Enningdalselva - nitrogen (tonn)
5. Vannkjemi og planteplankton
5.2 Tilstandsklassifisering av Ytre Oslofjord 2016
Essa professora tem registrado o nome de Josefa Pessoa de Araújo que nasceu, conforme seu registro em cartório, em 1953. Quando casou, em 1972, mudou para Josefa Pessoa de Oliveira, tal como aparecem nos registros. Dela obtivemos o maior volume de informações sobre o histórico familiar. Seu pai, Henrique Pessoa, teve três casamentos, com um total agregado de 25 filhos, concebidos ao longo de mais de 50 anos, sendo que o último matrimônio foi
contraído quando ele já tinha 75 anos, tendo 4 filhos com sua última esposa. Portanto, Fátima Pessoa tem dezenas de irmãos, e familiares espalhados pelo Ceará, São Paulo, Paraná, Pará e Mato Grosso.
Há um fato curioso que, devido à extensão de sua família, Fátima Pessoa, atualmente com 65 anos, tem irmãs com 82 anos e outras com 30 anos. De longe, é a família mais extensa dentre as professoras que pesquisamos. Porém, seus irmãos mais próximas são a “Teresinha” e o “Centim”, os quais são por parte de pai e mãe, e também a “Moça”, que, com 82 anos, apenas por parte de pai é a irmã mais velha viva, visto que é do primeiro casamento de seu pai. A convivência é mais próxima com essas três pessoas pelo fato de serem os únicos que ainda moram no Sítio Oitis. Porém, tem mais duas ou três irmãs morando no distrito de Mangabeira, fruto do terceiro casamento de seu pai.
Ela é a caçula do segundo casamento com Joana Pessoa de Araújo. Porém, desde muito pequena, Josefa já era chamada de Fátima, por razões desconhecidas, assim como o nome popular de muitas outras pessoas da mesma região. E dizia ser muito bem tratada na sua infância. Como ela mesma nos coloca,
Quando era moça eu não trabalhava na roça não, fazia comida em casa, a luta da casa todinha... e levava comida pra roça. Pai dizia que pra eu ajudar mãe. Cumadi Gracinha trabalhava na roça, cumadi Terezinha trabalhava na roça, só eu que era pra ficar na casa, que eu era mais nova, e era branquinha, não era pra ficar preta não. Pessoas mais nova assim era mimada, não era pra ficar cansada não, era só na luta de casa, enfrentava tudo. (ENTREVISTA COM FÁTIMA PESSOA, 25/07/2017)
Assim sendo, tinha uma carga de trabalho menor devido à idade e ao fato de ser caçula. Mas isso não quer dizer também que sua infância foi sem trabalho ou dedicação ao lar: “Era pra fazer o almoço. Pilava aquele milho, descascava, peneirava, pra fazer beijou de milho, que era a merenda de manhã. Às vezes fazia 8 caminho d’água com os baldão na cabeça [...]” (idem). Seu trabalho então era essencialmente doméstico, com as tarefas relacionadas à agricultura deixadas para as irmãs mais velhas ou para os irmãos homens. Inclusive a mesma já relatou em conversas informais que seu pai lhe recomendava sempre ir com blusa de mangas compridas, para não queimar a pele do sol. Essa situação ia mudar muito no decorrer da sua vida.
Por volta dos 18 anos, casa-se com Joaquim Cardozo, cuja família remonta à Vila Feitosa, um pequeno distrito entre Quitaiús e Caririaçu, num pé de serra. O pai do seu esposo, nascido em 1915, teve muitas tardes de conversa conosco, trazendo principalmente memórias acerca da seca de 1932, tendo ele mesmo nascido em 1915. Desse matrimônio, Fátima Pessoa engravidou dez vezes ao longo dos doze anos seguintes (1972-1984). Tiveram seis filhos nascidos vivos e quatro abortos, um deles de gêmeos. O primeiro filho, chamado de Luciano, morreu de meningite em 1973 com menos de dois anos de idade. E os seguintes são, em ordem decrescente de idade, e por apelido, Cicinha, Sandra, Solange, Damião, Gracinha e Joana. Seis mulheres e apenas um homem.
