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M oscovici (1978) defende que as representações sociais se originam nas relações interpessoais e intergrupais e que, portanto, é em função dessas relações que as mesmas funcionam, alteram-se ou cristalizam-se.
De acordo com Castro (2002, p. 35), quando M oscovici formulou a teoria das representações sociais, “ainda não existia uma rede organizada de psicólogos sociais europeus, nem mecanismos que fomentassem uma comunicação sistemática entre eles”, o que vai ocorrer durante as décadas de 60 e 70. Primeiro ocorrerá a constituição de uma associação européia de Psicologia Social (a European Association of Experiemental Social Psychology). Depois, em 1971, foi fundado o European Journal of Social Psychology. Neste sentido argumenta Castro (2002), estas duas décadas são as da constituição de uma rede de psicólogos sociais europeus, e do começo de um diálogo sistemático entre eles. A historia da Psicologia Social é resgatada nos escritos de M oscovici e M arková (2006) que retratam como se deu a sua criação.
Para Wagner “inicialmente a teoria da representação social reivindica por um atalho ao problema de como o conhecimento científico torna-se integrado na vida cotidiana do povo em sociedades modernas” (WAGNER, 1998b, p. 3, tradução nossa).
Na teoria das representações sociais de M oscovici (1978), encontram-se referências marcantes, dentre as quais: a) universo consensual e reificado; b) processos formadores de representação: ancoragem e objetivação. c) composição da representação: informação, atitude e campo de representação ou imagem. d) Classificação dos sistemas de comunicação: difusão, propagação, propaganda.
No que diz respeito ao universo consensual, M oscovici (1978) afirma que as representações sociais são uma forma de adquirir conhecimento e de comunicá-lo. Esse conhecimento, para o autor, corresponde ao universo consensual, explicando as coisas de forma que essas se tornem accessíveis e relevantes para as nossas preocupações imediatas. Isto, no dizer ainda do autor, é oposto ao universo reificado da ciência, em que o conhecimento se constrói de forma independente das nossas preocupações e desejos, os quais nos devolvem desfamiliarizados.
Quanto aos mecanismos: ancoragem e objetivação M oscovici (2003) os reconhecem como os dois processos que geram as representações sociais. Realça que a ancoragem é “[...]
classificar e dar nome a alguma coisa. [...] coisas que não são classificadas e que não possuem nomes são estranhas, não existentes e ameaçadoras” (M OSCOVICI, 2003 p. 61).
Neste contexto ele chama a atenção para os cuidados que devemos ter no que diz respeito ao termo classificar, uma vez que na teoria das representações sociais:
[...] classificar e dar nomes não são simplesmente, meios de graduar e de rotular pessoas ou objetos considerados como entidades discretas [...] seu objetivo principal é facilitar a interpretação de características, a compreensão de interações e motivos subjacentes às ações das pessoas, na realidade, formar opiniões. As representações sociais excluem a idéia de pensamento ou percepção que não possuem ancoragem (MOSCOVICI, 2003, p. 70).
De acordo com Campos (2003, p. 34) “a ancoragem não é um processo estático que intervém somente nos momentos da gênese ou transformação.” A ancoragem é:
Um processo permanente nas representações sociais, pelo qual a representação cria e mantém vivas suas raízes nos sistemas sociocognitivos. De algum modo [...] o estudo da ancoragem é o estudo dos processos sociais e cognitivos que sustentam viva a representação. [...] a ancoragem revela mais claramente o seu estatuto de processo fundamental, tornando seu estudo não apenas importante, mas, sobretudo, necessário à compreensão do funcionamento de qualquer representação social (CAMPOS, 2003, p. 34).
Referindo-se à ancoragem, explicam Wagner e Hayes (2005):
A ancoragem é integração de novos elementos que também modificam aqueles aspectos, definindo categorias e representações. Uma função da ancoragem é organizar o mundo, em termos de classificação e assimilação de objetos e fenômenos dentro da representação social e categorias (WAGNER; HAYES, 2005, p. 107, tradução nossa).
O outro processo objetivação, explicitado por M oscovici (1978, p. 110), permite “que se torne real um esquema conceptual, com que se dê a uma imagem uma contrapartida material, resultado que tem, em primeiro lugar flexibilidade cognitiva”.
Para M oscovici (1978, p. 111) objetivar “é reabsorver um excesso de significações materializando-as (e adotando assim certa distância a seu respeito). É também transplantar para o nível de observação o que era apenas inferência ou símbolo”. De acordo ainda com M oscovici (2003, p. 71) “A objetivação une a idéia de não-familiaridade com a de realidade, torna-se a verdadeira essência da realidade”.
