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Data da morte Caracterização dos mortos

....05.80 1 posseiro 08.01.81 1 líder sindical 29.05.82 6 trabalhadores rurais 01.12.83 2 trabalhadores rurais 20.12.83 1 posseiro 24.12.83 2 posseiros e 1 pistoleiro 06.01.84 1 trabalhador rural 01.12.84 1 líder sindical 13.12.84 1 posseiro 13.12.84 1 posseiro

FONTE: elaborado Pela autora desta pesquisa, a partir dos dados do IDESP –PA/1988

Ainda segundo esse mesmo documento, havia sujeitos feridos, espancados, presos, ameaçados de morte, impedidos de ir e vir e aproximadamente 8.000 famílias ameaçadas de despejo. Histórias que marcaram a vida e a memórias dos sujeitos assentados dessa região:

Foi assim que o meu pai comprou essa terra aí e nós nos apossemos. Ai teve uma brigada ai, dessa terra da CIDAPAR. veio um bucado de fazendeiro chegou ai e butou nós pra correr. E nós foi se embora pra Belém . Eu passei 12 anos lá e voltei de novo pra cá. É quando eu fui tomar conta de outro lote , já herança do pai da minha mulher que deu pra ela. (FRANCISCO 45 anos, Entrevista Conversacional em jun/jul2006)

Apesar de os dados oficiais apresentarem a estatística de 18 mortes, a realidade ganhou proporções que fugiram ao completo controle do Estado. A imprensa divulgava uma realidade que oficialmente não era contabilizada, pois havia colonos, sumidos, mortos, expulsos de suas terras e, um Estado completamente omisso, esperando que a solução viesse das disputas jurídicas.

Em face desse cenário, a descredibilidade da ação do Estado em defesa dos colonos e posseiros, diante das constantes ameaças de despejo e morte pelos pistoleiros, em nome das empresas. Os colonos, sentindo-se abandonados à própria sorte, encontram em Quintino da

Silva Lira (1947- 1985) um quase-herói, nos estudos de Loureiro (2001), o último bandido social.

Cercando de simbologia, Quintino, que entrou nessa luta, em 1983, representou o conjunto de expectativas, angústias e contradições da luta dos colonos em relação ao poder político e econômico das empresas e ao projeto de desenvolvimento do Estado. Ele, o último bandido social, deveria restaurar a paz, mas para isso ele matou os agressores dos colonos.

Nesse sentido a luta de Quintino foi uma luta solitária, no entanto, ele contou com os colonos na hora do enfrentamento com o pistoleiro, com o fazendeiro e com o policial. A narrativa de Bené mostra-nos a proximidade desse bandido social junto a população além de deixar claro, o seu apoio ao legitimar essa ação a partir da justificativa do próprio Quintino:

Depois da morte do Paraná que veio pra cá, chegou aqui...então nessas alturas Quintino chegou em casa, aí eu num sabia quem era Quintino, aí chegou na hora do armoço, chamei pra armoçá, ele chegou armado de cartucheira...aí falei “bora armoçá?”, “vambora”, aí ele levo a espingarda pra mesa, armoçô mais eu. Ele disse “o senhor sabe com quem o senhor ta falano?” eu digo “não!”, “ o senhor ta falano com Armando Quintino, o que matou Paraná, essa espingarda, esse revólver era dele, eu fiquei com ele porque difunto num precisa fica cum essas coisas e, eu to aqui pra ajuda vocês nessa Luta, querem tuma as terra de vocês que nem tumaro a minha, mas essa terra num toma. (BENE 50 anos, Entrevista Conversacional em 2006)

Quintino, antes de ser pistoleiro, foi um lavrador, transformado em um fora-da-lei, que luta por justiça, para que os colonos não sejam desapropriados de suas terras, como ele foi, após 08 anos de luta jurídica. E de nada adiantaram os apelos aos políticos locais, como o apelo ao próprio Presidente, via carta. Esse sentimento de indignação é manifestado no próprio depoimento de Quintino:

Eu era lavrador, acontece que os fazendeiros não queriam me deixar trabalhar, queriam tomar o que era meu. Botei na justiça a minha questão; em oito meses eles não me deram apoio. Ocupei até o Presidente da República e eles não me deram apoio e era eu e mais 32 posseiros. Ou melhor dizendo, éramos 33, mas um deles o fazendeiro mandou matar e ficamos 32. Botei oito meses na justiça e eles não me deram o direito, e eu resolvi matar o fazendeiro. Matei gerente, matei pistoleiro e o escambau (...) (QUINTINO em Entrevista a Paulo Roberto Ferreira em 1984 In LOUREIRO, 2001, p. 242)

A questão é que, quando os colonos chamaram Quintino para defendê-los, não chamaram um homem comum, mas alguém que se tornou capaz de responder “positivamente” (aqui entendido como uma capacidade de usar a mesma linguagem dos pistoleiros) à difícil

situação vivenciada pelos colonos. Ele vem para pôr um fim nesse impasse entre as empresas e os colonos, entretanto dá início a uma nova fase na comunidade.

