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As novas configurações do mercado da música popular em São Luís, em meados dos anos 1980, privilegiavam os pequenos grupos musicais. À medida que a década terminava e os grandes clubes entravam em declínio, novos espaços de festa começaram a surgir em diversos bairros da cidade. Para a camada jovem do público, as boites com som mecânico começaram a se populari- zar em espaços como Seven Night, Genesis, Tucanos, Ninja e outras, que tocavam música pop dançante para a elite frequentadora dos clubes sociais. Os bares de reggae cresciam e ganhavam mais espaço também com música gravada e paredões de caixas de som então chamadas de radio- las.

Para os amantes do bolero, fatia do público que tinha mais idade, surgiam as primeiras ca- sas nos moldes do que hoje conhecemos como as choperias. Datar o surgimento e fechamento destas casas é uma tarefa difícil, mas pude identificar, pelas entrevistas, uma sucessão de nomes de casas cujo surgimento se dá exatamente nesta seara de entre-décadas. São algumas delas: Momentos (não confundir com Momentu’s) Jumbo, Tom Ver, Escritório Bar, Tom Marron (São Francisco); Hora Extra, El Dourado (Turu); Tia Maria, Bohemia (av. dos Holandeses); Gata mansa (Planalto), Beira Rio, O Tito (Cohab), Caneco (Centro), Bar das Ostras (Calhau). Estas casas não tocavam somente serestas, assim como as serestas começaram a ocupar espaços antes dedicados a outras festas, como o Sindicato dos Bancários e o Arraial das Malvinas. A facilidade logística da festa contribuía para a sua proliferação e esta proliferação gerava ocupação aos músicos, recém demitidos das grandes bandas, ou em busca de trabalho extra para complementar a renda. Havia, além de locais fixos, as serestas itinerantes. Pela facilidade técnica de montagem da festa, canto- res passaram a operar sozinhos e se podia fácil e rapidamente instalar duas caixas de som e um teclado sobre um ou dois engradados de cerveja no meio de uma rua residencial, fazendo ali mesmo uma seresta. Tornou-se comum, em bairros, o contrato de serestas para uma ocasião especial como o aniversário de alguém ou outra data festiva. Era uma festa popular e barata.

Choperia, em São Luís do Maranhão, é uma casa de festa, geralmente aberta, com um salão de dança rodeado de mesas. Estes locais vivem da venda de cerveja, apesar do nome aludir ao chope e oferecem música ao vivo feita com teclado de programação e voz. Grande parte destas casas fica em locais de passagem de trabalhadores, entre seu local de expediente e suas residên- cias, de modo que a frequência maior é de pessoas que pagam suas próprias contas e estão acima dos 30 anos. Há choperias com 40m2 e outras que poderia facilmente comportar um Moto x Sam-

paio87. O repertório destas casas é aquele associado à seresta e ao brega, com abertura para di-

versos ritmos populares como o forró, o axé, a lambada, o baião, o arrocha e a MPM/MPB. As casas são frequentadas por um público formado majoritariamente de casais, boa parte nascida ou de segunda geração de alguma cidade do interior do Maranhão. Estas pessoas, em sua maioria, ocupam profissões liberais, são empresárias de pequenos negócios como salões de beleza ou restaurantes; há ainda uma fatia de comerciários e funcionários públicos. As choperias estão, em sua maioria, localizadas próximas às paradas de ônibus; as maiores são empresas com forte for- malização, em torno das quais orbita um rico comércio informal, com o qual são coniventes.

Ao longo dos anos, estas casas estiveram espalhadas em áreas da cidade tradicionalmente associadas aos mais diversos setores sociais, do Calhau (área nobre, onde funcionava o Bar das ostras) à Forquilha (bairro popular, lar da Choperia Marcelo), a seresta penetrou em diversas clas- ses sociais, segmentação que perdura até os dias de hoje, como veremos neste mesmo capítulo.

O investimento nas choperias é sempre privado, algumas eram custeadas por cervejarias, outras por empresários do ramo das casas noturnas como Sérgio Linhares, ou eram locais meno- res que cresciam com a nova demanda e se estabeleciam. Isto é importante mencionar em se tratando da São Luís nos anos 1990, onde ocorre uma presença cada vez maior do estado no cus- teio de festas populares, com investimento em músicos, grupos e principalmente em grandes espaços para shows da música considerada folclórica pelos representantes do estado. As serestas não gozam destes investimentos.

