4. Russland reiser seg, 2000-2014
4.4 Umoral og mistro
O posicionamento de José Paulo aponta para a ideia de que a tradução não se restringe ao estranhamento entre culturas. Em “Os modestos construtores: alguns problemas da construção literária”, Paes argumenta sobre como que tradutores são responsáveis por erigirem culturas. Para chegar a tal questão, ele discute escolhas que alguns tradutores fizeram. O mote para a discussão é um artigo de Milan Kundera lido por ele, no qual o autor tcheco critica escolhas feitas por tradutores de sua obra.
A primeira crítica de Kundera se dirige a um editor que reduziu arbitrariamente um romance seu. A partir de tal episódio, José Paulo faz inicialmente duas críticas: uma a editoras dos Estados Unidos que reduzem o tamanho de romances para “os que não têm tempo” e outra a Monteiro Lobato, que traduziu e adaptou (reduzindo o tamanho) Moby Dick para jovens. Com isso, o paulista reforça seu intento de manter a tradução mais
próxima daquilo que ele entende como o texto de saída – em vez de reduzi-la, alterá-la, devido a fins mercantilistas ou pseudo-didáticos.
Outra crítica de Kundera foi feita a um tradutor espanhol que teria reduzido, a frases curtas, as longas sentenças que o autor escrevera. Frente a isso, Paes elogia os tradutores brasileiros de Proust, que conservaram o número de volumes de Em busca do
tempo perdido, e elogia também a tradução de Asno de ouro feita por Ruth Guimarães, que “manteve, sem prejuízo da legibilidade, os por vezes confusos nexos de subordinação de suas espichadas orações” (PAES, 1990, p. 104). Outra vez é possível ver exemplos de aspectos do texto de saída a serem observados em uma similitude cuidadosa, por parte do tradutor. Nesse sentido, Paes deixa patente sua opinião sobre fidelidade na tradução:
Insurgindo-se contra a conhecida boutade de as traduções se assemelharem a mulheres, que quando são fiéis não são belas, e quando são belas não são fiéis, Kundera sustenta, com razão, só
ser bela a tradução fiel, pois “é a paixão da fidelidade que faz o autêntico tradutor”. (PAES, 1990, p.104).
Nessa visão, seria então necessário tomar cuidado com aspectos do texto a ser traduzido. Devido aos dissabores citados, Kundera teria acompanhado a tradução de seus textos para o francês. O paulista comenta que considera arriscado os autores deixarem seus
textos “entregues à própria sorte em terras idiomáticas estranhas” (PAES, 1990, p. 105). Dotado dessa herança de Schleiermacher, ele aconselha tal acompanhamento dos autores, com o intento de que a tradução seja feita levando-se em conta aspectos do texto de saída que deveriam ser mantidos ou transcriados na tradução. Com isso, o leitor desta poderia entrar em contato com aspectos próprios (ou julgados como próximos) da língua de saída.
Exemplificando tal ideia, o autor de Tradução: a ponte necessária cita Osman Lins para falar da importância da equivalência, pois, por meio desta, seria possível enriquecer a língua de chegada:
(...) o contato com o texto já traduzido (e a tradução tende a
exercer fortes pressões renovadoras sobre as estruturas linguísticas do país receptor) permite uma fruição mais ágil tendo
em vista a vantagem de manter o fruidor de uma obra alienígena
em contato com sua própria língua”. (LINS Apud PAES, 1990, p.
105–6) [grifo do autor].
Desse modo, percebe-se mais uma vez que a concepção tradutória de Paes tem relação direta com a proposta de Schleiermacher, tendo em vista o desejo de proporcionar ao leitor da língua de chegada um estranhamento oriundo de aspectos do texto de saída que seriam diferentes de um texto do sistema de chegada. Esse contato, além de proporcionar tal experiência, funcionaria também como um enriquecimento linguístico na medida em que a tradução proporciona uma oportunidade de “atrito” entre construções solidificadas (da língua de chegada) com construções particulares, novas da língua de saída.