Além das personagens já conhecidas, Colonos, Posseiros, Empresas, Pistoleiros, na era do Quintino, os Policiais passaram a fazer parte dessa realidade, com um objetivo definido: capturá-lo. Um Exército, que até então fechara os olhos para as violências e mortes nesse território, começou a freqüentá-lo e, muitas vezes, intimidou os colonos para que revelassem o destino do Quintino. Das memória de um tempo passado de Antonio, emergem os sentimentos de medos da coesão sofrida por essa população pelo destacamento policial:

A história que eu conheço aqui mais dificio foi no tempo da briga do Quintino. Eu era criança, mais ainda me alembro, nós morava no nosso lote e, teve uma época, ai teve a revolução ..ai. a briga, a policia andava passando. Até que um dia, nos tava lá pras doze horas do dia, e, lá vem o batalhão de policia que andava atrás dele. Ai vinha o conhecido do papai. Vinha na frente junto com o batalhão.

É que eles (policiais) não sabiam o caminho do Cristal, ai pediram pra ele levar até o faveiro e até o Cristal, ai ele foi. Só que quando ele ia passando em casa, o meu pai viu de longe e, disse: oh rapaz! Lá vai o nosso amigo preso.

Lá veio o ataque e minha mãe desmaiou e caiu. Ai o safoco. Lá vai o meu pai correr, pra dá pra ele garapa de açúcar, pra ver se ela tornava. (ANTONIO 38 anos, Entrevistas Conversacional em jun/jul-2006)

A opção de Quintino por lutar pelos colonos fez da CIDAPAR o berço de sua fama e de sua morte. Uma história de vida, meio às avessas, como disse Hobsbawm (1976), um social clássico, no estilo Robin Hood. Um fora da lei que se torna o justiceiro dos pobres. Uma relação que, segundo Loureiro (2001), constituiu-se numa dinâmica conflituosa, de semelhanças e diferenças, em que os colonos, envolvidos nos movimentos em defesa pela terra, procuravam abrir espaços para o diálogo e as negociações com as autoridades e organizações com vistas a defenderem seus direitos. Já Quintino tentou destruir, eliminar o autor de cada uma das violências presenciadas ou sabidas, na tentativa de eliminar o mal.

Por isso mesmo, sua forma de luta o aproxima muito das guerras nacionais de guerrilha, com eficiência questionável (Hobsbawm, 1976), uma forma de luta com limitações na sua maneira de ser. O banditismo social quase não tem organização ou ideologia, sendo totalmente inadaptável aos modernos movimentos sociais, colocando, muitas vezes, em risco, a população que defende, como nos narra Francisco ao expor seu medos e aflições de um tempo pretérito em que a infância foi marcada pelo confronto entre os policiais e o Quintino:

canguaceiro deles (se referindo aos pistoleiros das empresas e aos policiais). Deles vir e matar a gente.

Por que naquele tempo, não existia estrada, só caminho. Ai eles butava armadilha(bando do Quintino), uns bufetes que abre caminho que era pra quando a policia entrasse.

Ai o Quintino, mandava avisar a gente em casa que quando a policia passasse era pra gente correr de casa. Por que se ela caísse no bufete e agente não avisasse, se escapavam, vinham matar nós, que não tinha avisado eles, que tinha armadilha no caminho. Ai nós saia de casa. Papai, mamãe e nós, tudo criança, vinha a reboque pro meio do mato. Ia dormir no mato, em barraco veio, no meio do mato, encarreirado (no sentido de correr), passava até de oito dias no meio do mato. Só vinha em casa butar ração pra criação, mas era tudo encarreirado. Qualquer barulho que tinha, lá ia, nós tudo, encarreirado pra dentro do mato, pensando que já era os homens que vinham chegando. (FRANCISCO 45 anos, Entrevista Conversacional em jun/jul2006)

O efeito contrário desse cenário de guerrilha que se instalou na região é relatado neste outro depoimento, que revela a coerção da polícia contra os colonos, obrigando-os a lhe darem abrigo e prendendo os representantes da comunidade, são lembranças que surgem da Memória do seu Manduca que aos 78 anos de idade revive aqueles momentos ao relatar:

Um dia eu tô em casa. Nós já morava no Japim. Eu tô lá, aí chegou o batalhão: Delegado Clóvis, Sargento Lameira e Tenente, aí num sei quem era o guarda. Nesse tempo a gente tinha um motor de luz.

