição de produção. Ele afirma que

a comunicação verbal entrelaça-se inextricavelmente aos outros tipos de comunicação e cresce com eles o terreno comum da situação de produção. (...) Graças a esse vínculo concreto com a situação, a comunicação verbal é sempre acompanhada por atos sociais de caráter não verbal. (BAKTHIN, 1992, p.110)

É de fundamental importância ver que o contexto em que se estabelece um discurso são lugares que traçam o cenário para que as vozes circulem. Numa análise discursiva não há como desprezar a condição de produção de um discurso, uma vez que ele está atrelado às estruturas sociais.

Conforme diz Orlandi (2001, p. 30):

os dizeres não são, apenas mensagens a serem decodificadas. São efeitos de sentidos que são produzidos em condições determinadas que estão de alguma forma presentes no modo como se diz, deixando vestígios que o analista do discurso tem de aprender. São pistas que ele aprende a seguir para compreender os sentidos aí produzidos, pondo em relação o dizer com sua exterioridade, suas condições de produção.

Dessa forma, podemos afirmar que não existe discurso monológico, mas todo discurso é dialógico, pois ele está em constante diálogo com o contexto social, com outros textos. Por isso, um discurso é constituído por vozes, sendo dessa forma polifônico.