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As representações genéricas conceitual e praxeológica se referem, como vimos, a conhecimentos esquemáticos relativos ao mundo em que o discurso se insere. Essas representações têm impacto sobre o mundo que o discurso representa, bem como sobre os mecanismos de textualização selecionados para materializar esse mundo representado.

Diferentes estudos apontam para o impacto de um gênero sobre o mundo representado e sobre os recursos textual-discursivos empregados em sua representação, evidenciando que “os gêneros têm uma identidade e eles são entidades poderosas que, na produção textual, nos condicionam a escolhas que não podem ser totalmente livres nem aleatórias, seja sob o ponto de vista do léxico, grau de formalidade ou natureza dos temas” (MARCUSCHI, 2008, p. 156).

É assim que, estudando o gênero debate, Burger (2002) observa que a necessidade de tornar esse gênero mais atraente para o público leva o jornalista/mediador do debate a assumir uma postura menos neutra e, consequentemente, a utilizar uma quantidade maior de recursos textual-discursivos destinados a transformar o debate em debate- espetáculo59. No estudo das transações comerciais em livraria, Filliettaz (1997, 2000,

59 Desses recursos, fazem parte marcadores de oposição, como negações e conectores contra-

argumentativos, marcadores de subjetividade, como pronomes pessoais de 1ª pessoa, marcadores de topicalização, estruturas clivadas, etc.

110 2008) aponta para o papel da representação praxeológica no desenvolvimento das ações de livreiro e cliente em situações específicas. Nessas situações, percebe-se o papel configurante dessa representação para a realização de ações locais. Ao analisar o gênero diário de leitura, Machado (1998) observa que nesse gênero as descrições, contrariando o protótipo descritivo de Adam (1992), apresentam elementos avaliativos, o que, segundo a autora, justifica acrescentar uma fase de avaliação ao protótipo descritivo que subjaz às sequências descritivas desse gênero.

Ao revelar a influência das representações genéricas sobre diferentes aspectos da materialização discursiva, esses trabalhos apontam para a necessidade de se estudar o impacto das representações genéricas sobre as representações referenciais que definem os tipos de discurso. Em outros termos, a definição de um tipo de discurso deve levar em conta o impacto do mundo em que o discurso se insere (gênero do discurso) sobre o mundo que o discurso representa (tipo de discurso). Afinal, “o sub-domínio da vida social na qual a interação acontece opera uma seleção de recursos psicológicos, mobilizados pelos agentes que nela se encontram engajados” (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001, p. 130).

Nessa perspectiva, o gênero reportagem influencia a constituição do tipo narrativo desse gênero. Adiantando aspectos das análises que serão apresentadas no capítulo 5, observo que, em uma sequência narrativa típica da reportagem, o jornalista costuma antecipar um aspecto do fato que será apresentado, a fim de facilitar sua compreensão pelo leitor e/ou despertar no leitor curiosidade sobre o restante da narrativa. Essa primeira ação pode se materializar no discurso por meio do episódio sumário.

Em seguida, o jornalista mostra ao leitor que os fatos que serão abordados se produziram num local e num tempo definidos e envolveram figuras reais do espaço público. Essa segunda ação pode se materializar por meio do episódio estágio inicial60.

Depois, o jornalista costuma apresentar o fato que motivou a escrita da sequência narrativa. Como os fatos abordados em reportagens costumam ocorrer no espaço público, eles têm o potencial de despertar a atenção do leitor, já que afetam uma parcela dos cidadãos. Essa terceira ação se materializa por meio do episódio complicação.

60 As razões para a substituição dos termos estado inicial e estado final por estágio inicial e estágio final

111 Após a complicação, o jornalista pode apresentar um comentário sobre a informação expressa geralmente no episódio anterior. Quando o jornalista apresenta um comentário realizado por terceiros (um especialista, por exemplo), essa ação decorre da visada de credibilidade, já que apresenta um ponto de vista de uma autoridade em determinado assunto ou de uma testemunha do fato ocorrido. Mas, quando é o próprio jornalista que realiza o comentário, essa ação decorre da visada de captação, já que, por meio desse tipo de comentário, o jornalista busca evidenciar um ponto de vista que acredita ser compartilhado pelo leitor. A ação de apresentar um comentário se materializa no discurso por meio da fase de avaliação.

