4 Uncertainties in measuring
4.6 Uncertainties in the tests
Na análise de dados qualitativos, um código é uma palavra ou frase curta que simbolicamente assinala um atributo sumário, saliente, evocativo e/ou que captura a essência de uma porção de dado visual ou linguístico (SALDAÑA, 2013, p. 4). Os códigos podem ser considerados um constructo elaborado pelo pesquisador que simboliza e, assim, atribui significados para frações dos textos. Eles têm como finalidade detectar padrões, prover categorizações, construir teoria ou apoiar qualquer outro processo analítico. Considera-se que o microprocesso de codificação é relativamente natural para a mente humana, pois quando se reflete acerca de uma passagem dos dados para decifrar seu significado central, se está decodificando; quando se determina seu código apropriado e se rotula o fragmento de texto se está codificando. (SALDAÑA, 2013, p. 9-14).
De acordo com Krippendorff (2013 cap. 10), o analista de conteúdo precisa realizar ainda um conjunto de etapas de agrupamento das informações que foram registradas sob a forma de constructos analíticos. Basicamente, as funções de sumarização envolve agrupar o conteúdo analítico extraído dos textos de uma maneira que possa ser facilmente compreendida pelos leitores, recorrendo a gráficos, figuras ou tabelas. Também podem ser feitas análises comparativas, buscando realçar alguns relacionamentos entre os dados, testando hipóteses ou apontando associações. No fundo, a premissa geral é de que todo o trabalho de codificação efetuado nos textos deve ajudar a articular explanações acerca do que foi estudado.
Esta pesquisa tratou, então, de analisar o conteúdo de quatro conjuntos de textos: a) Entrevistas;
b) Revista CIAB;
c) Jornal Valor Econômico; e d) Lista de publicações do CGAP.
As regras de codificação e as funções de sumarização desses dados são distintas. As entrevistas tiveram regras de codificação e funções de sumarização desenvolvidas com a utilização de abordagens e métodos de codificação disponíveis na literatura de pesquisa qualitativa (e.g. MILES; HUBERMAN; SALDAÑA, 2014) e de análise de conteúdo (e.g. KRIPPENDORFF, 2013; SALDAÑA, 2013) a seguir explicados. A Revista CIAB e o Jornal Valor Econômico foram analisados utilizando regras de codificação e funções de sumarização baseadas na existência de palavras-chave nos artigos de jornal e revista consultados no intuito de rastrear a frequência de utilização de categorias de vocabulário de prática. Adicionalmente, no caso do Jornal Valor Econômico, aplicou-se ainda código específico para rastrear as iniciativas de pagamento usando celulares. A lista de publicações do CGAP foi analisada para detectar nos artigos a frequência dos assuntos desses artigos (microfinanças versus outros assuntos), e também do frame estratégico de branchless banking nesses artigos. Começa-se explicando a maneira como as entrevistas foram analisadas.
A presente pesquisa utilizou as abordagens indutiva e dedutiva de codificação, aplicando-as sobre as entrevistas em dois estágios. Miles, Huberman e Saldaña (2014, p. 81) indicam que a codificação pode ser majoritariamente: (i) dedutiva — o pesquisador elabora um conjunto prévio de códigos, antes da aplicação aos textos; ou (ii) indutiva — o processo de atribuição de códigos espera a emergência de regras de codificação na própria lide com o texto. Processos de codificação frequentemente ocorrem em dois estágios, denominados de primeiro e segundo ciclos (MILES; HUBERMAN; SALDAÑA, 2014, p. 73; SALDAÑA,
2013 cap. 3 e 5): (i) No primeiro ciclo, é aplicado algum método, ou combinação de métodos, para a codificação dos textos; (ii) No segundo ciclo, acontece uma recodificação da primeira rodada que é aprimorada, refinada e agrupada, geralmente com emprego de algum outro método, requerendo habilidades analíticas de classificação, priorização, integração, síntese, abstração, conceptualização e associação à teoria (SALDAÑA, 2013 cap. 5-6). No primeiro ciclo, a codificação efetuada nesta pesquisa adotou a abordagem indutiva; no segundo ciclo, a abordagem foi dedutiva.
Naturalmente, os métodos de codificação selecionados acompanharam essas abordagens. No primeiro ciclo, utilizou-se uma combinação dos métodos de codificação descritiva (SALDAÑA, 2013, p. 87) com a codificação holística (SALDAÑA, 2013, p. 142). Segundo Saldaña, ambos os métodos são recomendados a pesquisadores iniciantes na pesquisa qualitativa, inclusive principiantes de utilização de softwares de análise de conteúdo. A codificação descritiva sumariza numa palavra ou frase curta (amiúde, um substantivo) o tópico básico de uma passagem de dado qualitativo, exprimindo aquilo sobre o que é falado ou escrito, e não um resumo em si da passagem (SALDAÑA, 2013, p. 87). A codificação holística busca capturar temas e assuntos no texto, tomando-os em unidade de análise livre, ao invés de linha por linha ou parágrafo por parágrafo. Esta codificação é apropriada quando o pesquisador já tem uma ideia geral do que investigar nos dados, agrupando grandes porções de texto dentro de um tópico abrangente, poupando tempo na codificação (SALDAÑA, 2013, p. 142). O Quadro 9 apresenta os códigos empregados e o Apêndice G exemplifica seu emprego.
