• No results found

Começando pelo plano de pesquisa, o estudo pode ser classificado como exploratório- descritivo. Conforme Deslauriers e Kérisit (2012), vários fenômenos sociais resistem à mensuração, requerendo uma pesquisa qualitativa exploratória que possa servir para determinar impasses e bloqueios e possibilitar um projeto de pesquisa em grande escala. A pesquisa será também descritiva porque descreverá um evento (vide HAIR et al., 2005, p. 83), o da introdução dos pagamentos móveis no Brasil. E assim, conforme Deslauriers e Kérisit (2012),   colocando   a   questão   dos   mecanismos   e   dos   atores   (o   “como”   e   o   “o   quê”   dos   fenômenos), por intermédio da precisão dos detalhes, fornece informações contextuais que poderão servir a pesquisas explicativas mais profundas. Quanto ao recorte, a pesquisa está

classificada como do tipo seccional com perspectiva longitudinal. Segundo Vieira (2004) esse tipo de pesquisa efetua coleta de dados em um ponto específico do tempo, porém consegue também resgatar dados e informações de outros períodos passados, revelando um foco num determinado fenômeno (a introdução dos pagamentos móveis) no instante atual; dados advindos do passado ajudam a explicar a configuração atual do fenômeno.

Sendo uma pesquisa de caráter longitudinal que procura entender a influência de lógicas institucionais num contexto específico torna-se necessário esclarecer aqui o aninhamento institucional em que a pesquisa ocorrerá, o que ajudará a entender o nível de análise deste estudo. Conforme diversos autores (HOLM, 1995; OSTROM, 2007; THORNTON; OCASIO; LOUNSBURY, 2012, p. 13), as instituições operam como se estivessem circunscritas umas as outras, feito bonecas russas (matryoshka), com as mais ao centro ficando sob influência das demais. Nesse sentido, adotou-se como core institucional o campo de pagamentos de varejo no Brasil, lócus em que organizações e práticas de pagamento concorrem entre si. Esse campo de pagamentos de varejo, por sua vez, está inserido noutra esfera institucional, o sistema financeiro nacional, composto, por exemplo, por organizações bancárias e o Banco Central do Brasil. Nessa concepção, os bancos são organizações de pagamento também, circunscritas ao campo de pagamentos de varejo, mas possuem outras práticas que se localizam no sistema financeiro nacional. Igualmente, o Banco Central exerce supervisão sobre as organizações bancárias do sistema financeiro nacional e, de alguma maneira, também sobre aquelas do campo de pagamentos de varejo. Contudo, num mundo globalizado financeiramente, as organizações brasileiras estão inseridas no que se pode denominar sistema financeiro internacional. Nessa esfera institucional, bancos centrais e organismos multilaterais (Banco Mundial, ONU e etc.) são atores importantes. Esse aninhamento de campos institucionais expressa também o pluralismo institucional (KRAATZ; BLOCK, 2008) das organizações contemporâneas.

Portanto, o modelo conceitual acima exposto será utilizado para compreender como lógicas institucionais influenciaram a introdução dos pagamentos móveis no Brasil, tomando- se o contexto institucional num aninhamento similar aquele da Figura 6. Note que se espera que lógicas institucionais estejam presentes nos quatro níveis institucionais, sendo três relativos ao setor financeiro e um de caráter externo a esse setor. Aquelas lógicas de fora do campo de pagamentos de varejo são consideradas, conforme Thornton et al. (2012, p. 150), como lógicas externas. Lógicas circunscritas ao core institucional são lógicas institucionais de campo. As lógicas institucionais de campo e as lógicas externas podem ser vistas também

como exemplificação, variante ou hibridização de uma ou mais lógicas societais do sistema interinstitucional.

Figura 6 — Desenho operacional da pesquisa considerando o aninhamento institucional

Fonte: Elaboração própria.

Nota: As linhas tracejadas indicam influência das lógicas institucionais.

As organizações atuantes no campo de pagamentos de varejo precisarão endereçar lógicas externas, de alguma maneira. Conforme o modelo de emergência cultural, as organizações normalmente recorrerão à tradução das lógicas externas. Logo, o conteúdo de uma lógica externa influenciará aquela lógica de uma esfera institucional mais interna, como se estivesse havendo uma refração daquele conteúdo, antes de difundir-se nesse campo institucional. Nesta pesquisa essa refração será tratada pelo conceito de tradução, pelo que se espera que as organizações traduzam lógicas externas para sua esfera institucional. Por exemplo, lógicas externas pertencentes ao sistema financeiro internacional poderão ser

traduzidas para influenciar a esfera institucional do sistema financeiro nacional; ou ainda lógicas de fora do sistema financeiro internacional poderão ser traduzidas para dentro desta esfera institucional (ou outra mais interna), e assim por diante.

Com isso, quatro níveis de análise estão presentes nesta pesquisa. O framework de dinâmica interorganizacional aponta a ligação entre as organizações e campo institucional, daí os níveis de análise ser meso-macro (entre população organizacional e campo organizacional). O framework da emergência cultural aponta para a ligação entre organizações, campo institucional e as lógicas societais ou externas, daí os níveis meso-macro-societal-global. Nos três casos, os níveis são assim definidos (SCOTT, 2014, p. 105-107): (i) nível meso — aquele em que existem populações de organizações, consideradas enquanto classe ou coleção de organizações relativamente homogêneas em termos de vulnerabilidade ambiental (os setores econômicos bancário, de cartões e de telefonia móvel brasileiros); (ii) nível macro — aonde se identifica um campo institucional, i.e., uma coleção de organizações diversas e interdependentes que participam de um sistema comum de significados (o campo de pagamentos de varejo brasileiro); (iii) nível societal — nível que foca em estruturas ou processos pertencente a sociedades ou Estados-nação (o sistema financeiro nacional); (iv) nível global — examinam-se estruturas e processos ocorrendo entre sociedades e em longos períodos de tempo (o sistema financeiro internacional em relação à prática de pagamento com celular da indústria de telefonia móvel). Esses níveis de análise não são estudados igualmente, haja vista que no caso do nível global, a ênfase dos frameworks é menos intensa do que em relação aos outros três níveis de análise.

Como ressaltado, a pesquisa teve a necessidade de estender-se por esferas institucionais que circunscrevem esse campo institucional. Primeiro, porque compreender o que estava sendo objeto de introdução no campo de pagamentos requereu traçar a origem do que era trazido para o Brasil. Segundo, os atores institucionais entrevistados nesta pesquisa mencionavam organizações ou experiências internacionais que teriam de alguma maneira ajudado na introdução dos pagamentos móveis. Terceiro, os mercados de pagamentos de varejo e de telefonia móvel possuem multinacionais operando no território nacional. Quarto, a pesquisa descobriu que os pagamentos móveis possuem poder disruptivo sobre o mercado de varejo brasileiro e mundial, o que levou os principais atores do campo de pagamentos de varejo brasileiro a também buscarem compreender esse fenômeno numa escala internacional. Em suma, descobriu-se na pesquisa que os grandes players do mercado brasileiro não operam simplesmente com lógicas institucionais do campo de pagamentos, mas efetuam tradução de lógicas externas para poder alcançar seus objetivos estratégicos, ou defender o status-quo.

Por isso, a pesquisa concebeu um aninhamento institucional, conforme a Figura 6, dentro do qual o campo de pagamentos de varejo recepcionará conteúdos vindos de traduções de lógicas externas.