A reação de alguns dos senhores de terra, que se negaram a contratar a mão-de-obra dos negros libertos, fez com que mais uma vez se intensificasse o discurso da terra prometida em relação ao Brasil. Entre 1875 e 1914, mais europeus, desta vez camponeses alemães, espanhóis e italianos pobres, além dos japoneses, todos sujeitos desejosos de uma terra rica e barata e, em alguns casos, fugitivos de guerras, também chegam a este território brasileiro.
Stédile (2005 p.25), em análise desse processo, revela a sua compreensão quando descreve que:
A saída encontrada pelas elites para substituir a mão de obra escrava foi realizar uma intensa propaganda na Europa, em especial na Itália, Alemanha e na Espanha, para atrair os camponeses pobres excluídos pelo avanço do capitalismo industrial no final do século 19 na Europa [...] mais de 1,6 milhões de camponeses pobres da Europa chegam ao território brasileiro.
Essa saga dos imigrantes europeus em busca de um lugar capaz de produzir com fartura atendeu muito mais aos interesses dos antigos senhores de escravos, proprietários dos grandes latifúndios, em conseguir mão-de-obra em vez dos desejos desses imigrantes. As estatísticas organizadas por Darci Ribeiro (1997, citado por STEDILE, 2005 p. 294 -295) revelaram a coincidência histórica desse período, o número de imigrantes europeus praticamente coincide com o número da última estatística de trabalhadores escravizados.
Relatório governamental (BRASILIA, 1997)30, ao realizar uma síntese desse período, permite-nos reforçar a idéia de que apenas uma parte desses imigrantes viu-se à frente da realização de seus desejos:
O fim do tráfico de escravos para o Brasil, em 1851, provocou um desembarque maciço de imigrantes europeus no país. As oligarquias brasileiras precisavam de mão-de-obra barata, para substituir o braço escravo, nas plantações de café do sudeste. Melhor sorte tiveram os europeus que haviam chegado algumas décadas antes, no sul do Brasil . À época, a necessidade do regime imperial brasileiro era a de povoar o território da fronteira sul do país, caracterizado por grandes vazios populacionais, constantemente ameaçado por invasões dos países vizinhos e que se havia declarado independente do Brasil, durante uma revolução que durou dez anos (1835/45) e na qual os separatistas foram derrotados. (BRASILIA, 1997 )
Assim, na região Sul do Brasil, os imigrantes europeus receberam lotes médios de terra e a maioria progrediu. Esta é uma das características de povoamento que explicam o fato de o Estado do Rio Grande do Sul ser mais equilibrado do que os demais Estados Brasileiros, no que se refere à estrutura fundiária e à utilização da terra. Esse Estado praticamente não possui latifúndios improdutivos e o nível de problemas de definição de títulos de propriedade é irrisório em relação aos demais estados da federação. (BRASILIA, 1997).
A outra parte dos imigrantes europeus, que se constituiu da maioria, viu seus sonhos transfigurados, como, poeticamente, Cecília Meireles compara o processo de se transfigurar, ao luar que entrou pela sala e ficou disforme. Ousamos fazer essa analogia, quando o sonho da terra desses sujeitos, que entraram no País, carregados de toda a sua representação simbólica para organizar a vida, obter prazer, foi deformado pelas intenções dos senhores de café, constituindo-os em sujeitos sem terra, sem dinheiro, de teto cedido e possuidores apenas de sua força de trabalho. Ao relatar essa parte da história Stédile (2005 p. 25), afirma que:
Parte dos imigrantes foi para o sul do país, [...] recebendo lotes de 25 a 50 hectares; parte foi para São Paulo e para o Rio de Janeiro, não recebendo terras, mas sendo obrigados a trabalharem nas fazendas de café, sob um novo regime denominado colonato.
