Conforme já apontamos, as relações de gênero são construídas e difundidas por meio de diferentes instituições sociais, como por exem- plo, a família, a escola, o trabalho, a igreja, o Estado, a mídia, entre outras (TONELLI; MULLER, 2011; ARAÚJO, SCHRAIBER; COHEN, 2012). Tais dispositivos se esforçam para que as desigualdades sociais e sexuais sejam percebidas como naturais e essenciais ou, ainda, como socialmente determinadas, sem quaisquer possibilidades de mudança.
Segundo Bourdieu (2007), tais instituições, enquanto agentes sociais, vêm trabalhando para a des-historização da ordem de gênero, em especial da dominação masculina e, ainda, para a eternização desses padrões no seio institucional, gerando em nós a sensação de que os ho- mens sempre foram assim e que mudar esse quadro é a uma tarefa dura e impossível. Nessa perspectiva,
Ora, longe de afirmar que as estruturas de dominação são a-históricas, eu tentarei, pelo contrário, comprovar que elas são produto de um trabalho incessante (e, como tal, históri- co) de reprodução para o qual contribuem agentes específi- cos (entre os quais os homens, com suas armas como a vio- lência física e a violência simbólica) e instituições, famílias, Igreja, Escola, Estado (BOURDIEU, 2007, p.46).
Atualmente, diversos autores também vêm chamando a atenção para o fato das instituições de saúde também se configurarem como es- paços de (re)produçãodas desigualdades de gênero, assumindo um ca- ráter de dispositivos genderificados (TONELLI; MULLER, 2011; ARAÚ- JO; SCHRAIBER; COHEN, 2012). Em outras palavras, as instituições de saúde, compostas por seus marcos legais, gestores e profissionais de saúde, não se configuram como espaços neutros, mas a todo instante, (re)produzem os estereótipos e a desigualdade de gênero. Conforme destacam Machinet al. (2011, p.4),
as identidades sociais de homens e mulheres elaboradas nas relações sociais constroem não só modos de conceber o corpo, a saúde e a doença, mas igualmente, produzem serviços de saúde baseados em modelos ideais de masculi- no e feminino que, ao mesmo tempo permitem reconhecer necessidades específicas com relação à saúde das mulhe- res, normalizando-as na direção da reprodução biológica, dificultam visibilizar determinadas demandas relativas aos homens, por não serem identificadas com a lógica orienta- dora da assistência em saúde.
Desse modo, os serviços de saúde se configuram como espa- ços que refletem o processo de divisão sexual do cuidado e, portanto, associam as práticas de saúde às mulheres (ARAÚJO; SCHRAIBER; COHEN, 2012). Nesse sentido, é recorrente que os serviços de saúde sejam compostos por um grande número de usuárias e profissionais do sexo feminino, o que contribui para a feminilização dessas instituições e, consequentemente, para o não reconhecimento dos homens em rela- ção a esses espaços (GOMES, 2008; TONELLI; MULLER, 2011; LEAL;
FIGUEIREDO; SILVA, 2012). De forma semelhante, não apenas as pro- postas assistenciais, como também a ambiência, os cartazes e outros dis- positivos institucionais também se encontram direcionadas ao público materno-infantil, favorecendo o sentimento de não pertencimento dos homens a esses espaços (FIGUEIREDO, 2005; ARAÚJO; SCHRAIBER; COHEN, 2012).
Historicamente atravessados pelas questões de gênero, os serviços de saúde brasileiros encontram-se direcionados para o atendimento de mulheres, crianças e idosos, sendo que a inclusão das necessidades mas- culinas na agenda de prioridades dos serviços de saúde ainda hoje se configura como um grande desafio (LEAL; FIGUEIREDO; SILVA, 2012; SCHRAIBER, 2012). Desse modo, os serviços de saúde, especialmen- te aqueles situados no âmbito da Atenção Primária, responsáveis pelas ações de prevenção e detecção precoce, encontram dificuldades para mobilizar, acolher e encaminhar as demandas do público masculino (SCHRAIBER et al., 2010; GOMES et al.,2011a; GOMES et al., 2011b).