Em Tradução: a ponte necessária, vê-se outro exemplo dessa busca (no caso, do próprio Paes): dos sonetos luxuriosos de Aretino. No depoimento, o paulista comenta que tentou trabalhar com equivalentes nos planos métricos, rítmicos, estróficos e semânticos82 (dos palavrões do poeta italiano). Contudo, ele lamenta o fato de palavras importantes – “potta” e “cazzo” – não possuírem equivalentes em sua “explosão sonora e simetria
82
É fundamental destacar que nesse momento Paes especifica aspectos que ele julga importantes na busca
de uma equivalência – clareza nem sempre exposta por outros tradutores. Contudo, a equivalência não é precisamente conceituada. Num plano epistemológico, Cristina Rodrigues (2000), à luz de Jacques Derrida, fala da tradução como uma leitura e, como tal, é sujeita a diferentes interpretações. Tal fato desestabilizaria a noção de equivalência; ou ainda: de que haveria uma tradução correta, definitiva, a ser alcançada no texto de saída. Como comentou Rodrigues (referindo-se a Lefevere), alguns tradutores parecem considerar que o aspecto semântico poderia ser conservado (como se fosse único ou estático), desconsiderando, eles, o fato de a tradução ser uma leitura – particular – do tradutor.
espelhada (nos níveis fônicos e gráficos) no português” (PAES, 1990, p. 106). Com tal depoimento, parecem ficar evidentes um limite na construção da equivalência, e um desejo desse tradutor de levar ao leitor do português efeitos e sugestões que ele vê presentes no poema de Aretino.
Concluindo essa parte, o autor de Taquaritinga classifica como falácia a tradução que coloca o texto como que escrito em língua vernácula:
Louvável, na verdade, há de ser a tradução que, sem desfigurar por imperícia as normas correntes da vernaculidade, deixa transparecer um certo quid de estranheza capaz de refletir, em grau necessariamente reduzido, as diferenças de visão de mundo entre a língua-fonte e a língua-alvo”. (PAES, 1990, p. 106).
Nesse ponto do texto é que se mostra mais explícito o projeto político-filosófico de Schleiermacher em Paes: é a defesa do que ele vê como um atrito construtivo que orienta seu ofício tradutório. A tradução com um viés estrangeirizante lhe é valiosa, oportunidade de aprendizado com o que considera diferente, reflexão acerca do outro e de si.
Tais ideias (de entrar em contato com uma estrangeiridade e, por meio desta, pensar acerca de si) são discutidas por Maria Cristina Batalha e Geraldo Ramos Pontes Júnior em “A tradução como prática da alteridade”. Nesse texto, oriundo do Cadernos de
Tradução da UFSC, os autores começam uma discussão sobre o que seria o estatuto do
texto traduzido. Para tal, eles se valem da tradução como esse contato com o estranho, o diferente, bem como se valem ainda da ideia de que a tradução (por tal carga de diferença a ela associada) proporcionaria efeitos na língua de chegada.
É com essa ideia que citam a professora egípcia Mina Baker que pesquisa diferentes traduções de um texto na língua inglesa, para ver o impacto daquelas nesta. A docente desenvolveu o conceito de “terceiro código”, o que seria uma nomeação para a influência da língua a ser traduzida na língua de chegada: “Isto ocorre porque a tradução se deixa, de certo modo, permear pelas estruturas da língua da qual se traduz”. (BATALHA; PONTES JR., 2005, p. 40). Segundo Baker, A presença do outro, em decorrência do ato tradutório, dar-se-ia então não somente pela oportunidade de entrar em
contato com aspectos da cultura do outro, mas também pela influência que ela causaria na língua para que fora traduzida.
Para trabalhar com tal perspectiva, Batalha e Pontes Jr. tratam a tradução como uma empreitada viável. Opõem-se então aos críticos e teóricos da tradução que a julgam como perda. Ela seria, ao contrário, um ganho cultural muitas vezes, sendo fundamental para a formação de nações. Isso porque a tradução permitiria uma circulação de ideias entre povos. Exemplificam que a formação de países colonizados por metrópoles européias têm relação direta com o legado greco-romano, com os romances de cavalaria, as epopeias renascentistas. Os descobrimentos do século XVI problematizaram a
“certeza interiorizada (...) de que as culturas eram definitivas e
impermeáveis. A partir de então, o velho mundo passou a trabalhar com a possibilidade da diferença e imaginação contribuiu para se inventariar não apenas o mundo desconhecido, mas também as transformações do universo conhecido que a
perspectiva da diferença havia instalado.”. (BATALHA;
PONTES JR., 2005, p. 28).
