4 Introduction
4.9 From obstetric ultrasound to ultrasonographic obstetrics
4.9.9 Ultrasound measurements as predictive factors of induction of labour
A mesma filosofia não acontece em The Trojan Women. O filme demonstra uma grande proximidade com a tragédia da autoria de Eurípides. Nesta história, sobre a escravatura a que as mulheres de Tróia são sujeitas depois da queda da sua cidade, os Gregos voltam a ser tratados como antagonistas, e um deles em particular, recebe um ódio especial. Este sentimento é dirigido, claro, a Helena (Irene Papas), “a causa de uma guerra desastrosa”1 e a verdadeira antagonista do filme. Trojan Women é uma adaptação quase
directa da peça de Eurípides.
Também neste filme existe uma confusão sobre quem é quem. Desta vez, é Cassandra (Geneviève Bujold) que ao ver uma luz incandescente e uma figura que segura uma lança e parece irradiar luminosidade, chama-lhe Apolo, a quem serviu, como profetisa. De imediato descobrimos, contudo, que se trata de um simples soldado. Cassandra afirma: “Se os deuses ainda viverem, o meu casamento [com Agamémnon] será mais sangrento que o de Helena”. A profetisa é chamada “a serva de Apolo”, mas com sentido insultuoso. Estes elementos demonstram alguma vontade de afastamento em relação à veneração do deus pítio. Na obra clássica, Cassandra apenas tem três falas, em que o deus délio não é difamado. Eurípides não representa a profetisa a confundir um humano com um deus, apesar de, realmente, esta ser capaz de prever o seu próprio destino. O único possível insulto que existe é o momento em que Cassandra arranca tiras de lã, insígnias dos deuses, da própria cabeça2. Menelau, por sua vez, afirma que “com a ajuda dos deuses ele [Páris] pagou o preço”.
A segunda menção a um deus concreto vem das palavras de Helena, durante o seu monólogo. A bela jovem fala de Afrodite e como a deusa a enganou, Helena pede a Menelau que não a castigue a ela mas à deusa. Estes são momentos equivalentes aos da peça original. Os pedidos caem num vazio, as palavras de Hécuba dissuadem qualquer sentimento carinhoso de Menelau em relação à sua esposa. Ao contrário do que acontece na peça, Helena viaja no barco de Menelau. Aqui a deusa parece ser uma inclusão necessária, pois é a base da argumentação agónica e sofística entre Hécuba e Helena.
1 Cf. OV., Met., 12.1.
2 Cf. EUR., Tro., 445-455: “E a mim também, não haja dúvidas, hão-de arrojar-me, cadáver desnudo, e as
ravinas transbordantes de águas torrenciais hão-de dar-me em quinhão às feras, perto do sepulcro do meu noivo, a mim, a servidora de Apolo. Ó grinaldas do que era para mim o mais caro dos deuses, místico efeite, adeus! Aparto-me das festas em que outrora brilhava. Ide! [Arranca da cabeça as tiras de lã, insígnias dos
deuses]. Eu vos arranco do meu corpo, pois, como corpo ainda puro, entrego aos ventos velozes estes
adereços para que tos levem, ó soberano profeta”. Cassandra, podendo não seguir o mesmo sentido, também afirma em EUR., Tro., 355-360: “Se Lóxias existe [...]”.
Deste modo, Afrodite tem presença referencial no filme, mas de forma passageira, o importante a demarcar é o crime de Helena.
Este filme, apesar de se aproximar mais da fonte em que se baseia e, portanto, de se distanciar das duas longas-metragens anteriores, tem um tratamento idêntico em relação ao divino. Os deuses podem ser mencionados, mas não podem causar qualquer tipo de impacte na história, nem aparecer como personagens. O plano divino volta, todavia, a ter algum tipo de presença.
Concomitantemente, a omissão cinematográfica dos deuses não é um título correcto. Todas estas adaptações reconhecem, de uma forma ou de outra, a existência dos deuses. O que se cria é antes uma diminuição da importância destas figuras no decorrer dos diferentes enredos. Estas são histórias em que as personagens humanas recebem primazia. Ao se tentar criar uma narrativa mais “realista”, é normal que surja a necessidade de quase apagar essas figuras.
Três argumentos, contudo, parecem poder fazer desabar a ideia de que os deuses não devem ser incluídos no cinema. O primeiro argumento relaciona-se com o facto de o plano divino nunca ser totalmente excluído. O segundo tem que ver com uma descontextualização e reapropriação. Os cineastas pretendem encaixar as suas leituras no género histórico-biográfico, com o qual a dimensão mitológica não se coaduna. O terceiro argumento encontra-se neste estudo. São inúmeras as obras cinematográficas que usam, com êxito, os deuses gregos. Muitos dos exemplos fílmicos que mencionaremos, e em que os deuses se incluem, são prova concreta não só da sua representação nesta arte, mas também da necessidade que os diferentes contadores de histórias têm de mencioná-los. Os deuses ainda se encontram entre nós.
A superficialidade da mitologia grega é uma inexistência. Estes cineastas podem ter escolhido não usar os deuses como personagens. Mas isso não significa que os imortais nunca devam ser representados como tal. Ainda hoje, as obras clássicas em que os deuses estão presentes podem afectar-nos de forma gratificante. Mesmo passados quase três mil anos. Os filmes em que os imortais existem como personagens também não são excepção.
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Antes de prosseguirmos com a terceira parte, será importante deixar uma listagem completa dos Doze Deuses escolhidos. O primeiro casal divino analisado será Zeus e
Hera. Em segundo lugar, olharemos, de forma individual, para Posídon. De seguida, o
incluirá Dioniso e Deméter, apesar de esta última divindade receber menos atenção devido à sua pouca relevância no cinema. Atena e Hefesto são os imortais que se seguem, sendo a deusa da sabedoria mais destacada que o deus metalúrgico. O último “casal olímpico” que analisaremos é Afrodite e Ares. Por fim, terminaremos no submundo e nas figuras que o ocupam, em especial, Hermes e Hades, realçando que, no caso do rei dos mortos, olharemos mais para o modo como o “pensar a morte” evoluiu e não tanto para a sua figura. Toda esta segunda parte justificou a razão, mitológica e cinematográfica, para estas escolhas. Hades também é incluído, porque apesar de não fazer parte dos Doze, é uma personagem que traz consigo uma temática demasiado essencial para ser ignorada.
III – Deuses Gregos na Antiguidade e no Cinema
Nesta terceira parte, olharemos para as entidades divinas estabelecidas no capítulo anterior, a quem nos podemos referir simplesmente como “os deuses gregos”. O objectivo final destes capítulos será o de definir, mitológica e cinematograficamente, cada uma das entidades divinas, estabelecendo assim uma ponte entre o que estas figuras representaram no passado e o que representam na contemporaneidade. As semelhanças, verificáveis entre estes dois períodos, sobrepõem-se às diferenças? A resposta varia conforme o caso ou é idêntica? É à resposta a esta e outras questões que pretendemos chegar ao olhar para cada deus de forma individual e agrupada.