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Ultrasound during labour

8 Reflections on the future

8.5 Ultrasound during labour

O único filme que aparenta dar protagonismo a Zeus é Le Tonnerre de Jupiter2, (1903) realizado e protagonizado por George Méliès3. Trata-se de um “trick film”4 com menos de quatro minutos. O filme conta como Júpiter perdeu o controlo dos seus raios5, tratando a história visual de como o “feitiço se virou contra o feiticeiro”. O filme de Méliès cria uma paródia do grande e poderoso Júpiter (ou Zeus).

O deus envia os seus raios para reparação. Quando os recebe de volta, contudo, eles continuam estragados, pois, quando lançados, produzem enormes explosões e fogos6.

Na sua apresentação inicial, Júpiter surge enquadrado por duas personagens femininas (uma delas segura uma coroa) e por uma águia. O palco teatral filmado inclui, ainda, uma auréola atrás da cabeça do deus-rei e nuvens, como pano de fundo.

Ilustração 42 – Zeus, Hermes e Hefesto em Le Tonnerre de Jupiter (1903). Imagem à esquerda: Zeus segura os raios, momentos antes de os entregar a Hefesto. Ao lado de Hefesto podemos ver Hermes a segurar o caduceu. Ao centro: introdução de Júpiter, o protagonista. À direita: Hermes com pétaso alado.

Além de Júpiter, estão presentes as seguintes personagens mitológicas: Hermes ou Mercúrio, Hefesto ou Vulcano e as Musas. A função de Hermes não é clara, mas a

1 Cf. HIPPOC., Aph., 1.1.

2 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=tb0gO2uV4sg [retirado a 26-03-2018].

3 Os trick films foram desenvolvidos por este inovador da história do cinema fantástico, servindo como

evidência de algumas das suas primeiras experiências no cinema. Vide CARROL, N., Theorizing the

Moving Image, Cambridge University Press, Cambridge, 1996, p. 146. Sobre outros autores que

contribuíram para este “subgénero”, vide PARKINSON, D., 100 Ideas That Changed Film, Laurence King Publishing, London, 2012, p. 19.

4 Filmes curtos, sem som, pertencentes ao cinema primitivo e maioritariamente produzidos entre 1898 e

1908, nos quais se fazia experiências com efeitos especiais basilares mas inovadores. Vide Cf. SOLOMON, M., “Up-to-Date Magic: Theatrical Conjuring and the Trick Film”, Theatre Journal, 2006, 58 (4) / 596.

5 Para outras sinopses vide SOLOMON, J., Op. Cit., 2001, p. 3, 102 e 296.

6 Vide ABEL, R., The Cine Goes to Town: French Cinema, 1896–1914, University of California Press,

personagem parece servir de mensageiro ao serviço de Zeus. Hefesto encaixa perfeitamente na sua descrição clássica1, sendo coxo e servindo apenas como um “arranja-tudo”2. As Musas são simbolicamente introduzidas como fonte de inspiração

para o artista.

Júpiter tem o poder de conjurar as Musas. Elas surgem primeiro como estátuas, ganhando depois vida. P. Michelakis afirma, “o que aqui temos é o realizador, encenador, produtor e protagonista [Méliès como Júpiter] a fazer de novo mestre das artes, com o poder de fazer aparecer pinturas, esculturas, música e dança, combinando-as num espectáculo intermédio e interactivo, mas também subjugando as suas insubordinações”3. Ou seja, Le Tonnerre de Jupiter é uma parábola do “criador” que consegue usar as várias artes de modo a dar azo a uma nova forma de expressão criativa: o Cinema. Méliès sugere, ao mesmo tempo, que a sétima arte é influenciada por, e dependente de, outras artes.

Este filme concede destaque aos raios de Júpiter, tal como o título comprova. Os trovões, a arma predilecta de Zeus, representam as influências que um autor utiliza. Os raios do deus não funcionam a início, pelo que, quando Júpiter recupera a sua arma, agora arranjada, a sua excitação é palpável. O poder que emana dos trovões é, porém, difícil de controlar. Os trovões provam ser um poder superior ao próprio pai dos deuses. O facto de Júpiter perder controlo da sua ferramenta pode significar, dentro de uma leitura alegórica, que a obra criada é mais importante do que o próprio autor. São os raios (ou a obra de arte) que parecem controlar Júpiter ao roubarem o protagonismo, titular e narrativo, do filme. Os criadores, ou cineastas, têm autoridade sobre as artes tradicionais, mas demonstram problemas em lidar com os novos materiais tecnológicos à sua disposição, e em controlar a película que deles resulta.