Apesar das diversas mazelas que alguns processos colonizatórios acarretaram, houve alguns marcados menos pela exploração que puderam propiciar tais trocas culturais. A tradução então facilitaria entrar em contato com o outro. E, ao ver o outro, o indivíduo poderia pensar sobre si. Desse modo, a tradução favoreceria conhecer outras leituras do mundo, enriquecendo a interculturalidade. (cf. BATALHA; PONTES JR., 2005, p. 30).
Atuando em tais importantes relações, seria preciso considerar que a relação entre culturas demanda um posicionamento político-filosófico. Isso porque tal comércio pode ser para pulverizar hierarquias ou para reforçá-las. Paralelamente à intraduzibilidade, seguem algumas ideias de superioridade de algumas línguas. Nesse âmbito eugênico, os autores citam Chateaubriand e Céline, com seus “propósitos duvidosos”. (BATALHA; PONTES JR., 2005, p. 32). A situação que se delineia nessa circunstância é a de hierarquização de línguas, de enaltecimento de nações como se fossem superiores e não pudessem ter suas ideias traduzidas por, supostamente, terem uma língua sem igual, inalcançável. Indo contra isso, os autores de “A tradução como prática da alteridade” defendem um soberania equânime a todas as línguas do mundo.
Traduzir, afirmam ambos, seria dessacralizar o texto, pois tal atividade desmonta e remonta o texto de saída. Essa ingerência vai contra o Romantismo, período no qual se viu, basicamente, a consolidação de uma visão subjetiva e única da criação, que enaltece a autoria e desvaloriza a tradução83. Para o autores, a visão romântica seria diferente da de outros períodos; eles colocam que os “antigos desconheciam a ideia de propriedade textual”, colocando os textos dentro de uma tradição, e que na Idade Média e no Renascimento havia uma tradição da retomada e da imitação dos textos já consagrados. (cf. BATALHA; PONTES JR., 2005, p. 30, 31).
Ao desmontar e remontar o texto a ser traduzido, seria possível ver o caráter hermenêutico da tradução. Tal ideia se faz pertinente porque a tradução poderia ser entendida como uma leitura, como apontou Cristina Rodrigues em Tradução e diferença (2000) à luz de Derrida, mostrando o caráter particular de cada leitura-tradução. Assim, a tradução seria uma forma “privilegiada de crítica” (cf. BATALHA; PONTES JR., 2005, p. 33), pois é fruto da interpretação e, por vezes, acaba por ser acompanhada de ensaios e notas explicativas (como é o caso de José Paulo Paes, citado pelos autores). Nesse contexto, Paes é evocado pelos autores para dizer que um exercício eficiente para a compreensão de um poema é cotejar a versão original com a tradução (pois esta seria um exercício hermenêutico), afirmação presente em Tradução: a ponte necessária.
Daí viria a ideia de que a tradução é um palimpsesto, metáfora usada por Rosemary Arrojo, e de que Batalha e Pontes Jr. se valem. Assim, traduzir seria uma outra interpretação ou uma escritura do texto de saída. Nesse sentido, o tradutor reconheceria uma tal alteridade nessa produção textual e procuraria “trazê-la” ao texto de chegada. “É a negociação permanente entre estranhamento e familiaridade, entre desconhecido e conhecido que representa, em última instância, o modo pelo qual os sistemas culturais se organizam e se movimentam”. (BATALHA; PONTES JR., 2005, p. 35). O tradutor então teria relevante papel nesse contexto de trocas culturais e de formação do arcabouço cultural de uma nação. Ao vislumbrar a diferença no outro, ele perceberia o potencial de enriquecimento. Leituras novas do mundo, diferentes maneiras de se expressar, seriam
83 Uma visão melhor detalhada do Romantismo pode ser vista em COSTA LIMA, Luiz. Limites da Voz
parte do legado de tal tradutor, por perceber o valor do/no outro, proporcionando potencialmente um alargamento do horizonte cultural do leitor.