No segundo ciclo, seguindo a abordagem de codificação dedutiva, dentre os métodos alternativos de codificação mencionados por Saldaña (2013, p. 59 figura 3.1), selecionou-se o método denominado codificação provisional (SALDAÑA, 2013, p. 144) ou dirigida por conceitos (SCHREIRER, 2012, p. 84). Mesmo listado entre os de primeiro ciclo, este método foi usado na pesquisa, conforme ressalva de Saldaña de que a sua listagem de métodos para o segundo estágio nem sempre é cabível, sendo melhor efetuar-se uma recodificação usando outro método listado por ele como de primeiro ciclo (SALDAÑA, 2013, p. 206). No método de codificação provisional, Saldaña estabelece que o pesquisador elabore uma lista inicial de códigos, a partir do marco teórico, de frameworks conceituais, da pergunta de pesquisa, hipóteses, problema e etc. (SALDAÑA, 2013, p. 144). A dedução da lista inicial de códigos do segundo ciclo foi elaborada da maneira seletiva, adotando-se como parâmetro um máximo de 5 códigos conforme Saldaña (2013, p. 24) e Creswell (2013, p. 184). Os conceitos escolhidos estão no Quadro 9, optando-se por aqueles que pudessem contribuir para atender
aos objetivos específicos da maneira mais abrangente possível. O Apêndice G exemplifica as codificações efetuadas.
Quadro 9 — Códigos utilizados na análise das entrevistas
1o Ciclo 2o Ciclo
Código Descrição Conceito
Histórico Apresenta os primórdios de alguma prática, ação
ou conjuntura.
Evento, Identidade Coletiva, Mobilização Coletiva, Tomada de Decisão e Tradução.
Ação Enumera iniciativas desenvolvidas pela
organização ou setor.
Conjuntura Comenta sobre ambiente organizacional.
Disputa Comenta acerca de divergência (inter)setorial ou
com o governo.
Aliança Comenta acerca de convergência (inter)setorial
ou com o governo.
Tecnologia Visão sobre tecnologia de pagamentos usando
celular.
Bancarização Menção a serviços financeiros para população de
baixa renda.
Modelo Menção a modelo de negócio de pagamento
usando celular.
Outro Tópico não enquadrado nos códigos anteriores.
Fonte: Elaboração própria.
O Jornal Valor Econômico, a Revista CIAB e a lista de publicações do CGAP foram analisados em quatro conteúdos, conforme o Quadro 10:
a) Palavras-chave serviram para rastrear o conceito de vocabulário de prática, no Jornal Valor Econômico e na Revista CIAB;
b) Palavras-chave conseguiram detectar o frame estratégico da bancarização e narrativa do banco Wizzit na Revista CIAB;
c) Codificação específica sobre o Jornal Valor Econômico detectou iniciativas de pagamento usando celulares; e
d) Codificação específica sobre a lista de publicações do CGAP permitiu detectar a frequência dos assuntos desses artigos (microfinanças versus outros assuntos), e também do frame estratégico de branchless banking nesses artigos.
A codificação específica sobre o Jornal Valor Econômico esteve pautada pelo interesse em determinar quando alguma inovação em prática de pagamento veio a público,
tendo-se em mente o conceito de evento. A ordenação temporal dessas iniciativas permitiu construir uma listagem cronológica das iniciativas de pagamento usando celulares, constante do Apêndice K, fundamental para uma compreensão das fases históricas da introdução dos pagamentos no Brasil. Em alguns casos, foi preciso recorrer ao serviço de busca do Google (com período delimitado até o ano da notícia) para completar alguma informação do artigo do Jornal, iniciando a busca pelo nome da empresa mencionada no Jornal e alguma palavra- chave extraída da descrição da iniciativa.
Com relação ao conceito de vocabulário de prática é importante efetuar um detalhamento adicional. Observou-se em documentos de referência que a categorização da utilização do celular para pagamento ainda estava em consolidação durante o período da pesquisa. Por exemplo, dependendo do documento acessado diferentes denominações podiam ser atribuídas: mobile money como uma variante de mobile payment (CPSS, 2012a); mobile
payment dentro de mobile banking (FED, 2013). Novas tentativas de teorização acerca dessas
categorias ainda estão em andamento, com uso de múltiplos critérios (BLEYEN; VAN HOVE; HARTMANN, 2010). Por isso, estas categorias de vocabulário de prática tiveram de ser compreendidas a partir da emergência no campo institucional de pagamentos brasileiro.
