B. From good friends to the relations with decreased frequency of contact: low propinquity and insufficient tie
6.3 S UMMARY
A marcar esse novo tempo pós-sidonismo, uma realização que se revelaria do maior alcance: o lançamento, menos de duas semanas após a derrota da tentativa de restauração monárquica do jornal A Batalha, cujo primeiro número foi publicado em 23 de Fevereiro de 1919.
Nascido como jornal diário, condição que manteve durante os oitos anos da sua publicação, A Batalha editou-se em Lisboa sob responsabilidade da UON e mais tarde da CGT, com distribuição a nível nacional, constituindo uma das realizações mais marcantes dos sindicalistas revolucionários – apesar das múltiplas dificuldades financeiras, constantes na vida do jornal, da repressão das autoridades e da censura, além de outras relacionadas com a vida interna e a relação com a central do sindicatos, cujas vicissitudes, crises e jogos de poder se repercutiram continuadamente na sua vida interna, o diário operário chegou a ter uma tiragem de 20 mil exemplares, emparceirando nos seus melhores tempos com o Diário de Notícias e O Século no grupo dos três jornais portugueses com maiores tiragens.
A iniciativa do seu lançamento pertenceu a um «grupo de delegados [da UON] cheios de fé e de audácia», escreveu Alexandre Veira no Almanaque de A Batalha para 1926, e da comissão que deu corpo à execução do projecto fizeram parte Pinto Quartim, Alexandre Vieira, Raul Neves Dias, José António de Almeida, Francisco Cristo, Hilário Marques, Perfeito de Carvalho e Joaquim Cardoso.
Alexandre Vieira, dos Compositores Tipográficos, à data secretário-geral da UON, foi o seu primeiro director (identificado no cabeçalho do jornal como redactor- principal), apesar de, como o próprio confessa, não ser, ao tempo, dos mais entusiastas do empreendimento; nas funções de editor, Joaquim Cardoso, da Construção Civil. Alexandre Vieira manterá a direcção efectiva de A Batalha durante alguns meses, abandonando-a de facto ainda em 1919, logo a seguir ao Congresso de Coimbra, por razões de saúde que o obrigaram a sair de Lisboa, mas manterá, formalmente o cargo até Setembro de 1922, sendo as funções desempenhadas, no seu impedimento, designadamente por Pinto Quartim, Manuel Joaquim de Sousa e José Santos Arranha; Joaquim Cardoso, da Construção Civil, foi o primeiro a desempenhar o cargo de editor,
25 Veja-se o texto do projecto de João Camoezas em A Batalha, 14-08-1919; os textos de Manuel
Joaquim de Sousa de oposição a essa iniciativa encontram-se no mesmo diário, nas edições de 17, 18 e 30-08-1919, 4 e 7-09-1919; em editorial, a UON toma posição sobre o mesmo assunto, assumindo como suas as posições expressas por Manuel Joaquim de Sousa – “A nossa opinião”, AB, 31-08-1919. João Camoezas viria depois ao mesmo local, numa longa dissertação de defesa dos seus pontos de vista (idem, 8, 9, 11 e 13-10-1919).
de que viria a ser afastado em Junho de 1921, no quadro do grave enfrentamento, na CGT, entre sindicalistas comunistas e sindicalistas anarquistas, de que resultou a irradicação daquele militante sindical26, como se verá no capítulo 3 deste estudo.
Declaradamente, A Batalha surge como porta-voz na imprensa da organização operária portuguesa, lê-se no primeiro editorial, propondo-se dar voz à «grande falange trabalhadora, desdenhosamente classificada, pelos poderosos, de sub-gente»; o seu aparecimento materializa a realização de uma aspiração de longa data, uma das aspirações «mais queridas [...] da Central dos Sindicatos Portugueses», constituindo um afirmação de vitalidade da organização e um desafio lançado à «classe oposta»27.
Mas, esta iniciativa inédita, algo temerária, exigia um músculo financeiro que a organização operária não tinha. A exiguidade das receitas, do jornal e da organização, exigiu desde o princípio o recurso a soluções criativas para a obtenção dos fundos necessários, conseguindo, melhor ou pior, fazer face aos apertos financeiros, praticamente permanentes, graças à capacidade de superação do operariado e à assunção, pelo conjunto dos trabalhadores e suas organizações sindicais, do propósito firme de não deixar cair o jornal operário. No seu início, A Batalha tinha o preço de capa de 2 centavos, e para custear as despesas de lançamento socorreu-se a sua administração de uma subscrição de acções pelos organismos sindicais, conforme as capacidades financeiras de cada uma – nos primeiros meses, é frequente a inserção de uma secção intitulada “Associações que cumprem o seu dever”, através da qual é possível acompanhar o processo de subscrição, sendo que a maioria dos organismos se ficaram por um número de acções inferior a uma dezena, havendo-os também que subscreveram apena uma, como as Associações de Classe dos Canteiros e Pedreiros de Viana do Castelo, a dos Rurais de Alfundão ou a dos Alfaiates e Costureiras de Guimarães, ou três, como a Liga de Artes Gráficas de Aveiro ou Associação de Classe dos Mecânicos de Açúcar, de Lisboa, sendo a excepção os que subscrevem várias dezenas de acções, como os Arsenalistas de Marinha ou o Sindicato Único Metalúrgico de Lisboa, com 25 cada, mesmo assim longe do caso único da Associação de Classe do Pessoal do Arsenal do Exército e Cordoaria Nacional, com 100.
