2.4 Bagging for stabilization and quantification of uncertainty
2.4.2 Uncertainty estimation
A Praça do Conjunto dos Ipês está situada no bairro do Recanto dos Vinhais, que se localiza a nordeste do Centro da cidade (Figura 10). As casas que compõem o Conjunto foram erguidas pela Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale, em 1979, com o propósito de dotar seus trabalhadores de residências. Toda a infraestrutura urbana inicial foi instalada pela mineradora. Na mesma época, foi urbanizada a área ao lado da antiga cooperativa dos funcionários da Vale e em frente à sede da Associação de Moradores do Conjunto dos Ipês (ASCOPE). As dimensões espaciais da Praça são bem menores quando comparadas às outras analisadas. Em forma de um triângulo (Figura 11), seus limites são as ruas Dois, Cinco e Seis, pois na designação dos logradouros do bairro as vias são identificadas por números e quadras.
Fonte: Google Mapas.
Na Praça do Conjunto dos Ipês a pesquisa foi realizada também com observação direta entre os meses de abril a agosto de 2011, em horários diferentes. Entrevistas do tipo estruturado, com rol invariável e padronizado de perguntas, foram aplicadas aos usuários, frequentadores, vizinhos e transeuntes. Apuraram-se categorias de atores sociais que se apropriam do espaço, entre eles estão incluídos vizinhos, associados da ASCOPE, grupos juvenis, casais, comerciantes e rodoviários de uma empresa de ônibus que tem ponto final na Praça.
Figura 11 – Fotografia de satélite da Praça do Conjunto dos Ipês.
Fonte: Google Mapas.
Desse modo, com o propósito de analisar os ritmos e comportamentos, foram identificados indivíduos e grupos frequentes ocasional e habitualmente na Praça. Definiram- se, além disso, horários nos quais determinadas apropriações dos espaços ocorrem. O início da manhã, o fim da tarde e o início da noite são momentos de usos mais intensos da Praça. A fluência nos dias úteis da semana é diferente do que ocorre nos fins de semana. Entre segunda- feira e sexta-feira a copresença é maior, com um padrão de ritmo em seu uso e apropriação social diferente das duas outras praças pesquisadas.
Os usos, apropriações e interações sociais no espaço da Praça do Conjunto dos Ipês são distinguidos por sua característica comunitária. Ao bairro, além dos moradores, afluem trabalhadores domésticos e empregados nas empresas ali instaladas. Do ponto de vista socioeconômico, o Conjunto é composto por uma vizinhança com casas erguidas ao final da década de 1970, nas quais residem famílias de renda média, e outras residências edificadas em lotes de ocupação fundiária não regularizada na área de baixo confinante ao Conjunto. Logo,
as condições socioculturais apresentam-se diferenciadas. A Praça é mais usada por indivíduos e grupos que procedem de bairros como Recanto dos Vinhais, Vinhais e Bequimão.
No que se refere às relações de vizinhança, as duas comunidades existentes convivem bem, mas dão usos à Praça nem sempre semelhantes. Os moradores do Conjunto conferem a ela usos comunitários e associativos. A outra parcela, que reside nas cercanias do Conjunto, comparece à área, apropriando-se, sobretudo, dos locais de espera de transporte. Nas origens do Conjunto havia um parquinho equipado com brinquedos para crianças, que se foi deteriorando com o tempo sem a manutenção devida e removido há uma década. Os moradores do Conjunto, que têm a Praça como sua, apropriam-se pouco dela, usando-a como local de passagem. Suas interações sociais devem suceder em outros cenários, com atores diversos dos que se situam nesse contexto público.
Indivíduos e grupos marcam também suas relações no espaço da Praça sob a presença constante da Associação de Moradores, a qual realiza intervenções que o poder público municipal ou estadual deveria fazer. Em muitos aspectos, a Associação faz as vezes de poder público, desempenhado seu papel em substituição. O fornecimento de água é por conta da Associação que cobra pelo serviço, que alguns, entretanto, recalcitram em pagar; o que tem gerado disputas entre vizinhos no ambiente da comunidade.
Os vizinhos, quando provocados em entrevistas, destacam entre as motivações para frequentar a Praça a proximidade de suas casas. Outros atrativos são aproveitar a tranquilidade da região, poder lanchar no quiosque instalado, ter momentos de lazer com filhos ou passear com o cachorro. Percebem os moradores a necessidade de melhoramentos, pois as demandas de conservação são maiores do que os recursos, serviços e medidas que a Associação de Moradores pode prover. Reconhecem, no entanto, os vizinhos que a Praça é boa, ventilada, aconchegante, agradável, tranquila, mesmo em dias com intenso movimento (Figura 12).