Wagner e Hayes (2005) ressaltam que, na literatura sobre representação social, o termo objetivação é um mecanis mo pelo qual o conhecimento socialmente representado tem alcançado formas específicas (p. 108, tradução nossa).
M oscovici (1978) distingue os sistemas de comunicação das representações sociais : difusão, propagação, propaganda. Castro (2005) tomando a obra de M oscovici em 1976, faz uma relação entre os sistemas de classificação com dois aspectos: o primeiro considera a relação concreto x abstrato. Neste caso, tem-se na difusão uma posição “intermédia”. Já na propagação, há uma posição “abstrata”. E na propaganda, ela é “concreta”. O segundo aspecto considera que o foco principal da difusão encontra-se nas “crenças”, na propagação, têm-se as “atitudes”; e na propaganda, os “comportamentos” (CASTRO, 2005).
Castro (2005) apresenta o trabalho do pesquisador Sá, que incorporou na análise de conteúdo das matérias jornalísticas um conjunto de indicadores para compreender as modalidades de comunicação. Desse modo, Sá e colaboradores definiram os indicadores distribuídos a seguir: difusão enfatiza a informação, não há tomadas explícitas de posição. Nesta modalidade, crenças diferentes podem estar presentes no texto sem que se observe qualquer articulação entre as mesmas. Na propagação, a ênfase está na atitude; busca-se articulação de crenças a partir de negociações, conciliações, mediações. Já na propaganda, a ênfase reside nos comportamentos. Aqui, a comunicação é dicotomizada, sublinha-se somente um caminho, em oposição a uma opção diversa, rejeitam-se as possibilidades de conciliação ou moderação (CASTRO, 2005).
Para Castro (2002), ao identificar diferentes características das três modalidades comunicativas, M oscovici cartografa as estruturas de organização e de direção das mensagens. Essas estruturas são no dizer de Castro (2002):
ligadas a diferentes pertenças grupais e desempenhando diferentes funções nas relações entre grupos; (2) que articulam os conteúdos das representações com as suas funções; (3) que articulam novas e velhas idéias de formas diferentes; (4) e que se relacionam com os três componentes de uma representação - informação, atitude e acção (CAST RO, 2002, p. 125).
De acordo com a revisão de Castro (2005, p. 314), e fundamentada na importância que Billig “confere às pequenas palavras, como as preposições, e às expressões banais, estas análises ajudam a mostrar como é que diferentes modalidades comunicativas assentam-se sobre diferentes preposições e conjunções”. Neste sentido, Castro (2005) faz uma articulação
entre os discursos do público investigado e as modalidades comunicativas, levando em consideração as preposições e conjunções, como registrado por Billig:
A difusão se estrutura acumulando “es”, ou seja, “há as idéias ecológicas, e há as não ecológicas; há os que são a favor de defender a natureza e os que são a favor de defender as pessoas, e.. bom talvez todos tenham razão” ... Ou, como dizia um dos participantes nos grupos de discussão “uns dizem que estamos a aproximarmo-nos de uma catástrofe ecológica e outros pensam que isto é tudo um complot ambientalista, e, bem, eu não sei...” (CAST RO, 2005, p. 314).
No que concerne à modalidade propagação, esta se fundamenta no formato “sim... mas...”. Em sua pesquisa, demonstra como os “sim... mas...” estão presentes nas seguintes falas: “sim a defesa do ambiente é importante, mas a economia também...”; sim é importante preservar os habitats dos pássaros, mas construir pontes também é. Finalmente, “a propaganda recorre ao formato contrastante ‘sim/não’ - ou seja ‘sim, temos que mudar de comportamento/ não há tempo a perder, nem compromisso a fazer’” (CASTRO, 2005, p. 314).
As representações sociais, dependendo das relações existentes entre os membros de um grupo, podem ser: hegemônicas - quando as representações sociais são mais consensuais, ou inquestionadas, e mesmo coercitivas, objetivadas nas estruturas e instituições de cada sociedade. São ditas emancipadas - quando são produzidas pela discussão de idéias no seio de grupos em contacto direto, e são partilhadas por diferentes grupos. E são polêmicas – quando resultam do conflito entre visões opostas de grupos opostos, e são freqüentemente expressas em termos de um diálogo com um interlocutor imaginário (M OSCOVICI, 1988 apud CASTRO, 2002).
Na leitura do livro de M oscovici (2003), encontra-se uma abordagem das representações sociais como ambiente, que remete ao conteúdo das evocações desta pesquisa ao estímulo – educação ambiental, em que emergem as palavras ‘ambiente’, ‘meio ambiente’ e ‘natureza’ e seus ‘elementos constituintes’. Torna-se, então, pertinente introduzir o tópico a seguir.