Assim sendo, para Méliès, a mitologia clássica não perde relevância no mundo moderno. Estas fontes mitológicas são reconfiguradas de modo a poderem ajudar o espectador a lidar com os choques da modernidade, “choques relacionados com a força milagrosa e inquietante de um ambiente cada vez mais tecnológico e com as complexidades subsequentes da condição humana em relação a eles”4. O realizador

1 Cf., por exemplo, Il., 18.372 e segs: “Encontrou-o transpirado e atarefado, de roda dos foles. É que ele

fabricava trípodes […] Hefesto falou; e levantou-se da bigorna, qual colosso ofegante, coxeando; mas as pernas por baixo dele eram ágeis. […] Com uma esponja limpou a cara e os dois braços, assim como o pescoço possante e o peito hirsuto; depois vestiu uma túnica e agarrou num ceptro robusto; saiu porta fora a coxear”.

2 Vide capítulo referente ao deus.

3 Cf. MICHELAKIS, P., in POMEROY, Op. Cit., 2017, p. 20. 4 Id., ibid., p. 21.

francês cria uma comédia musical com base mitológica, mas não toma esta opção apenas como forma de entretenimento. Méliès sabe que a mitologia tem potencial para servir de comentário à sua actualidade. O ilusionista não deixa, todavia, de cair na tentação de ridicularizar os deuses “pagãos”, entendidos como greco-romanos.

Ilustração 2 – O artista e a sua obra. À esquerda: Zeus pousa os trovões ao centro, depois de invocar as musas ainda na forma de estátuas. À direita: foto de Georges Méliès, cineasta inovador que explorou novas técnicas cinematográficas, como: o stop trick ou substitution splice, a dupla ou múltipla exposição, a fotografia em time-lapse, o disolve ou a fondu image, e a utilização de cor no próprio rolo de filme1.

A influência desta fase do Cinema em filmes posteriores é subvalorizada, apesar de ser um elemento central da história desta arte. Os cineastas deste período conseguiam combinar a produção e disseminação de um entretenimento popular, com o potencial de uma experimentação artística intensa. Foi, ainda durante o Cinema Primitivo, que a Sétima Arte se começou a concentrar mais na construção de uma narrativa, em vez de se focar simplesmente na criação de espectáculo ou no simples acto de filmar a realidade. Nesta sua fase primeva, a cinematografia incorporou uma mudança epistémica na forma como o mundo, em que se inclui a Grécia Clássica, era compreendido2.

O texto e a imagem são formas de expressão que renovam o modo como a Antiguidade é percebida. Com a emergência e o desenvolvimento do Cinema Primitivo, começámos a ter acesso a uma Antiguidade em movimento. Culturas como a grega ou a romana, que o público geral aceitava como imperscrutáveis, podem ser agora “uma realidade temporária a ser captada pelos sentidos”3. Outros meios de comunicação artística, e de entretenimento, tinham já feito uso da herança clássica. A Fotografia, a Literatura, o Teatro e a Ópera, são alguns dos melhores exemplos. Mas concordamos com

1 Vide GRESS, Jon, Visual Effects and Compositing, New Riders, San Francisco, 2015, p. 23. Vide também,

WILLIAMS, A.L., Republic of Images: A History of French Filmmaking, Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts, 1992, p. 36. Vide ainda, FIELDING, Raymond, The Technique of Special

Effects Cinematography, Focal Press, [s.l.], 1985, p. 152.

2 Vide Id., ibid., 2017, p. 21. Vide também LIGENSA, A. et KREIMEIER, K. (ed.), Film 1900: Technology,

Perception, Culture, John Libbey Publishing, New Barnet, 2009, pp. 23-37, 53-67, 237-249. Vide ainda

ALBERA, F. et TORTAJADA, M. (ed.), Cinema Beyond Film: Media Epistemology in the Modern Era, Amsterdam University Press, Amsterdam, 2010, pp. 25-45.

a opinião de Michelakis, de que “é a primeira vez que [estas heranças clássicas] se incluem na imaginação moderna de forma tão penetrante, atravessando fronteiras sociais, culturais e geográficas”1.

