6.4 Skaper fråfall konsekvensar for kunnskapssamfunnet?
6.4.1 Høgare utdanning
Apresentados os parâmetros contextuais que enquadram a produção da reportagem “Desvios subterrâneos”, a continuação deste item apresenta de forma sucinta uma análise possível da forma de organização estratégica da sequência “Mar de lama”, pertencente a essa reportagem, a fim de verificar sua função contextual, antecipando as análises que serão efetuadas no capítulo 7.
Neste estudo, é importante esclarecer que a análise vai se situar particularmente no segundo nível do enquadre interacional, em que as relações de faces, territórios e lugares são negociadas pelo narrador, o jornalista, e o narratário, o cidadão. Como evidenciam as análises estratégicas empreendidas por Roulet (ROULET; FILLIETTAZ;
143 GROBET, 2001), é interessante que o analista, ao estudar a forma de organização estratégica, aponte em que nível interacional vai situar a análise, já que essas relações se dão em todos os níveis do enquadre, desde o mais externo até o mais interno, em que as personagens dialogam.
Além disso, neste trabalho, estudo as reportagens tal como veiculadas nas revistas selecionadas. Ou seja, estudo o produto discursivo, o qual não dá acesso a informações precisas a respeito dos atores efetivamente envolvidos no processo de produção e muito menos a respeito dos leitores empíricos e de suas reações durante a leitura. Dessa forma, o trabalho com o produto discursivo me impede de realizar afirmações sobre as relações de faces, territórios e lugares entre as instâncias pertencentes aos níveis superiores em relação àquele em que narrador e narratário interagem. Porém, como os autores empíricos agem sob a influência de um quadro de restrições situacionais, não sendo totalmente livres (CHARAUDEAU, 2004), o impacto dos níveis mais externos sobre o nível interacional focalizado será levado em conta.
Na reportagem “Desvios subterrâneos”, o jornalista ocupa um lugar alto ou dominante, já que detém um conhecimento que, a princípio, o cidadão não detém, tendo em vista o acesso a fontes (pessoas, órgãos, documentos) aos quais este não poderia ter acesso. Contribui para a ocupação desse lugar alto pelo jornalista o fato de que a interação se caracteriza, do ponto de vista material, pela distância espacial e temporal e, consequentemente, pela ausência de reciprocidade imediata. Ou seja, só o jornalista fala. Por isso mesmo, só o jornalista decide o que será dito e como será dito. E, como nota Kerbrat-Orecchioni (2006, p. 74), “será colocado em alta posição aquele que conseguir impor a seu parceiro suas escolhas temáticas, seus usos lexicais e, com certeza, seu ponto de vista sobre os objetos submetidos à controvérsia, ao longo da interação”.
Além disso, como foi dito, a revista Veja e as demais revistas semanais de informação estudadas neste trabalho são consideradas veículos de comunicação de referência, o que contribui para dar legitimidade à fala daqueles que produzem reportagens, tornando-a uma voz institucionalmente autorizada.
Vista dessa forma, a verticalidade da relação que se estabelece entre os interactantes por meio da reportagem “Desvios subterrâneos” poderia ser perigosa para a gestão das
144 relações de faces e de terriórios, uma vez que o leitor empírico já entraria nessa interação consciente da posição inferior que lhe é destinada, posição de um parceiro mudo e ignorante dos tópicos abordados e desprovido de uma chancela institucional. Por ser essa uma posição potencialmente agressiva para sua face e invasiva de seu território, o leitor poderia nem mesmo querer entrar nesse jogo interacional, recusando- se a comprar a revista e, consequentemente, a assumir a posição acional que lhe é destinada na interação.
Como essa recusa por parte do leitor seria prejudicial para quem produz um objeto de consumo, a saída adotada pelos veículos de comunicação considerados de referência é, então, a de construir um narrador que se apresenta como um prestador de serviço público, como um jornalista cuja função, por dever ético, é informar o leitor acerca do que outros (instituições, governos, empresas, etc) tentam ocultar71. Construído dessa forma, o narrador justifica a tomada da palavra e, em consequência, a invasão do território do cidadão.
