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4. Presentation and discussion of the findings

4.3 Uncoordinated partners a risk in regard to organisational development “For the recent deployment I have not seen PMI (National Society Indonesia), it is more and

4.3.1 Who is the uncoordinated partners?

No texto “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico”, Freud (1911/2010) inicia o assunto afirmando que, nas mais variadas afecções nervosas, psicóticas e neuróticas, nós identificamos um recuo da realidade, um afastamento de certo fragmento particularmente perturbador. Bem, do ponto de vista econômico do funcionamento psíquico, o que perturba é identificado pelo aparelho como desprazer, ou seja, como um acúmulo de excitação que necessita de descarga. Como o psiquismo tende automaticamente para a busca de um estado mínimo, ou estável de excitação (princípio da constância), a resposta automática é se afastar da fonte perturbadora. O arco-reflexo é o seu modelo inicial. Mediante a fuga, o estímulo perturbador cessa e o aparelho volta à tranquilidade – por vezes identificada como a homeostase basal, por vezes como o repouso, ou até mesmo com a paz do inorgânico. De

qualquer forma, em relação aos estímulos constantes que derivam do interior do organismo a fuga é mais difícil, quando não impossível. Em outras palavras, só fugir do desprazer não é compatível com a vida. Em um momento importante da história da psicanálise, situado entre os anos de 1914 e 1915, quando é construído o texto introdutório ao narcisismo e os ensaios metapsicológicos, Freud afirma que os estímulos pulsionais, gerados a partir do interior do organismo, não podem ser liquidados pelo automatismo do arco-reflexo.

Portanto, colocam exigências bem mais elevadas ao aparelho nervoso, induzem-no a atividades complexas, interdependentes, as quais modificam tão amplamente o mundo exterior, que ele oferece satisfação à fonte interna de estímulo, e obrigam o aparelho nervoso a renunciar à sua intenção ideal de manter a distância os estímulos, pois sustentam um inevitável, incessante acúmulo de estímulos. (Freud, 1915a/2010, p. 56).

Nesse mesmo texto, “Pulsões e seus destinos”, Freud (1915a/2010) caracteriza tal exigência, como a “medida do trabalho imposto à psique por sua ligação com o corpo.” (p. 57) – a excitação interna do organismo42. Uma exigência do corpo animal que marca o conceito de pulsão como um “conceito-limite” entre o somático e o psíquico. Isso tem inúmeras implicações, dentre elas, a questão de que o “estar vivo” significa necessariamente estar sob influência do movimento pulsional; assim como, a compreensão da necessidade da existência de objetos, por meio dos quais é possível alcançar as metas de tais movimentos pulsionais – direcionadas, em sua tendência conservadora, da qual fala Freud (1920/2010) em “Além do princípio do prazer”, para o estabelecimento da satisfação (do ponto de vista estritamente econômico do entendimento).

Como vimos rapidamente no passeio temático, o infante recém-nascido é um exemplo de uma criatura que é incapaz de sobreviver sem a ajuda daqueles que o rodeiam e que cuidam de seu desenvolvimento, em outras palavras, que depende integralmente de seus objetos primários para a obtenção da satisfação. Essa ênfase é pronunciada por Freud inúmeras vezes, muito embora, como pontua Ab’Sáber (2005), ele nunca tenha se debruçado mais profundamente a respeito das alterações e eventuais falhas na instauração do ambiente – sem o qual a criança não vive –, de maneira a “considerar o campo ambiental de forma dada, de natureza fixa e realizando sempre o melhor para o bebê humano” (p. 301). A criança recém

42 Segundo Strachey (1996), em “Apêndice: O surgimento das hipóteses fundamentais de Freud”, um

texto introdutório ao artigo “As neuropsicoses de defesa”, Freud (1894/1996) já desde essa data percebe a necessidade de distinguir alguma coisa distinta das funções mentais: “uma carga de afeto ou soma de excitação” (p. 76). Ou seja, uma quantidade capaz de diminuição, crescimento, deslocamento e descarga. A teoria da ab-reação do período pré-psicanalítico traz implícita essa noção de carga ou quantidade que se soma às representações.

nascida é entendida pela psicanálise como alguém ainda incapaz de cumprir com as complicadas exigências da vida (Ananke) que se interpõem entre as suas crescentes demandas pulsionais e as possibilidades materiais de satisfação. Tomando como dado que tal criança será bem recebida e amada, o mecanismo que impera é o princípio do prazer, entendido como uma tendência dupla de busca do prazer e de fuga do desprazer. Tal busca, realizada de maneira bífida (pela fuga e pela atração), acontece independentemente da avaliação das condições reais para alcançá-lo; o seu modo operante é a alucinação de satisfação, por meio da qual o que é desejado é instantaneamente representado.