Na mesma direção, Gomes et al. (2011b) e Couto et al.(2010) apontam para o status de invisibilidade que os homens assumem nos ser- viços de saúde, especialmente no âmbito da Atenção Primária. Mesmo quando presentes, é recorrente que os profissionais e gestores de saúde não reconheçam a presença física dos homens e tampouco suas neces- sidades e demandas específicas. Esses dados parecem reforçar a ideia de que os trabalhadores e gestores reproduzem, em seu cotidiano de traba- lho, o reconhecimento das mulheres como sujeitos universais do cuidado, enquanto os homens, quase sempre são representados como indivíduos desobedientes, resistentes e que não aderem às ações propostas.
Apesar de reconhecerem a influência das questões de gênero nos modos como os homens se relacionam com os serviços de saúde, ainda é recorrente que os profissionais e gestores concebam as questões cul- turais como determinantes destesmodos, desconsiderando, muitas das vezes, as possibilidades de mudança e transformação social (GOMES
et al., 2011; MARTINS; MODENA, 2015). Frequentemente, os profis-
institucionais no distanciamento dos homens das instituições de saúde, favorecendo a culpabilização dos homens pelo próprio distanciamento (CAVALCANTI et al., 2014; MARTINS; MODENA, 2015).
Nesse sentido, é recorrente que ações ofertadas nos serviços de saúde, em especial aqueles da Atenção Básica, não levem em conta as sin- gularidades desse público e, menos ainda, o processo de construção social das masculinidades (MEDRADO et al., 2009; COUTO et al., 2011; GO- MES et al., 2011). Não é raro encontrarmos profissionais de saúde que se queixam da não adesão dos homens a atividades socialmente tipificadas como femininas, tais como oficinas de biscuit, danças, beleza, cuidado cor- poral, entre outros. Em outras situações, como, por exemplo, as consultas de pré-natal, observamos que a presença masculina não é sequer esperada pela equipe, de modo que, quando o homem comparece aos atendimen- tos, gera uma série de “transtornos” ao processo de trabalho, que vão des- de a disponibilidade de cadeiras no consultório até a garantia de participa- ção dos pais nas ações relacionadas ao pré-parto, parto e puerpério.
Obviamente, é preciso considerar a existência de diversos entra- ves organizacionaisque também dificultam o trabalho das equipes em saú- de, por exemplo, a precariedade de alguns serviços de saúde, a ausência de profissionais treinados e qualificados e a sobrecarga de trabalho. Em nossa experiência e, a partir da literatura nacional, observamos que, frente a esses entraves, é recorrente que as equipes optem pelo público tido como mais fácil de manejar e que mais facilmente atende as ações propostas (COUTO et al., 2010, GOMES et al., 2011, MARTINS; MODENA, 2015).
Esse modo de pensar e agir em saúde parece constituir um ci- clo vicioso em relação à saúde masculina: de um lado os homens não demandam diretamente as ações em saúde e, portanto os serviços não oferecem nada ou muito pouco a este público e, de outro ponto de vista, as instituições de saúde, ao não oferecerem um escopo de ações para os homens e, ao priorizarem o público materno-infantil, também favore- cem o sentimento da população masculina de que esses espaços não são constituídos a partir de suas necessidades, gerando a sensação de não terem o que demandar.
Por fim, não é apenas no nível assistencial que as desigualdades de gênero são (re)produzidas. No campo da gestão em saúde é possí- vel identificar marcas importantes desta genderificação. Analisando os discursos que perpassam a Política Nacional de Atenção Integral à Saú- de do Homem (PNAISH), Martins e Malamut (2009) observam que a perspectiva de gênero é pouco incorporada. Os autores destacam ainda a forte presença do discurso biomédico no texto da PNAISH, refletindo numa maior ênfase desta nas doenças que acometem o aparelho genital e urológico, em detrimento de discussões sobrepossibilidades de inter- venções nas relações de gênero e sobre a construção de novos sentidos para o exercício das masculinidades.