A quantidade de crianças que tinha dificultava muitas vezes o seu trabalho como docente, visto que precisava, em várias ocasiões, deslocar a sua sala de aula para a sua própria residência para não deixar os alunos sem aula: “ensinava aqui em casa pros aluno vir aqui pra casa, o fiscal vinha aí fala com aquelas criança pra elas vir estudar aqui em casa porque não tinha com quem deixar minhas criança.” (ENTREVISTA COM FÁTIMA PESSOA, 25/07/2017). O estigma da pobreza perpassa todo o seu relato, visto que em várias situações não tinha sequer o que comer com seus filhos, muito embora as colheitas tenham sido fartas. Isso se explica pelo fato de que a colheita era toda vendida para pagar a passagem do marido a São Paulo, pois o mesmo sempre alegava que ia mandar muito dinheiro para ela sustentar a família. O que nunca acontecia.
Ele trabalhava o inverno mais eu na roça, eu ensinava, mas era como se eu fosse um homem na roça trabalhando. Ele tirava muito ligume, muito feijão muito arroz, milho, mas vendia tudo pra ter o preço da passagem pra São Paulo. Ele passava de 3 meses, até 4 meses ele passava em São Paulo. E eu ficava aqui. [...] Ele sai e ficava lá 3 meses, 2 meses. Ele vinha trazia um bocado de coisa, ficava um ano dois ano com perfume. Trazia o ‘Toque de Amor’, mas dinheiro pra pagar conta, comprar ligume ele não trazia não. (idem).
Dessa forma, Fátima Pessoa passou pelo menos duas décadas vivenciando esses ciclos com seu marido, o que a diferencia em muito das demais professoras entrevistadas, as quais tinham seus maridos por perto a maior parte do tempo. Não ter o marido próximo para acompanhá-la nas tarefas diárias era fato comum para a mesma, a qual encontrava variadas maneiras para superar essa
dificuldade, como, por exemplo, dividindo as tarefas com os filhos, colocando filhos mais velhos para cuidarem dos mais novos e organizando por vários momentos o trabalho nas roças de milho, arroz e feijão.
Ela recebeu o primeiro pagamento de aposentadoria em 1995, às vésperas do casamento de sua filha Solange, com seu esposo se aposentando como produtor rural em 2001. Hoje vivem exclusivamente desse ganho, de vez em quando plantando um pouco de legumes para consumo próprio, mas conforme relatos dos seus filhos, o que eles plantam hoje é uma ínfima fração do que eles plantavam nas décadas de 1970 e 1980.
Podemos dizer que a entrevista de Fátima Pessoa foi a mais extensa, com uma hora e dez minutos de duração. Ela foi capaz de reconstruir, nos meandros da memória, uma narrativa abrangente, ficando muito clara a íntima relação entre educação, vida familiar e trabalho na roça. Várias décadas após sair da sala de aula, nos traz um relato que, mesmo relatando tanto drama e sofrimento, não tem forte expressão de emoções, ressentimentos ou angústias. Além disso, seu relato é eminentemente autobiográfico, no sentido de que ela poucas vezes cita outras pessoas, diferentemente, por exemplo, de Tiene de Zito, que usa e abundamente dos diálogos e citações. Tem muita segurança no que fala, à exceção de quase todas as datas, para as quais consultávamos seu registro de professora ou outro documento.
Ela foi a primeira a ingressar como professora leiga no Sítio Oitis, fato que não contestado pelas outras entrevistadas: “Eu a primeira que eu fui dar, era só pra Jovi. Eles era analfabeto, não sabia escrever nem o nome. Então, pra poder tirar o ‘tito’, só se soubesse fazer as letra toda, escrever o nome.” Porém, como veremos mais adiante, ela passou os últimos dez anos de sua carreira sendo proibida de lecionar, muito embora recebendo o salário de professora.
Entrevistamos a professora Fátima Pessoa em duas ocasiões: a primeira vez, por cerca de 30 minutos, em 2015 e pela segunda vez, para elaboração do projeto de pesquisa, e outra vez, sendo mais extensa, em 2017, acerca da qual aludimos acima.