30 Brasília, (1997) Documento reforma agráriaCompromisso de Todos do governo de Fernando Henrique
Sintetizando, independentemente do tempo real31, um lado era formado pelo grupo de colonos europeus que receberam terras e, na ânsia de sanar as dívidas contraídas com passagens, alimentação e até mesmo com o valor utilizado para a compra da terra, integrou-se ao sistema de produção de mercado. Esse foi o preço da conquista de seu sonho, da realização do seu desejo e, da sensação do prazer.
Do outro lado, os colonos europeus que, desprovidos de terra própria, substituíram os escravos nas lavouras de café, formadas pelo trabalho escravo, e receberam-na pronta no sistema de colonato32. Esses sujeitos produziam a agricultura de subsistência, no entanto, a terra pertencia a um único sujeito “Barão/Coronel do Café”. Por isso, essa lógica em nada mudou a estrutura do latifúndio, com produções de monoculturas, o desejo transfigurado e a sensação do desprazer.
No Estado do Pará, a chegada do imigrante europeu realizou-se em menor proporção. Hébette (2004) registra a presença de imigrantes em 1875, vindos da Argentina e, em 1876, franceses, vindos do Canadá. Esses dois grupos foram alojados no local onde, hoje, se localiza o município de Benevides. O primeiro grupo não permaneceu nessa área. Esses fatos marcam o processo de ocupação deste território, com dimensões diferentes dos estados brasileiros do Sul e Sudeste.
A ausência de um contingente relativamente capaz de substituir a mão de obra escrava direcionou, nesse período, o aumento do interesse dos donos de terra no Estado do Pará, nos grandes latifúndios, principalmente para as fazendas de criação de gado, uma história contada em versos e prosas, como descreve Hébette (2004, p. 34-35, vol.II):
após a abolição da escravidão, em 1888, as fazendas de lavouras desaparecem por falta de braços, permaneceram as fazendas de gado, verdadeiros mini-municípios com os seus moradores espalhados, seus trapiches, seus comércios, tudo sob o controle do então coronel. Quem descreve maravilhosamente essa organização social é Dalcidio Jurandir nos seus romances Marajó (1947) e Chove nos Campos de Cachoeira (1941). O coronel é patriarca da família; é o pecuarista que dirige a empresa; é o chefe político ao qual todo eleitor deve fidelidade; é o delegado de policia; o juiz. Dele é a escola, o comércio, a capela, o trapiche e o barco. É o dono da terra e dos que nela habitam.
31 Observação que achamos necessária, mediante o fato de duas fontes utilizadas, o documento do governo do
FHC 1997 e o estudos de Stédile, descreverem o mesmo processo em períodos distintos. Conforme as citações utilizadas.
32 Segundo Stédile (2004 ) Neste sistema, milhares de famílias foram obrigadas a vender sua mão de obra para
cuidar de um determinado número de pés de café, recebiam o pagamento apenas no final da colheita em produto, ou seja, café e não em dinheiro, o contrato também incluía o direito à casa e à produção de subsistência utilizando aproximadamente dois hectares de terra.
Assim, independente da região ou da prática especifica (lavoura de café no Sul ou Sudeste do país ou as fazendas de gado no estado do Pará), até 1930 pouco se alterou na estrutura do latifúndio no Brasil, da Amazônia e de modo específico do Estado do Pará. A possibilidade de dividir a terra, desde aquela época, estava longe dos interesses da elite política desse país. O que resultou foi, o aumento quantitativo do contingente de sujeitos desejosos de um pedaço de terra para trabalhar e melhorar de vida.
A partir dessas duas promessas não realizadas, podemos dizer que esse contingente de sujeitos insatisfeitos lutou por terra sem a existência de um Projeto Nacional de Reforma Agrária.
Desta forma, surgiram, no Brasil, várias formas de lutas: contra o cativeiro (escravidão), contra a exploração, e, conseqüentemente, contra o cativeiro da terra, produzido com a Lei de Terras de 1850. Esses movimentos posicionaram-se contrários à expulsão das terras, que marcou as lutas dos trabalhadores contra o coronelismo e o latifúndio.
3.1.3 Nos fios do desejo da Terra: o início da Luta pela mudança na estrutura