Isto posto, as diferentes categorias de vocabulário de prática identificadas nesta pesquisa (mobile banking, mobile payment ou mobile money) foram rastreadas na mídia impressa com o uso de palavras-chave que eram usadas em documentos e na própria mídia. Dada a ressalva do parágrafo anterior, optou-se nesta pesquisa por capturar a frequência dessas categorias usando palavras-chave que não se restringem às próprias denominações destas categorias, conforme o Quadro 10, incluindo também expressões em português. Nesse sentido, sabe-se que processos de tradução cultural-cognitiva enfatizam que, ao nível de representação simbólica, acontece uma geração local de vocabulário (THORNTON; OCASIO; LOUNSBURY, 2012, p. 162). Logo, capturar a frequência das categorias somente com as denominações das categorias implicava assumir que os entrevistados ou jornalistas não efetuariam traduções (linguísticas) das expressões em inglês para os leitores, gerando um vocabulário local. Reconhece-se que usar expressões apenas as denominações da categorias poderia atenderia com maior rigor ao conceito de categorias rotuladas do vocabulário de prática da utilização do celular para pagamento, mas deixaria de fora os casos em que o jornalista (ou entrevistado) efetuou uma tradução. Não custa lembrar que algumas categorias tendem a ser mais usadas em inglês do que outras, por já estarem reificadas (e.g., mobile
banking), enquanto outras dependeriam de maior exposição para alcançarem esse estágio
daqueles anglicismos, assim também de palavras-chave em português associadas a tais categorias (e.g., dinheiro móvel ou Paggo).
Entretanto, embora o uso daquelas palavras-chave tenha tornado a captura da frequência das categorias mais precisa na mídia, principalmente no período até 2011, reconhece-se que isso representou dificuldades nos anos posteriores. Isto porque a expressão “pagamento móvel”, inicialmente usada apenas como tradução literal de mobile payment, a partir de 2012, começa a ser usada como uma categoria distinta, tendo em vista o surgimento de uma nova lógica institucional de campo associada aquela expressão. Esta foi inclusive uma das razões para se rastrear uso exclusivo de expressões em português em inglês dessa categoria (vide Quadro 10). Por isso, nesta dissertação, o conceito de vocabulário de prática serve principalmente para evidenciar a existência de uma mobilização coletiva no campo de pagamentos. E, inferências acerca de categorias específicas, a partir de 2012, devem ser ressalvadas tendo em vista a dificuldade de distinguir se a frequência está associada à categoria de mobile payment ou de pagamento móvel.
Quadro 10 — Códigos utilizados na mídia impressa e publicações do CGAP
Dado analisado Conceito Código Descrição Palavras-chave
Jornal Valor Econômico e Revista CIAB Vocabulário de Prática Mobile Banking
Existência de palavras-chave associadas ao celular para pagamento no setor bancário.
Mobile banking, m-banking, mobilidade ou banco
móvel
Mobile Payment
Palavras-chave associadas ao celular para pagamento no setor de cartões.
Pagamento móvel, pagamentos móveis, pagamento via celular, pagamento por celular, celular para pagamento, celular para pagar, mobile payment ou m-payment
Mobile Money
Existência de palavras-chave associadas ao celular para pagamento no setor de telefonia móvel.
Mobile Money, M-Money ou Paggo
Jornal Valor Econômico Vocabulário de Prática Pagamento Móvel versus Mobile Payment
Artigos em que palavras-chave associadas à expressão Pagamento Móvel estejam presentes exclusivamente, i.e., sem que palavras-chave associadas à expressão Mobile
Payment estejam no mesmo artigo.
Pagamentos Móveis ou Pagamento Móvel, e não haja
Mobile Payment, nem M-Payment, nem Mpayment
Revista CIAB Frame
estratégico
Bancarização Existência de palavras-chave associadas ao objetivo de
bancarização.
Inclusão bancária, bancarização ou inclusão financeira.
Narrativa Mobile Existência de palavras-chave associadas a iniciativas
pioneiras do celular para pagamento no setor de telefonia móvel.
Safaricom, M-Pesa, Wizzit, Smart e Globe.
Lista de Publicações do CGAP Frame estratégico Branchless Banking
Publicação do CGAP com tema (título ou resumo) que se refira a branchless banking.
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Prática Microfinanças
e Outros
Publicação do CGAP com tema (título ou resumo) relacionado a microfinanças ou outros assuntos.
-
Jornal Valor
Econômico
Evento Iniciativa Os artigos que traziam alguma iniciativa de pagamento
usando celular.
- Fonte: Elaboração própria.