Nos estudos organizacionais, a influência dos teóricos da prática tem se apresentado como uma epistemologia para o estudo das múltiplas formas de organização e seus fenômenos voltados para o conhecimento prático e subjetivo que as suporta. O termo “prática”, paradoxalmente, tem a conotação de ser algo transferível, ensinável, transmissível ou reproduzível, mas ao mesmo tempo as práticas são difíceis de acessar, observar, medir ou representar, pelo fato de se apresentarem de maneira tácita, subjetivo, ou até mesmo linguisticamente difícil de se expressar (GHERARDI, 2014).
Não raramente, encontram-se trabalhos em que o conceito de prática adotado não é claramente especificado, ou muitas vezes até contraditório, o que acarreta inconsistências onto-epistemológicas e consequentemente metodológicas nas pesquisas (BISPO; SOARES; CAVALCANTE, 2014). Assim, o conceito de prática assume significado inerente a uma diversidade de coisas incluindo eventos, episódios, rotinas, regras ou até, simplesmente, “estar mais perto da realidade” ou “ser mais prático” (CARTER; CLEGG; KOMBERGER, 2008, p.90).
Nesse sentido, Cavalcante e Bispo (2014 p.86) chamam atenção para a importância de se destacar que o conceito de prática “vai além da noção de rotina, regras, ação individual ou simplesmente o fazer determinada atividade”. Concentrar-se nessa ideia proporciona uma visão simplificada da questão. Assim, propor o estudo de uma prática transborda o pressuposto de ser apenas um “olhar mais de perto”, mas requer uma mudança nas lentes, por meio das quais se investiga (SANTOS; ALCADIPANI, 2015).
Para Gherardi (2014, p.45), “tanto na linguagem científica quanto na comum, o termo “prática” reflete uma pluralidade de campos semânticos”. Para a autora, ao ponto que isso possa ser uma limitação, também pode ser uma vantagem, por ser um termo flexível, que pode ser empregado para denominar vários aspectos da realidade do fenômeno em estudo.
Os aspectos dos fenômenos abrangidos em uma prática podem ser estudados em relação à: (1) recursividade da prática; (2) aos hábitos socialmente sustentados; (3) ao conhecimento implícito em um domínio de ação; (4) aos valores que dão relatabilidade social à ação; e (5) as formas partilhadas de realizar qualquer prática (GHERARDI, 2014). Esses aspectos evidenciados pela autora reforçam a ideia de que o conceito de prática não está restrito a um evento, rotina ou padrão de comportamento. As práticas carregam consigo entendimento, conhecimentos, identidades e significados (SANTOS; ALCADIPANI, 2015).
Muito embora seja possível adotar algumas definições do conceito de prática, Gherardi (2006) chama a atenção para a possibilidade de reducionismo do seu significado ao se tentar buscar uma definição, frente a diversidade de elementos abrigados pelo termo. A seguir, o Quadro 2 apresenta algumas definições para o conceito de prática a partir de alguns dos principais autores do campo das práticas.
Quadro 2 -Conceito de prática
Tradição sociológica Entendimento sobre práticas
Pierre Bourdieu
A teoria de prática para Bourdieu está na relação entre as práticas dos atores e as estruturas objetivas sociais introduzidas, que são mediadas pelo conceito de habitus entre estas duas dimensões, que ocorre de forma tácita (Gheradi, 2006).
Anthony Giddens
As práticas são entendidas como procedimentos, métodos ou técnicas executados de forma hábil pelos agentes sociais, o que sugere uma certa relação com as preocupações dos etnometodologistas (Cohen, 1979).
Harold Garfinkel
As práticas são realizações contingentes em que todo o ambiente deve ser entendido como auto-organizador no que diz respeito ao seu reconhecimento e ordem social (Garfinkel, 2006).
Bruno Latour
Realidade social organizada formada por conexões e associações entre atores (humanos e não humanos), na qual interesses são trasladados (negociados) incidindo na criação de redes de atores (Latour, 2005).
Teodore Schatzki
A prática é considerada a interligação por meio de regras sociais (leis, estatutos padrões de comportamento etc.), entendimentos construídos socialmente ao longo do tempo (contextual), e estruturas teleafetivas (orientação, objetivos, emoção) entre fazeres e dizeres organizados (Schatzki, 2001)
Andreas Reckwitz
As práticas sociais são o mundo social, não apenas a mente, o discurso ou a interação. São consideradas conexões de elementos humanos (mentais e corporais) e elementos não humanos (objetos, conhecimento, emoções) na realização de atividades não rotinizadas em forma de um “bloco monolítico” sustentado pela união de vários elementos sem os quais a prática não seria possível. Destaca-se o fato de que os citados elementos são inerentes à prática e não aos indivíduos e influenciam na ação e no comportamento dos indivíduos (Reckwitz, 2002).
Fonte: Adaptado de Cavalcante e Bispo (2014)
Gherardi (2006) faz referência a algumas características essenciais para o entendimento do termo prática: (1) refere-se à forma como um grupo que performa atividade situadas adquire significado e se torna reconhecido como um grupo; (2) está relacionada ao tempo que esse grupo de atividade situadas ocorre; (3) é um fenômeno reconhecido socialmente; e por fim (4) reflete um modo de organização do mundo. Dessa forma, a autora argumenta que uma prática pode ser considerada “como um modo, relativamente estável no tempo e socialmente reconhecido de ordenar itens heterogêneos em um conjunto coeso” (GHERARDI, 2006, p. 34).