Os moradores residentes no entorno da Praça do Conjunto dos Ipês usam e apropriam-se do espaço social também nos mesmos trechos, pouco variando as áreas usadas. Destacam a percepção comunitária, mas reclamam do pouco envolvimento dos habitantes do Conjunto nos problemas da comunidade, como no trecho de entrevista a seguir:
- Andando.
- Há quanto tempo você vem frequentando esta Praça? - Oito anos.
- Qual foi o critério de escolha utilizado para frequentá-la? - Comunidade, fica próxima à minha casa.
- O que você poderia dizer sobre esta Praça?
- É uma Praça boa. Precisa ser melhorada, está mal tratada - Quantas vezes na semana você vem à Praça?
- Diariamente.
- O que você costuma fazer nos momentos em que está na Praça? - Conversar. (B., 65 anos).
Figura 12 – Vista parcial da Praça do Conjunto dos Ipês.
Foto do autor.
Os horários preferidos para usos da Praça são as manhãs e finais da tarde. Na manhã é comum caminhar pelo bairro, “para aproveitar o sol e a ventilação saudável”, tendo a Praça como local de lazer e circulação. À tarde os moradores usam para passear com seus cães. O dia mais movimentado da semana é o sábado pela manhã, quando é grande o fluxo ao mercado existente em frente à Praça. Entre as principais práticas adotadas pelos vizinhos estão: conversar com os amigos e pessoas conhecidas, lanchar, caminhar, passear com o cão,
observar o movimento, acompanhar filhos e netos menores, esperar o ônibus, ler, contemplar o céu e o horizonte. A Praça está situada em local elevado na paisagem, o que permite um arejamento com a brisa vinda do litoral e apreciada pelos moradores, motivo reconhecido como fator de atração pelos frequentadores.
Alguns residentes deixaram de ir à Praça por determinado período. Entre os pretextos estão a falta de tempo e a insegurança durante a noite. Em sua maioria, os usuários vêm acompanhados à Praça, com filhos, netos, cônjuges, familiares, namorados, vizinhos e animais de estimação. Por vezes, reúnem-se com grupos de conhecidos como familiares, amigos, vizinhos e grupos de igreja que já estão aguardando. Diferentemente das outras duas praças (Gonçalves Dias e Ressurreição), não existe nesta a presença física de igreja.
Do mesmo modo que na Praça da Ressurreição, quando vêm à Praça, os usuários moradores estabelecem-se no mesmo pedaço, repetindo o padrão da praça de bairro, na qual os mesmos lugares costumam ser apropriados de modo reiterado pelos grupos que se reconhecem e identificam-se nos espaços das praças. A maioria reside e frequenta a Praça há mais de dez anos, o que expressa certa permanência entre os comunitários.
Grupos juvenis ocasionalmente apropriam-se de espaço para fins de exercício de sociabilidades como conversas nos bancos da Praça. Dizem que nos momentos de lazer preferem frequentar, em ordem de preferência: shopping center; praia; cinema; praça; clube; bar, restaurante e lanchonete; igreja e sítio. Como os demais usuários, os grupos de jovens chegam andando, pois residem nos arredores. Pode-se notar que a frequência à Praça não está entre as escolhas prioritárias, sendo pequena a permanência de grupos juvenis nesse espaço.
Casais usam a Praça nos diversos horários da semana, com mais incidência à tarde e, sobretudo, à noite; ficam nos bancos ou em automóveis estacionados ao largo da Praça. O decoro nas interações entre casais não parece ser intenso como se poderia supor. Os que expressam afetos excessivos nos bancos não residem nas proximidades, são de outras localidades, granjeando a atenção dos vizinhos para os arroubos nas carícias. Alguns casais chegam à Praça de carro e aí permanecem sem ser importunados. Os casais veem a Praça como espaço adequado às interações entre namorados, que podem sentar nos bancos e conversar em paz.
