Para acadêmicos que tem na sociomaterialidade sua referência teórica, o que conhecemos como “social” é o resultado da interação entre humanos e não-humanos (animais, memórias, intenções, tecnologias, bactérias, móveis, produtos químicos, plantas e assim por diante) modificando e sendo modificado um pelo outro (FENWICK; EDWARDS, 2010). Apesar disso, Orlikowski (2007, p. 1435) argumenta que os estudos organizacionais têm, de certa forma, “ignorado as maneiras em que organização está ligada com as formas materiais e de espaço, por meio do qual os seres humanos agem e interagem”. Na maioria das vezes, os elementos materiais são analisados como submetidos às intenções, formas e direções humanas, ou seja, são entendidos meramente como elementos representativos dos fins humanos (WALTZ, 2006). Contudo, como destaca Fenwick, Edwards e Sawchuk (2011), os humanos não devem ser entendidos como detentores de um status privilegiado no mundo, mas como sendo parte dele.
Tal debate tem feito parte da agenda de discussão de diversos pesquisadores (ORLIKOWSKI, 2007; ORLIKOWSKI; SCOTT, 2008, FENWICK, 2010, FENWICK; LANDRI, 2012; PICKERING, 1993, LEONARDI, NARDI; KALLINIKOS, 2012, LATOUR, 2005, LEONARDI, 2013, COOLE; FROST, 2010, CARLILE et al. 2013) que buscam compreender os fenômenos sociais como resultado da interação entre humanos e não- humanos. Este debate tem suas raízes nos pressupostos da abordagem pós-humanística que coloca em evidência as entidades materiais como foco de análise, juntamente com os humanos, diferentemente do humanismo que tem o ser humano como fonte exclusiva de significado (GANE, 2006).
Mas, por que o foco no material? Fenwick (2010) apresenta algumas reflexões sobre esta indagação: (1) o cotidiano é totalmente envolvido com elementos materiais (veículos, construções arquitetônicas, tecnologias, estradas e assim por diante) que acabam não sendo reconhecidos devido o foco excessivo na atividade humana; (2) o foco no sociomaterial pode ajudar a revelar as dinâmicas que constituem a vida cotidiana; e (3) habilidade de reorganizar categorias que vem se tornando convenções problemáticas (ex. aprendizagem formal e informal).
O termo sociomaterialidade, segundo Fenwick (2010), é utilizado para representar as abordagens e perspectivas que trazem os elementos materiais e não-humanos para o foco de análise. Mas, o que é sociomaterial? Leonardi (2012) argumenta que uma simples resposta para o termo, seria que sociomaterialidade é a fusão das palavras “social” e “material”. Mas, o
que é social? O que é material? Neste sentido, Fenwick (2014) apresenta duas definições sobre “material” e “social”. Segundo a autora, o “material” está relacionado a todas as coisas de nossas vidas, podendo ser ao mesmo tempo orgânico ou inorgânico, tecnológico ou natural (formulários, checklists, máquinas, banco de dados, móveis, senhas e assim por diante). Para Leonardi (2012) a materialidade não é sinônimo de “fisicalidade”, ou seja, algo para ser materializado não necessariamente necessita ser um elemento físico. O “social” está relacionado a símbolos e significados, desejos e medos, e discursos culturais (FENWICK, 2014).
A perspectiva da sociomaterialidade é apresentada como uma premissa de que aspectos sociais e materiais das organizações não possuem significados inerentes determinados, devendo ser vistos como partes de uma realidade inseparável, ou indissociável na prática (ORLIKOWSKI, 2007). Para Orlikowski (2007, p. 1437), “não existe nada social que também não seja material, e não há nada material que não seja social”. Isto também significa assumir que: (1) “toda materialidade é social e ao ponto que foi criada por meio de um processo social e é interpretada e utilizada em contextos sociais e (2) toda ação social é possível por causa de alguma materialidade” (LEONARDI, 2012, p.32).
Ao considerar qualquer prática organizacional, é possível observar a quantidade de materialidade envolvida em todos os aspectos da organização, desde os mais visíveis (roupas, salas, mesas, veículos, edifícios, livros, computadores), até os menos visíveis (redes elétricas, redes de esgoto, sistemas de ar, banco de dados) (ORLIKOWSKI, 2007).
Coole e Frost (2010) argumentam que o ser humano é imerso em mundo material. Desta forma, torna-se impossível refutar a existência da materialidade na formação do cotidiano, tendo em vista que a própria existência humana depende de uma gama de elementos que produzem, reproduzem e modificam as condições para a vida cotidiana. Para Pinch (2008), esse raciocínio também se aplica as instituições, que também possuem uma materialidade inescapável, mas muitas vezes negligenciada.
Para Fenwick, Edwards e Sawchuk (2011), a sociomaterialdiade pode representar para alguns, uma orientação pós-humanística, contudo, não consiste em um pós-humanismo “anti- humano”, mas se trata de uma abordagem orientada a refutar a centralidade antropomórfica da natureza e do conhecimento humano em definir o mundo e suas relações.
Tureta, Tonelli e Alcadipani (2011) apontam que as bases para a perspectiva sociomaterial são oriundas, principalmente, mas não somente, da sociologia de Bruno Latour (2005) e Law (2002), assim como dos pressupostos da Teoria Ator Rede (TAR). Essas abordagens procuram evidenciar a presença material no social, no intuito de expor os
fenômenos sociais não como resultado exclusivo da interação entre humanos, mas também considerando os elementos não-humanos como parte dessa dinâmica (TURETA; TONELLI; ALCADIPANI, 2011).
O termo sociomaterial tem aparecido na literatura acadêmica de diferentes formas (sociomaterial, sócio material ou sócio-material) e em diversos campos das ciências sociais (antropologia, comunicação sociologia, educação, estudos em ciência e tecnologia, teoria literária, estudos jurídicos) (SCOTT, ORLIKOWSKI, 2014; JARZABKOWSKI; PINCH, 2013).
Para Jarzabkowski e Pinch (2013, p.580) “sociomateriality is the new black”. Ao fazer
uma analogia com o mundo da moda, os autores tentam elucidar que a crescente quantidade de pesquisas que utilizam o conceito de sociomaterialidade como orientação, faz com que esta se torne uma nova “tendência” nos estudos organizacionais. Contudo, os autores salientam que não se trata de uma tendência momentânea, mas duradoura, pois consiste em uma poderosa lente de investigação para fenômenos sociais.
A partir disso, Fenwick (2010, 2014) e Fenwick, Edwards e Sawchuk (2011) iniciam uma discussão acerca de uma série de outras teorias que podem ser descritas como sociomateriais, apesar de possuírem perspectivas e fins distintos. São elas: Teoria da Complexidade, Teoria da Atividade Histórico Cultural (TAHC), Novas Materialidades (New Materialisms) e teorias de espacialidade (New Geographies).