Buscando entender as diversas sociabilidades no universo das choperias, concentrei meu trabalho de campo em duas destas choperias: Choperia Marcelo e Chopperia Kabão.

Choperia Marcelo

Meu esquema sempre foi teclado. Jânio Maciel, 2008

Nasci em São Luís, no bairro da Cohab, bairro popular de classe média, que em 1979, ano de meu nascimento, ainda dava os seus primeiros passos. Cresci com diversos sons que vinham de várias direções, fossem das quadrilhas que ensaiavam e se apresentavam nas ruas, das bandas marciais das escolas que passavam, também em ensaios, no mês de setembro ou dos blocos de carnaval que por ali também desfilavam, quando era sua época. Os únicos sons que não eram sazonais e que se poderia ouvir, mesmo à distância, era o das casas de festa como o Gata Mansa e, mais tarde, da Choperia Marcelo.

Eu não ouvia a Choperia Marcelo de casa, mas as domésticas que trabalhavam conosco fre- quentavam a choperia e, através delas, conheci vários dos nomes da música brega do Maranhão no começo dos anos 1990.

Somente anos mais tarde pude conhecer o espaço e as festas que ali aconteciam.

Inaugurada em 1987 como uma pequena lanchonete no bairro da Forquilha, a choperia fi- cava a mais ou menos 100 metros de onde funciona hoje. O retorno da Forquilha é uma área de alta circulação de pessoas, sendo uma intercessão entre duas avenidas de alto movimento, a sa- ber, a Jerônimo de Albuquerque (que corta a cidade do aeroporto ao Calhau) e a Estrada de São José de Ribamar. Neste retorno há postos de gasolina, muitas residências e uma enorme filial da Igreja Universal, onde originalmente funcionava a Marcelo.

O proprietário, Jânio Maciel, nascido em Bacabal (250 km de São Luís), trabalhou como vendedor nas casas Pernambucanas, antes de abrir um bar no bairro do Maiobão. Sua família tinha diversos bares no Maiobão e Araçagy, todos chamados “O Maciel”. Jânio alugou uma lan- chonete chamada Marcelo, na Forquilha, e mudou o nome para choperia Marcelo (Marcelo era o filho da dona da lanchonete).

A choperia Marcelo começou há 19 anos atrás e quando eu escolhi fazer a Cho- peria Marcelo eu escolhi uma casa pro povão mesmo, pro povão, no intuito de abrangir justamente o povo do bolero, entendeu? O povo do bolero, que é um ramo, um estilo de música que eu me entendi ouvindo. (Jânio Maciel, 2008) A Cohab já tinha casas de seresta como o Gata Mansa e a choperia rapidamente cresceu, sempre com o teclado no palco e venda de cervejas. Em 1993, o bar mudou para sua atual locali- zação, em sede própria. Os nomes que surgiam no brega do Maranhão, no começo dos anos 1990, tocavam na Marcelo. Ali, Júlio Nascimento, Ray Douglas e Lairton fizeram seus shows de maior público na cidade.

O surgimento da choperia acompanhava uma tendência, já apontada aqui, de abertura de casas para explorar este nicho de mercado. O que destaco como importante no caso da Marcelo, e que são apontados como fatores importantes para sua longevidade é a formalização da chope- ria e a sintonia com o que o mercado oferece de referência no brega e na seresta, além da locali- zação de alta circulação e da cerveja barata.

Casa noturna aqui em São Luís, muitos poucos tinha banda completa, com te- clado, guitarra, baixo e bateria. A maioria das casas aqui em São Luís, quando eu me entendi aqui em São Luís com casa noturna, geralmente era um teclado, um guitarra e os back (Jânio Maciel, 2008)

Maciel já tinha como referência outras casas e, com o passar dos anos, a sua também se tornava a referência para o mercado da seresta em São Luís. Para os cantores bregas, tocar na Marcelo é símbolo de ascensão em suas carreiras.

Figura 15 - Choperia Marcelo lotada. 2011. Fonte: kamaleao.com.br. Acesso em janeiro de 2012.

A choperia possui uma banda residente, com músicos funcionários da casa, chamado Grupo Digital.