As relações na Praça atendem, além disso, finalidades utilitárias. Constataram-se interações sociais nas quais existe a presença de atores sociais que habitual e
profissionalmente comercializam no entorno da Praça. Indivíduos frequentam ocasionalmente esse espaço para adquirir produtos nos estabelecimentos de comércio varejista ou em lanchonete. Um supermercado atrai para a área fregueses que a acessam com a finalidade de fazer compras, estacionando seus automóveis nas dependências da Praça. Interações são também efetivadas na lanchonete/quiosque onde há mesas, cadeiras e televisão, servindo à clientela do bairro. Quem exerce atividades comerciais percebe a Praça como lugar com boas perspectivas de usos comerciais por sua localização, fácil estacionamento e consumidores com poder de compra.
Nas interações com indivíduos desconhecidos vigora certo grau de distanciamento social. Supõem os moradores que o estranho está aguardando o ônibus no ponto final ou indo ao mercado para fazer compras. Esses momentos são marcados pela sensação de insegurança, que é resultado de episódios de invasão de residências, roubos e furtos no bairro, o que deixa os moradores intranquilos. Existe uma desatenção civil associada à presença de indivíduos desconhecidos na Praça, que os moradores fingem não ver nem encaram fixamente, mas que tendem a despertar suspeitas de perigo iminente, fundado ou sem causa.
Uma empresa de transporte urbano de passageiros tem ponto final na Praça e os rodoviários compõem outro grupo que usa e se apropria de seus espaços. Motoristas e cobradores ao chegarem à Praça fazem pausas em intervalos para retomar o percurso da linha de ônibus urbano, que liga o bairro ao terminal da Cohama. Nesses momentos lancham, conversam entre si, com passageiros e moradores que se encontram no abrigo de passageiros. Queixam-se da falta de sanitários. Outrora existia uma cabine com pequeno escritório e banheiro para os rodoviários, que pertencia à ASCOPE e foi demolida para dar lugar a um jardim, ampliando a área verde da Praça. Quando necessário, usam os rodoviários o lavabo do mercado próximo ou os do terminal da Cohama, quando chegam lá.
O poder público não tem realizado intervenções na região. Eventualmente, conta- se com alguma ronda policial. O asfaltamento no entorno da Praça é antigo e começa a se desfazer, não providenciando o poder público municipal os reparos devidos. De um modo geral, a vizinhança tem criticado a ausência de prestação de serviços ou de colaboração do poder público com a comunidade do Conjunto.
Quando indagados, os usuários identificam grupos que habitualmente frequentam, usam e apropriam-se de espaços da Praça (Figura 13). Indicam moradores e vizinhos,
estudantes uniformizados, casais, passageiros da linha de ônibus, familiares e membros da igreja do bairro.
Figura 13 – Cenários dos usos e apropriações na Praça do Conjunto dos Ipês.
Como pontos fortes para um melhor uso do espaço da Praça os usuários apontam o que reputam como a boa localização, tranquilidade e ventilação, por se tratar de um lugar alto. Como fatores para afastamento e desuso da Praça listam os frequentadores a falta de uma área ou parque para as crianças brincarem, a insegurança causada pelos assaltos, a pouca presença de estabelecimentos comerciais e a quantidade excessiva de cachorros abandonados ou criados soltos por donos relapsos. Dentre as praças investigadas é a que apresenta a maior população de cães que perambulam, sujando e depreciando o espaço comunitário. Ainda do ponto de vista dos usuários, o que a Praça tem a oferecer de melhor são ventilação, tranquilidade,
sossego, ponto de ônibus, lanchonete, sombra das árvores, ambiente agradável para encontrar e conversar com os amigos.
Deve-se analisar de modo detido o fato de a Praça não ter um nome oficial nem oficioso conferido pelos usuários. Indivíduos e grupos frequentadores não sabem responder qual o nome desse logradouro público. Dizem que a Praça não tem nome, outros sugerem "Praça do ponto final do ônibus", "Praça do Mercadinho", "Praça da ASCOPE" ou “Praça sem nome”. A Praça é valorizada pelos usuários por sua ventilação, tranquilidade e localização central no interior do bairro, apesar de não usada como poderia ser. O fato de não ter o espaço um nome pode denotar a insuficiente apropriação, que se revela logo pela designação do lugar. Um espaço sem nome tende a sugerir afastamento e pouca intimidade, proporcionada pelo distanciamento afetivo. Deve-se realçar o que a Praça do Conjunto dos Ipês tem de peculiar, que é a atuação da Associação de Moradores como importante agente participante das interações sociais, contribuindo para os usos e apropriações sociais do espaço no ambiente onde convive a comunidade.