É importante destacar a importância dos elementos não-humanos na constituição da vida social. Como argumenta Latour (2005), esses elementos também exercem poder de agência sobre os atores humanos. Assim, entende-se que as práticas sociais emergem e se modificam a partir da interação recursiva entre a atividade humana e não-humana, ou seja, as práticas cotidianas são construídas e modificadas a partir da interação dinâmica entre a
atividade humana e os elementos não-humanos, formando uma “teia” de relações (FENWICK, 2014).
Diante disso, Schatzki (2002) argumenta que os artefatos, organismos vivos e coisas, são componentes determinantes da vida social, assim como as pessoas. Dessa forma, descontrói-se o pensamento de que as relações sociais e as formas organizativas são possíveis apenas pelas relações entre humanos. Assim, os elementos materiais são constituintes da organização da vida social, ao ponto que são referenciadas e utilizadas pelas práticas organizacionais, ao ponto que fornecem um suporte para as mesmas (SCHATZKI, 2006).
Compreender a gestão escolar sob a ótica das práticas é ir de encontro ao que Miettinen, Samra-Fredericks, Yanow (2009, p.1309) chamam de “linguagem ortodoxa da ciência social” ao se referirem a tendência dos estudos organizacionais em classificar um fenômeno em três níveis: micro (o que as pessoas dizem e fazem); meso (as rotinas); macro (as instituições). Para os autores, o conceito de prática exige vocabulários e abordagens que vão além dessa divisão, pelo fato que a prática pode ser entendida como simultaneamente local e global, ao mesmo tempo único e culturalmente compartilhado, acontece “aqui e agora” (here-and-now) e é historicamente constituído.
Para Feldman e Orlikowski (2011), a ideia central das lentes da prática é a noção de vida social como uma produção contínua e emergente por meio de recorrentes ações entre atores. Para as autoras, as lentes da prática consistem em uma específica abordagem para compreender o mundo e têm muito a oferecer aos pesquisadores organizacionais devido ao caráter complexo, dinâmico, móvel e transitório das organizações contemporâneas e que necessitam de abordagens que ajudem a teorizar estes tipos de fenômenos indeterminados e emergentes.
No contexto da gestão, Reed (1984), já defendia uma ideia de gestão como uma prática social. Para o autor, enxergar a gestão como uma prática social é adotar uma concepção mais realista e flexível, ao ponto que rejeita o tratamento da gestão por uma concepção mais “ortodoxa” que encara as organizações como unidades sociais rígidas.
A gestão como prática social é entendida como um processo contínuo de articulação de práticas complexas e diversificadas que emergem e se modificam de maneira dinâmica (REED, 1984). Junquilho (2001) argumenta que não é possível desvincular a gestão do seu contexto cotidiano, ademais, a gestão como uma prática, apenas pode ser analisada considerando as perspectivas institucionais, organizacionais e comportamentais como partes integrantes do “fazer” gestão.
Nesse sentido, a gestão é compreendida como complexa, pela qual não existe uma forma padrão e única de se “fazer”. Diante disso, pode-se compreender que a gestão escolar, enquanto prática social que acontece por meio das atividades sociais influenciadas por fatores externos e internos à organização e pelos seus atores (TEIXEIRA, 2013).
Gherardi (2006) introduz o conceito de “textura” para explicar o campo das práticas. Segundo a autora, as práticas emergem em uma textura entrelaçada que liga as práticas umas às outras. Essa textura se mantém unida pela composição de certo número de práticas que ancoram as outras. Nesse sentido, pode-se utilizar o conceito de textura (GHERARDI, 2006) para textura composta por elementos híbridos (humanos e não humanos) que de maneira entrelaçada tecem o “fazer” gestão no contexto escolar.
As visões predominantes nos estudos sobre gestão e organização possuem um grande enfoque em entender esses fenômenos a partir de aspectos formais e estáticos (SANTOS; ALCADIPANI, 2015). Nesse sentido, adotar os pressupostos dos EBP para estudar a gestão no contexto da escola pública, nos permite abandonar essas visões tradicionais e limitantes. Ademais, o seu enfoque na prática nos leva a compreender a gestão escolar como textura socialmente construída (GHERARDI, 2009) que acontece em um contexto plural e repleto de incertezas como é, por exemplo, o da escola pública.
Para Gherardi (2006, p.49) “a textura da organização pode ser concebida como um território imaginário, um domínio circunscrito marcado por uma pluralidade de atores organizacionais, que compreende ideias, projetos, emoções” atribuídas ao comportamento organizacional.
A gestão escolar, nesse contexto, pode ser compreendida como um entretecer de interconexões formadas por diversos atores (diretores, professores, alunos, técnicos administrativos, comunidade, salas de aula, livros e etc.) em ação, caracterizando-se como um “fazer” da sociedade. Diante disso, a gestão escolar é defendida neste trabalho como uma prática social cotidiana, não prescritiva, que é produzida, perpetuada e modificada a partir das interações entre os elementos (humanos e não-humanos) constituintes dessa prática.
Dentre as abordagens dos EBP, a sociomaterialidade será a adotada para o estudo da gestão escolar neste trabalho. Assim, a próxima seção será dedicada a apresentar a sociomaterialidade enquanto possibilidade teórico-metodológica para compreensão da gestão escolar enquanto prática social.