Em seguida, o jornalista costuma apresentar o resultado previsto ou imprevisto do fato expresso na complicação. Essa quinta ação se materializa por meio do episódio

resolução.

Por fim, o jornalista pode informar ao leitor a consequência direta da resolução. Essa consequência pode ser a atitude mais recente tomada por uma figura pública ou pode ser o estado resultante da resolução (como tudo ficou ou está após a resolução). Essa última ação realizada pelo jornalista se materializa por meio do episódio estágio final.

Esses diferentes episódios do tipo narrativo da reportagem podem ser esquematizados na seguinte representação praxeológica.

FIGURA 11 - Representação praxeológica do tipo narrativo da reportagem

SUMÁRIO ESTÁGIO INICIAL COMPLICAÇÃO AVALIAÇÃO RESOLUÇÃO ESTÁGIO FINAL AVALIAÇÃO

112 Diferentemente da cadeia culminativa de acontecimentos proposta por Filliettaz (1999, ROULET; FILLETTAZ; GROBET, 2001), a representação acima não tem um caráter prototípico, uma vez que não subjaz às sequências narrativas produzidas no quadro de quaisquer gêneros do discurso. Em outros termos, essa representação praxeológica não é universal, pois busca dar conta do percurso típico realizado na produção das sequências narrativas pertencentes apenas ao gênero reportagem e, portanto, está profundamente atrelada às suas visadas, às suas instâncias enunciativas e ao seu percurso acional típico. Nesse sentido, ela pode ser compreendida como um recurso referencial de que o jornalista lança mão sempre que precisa produzir os segmentos narrativos de uma reportagem e não se aplica, portanto, à análise de sequências narrativas encontradas em exemplares de outros gêneros.

Por ser menos geral e não pretender dar conta das sequências narrativas produzidas no interior de todo e qualquer gênero, essa representação tem pelo menos duas vantagens. Em primeiro lugar, possibilita uma análise mais sensível às especificidades de um dado gênero. Ao contrário do protótipo narrativo de Adam em que Filliettaz se inspira, ela decorre das visadas, dos papéis sociais e das condutas típicas associadas ao gênero reportagem e, por isso, busca dar conta de forma mais realista das etapas envolvidas na produção de sequências pertencentes a esse gênero. No protótipo narrativo de Adam e na cadeia culminativa de acontecimentos de Filliettaz, os papéis sociais que os agentes assumem tipicamente e as finalidades típicas que buscam alcançar não têm qualquer relevância para a constituição ou seleção desses recursos referenciais. Essa maneira de conceber os tipos promove uma dissociação entre tipo e gênero, dissociação que estudos de gêneros específicos, como os apontados ao final do capítulo anterior, mostram ser inadequada.

Em segundo lugar, como a elaboração dessa representação é fruto da análise das recorrências verificadas em um corpus de sequências narrativas de reportagens, como será mostrado no capítulo 5, ela permite extrair as especificidades de uma sequência narrativa jornalística, mesmo que essa sequência se afaste do modelo prototípico das sequências narrativas literárias. Como o protótipo de Adam é elaborado com base, principalmente, em narrativas literárias, as sequências que não apresentam suas características (qualidades) básicas (ver cap. 1, item 1.2) simplesmente não são

113 consideradas como narrativas ou são qualificadas como narrativas problemáticas ou defeituosas61. Uma representação como a que proponho busca evitar esse viés prescritivo.

Na perspectiva que adoto, a cadeia culminativa de acontecimentos proposta por Filliettaz (figura 3, cap. 2) pode ser entendida como uma abstração muito excessiva de tipos narrativos particulares. Esses tipos, a exemplo do tipo narrativo da reportagem, são menos gerais, por serem resultantes das propriedades definidoras (as representações conceitual e praxeológica) de cada gênero do discurso.