Com pouco mais de 3 meses de existência, o jornal é renovado graficamente; um mês volvido, em Junho de 1919, avança uma mudança nos conteúdos, decidida pelo
26 A obra de Jacinto Baptista Surgindo vem ao longe a nova aurora: para a história do diário sindicalista A Batalha (1919-1927) é o principal estudo sobre o jornal; são também interessantes as
informações transmitidas por José dos Reis Sequeira - Relembrando e comentando, pp. 311 a 317, que testemunham o carinho que o operariado tributava a A Batalha, que em Silves terá chegado a vender 200 exemplares, e 30 em Odeceixe, onde os grandes jornais nacionais Diário de Notícias e O Século vendiam, quanto muito, 4. Acerca da citada falta de entusiasmo inicial de Alexandre Vieira em relação ao jornal está referenciada, designadamente, na sua obra “Subsídios para a história do movimento sindicalista em Portugal, de 1908 a 1919”, inserta no Almanaque de A Batalha para 1926, p. 87. No anexo 2 deste estudo encontra-se sistematizada informação sobre a história do jornal A Batalha.
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Conselho Central da UON, após duas sessões de discussão animada: a redacção de A Batalha deve imprimir ao jornal «uma orientação francamente revolucionária e emancipadora dentro da luta de classes sociais, que vise insofismavelmente a supressão do salariato e do patronato», pondo de parte um certo espírito contemporizador vertido nos estatutos da UON, justificáveis quando do Congresso de Tomar pela «necessidade de harmonizar campos de certo modo divergentes», mas desajustados da nova conjuntura marcada pela «harmonia e convergência de esforços para o robustecimento da organização, a aproximação de certos elementos de escolas sociais diferentes na crítica e combate à grande guerra [...], a carestia, o início da revolução social na Rússia [e as perspectivas do seu alastramento a outros países e continentes, bem como] as manifestações revolucionárias das massas trabalhadoras [portuguesas] nos últimos tempos».28
Em termos de conteúdo, a orientação de base estava dada para o futuro; mas muitas haverão de ser, na história do jornal, as controvérsias na CGT sobre a orientação ideológica e a linha editorial de A Batalha, como se verá a seu tempo. Como serão correntes as dificuldades financeiras do jornal, estando várias vezes iminente a sua suspensão, por falta dos fundos necessários. Desde muito cedo que isso é evidente – a manutenção do jornal exige fundos extraordinários, constata-se logo os primeiros tempos da publicação e a organização de festas e outros eventos a favor de A Batalha, e as listas de recolha de fundos serão prática corrente durante toda a vida do diário da UON e CGT. Em Maio de 1919 o jornal abre uma nova secção, com o título “Munições para A Batalha”, onde se referenciam os donativos pecuniários recebidos, que, em meados daquele mês, atingem o montante de 980$54, quando a contabilidade das acções acusa 1.064 acções subscritas por 130 organismos29.
Se A Batalha foi um dos sucessos da organização sindical que estudamos, a “Casa dos Trabalhadores”, uma iniciativa lançada no mesmo ano, ainda antes do Congresso de Coimbra, haveria de constituir um dos grandes falhanços da CGT. Na sua base, uma ideia simples, apresentada em Agosto de 1919: adquirir um imóvel onde pudesse ter sede a futura Confederação Geral do Trabalho, a administração, redacção e oficinas de A Batalha, e os organismos criados ou a criar pela central dos sindicatos; para esse fim, propunha o “pai” da ideia, que cada operário contribuísse, durante 10 meses, com um dia de salário; na melhor das hipóteses, se os recursos financeiros o permitissem, poderiam instalar-se nesse edifício a adquirir, no centro de Lisboa, além dos indicados e da USO-Lisboa, as federações e sindicatos da capital30.
28 Arquivo Histórico Social, Cx. 61, AHS 6145, ms. 319. Vide também AB, 08-06-1919.
29 “Munições para A Batalha”, AB, 19-05-1919 e “Associações que cumprem o seu dever”, AB, 27-
05-1919.
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Referindo-se a esta iniciativa como uma «ideia generosa» que era imperioso concretizar, o “apóstolo do anarquismo” Neno Vasco, numa prosa visionária e arrebatadora, mas muito desfasada da realidade, viria a proclamar a construção, não de uma, mas de muitas «Casas dos Trabalhadores, vastas e luminosas, com amplas salas para assembleias, bibliotecas, conferências, concertos, espectáculos! A música, o teatro, a arte declamatória e didáctica, todas as artes, servidas pelos artistas sindicados, enchendo os merecidos ócios do trabalhador, enriquecendo-lhe o cérebro, burilando-lhe o sentimento! Grandiosa e tentadora empresa!»31
No fim do ano, já se registam donativos, ainda que modestos (150$80), para mais esta “causa”; internamente à CGT, um grupo de trabalho estuda alvitres e propostas apresentadas desde Agosto por muitos operários, aguardando-se a apresentação de relatório nos primeiros dias de Janeiro de 1920. Está a caminho a constituição de uma Comissão pró-Casa dos Trabalhadores, cujos trabalhos se iniciarão em breve, em ordem à realização de um projecto que ficará por concretizar, sequer numa versão modesta e simplesmente utilitária, muitíssimo longe da “visão” de Neno Vasco, como se veremos mais adiante.