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Conforme destaca Bourdieu (2007), se, em muitas circunstân- cias, a dominação masculina coloca os homens que atendem aos pre- ceitos do modelo de masculinidade hegemônica em uma condição de privilégios e de assujeitamento de outras experiências, esta mesma do- minação masculina também os coloca, dialeticamente, em uma condição de vulnerabilidade, sobretudo ao exigir desses sujeitos a comprovação da sua hombridade e virilidade a qualquer custo. Nesse sentido,

o privilégio masculino é também uma cilada e encontra sua contrapartida na tensão e contensão permanentes, le- vadas por vezes ao absurdo, que impõe a todo homem o dever de afirmar, em toda e qualquer circunstância, sua vi- rilidade (...) o ‘homem verdadeiramente homem’ é aquele que se sente obrigado a estar à altura da possibilidade que lhe é oferecida de fazer crescer sua honra buscando a glória e a distinção na esfera pública (BOURDIEU, 2007, p.64).

Nessa perspectiva, a masculinidade torna-se uma carga, um far- do difícil de ser suportado que, frequentemente, compromete a saúde e qualidade de vida dos próprios homens. Analisando o perfil de adoeci- mento e mortalidade da população masculina brasileira, é possível ob- servar as influências das relações de gênero e do processo de dominação masculina nas condições de saúde e na qualidade de vida deste público específico (LYRA et al., 2012; SCHWARZ et al., 2012; MOURA, 2014).

Conforme destacado anteriormente, os sentidos atribuídos ao “ser-homem” e ao “ser-mulher” não se resumem a construtos inatos e biologicamente determinados. Antes, referem-se a construções sociais que carregam consigo marcas do contexto histórico, político e cultural no qual os sujeitos existem e estabelecem sistemas de interação, cotidia- namente. Desta forma, é possível afirmar que os modos de compreender as masculinidades e as feminilidades interferem nos modos de pensar, sentir e agir de homens e mulheres, delineando, portanto, suas práticas de saúde (GOMES, 2008).

No que se refere à população masculina brasileira, de acordo com o Perfil da Situação de Saúde do Homem do Brasil, a taxa de morta- lidade geral dos homens brasileiros, com idade entre 20 e 59 anos, é de 3,5. Vale ressaltar que este número é 2,3 vezes superior ao das mulheres da mesma idade e quatro vezes maior quando considerados os homens jovens. Os homens também possuem uma expectativa de vida inferior à das mulheres, vivendo, atualmente, cerca de 07 anos a menos do que elas (BRASIL, 2009; SCHWARZ et al., 2012; MOURA, 2014).

Estudos recentes vêm chamando a atenção para a necessidade de se levar em conta os aspectos étnicos e raciais, bem como os recortes de classe social, para a compreensão do cenário de mortalidade masculina no Brasil, revelando que mesmo entre os homens brasileiros é possível identificar desigualdades nos modos de adoecer e de morrer (BATISTA, 2005; MONTEIRO; CECCHETTO, 2011). Nessa perspectiva, diversos autores vêm apontando para a existência de taxas mais elevadas de mor- talidade entre homens negros e pobres, em especial os jovens, quando comparados a sujeitos brancos e com maior capital econômico (BRASIL, 2008; SCHWARZ et al., 2012; MOURA, 2014).

Cabe destacar ainda que os homens homossexuais e transexuais também se encontram expostos, cotidianamente, a diversas situações que os colocam em maior vulnerabilidade em relação aos homens cis- gêneros e heterossexuais (CARRARA; SAGGESE, 2011). É preciso levar em conta que o Brasil ainda é marcado por discursos e práticas de intole- rância e homofobia. Apesar das dificuldades de se contabilizar o número de mortes em função da orientação afetivo-sexual e da identidade de gênero, estima-se que o Brasil ocupe a primeira posição no ranking de países com maior registro de crimes relacionados à homofobia. Nesse sentido, estima-se que, em nosso país, um homossexual seja assassinado a cada 28 horas (GGB, 2015).

Mas como explicar as maiores taxas de mortalidade entre a po- pulação masculina, em especial, entre os homens jovens, pobres e ne- gros? Sem desconsiderar a importância de aspectos biológicos nesse ce- nário, a análise das causas de óbitos masculinos nos permite construir

importantes reflexões acerca da influência do gênero nos diferentes mo- dos pelos quais morrem os homens brasileiros.

Nessa vertente, as causas externas configuram-se como as prin- cipais causas de óbitos masculinos no país, os quais são 3,3 vezes supe- riores em comparação às mulheres. As principais ocorrências de óbitos por causas externas entre homens brasileiros também denunciam a in- fluência das questões de gênero neste contexto. Destacam-se o grande número de homens, em especial, os negros, pobres e jovens, que mor- rem diariamente em função de crimes violentos, como, por exemplo, os homicídios (BRASIL, 2008; SCHWARZ et al., 2012; MOURA, 2014).

