4. Presentation and discussion of the findings
4.3 Uncoordinated partners a risk in regard to organisational development “For the recent deployment I have not seen PMI (National Society Indonesia), it is more and
4.3.2 Early involvement creates partnership and contributes to sustainable capacity In relation to Girgis explanation of capacity building success experience is not the only way
É importante frisar a questão da sacrossantificação do trabalho no capitalismo, pois tal constatação abre a possibilidade de vislumbrar a preguiça enquanto um “pecado virtuoso”, justamente por atentar contra a religião do deus Progresso “filho mais velho do Trabalho” (Lafargue, 1880/2003, p. 29): um “dogma desastroso” que seria a causa princeps do sofrimento e da miséria que assolava o operariado francês do século XIX.
Pois, afinal, se o esforço e a dor associados ao trabalho são considerados como uma maldição ou punição pela Igreja Católica, o que aconteceu para que ele passasse a ser valorizado enquanto virtude? O que pode ter acontecido para que o ócio, tão valorizado antigamente – na “época em que se pisava o mesmo chão e se respirava o mesmo ar que Aristóteles, Fídias, Aristófanes” (p. 21) –, pudesse ser visto como falha e vício, sendo necessário negá-lo e transformá-lo em seu contrário, em neg-ócio? (Albornoz, 2008; Chauí, 2012; Giacóia, 2012; Matos, 2012; Novaes, 2012). Desde quando as “palavras honestus e
honestiores deixaram de significar os homens livres e passaram a significar o negociante que paga suas dívidas?” (Chauí, 2012, p. 79). Porque, afinal, a estranha glorificação e idolatria do labor, daquilo que era símbolo da penitência no Cristianismo?
Weber (1920/2004)48, em um famoso escrito sociológico, A ética protestante e o
espírito do capitalismo, tenta responder a algumas dessas perguntas, atentando para as “afinidades eletivas” que haveriam entre a ética da religião protestante e o espírito do capitalismo. Nessa obra, que é um clássico da sociologia alemã, o autor argumenta, dentre outras coisas, que o capitalismo sempre existiu, mas que foi impulsionado e alavancado pelo pensamento religioso fruto das reformas religiosas iniciadas por Lutero. De acordo com o entendimento de Chauí (2012), nesse livro Weber explora a racionalidade específica do capitalismo, conseguindo relacionar diversos elementos da religião protestante, principalmente do calvinismo, com o espírito que guia e faz proliferar o referido sistema econômico, a saber, uma hipervalorização do trabalho e do ascetismo intramundano condensados na “ideia nova” de vocação (beruf) – da profissão como dever e sinal de salvação (Weber, 1920/2004, p. 47). O trabalhador, e aquele que não desperdiçar o tempo com ociosidade, luxos e prazeres carnais, sabe-se eleito para advir ao paraíso. Caricaturalmente, do lado oposto, os gastadores, preguiçosos e libertinos estavam condenados a serem párias da sociedade: “Ócio e prazer, não; só serve a ação, o agir conforme a vontade de Deus inequivocadamente revelada a fim de aumentar sua glória. A perda de tempo é, assim, o primeiro e em princípio o mais grave de todos os pecados.” (p. 143).
Ainda na esteira das reflexões de Chauí (2012), observamos que, para Weber, “tornou- se regra moral o dito ‘mãos desocupadas, oficina do diabo’” (p. 79). Por intermédio cada vez mais especializado da sistematização e do controle sobre a espontaneidade e a gratuidade da ação e da fruição do tempo, o trabalho transformava-se em princípio ético a ordenar a razão e, consequentemente, os ideais de conduta e de vida em sociedade. Nesse contexto, aquele que se dedicar a sua vocação (beruf) – entendida como atividade profissional –, que souber acumular dinheiro, honrar suas dívidas, e disfarçar os seus erros, terá o sucesso na terra: espelho de sua predestinação. Dessa forma, o trabalho, entendido como postura e atitude
profissional,é alçado à categoria de virtude; através dele, e somente dele, o homem pode se identificar como um dos eleitos à salvação. Tal princípio é transformado gradativamente em um modo operante a guiar toda a vida, que passa a ter no trabalho profissional o apogeu do seu modelo de funcionamento. Uma valorização do dever operada por uma doutrina religiosa
48Escolhemos a data da última revisão; segundo a Apresentação de Antônio Flávio Pierucci (2004)
para a edição consultada: “Chamemos então de versão original aquela publicada na revista Archiv [Archiv für Sozialwissenchaft], em duas partes e em dois momentos consecutivos, 1904 e 1905. E chamemos de versão final a edição de 1920 (ano também final da vida de Weber), aquela que se permite dizer as coisas numa linguagem mais precisa na forma e mais segura na atitude (...).” (p. 9).
que, nas palavras de Weber (1920/2004), conseguiu “eliminar a espontaneidade do gozo impulsivo da vida” (p.108). Nessa nova ética e racionalidade, um único erro bastaria como sinal de danação:
A práxis ética do comum dos mortais foi assim despida de sua falta de plano de conjunto e sistematicidade e convertida num método coerente de condução da vida como um todo (...). Pois só com uma transformação radical no sentido de toda a vida, a cada hora e a cada ação, o efeito da graça podia se comprovar como um arranque do status naturae rumo ao status gratiae. (p. 107).