Em 91 eu vim pra choperia Marcelo, no qual cantei por 16 anos, no grupo Digi- tal. Eu comecei na choperia tinha só um cantor, e eu entrei pra ser o outro can- tor. O que que nós fazíamos, esse rapaz cantava uma hora, aí eu cantava uma e ele descansava, todos os dois se acompanhavam (no teclado). Aí ele fazia uma hora, eu tava descansando, fazia outra, isso vice e versa. Isso nós ficamos muito tempo. Aí quando a choperia mudou do retorno onde era a Universal pra essa atual choperia foi quando nós fundamos o grupo (digital). (Rogerinho, 2011) A banda chamava banda Maciel, sobrenome do proprietário da choperia. O novo nome veio por conta do primeiro pedal de reverb de voz que chegou na choperia, o pedal tinha o nome es- crito em seu corpo. “é bem moderno, um negócio que tá surgindo agora, a era digital, aí foi bati- zado o grupo digital, mais ou menos 94 por aí assim” (Rogerinho, 2011)

É um grupo que toca de tudo um pouco, mas quando toca aqui na minha casa, 70% é esse estilo aí, que tu acabou de falar, o brega, por causa das músicas. São músicas dançantes a dois, que pega o romântico, como Amado batista, Reginal- do Rossi, o próprio Léo (Magalhães), que é a febre do momento (Jânio Maciel, 2008).

O grupo digital anima as noites da choperia de quarta a domingo, com cinco cantores e dois tecladistas. O grupo já gravou diversos discos e os cantores, funcionários da casa, possuem tam- bém carreiras-solo. O grupo digital se apresenta fora da choperia e abre os grandes shows que

eventualmente ocorrem na Marcelo. A formação atual do grupo é Alan, Zé Carlos (teclados), Lulu Reis, Alan Borges, Alessandra e Tatiana Pereira (vocais).

Em 2008, quando entrevistei Jânio Maciel, a choperia tinha 85 funcionários diretos e vendia cerca de 2000 grades de cerveja Brahma por mês. Vendedores informais, como os de doces, dis- cos, cigarros e outros produtos que a choperia não oferece, têm passe livre no estabelecimento. A entrada nos dias regulares, quando não há show de algum artista convidado, é gratuita. Quando há shows, o ingresso oscila entre R$ 10,00 e 25,00 (entre 5 e 10% de um salário mínimo).

Figura 16 - Logotipo da Choperia Marcelo.

Chopperia Kabão

A Chopperia Kabão é a melhor opção quando o assunto é divertimento, descon- tração e música ao vivo. Sempre comandada pela Banda do Kabão, nas noites de quinta a domingo.

A Banda do Kabão, além de possuir em sua formação os melhores músicos de São Luís, também possui repertórios variados para satisfazer a todos os gostos musicais.

Localizada em outro extremo da cidade, no Centro, a Chopperia Kabão é uma das de maior visibilidade para quem circula naquela região.

Durante a construção do projeto Reviver88 (1986 a 1989), havia quatro pequenos restauran-

tes onde hoje é a rampa Campos Melo, na Av. Beira Mar. Eram pequenos quiosques que alimen- tavam “a peãozada” responsável pela obra (Kabão, empresário, dono da choperia homônima, 2008), oferecendo PFs no almoço e seresta com teclado de programação no jantar, para este mesmo público e outras pessoas que trabalhassem na área do centro, com grande público e alta venda de cerveja. Estes restaurantes eram reconhecidos pelos nomes de seus proprietários: Kabão, Luzimário, Piloto e Nonato. Não havia outras casas, nesse estilo, naquela região.

Em 1989, com o término das obras, o governo estadual (sob o comando de Epitácio Cafetei- ra), tentou consolidar o projeto de transformação do centro histórico da cidade em um sítio de visitação turística, alicerçado na valorização do folclore e nos mitos de formação de São Luís como Atenas brasileira, tendo como síntese/resquício material o casario colonial. Nesta época, novos bares e restaurantes como o Antigamente89 foram abertos na região restaurada, além de museus e lojas de artesanato voltadas para o público turístico e para a elite da cidade. As brochuras da Maratur90, daquele momento, mostram uma São Luís de tradição popular com o Bumba meu Boi e de história “preservada” com o Projeto Reviver, ou como diria o Epitácio Cafeteira, já como se- nador:

[O reviver] é uma “estrada” que resgata o passado, ligando-o ao nosso presen- te, como “ponte de fé” para o futuro de prosperidade que antevejo para o Ma- ranhão (...) turistas de todo o mundo poderão, doravante, ter impressão oposta ao que se presenciava até recentemente e reconhecer os esforços e a capaci- dade de nossa gente em defesa da memória e do patrimônio cultural do Mara- nhão e do Brasil, por extensão. É progresso, sem desrespeitar a nossa história. (CAFETEIRA, 1997, p 03 e 04)

Este processo de higienização da área do centro histórico incluiu a retirada dos restauran- tes populares e de seu público. Dos quatro, o único que ainda ocupava um espaço próximo era o Barcanal, cuja propriedade passou para a esposa de Nonato, e ainda hoje funciona com serestas ao lado do terminal de Integração de ônibus da Praia Grande, do outro lado da avenida, logo, fora do sítio restaurado. O Kabão foi inicialmente para onde hoje está o Circo Cultural Nelson Brito (aproximadamente 300 metros do local original) e mudou-se para o Portinho em 1998 (mais de 2km de distância), quando deixou de ser o bar do Kabão e tornou-se a Chopperia Kabão.

88 O Projeto Reviver foi uma ação de restauração, reurbanização e suposta revitalização do Centro Histórico de São Luís, no intuito de criar ali um novo atrativo turístico.

89 Restaurante de comidas típicas maranhenses que funcionava na Rua do Comércio, coração do centro turístico. Deco- rado com temas maranhenses como arquitetura colonial e Bumba-meu-boi; promoveu shows com cantores antigos. 90 Empresa Pública de Turismo do Maranhão, parte da Secretaria de Turismo, já extinta. Acervo próprio.

A cerveja custa R$ 05,00 mais caro que no mais caro bar da Praia Grande/Reviver, onde a cerveja oscila entre R$ 02,50 e R$ 4,50 (dados de 2011).

O público é formado, majoritariamente, por pessoas vindas do interior, mas residentes na capital, de diversas profissões como pequenos empresários, pedreiros, cabelereiros e outras ocu- pações ditas populares. O motivo principal da ida à choperia é o encontro, a dança e a música91.

Na região do Portinho já havia um movimento de choperias, sendo a primeira a Choperia Marujo92, aberta em 1985 por um ex-marinheiro mercante. Várias outras choperias e casas notur-

nas começaram a surgir na região do Portinho, ao longo dos anos 1990, como o Forró do Arlindo, a Choperia Cidade, Choperia Beira-Mar, (todas voltadas para a seresta) e casas de reggae como o Papa Reggae, ao lado do Papódromo93. No palco, sempre o teclado de ritmo.

Quando eu cheguei aqui não tinha nenhuma choperia e aqui também só tinha um negocinho. Eu fiz isso aqui tudinho, isso aqui tudo foi feito por mim. Só aqui eu coloquei 400 carradas de entulho aqui dentro. Só aqui! Isso aqui era um bu- raco! (Kabão, 2008).

[essa região] eram só barzinhos, quiosques mesmo pequeno [O Marujo] Come- çou como barzinho, aí foi crescendo e a gente botou música ao vivo (...) Foi no ano de 95. A gente pegou isso aqui um pouco antes de 95, agora a choperia começou em 95, digamos que tenha sido uns dois anos antes, 93, com barzinho, e lá pra 95 a gente começou com música ao vivo. Seresta, esquema de seresta, sempre no esquema de seresta, teclado e voz (Cesar Roberto, gerente da Cho- peria Marujo, 2011)

O proprietário e fundador da choperia, José Martinho dos S. Barros, vulgo Kabão, trabalhou como ambulante, pedreiro, agricultor e formou-se como cabo da polícia militar. No final dos anos 1980 exercia a função de soldado da polícia e abriu um quiosque de venda de lanches no Maio- bão, alugando logo após um ponto na rampa Campos Melo, onde dividia os custos dos pequenos

shows que realizavam com as outras três lanchonetes no mesmo lugar. Kabão era lotado no posto

fiscal do estado, que ficava no prédio onde até alguns anos atrás, o governo do estado tentou instalar um museu do bumba meu boi chamado Casa do Maranhão. Ao apartar uma briga na rampa, foi-lhe atribuído o apelido de Kabão (ou seja, grande cabo), nome que passou a adotar.

