• No results found

Undersøkelser av nedre voksegrense

In document 7169-2017.pdf (17.05Mb) (sider 43-48)

Enningdalselva - nitrogen (tonn)

6. Hardbunnsområder

6.2 Undersøkelser av nedre voksegrense

Tiene de Zito, registrada como Juciene Pessoa de Moura, nasceu em 1953, mas mesmo o seu nome se tornou objeto de polêmica, visto que a mesma não foi batizada com esse nome, e sim como Josefa. Como ela mesma nos coloca,

[...] eu fico até pensando assim, ‘meu Deus, com certeza tem o dia que nós vamo’, porque ninguém nasceu pra semente, mas eu acho que nem Zito que é meu esposo sabe o nome do meu batistério que eu me batizei, porque o meu batistério eu me batizei como Josefa, que minha mãe disse que era Josefa. Juciene [nome de registro] é apelido. Eu tenho 3 nome por causa de Juciene, aí as de casa passaram a chamar de Tiene, de Tiene, né? Mais o meu batistério, quando eu morrer e for bater no batistério na igreja vai ter que procurar por Josefa. Mas o povo dizia se tinha o nome de Josefa ou José não morria queimado ou afogado. Era o que minha mãe contava pra mim. (ENTREVISTA COM TIENE DE ZITO, 24/07/2017)

Ela sempre usa um tom de voz bem peculiar em seus relatos: fala baixo ao mesmo tempo que explica cuidadosamente cada detalhe do acontecido, trazendo o grande volume de detalhes em suas narrativas, reconstruindo diálogos inteiros, diferentemente de Fátima Pessoa, que quase nunca lança mão desse recurso de oralidade. Além disso, a marca da vivência rural é mais presente em suas memórias relatadas, inclusive com o uso de arcaísmos.

Não obtivemos um grande número de informações acerca da sua família de origem, mas consta em seu registro que é filha de Vicente Pessoa de Araújo, parente de Henrique Pessoa de Araújo, pai de Fátima Pessoa, sendo assim primas legítimas. Porém, o perfil das duas é bastante diverso, tanto na história de vida como nas narrativas.

Tiene nos coloca que sua origem familiar é muito importante, enfatizando valores éticos como princípios que a regiam: “Eu nasci das pessoas pobre, mas humilde. Meus pais sempre foram trabalhador, agricultor, e desde pequena que nós somo de roça. Trabalhamo na roça porque eles não era home sabido [...]”. (idem). Essas foram as primeiras palavras que ela proferiu na entrevista, colocando a importância do trabalho no campo como não apenas um ofício, mas um próprio estilo de vida, uma constituição do ser.

Ela casou-se com Zito, da família dos Garcia, que moram em sua maioria no Sítio Flores. Inclusive havia uma rivalidade, já amenizada, entre as famílias dos

Pessoa Araújo e dos Garcia. Os primeiros, inclusive, chamam jocosamente os segundos de “amaigoso”, em referência aos lábios mais finos e boca mais funda presentes em muitos dos Garcia, como se os mesmos tivessem permanentemente com sabor de amargo na boca, além de serem geralmente bem magros. Por outro lado, os Garcia chamavam os Pessoa Araújo de “negros dos Oitis”, geralmente afirmando que, embora trabalhadores, não eram inteligentes. Essa discreta rivalidade só se é percebida após mutas idas e vindas nos sítios, muito embora seja apenas para fazer brincadeiras, não para gerar conflitos.

Não há no seu relato muita queixa ou insatisfação com seu marido ou com as suas condições de vida. Não há referência à fome, à seca ou à pobreza. Na verdade, o único problema que ela se demorou relatando foi quando o prefeito Chico Aristides reteve a carteira de trabalho dela e a deixou sem emprego por cerca de seis meses. Foi um relato tão longo que fica inviável colocá-lo na íntegra, mas pretendemos colocá-lo quando formos abordar o tópico da entrevista sobre o pagamento das professoras.

Consta no seu registro de professora sete filhos, nascidos entre 1977 e 1987. Todos têm o nome Cícero ou Cícera. Na verdade, ela tem três filhas como o nome “Cícera Araújo Garcia” e dois filhos com o nome “Cícero Araújo Garcia”, muito embora sejam também conhecedios por apelidos como “Erlânia”, “Eliane”, dentre outros. Era uma prática comum fazer isso. Fátima Pessoa, por exemplo, também teve uma irmã homônima, cinco anos mais velha e já falecida, também chamada de “Josefa Pessoa de Araújo”. Por isso mesmo, as pessoas raramente são conhecidas no Sítio Oitis ou redondezas pelo seu nome de nascimento, visto que em muitos casos são iguais aos de seus irmãos ou irmãs, prevalecendo o apelido provindo de algum acontecimento, de algum parente conhecido, ou simplesmente ao acaso mesmo. É possível especular que essa similitude de nomes tenha a ver com a possibilidade de obter vantagens ou usar a documentação em casos de morte ou invalidez. Ou ainda possa ter a ver com alguma promessa a santos.