Ainda hoje, o modelo hegemônico de masculinidade valoriza e exige dos homens a comprovação de sua virilidade frente aos demais membros do grupo social (CONNEL, 2005; SOUZA, 2005). Nesse senti- do, um “homem de verdade” é aquele que, popularmente, “não leva de- saforo pra casa”, “não foge à luta” e, tampouco, “dá o braço a torcer”. A defesa de uma suposta honra masculina vem sendo apontada por diversos autores como um dos motivos que contribuem para o maior envolvimento desses sujeitos em práticas de violência no âmbito doméstico e/ou coleti- vo (GOMES, 2008). Vale ressaltar ainda o fato de que grande maioria da população carcerária brasileira é composta por homens, o que reflete as consequências da associação entre masculinidades e violências.

Também vem chamando a atenção o elevado índice de homens que perdem suas vidas em função de acidentes de transporte, tanto como condutores quanto na condição de pedestres. Outra causa externa que chama a atenção é o grande número de homens que morrem em função de quedas e lesões, especialmente aquelas ocorridas no contexto do trabalho e, ainda, as mortes relacionadas ao autoextermínio (BRASIL, 2008; SCHWARZ et al., 2012; MOURA, 2014).

Conforme destaca Gomes (2008), enquanto o cuidado, a cautela e a delicadeza têm sido, historicamente, reconhecidos como atributos femininos, o risco, a coragem e a bravura são, comumente, associados como características tipicamente masculinas. Nesse sentido, “um ho- mem de verdade”, quase sempre, é reconhecido como aquele que con-

duz, em alta velocidade, um carro com alta potência. Mesmo em situa- ções de autoextermínio, cobra-se desses sujeitos uma morte violenta e digna de sua virilidade, resultando no quadro atual, no qual as mulheres respondem pelo maior número de tentativas de suicídio, sem conse- quências fatais e, os homens, pelo maior êxito em exterminar a própria vida (GOMES, 2008).

As mortes por doenças do aparelho circulatório se configuram como a segunda principal causa de mortalidade entre o público mas- culino brasileiro, apresentando uma taxa de óbito oito vezes maior em comparação com as mulheres (SCHWARZ et al., 2012; MOURA, 2014). Sem desconsiderar os aspectos genéticos e hereditários, estudos apon- tam para uma menor adesão dos homens às práticas de promoção da saúde e prevenção de agravos (GOMES, 2008; MEDRADO et al., 2009). Apesar do crescente número de sujeitos que procuram as academias de ginástica, especialmente em função das atividades de musculação, ainda é pequeno o número de homens que aderem a dietas, reeducação ali- mentar e práticas esportivas com finalidades aeróbicas. Tais atividades, ainda são reconhecidas como ações essencialmente femininas, o que di- ficulta a adesão masculina e, em alguns casos, amplia a exposição desse grupo a fatores de risco, como os relacionados às enfermidades do apa- relho circulatório.

Os transtornos mentais e comportamentais também são responsá- veis por um grande número de mortes masculinas, sendo quase três vezes maior do que o quantitativo de mulheres que morrem por essa mesma condição (SCHWARZ et al., 2012; MOURA, 2014). Embora, nos últimos anos, o número de mulheres que utilizam álcool e outras drogas (lícitas ou não) venha crescendo, os homens ainda são identificados como os sujei- tos que mais fazem uso destas substâncias, quase sempre, em quantidade surpreendentemente maior do que as mulheres. Por outro lado, apesar do maior índice de dependência de tabaco, álcool e outras drogas, os homens são a menor parte dos usuários dos programas de prevenção e tratamento de doenças como tabagismo e alcoolismo, procurando apoio apenas em momentos e situações onde a saúde encontra-se gravemente comprometi- da (BRASIL, 2008; SCHWARZ et al., 2012).

É preciso destacar que, grande parte dessas mortes destacadas poderiam ser prevenidas e evitadas, por meio de políticas, programas e práticas que incentivassem a (re)construção de novos sentidos e práti- cas relacionadas à masculinidade e, lutando pela equidade de gêneros, construíssem condições para outras possibilidades de exercício das mas- culinidades. Em outras palavras, milhares de homens brasileiros ainda arriscam suas vidas buscando atestar para si e para os demais a sua viri- lidade. Em outros casos, como o da população homossexual, por exem- plo, é o reconhecimento de um rompimento com o modelo hegemônico de masculinidade que, muitas das vezes, incita o ódio e a intolerância entre outros homens, resultando em atos de violência física, psicológica e muitas mortes.

