Como foi dito no capítulo anterior (2.4.2), em trabalhos sobre as formas de organização sequencial e composicional, os termos gênero do discurso e contexto não recebem uma definição precisa. Isso porque ora designam uma mesma noção, que são as visadas (FILLIETTAZ; GROBET, 1999; ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001), ora designam noções distintas, que são as características típicas de uma atividade linguageira para o gênero e as finalidades que caracterizam uma interação específica para o contexto (FILLIETTAZ, 1999).
Entretanto, em trabalhos dedicados ao estudo do módulo referencial, Filliettaz (2000, 2006) propõe uma definição consistente dessas noções, as quais, em uma perspectiva psico-social, designam aspectos distintos, mas não radicalmente opostos, do agir. Com
103 essas noções, o autor busca dar conta da “relação dialética fundamental entre o que se pode chamar de ‘recursos tipificantes’ do agir e suas ‘realizações efetivas’” (FILLIETTAZ, 2000, p. 47). Para orientar suas ações em uma situação específica, os agentes mobilizam representações esquemáticas (genéricas) acerca da atividade que protagonizam. Mas, ao mesmo tempo, os parâmetros contextuais da situação levam esses mesmos agentes a submeter essas representações esquemáticas a um processo de “avaliação” local, processo que relativiza o caráter determinista que essas mesmas representações poderiam apresentar.
Como esta versão da forma de organização sequencial se ocupa do impacto do gênero do discurso sobre a constituição dos tipos discursivos, o presente subitem vai se deter na apresentação um pouco mais detalhada apenas da noção de gênero. A definição de contexto, bem como de seu papel na interação serão discutidos mais adiante, na apresentação da forma de organização estratégica.
Para Filliettaz (2000, 2006), os gêneros são o componente sócio-histórico das produções discursivas. Reportando-se a Bakhtin, observa Filliettaz (2006, p. 75): “os discursos não emergem do nada e não fazem o objeto de uma (re)invenção perpétua, mas repousam sobre gêneros e modelos intertextuais sócio-historicamente constituídos”. Nesse sentido, os gêneros dizem respeito a conhecimentos compartilhados pelos membros de uma coletividade, conhecimentos que atuam como os princípios organizacionais que regem uma atividade social intersubjetiva reconhecida (FILLIETTAZ, 2000).
Aproximando as noções de gênero do discurso, de Bakhtin, e de enquadre da experiência, de Goffman, Filliettaz (2006, p. 75) define o termo atividade, trazendo esclarecimentos suplementares acerca da noção de gênero que adota: “o termo atividade designa para nós, no plano sócio-histórico, práticas atestadas, que se distinguem por seu caráter recorrente, pelo fato de que são coletivamente validadas e são próprias a um sub- domínio da vida social”. Ainda segundo o autor (p. 76), as atividades são práticas “cujo funcionamento obedece a regras relativamente estáveis, a propósito das quais os indivíduos elaboram representações de caráter tipificante lhes permitindo ‘enquadrar’ sua experiência. É nesse nível que mecanismos de tipo genérico atuam”.
É, então, com base nessa noção de gênero do discurso (ou de gênero de atividade, como propõe Filliettaz (2006)) que o modelo modular busca dar conta do fato de que
104 os acontecimentos passados deixam traços na experiência do presente, de modo que as relações dos indivíduos com seu ambiente não são radicalmente “inventadas” por eles, mas necessariamente “mediadas” por indexações sociais e conhecimentos coletivos interiorizados (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001, p. 105).
Nessa perspectiva, cada gênero diz respeito a um conjunto de representações esquemáticas e sócio-historicamente adquiridas que os membros de uma coletividade ativam para participar das atividades sociais. Em outros termos, os gêneros podem ser entendidos como representações esquemáticas socialmente partilhadas sobre as condições de produção dos discursos ou sobre o mundo em que o discurso se insere.
No módulo referencial, o estudo da mobilização de recursos tipificantes para participar de atividades sociais resultou na proposição de instrumentos de análise explícitos. Esses instrumentos são as representações conceitual e praxeológica, os quais descrevo a seguir, aplicando-os no estudo do gênero reportagem impressa.
Nesse módulo, considera-se que os agentes dispõem de conhecimentos esquemáticos acerca dos objetos, seres e noções, os quais são suscetíveis de ser mobilizados em uma interação (FILLIETTAZ, 1996; FILLIETTAZ; ROULET, 2002). A representação conceitual busca explicitar esses conhecimentos, vistos como propriedades que podem ser atribuídas a conceitos e que se distinguem por um forte grau de tipicalidade. Por isso, a representação conceitual deve ser entendida como um construto coletivo, resultante de uma seleção operada pelas atividades sociais.