1.5.3 Anfitrião (1935): Zeus e a “síndrome de Don Juan”

Se excluirmos a curta-metragem de Méliès, a personagem de Zeus não volta a ter protagonismo ao longo da lista acima apresentada. O filme Amphitryon2 é, todavia, mais uma excepção à regra (mesmo que não o seja inteiramente). Escrito e realizado por Reinhold Schünzel, o filme é baseado nas obras teatrais de Heinrich von Kleist e Molière3. Por sua vez, estas peças são baseadas na obra do comediógrafo Plauto4, partilhando todas o mesmo nome. O musical alemão, e todas as suas influências, recordam o mito de Anfitrião5, em que Zeus e Hera são tratados como figurais centrais da narrativa. O título

e a narrativa fílmica, porém, acabam por enaltecer mais as figuras humanas, i.e., Anfitrião e Alcmena.

Zeus, mais uma vez tratado como Júpiter (Willy Fritsch), desce à Terra para seduzir Alcmena (Käthe Gold) e afastar-se da sua mulher avantajada e já envelhecida, Hera ou Juno (Adele Sandrock). Com este intuito, e querendo mudar a sua aparência de homem idoso e calvo, Júpiter tem a ideia de aparecer antes como o próprio marido da bela mortal: Anfitrião (também Willy Fritsch). O deus bebe uma poção para atingir esse objectivo. O rei de Tirinte volta a casa no dia seguinte, enquanto Zeus lá se encontra, assemelhando-se ainda a Anfitrião. A confusão instala-se. A banda sonora e o tom do filme, contudo, não deixam que se crie um ambiente sério. O diálogo é recitado liricamente e em concordância com o ritmo da música tocada e cantada. Este tipo de diálogo providencia ao filme uma leveza e comédia sofisticadas. Hera é, por fim, e qual

dea ex machina, quem vem esclarecer a situação, expondo a verdade a todos os presentes.

Esta longa-metragem prova que a mitologia, ao ser adaptada para cinema, não precisa de se identificar apenas com a Fantasia, enquanto género. Muitos outros elementos narrativos podem ser adicionados e correctamente explorados. Os acrescentos

1 Cf. Id., ibid., p. 23.

2 Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=C554BVChdmw [retirado a 27-03-2018].

3 Sobre estas peças de teatro, vide MINER, Earl, et GUFFEY, George, The works of John Dryden,

University of California Press, California, 1976, p. 464.

4 Cf. PLAUT., Amph. 5 Vide, id., ibid.

de Amphitryon encontram-se na sua música mas, principalmente, na comédia que se estende a toda a obra.

Ilustração 44 - Representações de Zeus, Hermes e Hera em Amphitryon (1935). À esquerda: Zeus observa Alcmena a partir do Olimpo, ao seu lado encontra-se Hermes (Paul Kemp) com pétaso alado. À direita: Hera e Zeus avolumados e envelhecidos.

Quando Júpiter chega à terra, por exemplo, fareja o chão à procura da schöne Frau,

i.e., Alcmena. O Tonitruante, ao ver uma estátua sua, retorque: “Não se parece nada

comigo”1. Muitas outras cenas incluem momentos cómicos, como por exemplo: Hermes que prova a mesma bebida de Zeus, para o mesmo efeito, todavia, transforma-se antes num horrível corcunda2; o deus-rei, ao tornar-se mortal, passa a poder embriagar-se, mas também a adoecer; ou Hera, que quando vem à Terra salva o seu amado “Jupi” dos perigos da mortalidade e convence-o a voltar à sua aparência divina, à sua maldita forma imortal. Enquanto deus, Zeus está cheio de poderes, mas velho; enquanto Anfitrião, Zeus é novo, mas perde as suas virtudes divinas. Um jogo de mistura de identidades permeia toda a história, tal como acontece na versão de Plauto.