No entanto, esse projeto de simplesmente evitar o desprazer, no sentido de realizar uma fuga automática ou de alucinar o objeto de satisfação, está fadado ao insucesso. Isso porque certas exigências internas e externas complicam a satisfação da pulsão e a complexifica. Mas, em uma situação normal de maternagem, que é o modelo freudiano de investigação, o bebê é capaz de experimentar algo próximo daquilo que, no texto “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico” (Freud, 1911/2010), é hipoteticamente chamado de “abandono ao princípio do prazer” (p. 112), o que seria um sinônimo da não execução do teste da realidade material. Em outras palavras, tendo as suas satisfações imediatas cumpridas por terceiros, em especial pelo “cuidado materno” (p. 112), o infante pode alucinar a satisfação de suas vontades, e revelar o seu desprazer por descargas motoras, como o choro e o esperneio, que prontamente trazem satisfação – isto é, que trazem satisfação quando subentende-se que há uma oferta pontual e adequada de alimento e carinho.

Segundo o princípio de prazer, o que é desejado é imediatamente pensado e realizado (alucinado), e o sonho como manifestação de desejo é o seu modelo mais conhecido – é o que no texto “Totem e tabu” (Freud, 1912-1913/2012) se denomina “identidade de pensamento”, movimento característico da onipotência do processo primário, mediante a qual um vínculo ideal é tomado como real. No entanto, esse programa não dura muito, e, assim sendo, o organismo é forçado a abandonar o seu estado de repouso por intermédio da decepção que experimenta com a crescente insuficiência da alucinação de prazer. Segundo Freud (1911/2010), no texto “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico”:

Apenas a ausência de satisfação esperada, a decepção, levou a que se abandonasse a tentativa de satisfação por meio alucinatório. Em vez disso, o aparelho psíquico teve que se decidir a formar uma ideia das reais circunstâncias do mundo exterior e se empenhar em sua real transformação. Com isso foi introduzido um novo princípio de atividade psíquica; já não se

imaginava o que era agradável, mas sim o que era real, ainda que fosse desagradável. (pp. 111- 112)

Uma insatisfação que deve ser entendida como parte do desenvolvimento saudável e que acompanha a função de cuidado do ambiente; e que, portanto, ao invés de deixar a criança desamparada, cria bases para o seu desenvolvimento contínuo. Afinal, os objetos de cuidado não são capazes de atender para sempre os desejos da criança. Como medida para alcançar por conta própria e de maneira independente os objetos, ou os destinos para a sua pulsão, o princípio de realidade é então introduzido. Mediante a sua instauração gradual tal princípio sustenta um projeto mais seguro de satisfação; ele batalha contra o processo primário do psiquismo, característico do sonho, dos atos falhos, das fantasias, da imaginação criativa, e das neuroses, instaurando os processos secundários da atividade mental, como a atenção sensorial e cognitiva, o registro mnêmico, o julgamento e a capacidade de decisão (Freud, 1911/2010). Nas palavras de Freud, a adição do processo secundário, que entra em conflito contra a tendência natural para a descarga (energia livre), é “uma conversão dos investimentos livremente deslocáveis em investimentos fixos, o que foi alcançado ao se elevar o nível de todo o processo de investimento.” (p. 114). Dessa forma, o ato de imaginar, que antes era inconsciente e alucinado, passa a ser também regulado e enriquecido pela sensorialidade e pelo pensamento pré-consciente e consciente.