Por fim, vale ressaltar o grande número de homens que morrem em função de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e por con- dições e agravos relacionados à Aids (BRASIL, 2008; SCHWARZ et al., 2012). Estima-se que, atualmente, as taxas de mortalidade por DST/Aids entre os homens brasileiros sejam duas vezes maiores do que entre as mulheres. Conforme destaca Gomes (2008), o modelo de masculinidade hegemônica exige dos homens que estejam prontos para uma atividade sexual a qualquer momento e em qualquer circunstância, mesmo naque- las situações em que os métodos de prevenção não estejam disponíveis. Como os homens percebem sua própria relação com os serviços de saúde? Que sentidos eles atribuem às práticas de autocuidado? Al- guns pesquisadores vêm se debruçando sobre essa temática, buscando compreender como os homens brasileiros representam a saúde, o adoe- cimento e o cuidado de si. Os resultados apontam para a necessidade de se considerar as singularidades dos modos de pensar dos homens e para o efeito das questões de gênero nas concepções de saúde e adoecimento do público masculino (NASCIMENTO, TRINDADE; GIANORDOLI- NASCIMENTO, 2011; CUNHA; REBELLO; GOMES, 2012).

Nessa perspectiva, analisando as representações sociais de saúde e de doença para homens jovens residentes na Região Metropolitana de Belo Horizonte, Nascimento, Trindade e Gianordoli-Nascimento (2011)

identificaram que, para este grupo, a saúde encontra-se associada à ideia de “bem-estar” físico e psicológico e à “qualidade de vida”. Por outro lado, para esses sujeitos, a doença é representada como “sofrimento” e “coisa ruim”. Para os entrevistados, estar saudável significa, na maior parte das vezes, não sentir dor e possuir condições de executar as tarefas cotidianas, com destaque especial para o trabalho.

Os autores ressaltam ainda que os homens possuíam um volume significativo de informações sobre as práticas tidas como ideais de cuidado com a saúde. E a maioria deles declararam manter uma rotina constante de autocuidado. Também observaram uma maior valorização e reconheci- mento das práticas esportivas e do cuidado com a alimentação enquanto atividades de saúde (NASCIMENTO; TRINDADE; GIANORDOLI-NAS- CIMENTO, 2011). A partir desses dados, é possível questionar: os ho- mens não cuidam da sua saúde ou eles se cuidam de uma forma distinta, não reconhecida e não institucionalizada, como é o caso das mulheres?

Em outro estudo, que buscou compreender os significados que homens de duas gerações distintas atribuíam ao autocuidado, Cunha, Re- bello e Gomes (2012) identificaram que ambos os grupos consideravam a prevenção e o cuidado com o corpo como as principais formas de cuida- rem de si. Apesar disso, eles também reconheciam que, cotidianamente, se deparavam com condições sociais, em especial, o machismo, que dificul- tavam e, em alguns casos, inviabilizavam o exercício do autocuidado.

Os motivos de consultas dos homens também revelam marcas dos modos como as relações de gênero são constituídas. Diversos estu- dos vêm apontando que, em geral, os homens procuram atendimento em saúde apenas em situações as quais já não mais suportam (GOMES et

al., 2007; MEDRADO et al., 2009; LYRA et al., 2012). Nesse sentido, em

comparação às mulheres, percebe-se uma menor utilização dos serviços de Atenção Básica e uma maior frequência do público masculino nos dispositivos de urgência e emergência. Os homens também são iden- tificados como aqueles que mais aderem às práticas de automedicação postergando, assim, a busca de cuidados especializados (FIGUEIREDO, 2005; LYRA et al., 2012).

Buscando compreender os motivos pela não procura dos ho- mens pelos serviços de saúde, mais especificamente, os da Atenção Bá- sica, estudos vem destacando o medo de descobrir que algo vai mal, a dificuldade de conciliar a jornada de trabalho com o funcionamento das Unidades Básicas de Saúde (UBS) e a não percepçãooda de trabalho com o funcionamee dificuldtam ue algo vai mal, a dificuldade de conciliar a jornada de trabalho com o funcioname de dor física como importantes fatores que dificultam a procura por cuidados especializados (GOMES

et al., 2007; GOMES, 2008; MEDRADO et al., 2009). Conforme destaca

Gomes (2008), a possibilidade do adoecimento é percebida, por muitos homens, como uma ameaça ao status de força e invulnerabilidade que se esforçam para manter e à busca por se aproximar do modelo de mascu- linidade hegemônica.

E os serviços de saúde? Como se articulam nesse cenário? Se- riam os profissionais e gestores neutros em relação às questões de gêne- ro? Definitivamente, a resposta para essa última pergunta é: não!