Policia :-você é que guarda o Quintino?

Respondi: - Quem sou eu pra guardar ninguém, eu dou hospedagem pra eles. Agora guardar eles, eu num guardo não.

Policia: -dá pra você dá pra nóis aqui? -dou.

Policia: Tá muito bem então, cadê ele, tá aqui? Não , ele num tá. num sei, mas aqui ele num tá não. Policia: - Mas. onde é que ele mora?

-Ele tem uma casa pra banda do Faveira, agora ele mora pra cima e pra baixo, Policia: -Tá bom, ele num tá...num vem pra cá hoje?

-Num sei.

Policia: Então ocê agasaia nóis aqui.

Agasaiei a policia. Mandei a muié faze café. A muié fez, levou bolacha, levemo tudo pra eles lá. Quando foi umas horas, um cara na bera do rio gritou:

- Ei Bené 200, ei Bené 200 ( me chamam Bené duzentos) - traiz a canoa.

Eu pensei: Vixe Maria! Era um dos caras pistoleiros, que andava com ele (Quintino) da turma, colono também. Mas tava estragado (tinha entrado no bando). Eu pensei: vixe Maria, e agora? É o Expedito, o Expedito que anda com o Quintino ou o Onofre, é

algum dos dois,

O Zé Tibúrcio ( Policial ) disse: Ei! seu Bené. Né o senhor que é Bené? Respondi :sou

Policia - O cara ta te chamando no açude, pra atravessar, num é a turma do Quintino?

Eu tinha escutado o grito do cara. Cunhecia e, num disse quem era. Eu disse: talvez seja o açougueiro que foi busca um boi pra aí e, vem uma hora dessa.

Ele disse: o senhor vai atravessar mas num diga que a policia ta aqui.

Eu cheguei lá e vi que era o bando, eu disse: ih rapaz, corre e avise pra ele (Quintino) que aí em casa tem umas 100 polícia.

Eu butei logo umas 100, aí correram, com as lanterna acesa. Fui foi avisar.

Ai, quando voltei, me prenderam logo. Isso era de madrugada. Amanheceu o dia e me algemaram . Já tinha um vaqueiro algemado dentro do carro. Fumo bater no Cristal. Do Cristal , fumos pra uma fazenda lá perto. Quando chegamo lá, prenderam o Antonio Texeira. No outro, dia prenderam o Chico Barbudo e, depois o Ricardo.

O padre tava no japim, tava até celebrando missa ai viemo pra cá preso, Chico Barbudo veio preso, aí viero conversando Chico Barbudo, Chico Barbudo é formado, fizero...na

conversa com o Chico Barbudo, o tenente Lamera mandou...chamou o guarda quem tinha a chave da algema pra tirar do braço dele.

Ele disse: - não, eu vou algemado mermo. Policia não, você num pode não. -vamo vê se eu posso ir algemado.

Pegaram a chave lá, e tiraram, aí veio sem algema.

Nós fumo preso pro 47, quando nóis tava no 47 preso. Foi lá que o pessoal que andava com os políticos, o Jader Barbalho, tava na pra Primavera, num sei lá onde era, foram falar com ele que nóis tava preso .

(MADUCA 78 anos, Entrevista Conversacional em 2006)

Entre a coesão policial e o bando do Quintino, a população do território da CIDAPAR, vivenciava um momento de terror e quebra de sua rotina de agricultores, as memórias, do Senhor Manduca, reconstroem o cotidiano de muitos desses sujeitos. Diante de toda a comunidade e da família, pais de famílias Trabalhadores da Terra, transformavam-se prisioneiros dos policiais, que caçavam o “bando do Quintino”.

Nesse contexto, de disputas pela posse da terra, entre os colonos e as Empresas, em que o Estado se omitiu, os colonos apoiaram de diferentes maneiras a luta armada chefiada por Quintino.

Embora questionável a essência de um “bandido social” ao modelo de Hobin Hood, a participação de Quintino no conflito existente no território da CIDAPAR chamou a atenção da sociedade de forma geral. A partir de sua entrada, esse conflito ultrapassou as barreiras do rural e chegou aos centros urbanos, pelos meios de comunicação. O jornal, a cada notícia, revelava à comunidade em geral a forma como os colonos sofriam com as pressões de todos os lados (empresas, policiais militares, pistoleiros e até mesmo parte do bando do Quintino).

O último ano de sua vida, 1984, pode ser narrado por meio de uma linha do tempo, a partir das noticias dos principais episódios que marcaram esse conflito, sintetizados no quadro

abaixo:

TABELA 7 : O ÚLTIMO ANO DO QUINTINO A PARTIR DE DADOS DA