Do ponto de vista econômico, o princípio do prazer e o princípio de realidade são muito similares quanto aos seus objetivos: a busca última é a obtenção do prazer e a “poupança de gastos”. O princípio de realidade é entendido como um derivado direto do princípio do prazer, como um regulador deste, permitindo um adiamento da satisfação; uma espécie de “salvaguarda” (Freud, 1911/2010, p. 117), de proteção e de preservação do organismo e do maquinário regulatório do acontecer psíquico. No final é o prazer que é

almejado. No entanto, é preciso se atentar para uma dificuldade conceitual na apreensão do que é prazer em psicanálise.

Monzani (1989), no livro Freud, O Movimento de um pensamento, marca a importância de distinguirmos o “prazer” do “princípio do prazer”. O primeiro seria, de acordo com o regime do prazer e da tendência conservadora das pulsões, mais próximo de um lago congelado, de uma satisfação conquistada e eternizada no instante; uma “tendência a extinguir totalmente o estado de excitação.” (p.210). Extinção que, como já vimos, não seria compatível

com a continuação da vida43. Dessa forma, segundo a sua leitura, o princípio de prazer seria uma espécie de fusão entre as tendências de ligação reunidas na pulsão de vida e as tendências regressivas e silenciosas da pulsão de morte, não atendendo exclusivamente a nenhuma delas: nem “guardião da vida”, nem “lacaio da morte”; antes, uma síntese entre a atividade de ligação (Bindung) e o alívio completo da tensão pulsional.

Essa é uma síntese brevíssima da pesquisa do filósofo brasileiro, que pode até dar margens para o entendimento de que não haveria muita diferença entre o princípio do prazer e o princípio da realidade. Essa possível confusão deriva em parte da enunciação do princípio da constância44 – fundamento econômico do princípio do prazer, e por consequência também do princípio da realidade –, que foi constantemente postulado de maneira ambígua por Freud (1950[1895]/1976), desde o “Projeto para uma psicologia científica”. A ambiguidade consiste no fato de seu significado remeter tanto à busca do organismo pelo mínimo de tensão, como também à busca da estabilidade tensional. Essa postulação dupla deriva, segundo Laplanche, em Vida e Morte em Psicanálise, de certo entendimento que Freud teve das teorias psicofísicas de Fechner quando na tentativa de articulá-las com o tratamento e o estudo psicológico dos seus pacientes neuróticos. Não nos importa tanto a miríade de complicações que isso traz e que foram muito bem trilhadas pelo estudo de Monzani (1989) e de Laplanche45. Aqui é importante destacar que a ambiguidade na postulação de tal princípio revela uma dialética presente no conflito entre o princípio de prazer e princípio de realidade, e que se articula de maneira intrínseca com a economia do próprio prazer. Afinal, o mínimo ideal de tensão seria a tensão nula, própria dos objetos inanimados e da tendência mortífera do

43 O desprazer advindo da fome insatisfeita não caminha para a descarga, por exemplo, mas sim para o

excesso de estimulação e para a gradual degradação do organismo, que passa a tentar resolver a situação de maneira autofágica. Já os instintos sexuais revelam uma maior plasticidade quanto às suas possibilidades de satisfação, a tal ponto de Freud (1911/2010) afirmar, no artigo “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico”, que eles nunca se desvinculam de suas ligações com o “velho princípio do prazer” (p. 119).

44 O princípio da constância não pode ser confundido ou utilizado como sinônimo do princípio do

prazer sem com isso gerar uma enorme confusão. Segundo Strachey (1996), em “Apêndice: O surgimento das hipóteses fundamentais de Freud”, esse termo aparece em Freud desde 1893, no texto “Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos: uma conferência”, onde é postulado como uma tendência do organismo de responder com uma descarga motora quando frente a um aumento da soma de excitação pelas vias sensoriais. A expressão retorna no livro escrito junto com Breuer (Freud & Breuer, 1895/1974), Estudos sobre a histeria, no texto “Pulsões e seus destinos” (Freud, 1915a/2010), e também no texto “Além do princípio do prazer” (1920/2010). No entanto, a inspiração e o significado da expressão podem ser notados de maneira implícita ao longo de toda a obra do autor.