A maioria do filme recupera uma forma de expressão artísticabastante conhecida no mundo helénico e, mais tarde, no romano3. Referimo-nos à Comédia Nova, um género teatral que se caracterizava por ser uma narrativa de conflito de interesses, desenvolvidos de modo a provocar o riso, mas sempre de forma leve e socialmente correcta4.

1 Para uma crítica de um classicista, sobre este filme, vide SOLOMON, J., Op. Cit., 2001, p. 285.

2 O que pode ser uma reminiscência do que aconteceu com Lúcio, protagonista criado por Apuleio em O

Burro de Ouro. Vide especificamente, APUL., Met., em que Lúcio se tenta transformar em pássaro, mas

acaba por se metamorfosear em burro: “E, logo, balançando os braços com alternados esforços, tentava mover-me à maneira das aves. Mas nenhumas penas, nenhumas asas apareciam […]. O meu rosto torna-se enorme, e a boca se rasga, as ventas se abrem, e a beiçada fica pendente; as orelhas com descompensado aumento, estão hirtas de hórridos pêlos [,,,]. E, enquanto sem esperança de salvação observo todas as partes do meu corpo e me vejo não ave mas burro” (traduzido a partir da tradução espanhola de Lisardo Rubio Fernández).

3 Claro está porque se baseia em Plauto, um comediógrafo romano que, por sua vez, se deixa influenciar

pela Comédia Nova grega.

4 Ao contrário do estilo que o antecedeu: a Comédia Antiga, com expoente máximo nas peças de

Ilustração 45 - A metamorfose de Zeus em Amphitryon (1935). À esquerda: o deus dos trovões. À direita: Zeus como Anfitrião admira a sua juventude ao espelho depois de tomar a poção mágica. O tom jocoso sobre como o verdadeiro deus é velho e calvo e o homem é belo e jovem, incorpora em si um comentário crítico às representações de Zeus, que como imortal tem de permanecer para sempre idoso. Também encerra, de algum modo, a ideia sacrílega (para um grego antigo), apesar de engraçada, de que o homem é mais belo que o deus.

Na Grécia, a tríade clássica da Comédia Nova inclui Filémon, Difilo e Menandro, todos activos desde a década de 320 a.C. Apenas de Menandro, cujos trabalhos o tornaram tão célebre como “Homero” ou Eurípides, existem fragmentos extensos e peças, na sua maioria, completas1. De modo a sermos capazes de definir o género em geral, podemos retirar informações de encenadores romanos como Plauto ou Terêncio (c. sécs. III e II a.C.). Nestes casos, apesar de a língua usada ser o latim, os contextos, nomes de personagens e enredos são semelhantes aos que podem ser encontrados em Menandro. Através dos prólogos e anotações destes dois autores podemos perceber melhor os trabalhos perdidos dos três grandes autores da Comédia Nova, principalmente de Filémon e Dífilo.

A Comédia Nova é estudada a partir de um conjunto de 19 a 34, cujos enredos são largamente conhecidos. As peças cómicas gregas foram escritas num tempo de agitação política em Atenas. Uma instabilidade que pode ter abalado o orgulho da cidade no seu passado e na sua identidade distintivos. As políticas tumultuosas dos princípios de séc. IV propiciaram a diminuição de representação de figuras mitológicas, tal como acontecia com os deuses gregos, que raramente apareciam nestas peças.

O teatro cómico romano, por sua vez, não via qualquer problema em incluir os deuses. Amphitryon, a peça de Plauto, que se encontra maioritariamente completa, é exemplo disso. Assim sendo, as hipóteses que a mitologia dispôs, ao desenvolver a personagem de um Zeus promíscuo, foram exponenciadas no teatro grego, especificamente no drama satírico e, sobretudo, na comédia antiga. O teatro romano

1 Vide EASTERLING, P.E., “Menander, Loss and Survival: ζώεις εἰς αἰω̑να”, Bulletin of the Institute of

Classical Studies - Stage Directions: Essays in Ancient Drama in Honour of E. W. Handley Wiley, 1995,

também exponenciou esta característica de Zeus na comédia. A Comédia Nova e, principalmente, Plauto influenciaram autores como William Shakespeare e Ben Jonson1. As alterações criativas, em relação à forma como se percebia Zeus, levaram a que o deus-rei tenha padecido do que Philip Slater chamou de “síndrome de Don Juan”2.