Assim, a representação conceitual do gênero reportagem impressa deve se compor de algumas propriedades típicas do mundo em que as reportagens se inserem. Dessa forma, toda reportagem impressa tem um autor e um leitor. Essas instâncias agentivas assumem, respectivamente, os status sociais institucionalmente definidos de jornalista e de cidadão. Considero que o status social do autor é o de jornalista, porque, segundo Charaudeau (2006, p. 73), no discurso midiático o jornalista “não é o único ator, mas constitui a figura mais importante”. Afinal, é a essa instância que se atribui a enunciação aparetemente homogênea do discurso midiático. Quanto ao leitor, o seu status é o de cidadão, porque, como as questões e os acontecimentos abordados nas reportagens interessam à coletividade, é a uma instância cidadã que o jornalista se dirige (EMEDIATO, 2007) ou a uma figura de leitor que considera que as instituições
105 públicas e privadas devem estar a serviço da construção de uma sociedade (coletividade) democrática (WOLTON, 2004).
A participação desses agentes em uma dada atividade (produzir/ler uma reportagem) se justifica por meio de finalidades ou visadas específicas (CHARAUDEAU, 2004; MARCUSCHI, 2005a; NEVES, 2010). Enquanto o jornalista busca informar e captar o leitor, satisfazendo suas exigências de credibilidade e de atualidade, o leitor busca informar-se, consumir um produto comercial e validar suas exigências de credibilidade e de atualidade (BURGER, 1999; CHARAUDEAU, 2006).
No caso do jornalista, que é quem produz o discurso, a busca por informar o leitor sobre fatos da atualidade leva-o a apresentar uma informação que seja importante o suficiente para merecer a atenção do leitor, ou seja, que chame a atenção do cidadão (status social), o qual espera, por meio do gênero reportagem, ser informado (alertado) sobre problemáticas atuais relativas ao espaço público56 (BURGER, 2002, 2004; CHARAUDEAU, 2006).
O jornalista precisa ainda satisfazer as exigências de credibilidade do leitor, legitimando os fatos por meio da apresentação de fontes, da avaliação de terceiros (especialistas, autoridades, documentos oficiais), de dados numéricos, do confronto de diferentes pontos de vista, etc, para criar um efeito de objetividade e fazer parecer que suas palavras constituem uma espécie de “fotografia do mundo” (MACHADO, 2002, p. 66).
Ao mesmo tempo, o jornalista precisa tentar captar o leitor, na busca por garantir a fidelidade de um público consumidor, tendo em vista a concorrência comercial entre as empresas de comunicação (BURGER, 1999; GROSSE, 2001). Para atender a essa visada, ele pode se valer de estratégias de espetacularização da informação, como ironias e avaliações feitas por si mesmo (CHARAUDEAU, 2006), de estratégias que auxiliem na compreensão do discurso, como títulos e subtítulos sumarizadores (VAN DIJK, 1992), ou ainda de estratégias que o ajudem a preservar a face do leitor, como ausência de ataques que possam ferir sua ética, suas crenças e seu comportamento (BURGER, 1997, 1999, 2002).
56 Wolton (2004, p. 511) assim define a noção de espaço público: “Trata-se de um espaço simbólico, no
qual se opõem e se respondem os discursos, na sua maioria contraditórios, dos agentes políticos, sociais, religiosos, culturais e intelectuais, que constituem uma sociedade”.
106 Na atividade que define a reportagem, opera-se ainda uma seleção dos conteúdos comumente mobilizados pelos agentes. Esses conteúdos (ou “os universos de referência da imprensa” (EMEDIATO, 2000, p. 41)) são mais ou menos estáveis e costumam ser indicados pelas diferentes rubricas ou cadernos de um jornal ou revista: política, cotidiano, esporte, cultura, etc. E, tendo em vista o status de cidadão assumido pelo leitor, interessam não a indivíduos isolados, mas a parcelas mais amplas da população. Além disso, a veiculação de qualquer reportagem impressa está associada a um suporte, ou seja, a um local físico de fixação e circulação da produção discursiva (jornal, revista) (MARCUSCHI, 2003, BONINI, 2006), que tem uma materialidade interacional característica57 e uma data de publicação. A representação conceitual do gênero reportagem pode ser esquematizada com o auxílio da seguinte figura.