45 Essa temática é abordada por Laplanche em mais de um texto. Não apenas no livro já citado de

1985, mas também no livro Teoria da sedução generalizada (1988), e, juntamente com Jean-Bertrand Pontalis no Vocabulário da psicanálise (2001).

organismo presente no princípio do Nirvana. Se o organismo caminha-se exclusivamente para a fuga do desprazer não haveria vida possível.

Alguns anos depois, no texto “Problema econômico do masoquismo”, Freud (1924b/2011) corrige alguns de seus enunciados anteriores, e tenta deixar mais claro o seu pensamento. Pedimos então licença para acompanhar Herr Professor na longa citação a seguir:

Será lembrado que entendemos o princípio que rege todos os processos psíquicos como um caso especial da tendência à estabilidade proposta por Fechner, e portanto atribuímos ao aparelho psíquico a intenção de reduzir a nada a quantidade de excitação que lhe chega, ou, ao menos, mantê-la a mais baixa possível. Barbara Low sugeriu para essa suposta tendência, o nome de princípio do Nirvana, que nós aceitamos. Mas apressadamente identificamos o princípio de prazer-desprazer com este princípio do Nirvana. Assim, todo desprazer deveria coincidir com uma elevação, e todo prazer com um rebaixamento da tensão devida a estímulos que se acham na psique; o princípio do Nirvana (e do prazer, supostamente idêntico a ele) estaria totalmente a serviço dos instintos de morte, cuja meta é conduzir a vida sempre instável à quietude do estado inorgânico e teria a função de advertir contra as exigências dos instintos de vida, da libido, que buscam perturbar o pretendido curso da vida. Mas tal concepção não pode ser correta. Ao que parece, sentimos o aumento ou decréscimo dos montantes de estímulo diretamente na série dos sentimentos de tensão, e não há dúvidas de que existem tensões prazerosas e distensões desprazerosas. O estado de excitação sexual é o mais claro exemplo de um aumento de estímulos assim prazerosos, mas certamente não é o único. Prazer e desprazer, portanto, não podem ser referidos ao aumento ou diminuição de uma quantidade que chamamos de tensão devida a estímulos, embora claramente tenham muito a ver com isso. Parece que não dependem desse fator quantitativo, mas de uma característica dele que só podemos designar como qualitativa. Estaríamos bem mais adiantados na psicologia, se soubéssemos indicar qual é esse traço qualitativo. Talvez seja o ritmo, o transcurso temporal das mudanças, elevações e quedas das quantidades de estímulos; não o sabemos. Em todo caso, devemos reparar que o princípio do Nirvana, que pertence ao instinto de morte, experimentou no ser vivo uma modificação que o fez tornar-se princípio do prazer, e de ora em diante evitaremos tomar os dois princípios por um. Não é difícil adivinhar de qual poder se originou essa modificação, se queremos prosseguir com esse raciocínio. Pode ser apenas o instinto de vida, a libido, que desse modo conquistou sua parte na regulamentação dos processos vitais, junto ao instinto de morte. Assim chegamos a uma pequena, mas interessante cadeia de relações: o princípio do Nirvana exprime a tendência do instinto de morte, o princípio do prazer representa a reivindicação da libido, e a modificação dele, o princípio da

realidade, a influência do mundo externo. (p. 186 - 187)

Freud continua e complementa dizendo que nenhum “desses três princípios é realmente colocado fora de ação por outro” (p. 187), o que observamos é o conflito

permanente entre os três, que reproduzem a tendência dupla e conservadora da pulsão. Assim, como aponta Freud (1911/2010) em “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico”, princípio da realidade e princípio do prazer (entendido por vezes como sendo também o princípio do Nirvana) permanecem em contínua oposição dialética, sustentada, por sua vez, na busca cheia de desvios pela satisfação do desejo. Tal batalha dá a entender até

mesmo um rodízio simultâneo de reinados, em relações diplomáticas complexas de dependência mútua realizadas em um organismo que, lembrando o texto “Luto e melancolia” (1917b[1915]/2010), tem grande dificuldade em lidar com o abandono de uma posição de prazer.