Ao mesmo tempo, faz parte dessa saída contruir um narratário ou uma figura de leitor correspondente à do cidadão, que se interessa pelo que ocorre no espaço público e que exige que o jornalista cumpra o seu papel de colher e de divulgar (revelar) informações ocorridas nesse espaço. Constrói-se, então, a figura de um leitor que, tendo em vista os deveres e os direitos do cidadão, consente que o jornalista invada seu território, desde que este tome a palavra para tratar de tópicos de interesse da coletividade.
É a essa relação de construção recíproca de imagens entre jornalista e cidadão que Maingueneau (2008, p. 40) se refere, quando observa: “O jornal procura apresentar-se como quem responde a demandas, explícitas ou não, dos leitores”. É como se o cidadão pedisse ao jornalista para atuar da forma como atua.
Essa saída dos veículos de comunicação, se não coloca o cidadão em posição superior, aproxima bastante os parceiros da interação, a qual pode se desenvolver sem pôr em risco as faces e os territórios em jogo. A assunção dessa postura tem impacto direto na construção das sequências discursivas, as quais vão funcionar como estratégias
71 Essa postura de prestador de serviço público que o jornalista assume é própria do jornalismo de modo
geral e pode ser percebida no slogam que aparece na primeira página do jornal “Folha de São Paulo”, logo abaixo do nome do jornal: “Um jornal a serviço do Brasil”.
145 importantes na tentativa do jornalista de realizar processos de figuração para valorizar sua face e, de modo complementar, não expor a face do outro a riscos nem invadir de modo inadequado seu território.
Assim, na sequência “Mar de lama”, os recursos textuais e discursivos já estudados têm como função poupar e valorizar as faces dos interactantes e, ao mesmo tempo, preservar os seus territórios, amenizando a verticalidade da relação de lugares entre os interactantes.
A construção de uma sequência narrativa que atualiza todos os episódios da representação praxeológica do tipo narrativo da reportagem parece se explicar pela posição acional assumida pelo narrador. Na busca por denunciar desvios de verba e, ao mesmo tempo, de não se comprometer de forma excessiva, o jornalista opta por construir uma sequência que apresenta todos os episódios do tipo, os quais estão na ordem mais frequente. Se a ordem dos episódios fosse outra, e a sequência começasse, por exemplo, pela avaliação ou pelo estágio final ou apresentasse mais de uma avaliação, o jornalista poderia ser acusado de tendencioso ou imparcial, pondo em risco a sua busca por ser reconhecido como merecedor de credibilidade e como prestador de um serviço público e pondo em risco, consequentemente, sua face.
O jornalista produz uma avaliação, cuja instância responsável é o próprio jornalista e não um terceiro (especialista ou figura do cenário político). Antes de listar os casos de corrupção que finalizam a reportagem, dos quais “Mar de lama” faz parte, o jornalista já havia mencionado que a sua fonte são os auditores do TCU, atendendo à exigência do gênero de comprovar a veracidade do que é dito. Em “Mar de lama”, então, o jornalista se sente à vontade para emitir uma opinião compatível com a da figura de leitor que constrói em seu discurso, o cidadão, dizendo, na avaliação, que esses casos de corrupção são “uma estranheza atrás da outra”. Por esse motivo, a emissão de uma opinião por parte do jornalista não implica a perda de sua face, já que ele não se expõe como alguém que opina sem provas.
A estrutura hierárquico-relacional da sequência (figuras 7 e 13) também revela a busca do jornalista por valorizar a face do leitor, que se constrói como um cidadão interessado no bem público. Isso porque o jornalista ancora o sumário e a avaliação em constituintes subordinados, reservando os constituintes principais para os episódios em que busca
146 informar desvios de verba e a situação atual da BR-342. Com isso, ele sugere que o compromisso principal de seu discurso é com a informação e não com a emissão de pontos de vista.
O jornalista relativiza essa neutralidade ou essa busca por construir um efeito de objetividade na marcação linguística, ao se valer de forma intensa de recursos argumentativos. Assim, a frequência de relações argumentativas revela um jornalista empenhado em convencer o cidadão de que é absurdo o desvio de verbas destinadas a obras públicas.
Como se vê, a sequência narrativa funciona como uma estratégia discursiva importante, porque auxilia o jornalista a preservar sua face e a do cidadão, apresentando-se como um profissional merecedor de credibilidade, que toma a palavra apenas para revelar acontecimentos de interesse do cidadão.