Fonte: Autor
Diante do exposto, pode-se perceber que a prática de apoio administrativo de uma maneira geral se conecta a prática da gestão escolar ao ponto que busca atender os aspectos que dão suporte ao funcionamento da escola, que consiste em garantir uma estrutura adequada, correta aplicação e gestão dos recursos financeiros e materiais, além de cuidar da gestão das pessoas que compõem o quadro de funcionários da escola. A seguir, no Quadro 7, é apresentada uma síntese destes fragmentos de prática identificados.
Quadro 7: Atividades que compõem os fragmentos da prática de apoio administrativo
Atividade Descrição
Gestão de Recursos Financeiros
Estabelece o uso eficiente dos recursos financeiros da escola, principalmente por meio dos programas financiadores (PDDE, PNAE) responsáveis pelo repasse dos recursos. Recebimento, destinação e prestação de contas dos recursos utilizados são as principais ações dessa atividade da gestão.
Gestão de Recursos Materiais
Envolve a gestão dos recursos materiais, seja em relação ao patrimônio da escola, como dos materiais utilizados nas atividades diárias. Geralmente está atrelado à gestão de recursos financeiros e tem como função garantir o suprimento dos materiais necessários para as atividades escolares
Gestão de Pessoas Responsável pela gestão do trabalho dos funcionários e a manutenção do trabalho colaborativo.
Utilizando o conceito de textura de práticas, a Figura 5 foi elaborada com o intuito de apresentar as principais atividades que compõem a prática da apoio administrativo da gestão escolar e como estas atividades estão entrelaçadas formando uma textura.
Figura 5: Textura dos fragmentos da prática de apoio administrativo
Autor (2015)
A partir do Quadro x e da Figura 5, procura-se apresentar a forma como a gestão administrativa é organizada influenciando diretamente na gestão da escola, ao ponto que sumariza os aspectos apresentados nessa seção. A seguir, será apresentado a terceira e última prática que compõe a prática da gestão escolar: a prática do interesse social.
4.4 Fragmentos da Prática do Interesse Social
A prática do interesse social envolve diversas questões e aspectos que atravessam os “muros” da escola e que evidenciam como o ambiente escolar, e consequentemente sua gestão, são influenciados pelo contexto onde a organização está inserida.
Em entrevista ao programa Roda Viva, o ex-secretário de educação do estado de São Paulo, argumentou que os gestores escolares e professores em suas atividades práticas se deparam com questões e demandas sociais que os seus cursos de formação muitas vezes não viabilizaram para que eles fossem preparados para esse contexto. Nesse sentido, o ex- secretário defende que o desenvolvimento da educação não está restrito às políticas educacionais, mas também está atrelado às políticas de saúde, segurança e desenvolvimento social (RODA VIVA, 2015).
Na escola investigada, o cotidiano da gestão escolar é marcado pela necessidade de se administrar, além dos aspectos pedagógicos e administrativos, questões como violência, drogas, indisciplina, acessibilidade, participação dos pais, integração com a comunidade, dentre outras demandas. Nesse sentido, percebe-se o quão amplo é a prática da gestão escolar e como ela é influenciada pelo seu entorno.
Durante o período de observações, escutou-se alguns relatos dos gestores, funcionários e dos pais de alunos sobre assassinatos de jovens pertencentes às comunidades que circundam a escola. Alguns deles eram alunos, ex-alunos ou tinham alguma relação com membros da escola. Ao perguntar sobre os fatores que motivavam as mortes, as respostas obtidas foram de que a maioria das mortes eram “acerto de contas” de dívidas de drogas. Diante disso, percebeu-se o quão era presente a violência motivada pelo uso de drogas na comunidade.
Como parte da comunidade, a escola sofre com o reflexo do contexto em que ela está inserida. A principal prática que reflete isso é a presença de menores infratores, conhecidos como “Môfi”, que pulam os muros da escola durante o período de aulas. A principal preocupação é que os “môfi” entram na escola para usar drogas na quadra da escola e em alguns casos acabam aliciando alguns alunos menores para fazer pequenos furtos de celulares dentro da escola. A seguir a vice-gestora relatada a dificuldade em administrar essa prática:
“uma escola hoje... em que era um lugar em que as pessoas vinham para ter
mais conhecimento, hoje é um lugar em que as pessoas vem para traficar... então, é complicado... e quando eles pulam o muro... você não pode bater de frente... é necessário uma comunicação amigável... se você bater de frente, você sabe que lá fora, ou alguém vai assaltar o que você tiver ou você
morre... porque eles lhe pegam e lhe ameaçam: “eu pego essa diretora lá fora”... ou “ela não sabe que eu sei onde ela mora?”... Entendeu? Então, são cuidados que o gestor tem que ter”
“As vezes eu vejo e eu finjo que não vejo [...] se tiver cinco ali, eu não vou...
vou lá ver o quê? São cinco (ênfase na fala), cada um pior do que o outro... [...] quando tem um ou dois, eu vou... o primeiro passo é desarmar com uma
palavra.. .aí eu digo: “meus amores, daria pra vocês saírem daqui?”... é melhor você pedir para eles saírem numa boa, do que você arrumar conflito” Segundo a gestora, os menores encontram na escola um espaço “livre” da ação da polícia para atuar. Ainda segundo ela, os menores pertencem a grupos criminosos que atuam nas comunidades vizinhas. O grupo criminoso a que a gestora se refere, se auto intitula como “Okaida” ou “OKD” (forma abreviada), que faz referência ao grupo fundamentalista islâmico Al-Qaeda (NOTAS DE CAMPO, JULHO, 2015). A Foto 13 apresenta alguns pontos da escola em que foram pichadas as identificações do grupo criminoso.