Freud afirma repetidas vezes que é apenas a frustração e a decepção com a alucinação da satisfação que levaram ao fim o domínio do princípio do prazer, no entanto, é interessante se pontuar algumas coisas a esse respeito, de maneira a não ser sustentada aqui uma posição unidimensional de um problema mais complexo. Em primeiro lugar, é necessário apontar que o princípio de realidade não tem primazia absoluta e que o seu conflito com o princípio de prazer marca a existência de uma forte tendência a nunca se abandonar a busca do prazer. Um fenômeno, por exemplo, que figura na região do conflito permanente, e que estaria dessa maneira situado entre os dois princípios, é a nossa capacidade de figurar na imaginação um objeto que se ausenta. Uma habilidade adquirida por evolução, e que revela a nossa capacidade hipoteticamente infinita de lidar com a frustração para o bem da satisfação pulsional. Nas palavras de Freud (1911/2010):

Uma tendência geral de nosso aparelho psíquico, que pode ser relacionada ao princípio econômico da poupança de gastos, parece manifestar-se no tenaz apego às fontes de prazer disponíveis e na dificuldade em renunciar à elas. Com a introdução do princípio de realidade, dissociou-se um tipo de atividade de pensamento que permaneceu livre do teste de realidade e submetida somente ao princípio do prazer. É a atividade da fantasia, que tem início já na brincadeira das crianças e que depois, prosseguindo como devaneio, deixa de lado a sustentação em objetos reais. (p. 114)

Em segundo lugar, se a decepção e a frustração podem ser entendidas como decisivas no desenvolvimento do princípio de realidade, é também necessário afirmar que tais termos não implicam uma passividade do organismo, que supostamente seria tomado de assalto e rendido por uma realidade que mal quer saber dele – que por meio do choque e do susto traumático é forçado a se adaptar ou a morrer tentando. Talvez não haja um cenário mais adoecido do que uma adaptação tão subserviente e alienada a um mundo tão contraditório como o nosso! A decepção com o mundo externo é apenas uma das facetas da realidade; o cuidado ativo dos pais que mantém a criança viva e saudável é a outra cara dessa mesma realidade – por mais que ela não tenha sido tão explorada por Freud. O mundo externo é assim um mundo histórico, nem de longe estático; e ele é principalmente o resultado das relações estabelecidas entre os homens em sociedade. Uma realidade que também será acessada pela criança, mas apenas gradativamente, em doses pequenas – poder-se-ia mesmo

dizer preguiçosamente, viscosamente, como resultado crescente de uma série de tentativas e erros que acompanham o próprio desenvolvimento do corpo biológico e erótico (a sucessão das fases da libido, seus pontos de fixação, e as escolhas de objeto). Uma evolução que apesar de contínua, não é nem um pouco linear, tendo como característica essencial ser marcada, pela alternativa sempre aberta, para a tendência ao retrocesso e à regressão. O que não necessariamente implica em um adoecimento. Os gestos banais do dia a dia, os chistes, as fantasias que aparecem no brincar, a arte, os gestos supersticiosos, enfim, as situações mais cotidianas revelam o quão frequentemente regredimos para outras fases do desenvolvimento – sem que isso seja tomado como um comportamento doente, e nem mesmo como uma falha de adaptação.

Freud (1917a[1915]/2010), no texto “Complemento metapsicológico à teoria dos sonhos”, considera o sono, por exemplo, como um dos movimentos mais claros desse retorno às origens, “à situação que foi o ponto de partida de seu [do indivíduo] desenvolvimento vital. Somaticamente, dormir é uma reativação da estadia no ventre materno, preenchendo-se as condições de repouso, calor e ausência de estímulos (...)” (p. 152). Nós regredimos tão frequentemente para essas atividades que é até mesmo difícil traçar a linha que separa a sobriedade atenta ao exame real do mundo, da imaginação contemplativa que enriquece a própria vida e dá sentido para a criação do novo. Nada indica que o simples atributo viscoso da libido e a tendência para regredir a formas antigas de satisfação sejam determinantes privilegiados no adoecimento. Como vimos anteriormente, algo deve ser acrescentado para que a decepção com o mundo leve a uma frustração e à sensação psicológica de estar desamparado.

Assim, em terceiro lugar, não é correto imprimir um atributo qualitativo no conceito