Assim como as outras professoras leigas, Tiene se aposentou formalmente na função, porém seus últimos anos foram em uma função bastante peculiar: lavando o banheiro da escola. Isso acontecia porque tanto ela como Fátima Pessoa foram impedidas de exercer o magistério devido a mudanças na gestão educacional do município, já na segunda metade da década de 1980, bem antes da

LDB. Foi uma situação que, da nossa perspectiva, e reconhecendo que era necessária, não deixava de ser humilhante:

[...] ‘você vai ficar fazendo assim: você vai ficar na limpeza dos banheiros. O importante é que você fique trabalhando. Tem que tá dentro da escola’. Eu disse ‘não importa o que seja, eu vou.’ O banheiro era até assim no azulejo, limpar tudo, o chão, sem água encanada, no balde. E tinha dia que os alunos fazia de propósito. Tinha dia que amanhecia a privada aparecia esborrotando. Eu tomava um café cedo, fazia um cigarro dessa grossura pra entrar nesse banheiro, pegava o baldão quando jogava assim as bicha chega boiava, podre, podre, podre, podre. Quando ela falou que era pra eu trabalhar assim eu disse ‘Lucelena, e agora? E a minha carteira como professora?’ ‘Não se preocupe, você pode é apanhar bosta no chão, mas você todo tempo que se aposentar vai ser como professora. (ENTREVISTA COM TIENE DE ZITO, 24/07/2017)

Essa situação nos foi relatada de maneira bastante serena por Tiene, a qual ainda relata mais adiante que pessoas fizeram aposta que ela não assumiria o cargo, porque a pessoa disse que “[...] se fosse a mulher dele, ia passar fome mas não ia aceitar a mulher dele pegar a fama de já foi professora e hoje tá limpando merda.” (idem). Assim, enquanto Fátima Pessoa deixou de exercer a prática de professora para ser apenas zeladora, Tiene assumiu uma tarefa muito mais insalubre, mas na qual ela mesma não vê indignidade alguma. Em toda a bibliografia que consultamos, não há um único relato de professoras leigas que fossem depois reescalonadas em funções de serviços gerais. O que pode levantar a hipótese de os relatos presentes em outros autores não abordarem esses acontecimentos ou porque pode ter sido uma medida específica que ocorreu em Lavras da Mangabeira.

Também é de Tiene a conclusão de entrevista que nos foi mais marcante, pelo fato de atribuir ao magistério e especialmente à alfabetização um valor que moldou sua vida e a de muitas pessoas a quem ensinou.

Tem hora que fico assim pensando ‘meu Deus, eu nasci com muita sorte, meu estudo foi tão pouco!’ Mas graças a Deus o pouco que aprendi Deus me deu a inteligência de assim, de eu saber entrar em qualquer sociedade, eu sair, eu falar com as pessoas. Porque tem gente que é tão estudioso mas não tem aquela educação de respeitar as pessoas mais velhas, né? Se vai na rua, fica sem saber a praca duma rua... eu não, graças a Deus meus

estudo foi pouco, mas não sou pessoa de chegar e perguntar ‘que rua é essa?’ ‘que loja é essa?’ Eu mesmo sei me dirigir por eu mesma. Porque hoje às vezes hoje até me orgulho quando eu vejo uma professora ensinando. O poquinho que ensinei, continuando pra frente, estão ensinando a meus filho, a meus neto [...].(ENTREVISTA COM TIENE DE ZITO, 24/07/2017)

A professora Tiene de Zito nos revela um perfil de professora que manifesta ter muita consciência da tarefa do magistério, dos seus desafios, da suas rotinas e das diferentes maneiras de tratar com os alunos em sala de aula. Sua memória nos revela que a profissionalização docente, embora nos dias atuais seja intimamente relacionada ao estudo formal e ao diploma, acontece principalmente em sala de aula, na lida diária, no esforço em ministrar aulas e acompanhar o desenvolvimento dos alunos.

In document 7169-2017.pdf (17.05Mb) (sider 43-48)