Em 2008, Kabão foi eleito prefeito do município de Cantanhede pelo DEM e afastou-se da administração direta da choperia.

91 Informações com base em questionários aplicados com o público da Chopperia Kabão em julho de 2010.

92 As choperias raramente existem isoladamente. Via de regra, há um “nicho” de choperias, com doas ou três em um espaço de poucos metros.

93 Estrutura metálica construída para a visita e missa do papa João Paulo II em São Luís, na década de 1990. Hoje, em ruínas.

Figura 17 - Casal dança bolero na Chopperia Kabão. Foto: Bruno Azevedo, 2012.

O Kabão é um enorme pátio entre o rio Bacanga e as paradas de ônibus do Portinho com seus quiosques de venda de pratos-feitos e pequenos bares. Com o Bacanga em nossas costas, à direita temos a Capela de São Pedro e o Ceprama, à esquerda, a área tombada do centro históri- co. Em torno dessa choperia, há outras, além de quiosques onde se bebe cerveja ao som da banda preferida troando do porta-malas do próprio carro. Cercada por uma grade de metal que permite visibilidade total de quem está fora, possui o palco em uma extremidade e um quiosque na outra, onde se compram as fichas de cerveja e outros produtos. O consumo de cerveja é tão intenso, que cada mesa da casa conta com uma grade (24 garrafas) vazia logo abaixo, onde os clientes depositam os vasilhames cujo conteúdo já foi consumido. A venda, em 2008, era de 400 grades de cerveja por semana. O Kabão “vive de vender cerveja” e gera quase 50 empregos diretos num terreno de concessão pública (Kabão, 2008).

Assim como a Marcelo, os músicos da Banda do Kabão são funcionários da choperia (como nos antigos clubes sociais), como também garçons, seguranças e demais atendentes. É permitida a entrada de ambulantes e, salvo nos dias de shows de artistas famosos vindos de outras cidades, a entrada é gratuita. Quando cobrada, oscila entre os mesmos R$ 10,00 e 25,00. O público é for- mado, em sua maioria, de casais acima dos 30 anos.

O que se notou nos anos 1990 foi um crescimento do mercado das chamadas choperias, com a consolidação das maiores empresas, como as duas analisadas, e o surgimento de centenas de outras casas pela cidade. Somente na área da Cidade Operária, a delegacia de Costumes e di- versões públicas de São Luís registra 200 casas noturnas catalogadas como choperia (Ana Tereza Dualibe, 2011).

No que concerne a esta pesquisa, entendo que havia uma demanda para o modelo de festa oferecido pelas choperias, e a facilidade técnica do teclado favoreceu a satisfação desta demanda com casas de custo operacional baixo, estruturas simples e lucro centrado na venda de cerveja. Hoje, é possível ao público ir a uma seresta diferente a cada dia da semana em São Luís, de se- gunda a segunda, do Calhau ao Estreito dos Mosquitos.

As choperias, como os músicos na geração de bandas de baile, buscam a constante melho- ria tecnológica. Contudo, desde a segunda metade dos anos 1980, o que se nota são avanços den- tro da mesma estrutura (uma mudança, por assim dizer, horizontal), sem que isto modifique a maneira como as festas são planejadas ou realizadas. Nos anos 1990, a produção fonográfica se multiplicou e os teclados, que antes vinham com todos os ritmos e timbres pré-programados (como o mencionado beguine), ganharam capacidade de programação de ritmos e timbres.

Na prática, as festas passaram a ser mais diversificadas e não era mais preciso modificar somente o BPM para mudar do bolero para o forró. Era possível, a um músico, programar a batida exata do forró, com os timbres precisos usados em uma gravação acústica, emulados digitalmen- te.

A música ao vivo da época, pro que eu tô hoje aqui na choperia Marcelo só se modernizou. Aqui o equipamento hoje são mais modernos, então a evolução com certeza é bem melhor. mas é o mesmo estilo, teclado, teclado, teclado, caixa de som, aparelhagem é isso ai! (Jânio Maciel, 2008)

Isto fez surgir, dentro da mesma lógica de festas, outras figuras como a do músico progra- mador de teclados, além de expandir ainda mais o mercado para cantores e bandas de seresta, que contavam com maiores possibilidades técnicas, riqueza rítmica e timbrística, dos quais falarei a seguir.