FIGURA 9 - Representação conceitual do gênero reportagem
Já a representação praxeológica busca descrever alguns percursos acionais típicos de uma atividade social. Com essa representação, não se pretende descrever o conjunto de todas as ações que podem efetivamente ser realizadas pelos interactantes, mas, sim, apreender elementos de experiências anteriores, em que eles baseiam suas ações (FILLIETTAZ, 1997; ROULET, 2004). De acordo com Filliettaz (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001, p. 108), “traduzindo expectativas e não instruções
57 Nessa representação, a materialidade da interação designa apenas uma propriedade do conceito
reportagem. A análise detalhada dessa materialidade é feita no módulo interacional, com base em três
parâmetros: elo, canal e reciprocidade. A apresentação desse módulo será feita adiante, no estudo do contexto na forma de organização estratégica.
107 normativas, as representações praxeológicas exprimem alguns elementos do substrato da experiência passada dos agentes, elementos sobre os quais se fundam suas condutas presentes”. Por resultar de elementos de experiências anteriores, essa representação não é estritamente individual, devendo ser considerada, portanto, um construto coletivo, “ao qual devemos atribuir uma validade social” (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001). Assim, à transação de compra e venda de um livro, por exemplo, subjaz uma representação praxeológica que comporta preferencialmente, segundo Roulet (1995) e Filliettaz (1997, 2000), as ações de entrar, cumprimentar, comprar/vender um livro, pagar, agradecer, sair.
A produção de uma reportagem envolve um conjunto de procedimentos menos rígido ou ritualístico do que uma transação de compra e venda. Entretanto, diferentes estudos (BONINI, 2009; VAN DIJK, 1988, 1992) mostram que as etapas de produção da reportagem e de gêneros próximos, como a notícia, são alvo de tipificações, na medida em que é possível observar recorrências ou regularidades nessas etapas e na ordem em que são realizadas.
O exame de exemplares de reportagens evidencia que o jornalista costuma iniciar a interação com uma fase de abertura, que se textualiza por meio do título e do subtítulo. Essa fase é seguida pela fase de apresentação do fato, por meio da qual o jornalista informa a descoberta ou percepção desse fato e apresenta opiniões a seu respeito. Em seguida, seguem as etapas de contextualização do fato e de esclarecimento de suas implicações. Por fim, a interação entre o jornalista e o leitor costuma se encerrar com o fechamento, fase na qual o jornalista apresenta uma avaliação geral sobre o fato58. Proponho que esse percurso acional típico possa ser esquematizado por meio da seguinte representação praxeológica.
58 Esse percurso foi elaborado com base, sobretudo, no estudo de Bonini (2009) acerca da estrutura do
gênero reportagem, mas também se pautou na análise informal das reportagens constantes do corpus desta pesquisa.
108 FIGURA 10 - Representação praxeológica do gênero reportagem
Tal como definidas, as representações genéricas conceitual e praxeológica devem ser vistas como o produto sócio-histórico de condutas sociais efetivas e, por isso, formam um conjunto de conhecimentos com o qual é possível definir o gênero reportagem. Conforme Filliettaz (no prelo, p. 08), essas representações “são o produto da avaliação de atos anteriores, resultam de uma lógica de generalização e constituem para os indivíduos recursos para se orientar em situações presentes ou futuras”.
Abertura
(título)
- chamar a atenção para um aspecto do fato (subtítulo) - sumarizar o conteúdo da reportagem Apresentação do fato - informar a descoberta/ percepção do fato - justificar o fato - apresentar opiniões Fechamento - apresentar uma avaliação geral sobre o fato
Esclarecimento das implicações do fato
- informar as consequências do fato - ressaltar um aspecto particular do fato - apresentar possíveis soluções para o fato - ilustrar o fato com casos concretos - informar medidas decorrentes do fato - informar polêmicas decorrentes do fato - apresentar opiniões
Contextualização do fato
- recapitular origens/causas do fato
- explicar a atuação de figura/entidade pública - problematizar a atuação de figura/entidade pública
- informar as motivações de figura/entidade pública
109 Nesse sentido, essas representações revelam a existência de uma rotina profissional ligada ao mundo em que se realiza a construção de uma reportagem. Essas representações mostram, assim, que os autores de uma reportagem não são tão livres quanto fazem supor algumas abordagens do discurso (VAN DIJK, 2008), mas, ao contrário, agem no interior de um quadro de “restrições situacionais” (CHARAUDEAU, 2004, p, 28).
Como veremos a seguir, esses recursos têm impacto sobre a constituição do mundo representado nas sequências narrativas presentes em reportagens. Em outros termos, eles influenciam a constituição da representação praxeológica que define o tipo narrativo da reportagem, porque criam expectativas quanto às propriedades referenciais que esperamos encontrar em uma sequência narrativa extraída de uma reportagem.