Uma doutrina que, tomando de assalto a vida tradicional e o usufruto do tempo – também utilizado para o ócio, para a ociosidade, e para a “conversa espontânea” –, prega uma racionalidade segundo a qual o trabalho deve permear todo o contexto das atividades humanas, de maneira a gerar mais trabalho e mais lucro. Uma concepção da dedicação profissional como dever ético e como sinal de virtude: “a valorização do cumprimento do dever no seio das profissões mundanas como o mais excelso conteúdo que a autorrealização é capaz de assumir” (p.72). Em outras palavras, todo o conjunto das atividades é transformado em trabalho. Uma vez que é por sua prática contínua e pela ascese que se comprova a predestinação, perder tempo, ou agir de maneira inútil, espontânea, improdutiva ou gratuita, é condenar ao purgatório toda uma vida de sobriedade. Nesse cenário, além da diminuição dos feriados santos (e dos festejos populares) e do aumento das jornadas de trabalho assalariado, a
preguiça ficava condenada aos mais baixos dos círculos do Inferno. Segundo o sociólogo alemão, “Sloth {preguiça} e idleness {vadiagem} são pecados assim eminentemente graves (...). Chegam a ser considerados por Baxter como ‘destruidores do estado de graça’. Eles são exatamente a antítese da vida metódica.” (p. 254). Eliminado os prazeres da vida em nome de uma sobriedade rígida e intolerante, a nova ética impulsionou a empresa capitalista a um outro patamar, nunca antes visto.
Em tal contexto de hipervalorização do trabalho e da ascese – dessa nova racionalidade burguesa e puritana –, qualquer atitude que não estivesse direcionada à vocação profissional, era vista como um vício, uma fraqueza moral, que traria a peste e a desgraça não somente ao indivíduo – que sucumbirá na miséria ou na prisão –, mas também para toda a sociedade. Tal concepção fica evidente na análise empreendida por Weber sobre um escrito de Benjamin Franklin, chamado Advice to a young tradesman (1748 citado por Weber, 1920/2004): uma ótima expressão desse novo ethos, no qual o trabalho surge como um “poderoso racionalizador da atividade econômica geradora de lucro” (Chauí, 2012, p. 80).
Nessa perspectiva, perder tempo é trabalho subtraído em direção à glória de Deus, um atentado que se reflete como desatino para a racionalidade puritana e para a racionalidade capitalista. Nessa referência a Benjamin Franklin, tal postura ética da condenação da “antiga cadência de vida pacata” (Weber, 1920/2014, p. 60), surge fundida com o espírito capitalista de acumulação e reinvestimento de renda, nas palavras de Franklin:
Lembra-te que tempo é dinheiro; aquele que com seu trabalho pode ganhar dez xelins ao dia e vagabundeia metade do dia, ou fica deitado em seu quarto, não deve, mesmo que gaste apenas seis pence para se divertir, contabilizar só essas despesas; na verdade gastou, ou melhor, jogou fora, cinco xelins a mais. (citado porWeber, 1920/2004,p. 43).
O espírito capitalista se funde aqui com a ética protestante da ascese intramundana. Romper, ou não seguir com essa ética, é uma falta não apenas religiosa, como passa também a ser condenada socialmente e racionalmente. O trabalho profissional ganha um estatuto de
virtú e de ordenador da economia que jamais havia possuído e que, infelizmente, manteve muito depois das mudanças que seguiram as novas transformações do capitalismo. Segundo Weber:
Ora, esse processo de racionalização no plano da técnica e da economia sem dúvida condiciona também uma parcela importante dos “ideais de vida” da moderna sociedade burguesa: o trabalho como objetivo de dar forma racional ao provimento dos bens materiais necessários à humanidade é também, não há dúvida, um dos sonhos dos representantes do “espírito capitalista”, uma das balizas orientadoras de seu trabalho na vida. (p. 67).
Assim, como ressalta Chauí (2012), a percepção do trabalho metódico como operador da vontade divina foi importante não apenas para o desenvolvimento vertiginoso do capitalismo – para Weber, enquanto coincidência histórica –, como também, “teria sido decisiva para a construção da racionalidade capitalista ocidental moderna, dando ao ócio um aspecto mais terrível do que tivera até então.” (p. 80). E o que dizer do pecado capital da preguiça?! Sabe-se, por exemplo, ao menos desde os escritos de Marx e Engels, que a associação entre a preguiça (ociosidade) e a mendicância levou muitas pessoas para a prisão e para a morte nos trabalhos forçados49. A exaltação do trabalho não inclui somente o sucesso na vida privada do novo indivíduo burguês, ele passa também a regular a sociedade como um índice moral e legislativo, como padrão de conduta, de sobrevivência, e posteriormente de saúde, sendo a sua negação condenada com a pena capital.
49Também é de conhecimento geral que nos portões de ferro de Auschwitz, durante a época da
Bem, a questão é que Weber se recusa a aceitar a ideia do determinismo econômico e da luta de classes enquanto motor da história. Segundo Chauí, isso talvez o tenha impedido de vislumbrar que, se essa doutrina já era “esquisita” para o empresário médio, imagine como era absurda e aviltante para os camponeses recém-emigrados dos campos para os burgos e para os milhares de operários – crianças e mulheres inclusos – que trabalhavam de 12 a 15 horas por dia por um salário de fome, que mal supria as suas necessidades50. É como se houvessem trocado a miséria e a garantia de uma vida futura de prazeres no paraíso pela labuta na fábrica e pela incerteza do futuro. Portanto, a dúvida inquietante é saber: como tal ética e racionalidade se tornaram aceitáveis para o exército de operários explorados, levando-os até mesmo a lutar pelo direito ao trabalho? De acordo com a autora brasileira, é justamente disso que se trata o manifesto de Lafargue.