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PROBLEMER VED GJELDENDE REGULERING OG ORGANISERING

4 PROBLEMSTILLINGER FOR BRUKERE AV PARKERINGSTJENESTER – GENERELT

4.3 ULIK HÅNDHEVING

Ampliada a noção de imagem a partir dos conceitos a respeito da percepção apontados por Henri Bergson (1859-1941) faremos inicialmente um caminho inverso do que a princípio poderia parecer mais lógico para desenvolver uma reflexão sobre a materialidade da imagem. Bergson afirma: Chamo de matéria o conjunto das imagens, e de percepção da matéria essas mesmas imagens relacionadas à ação possível de uma certa imagem determinada, meu corpo.7 Para esse filósofo francês a matéria estaria

menos relacionada aos dados físicos de um objeto material ou da realidade, observados como entidades concretas, definidas e estáveis, externas e independentes de nossos sentidos. Para ele a

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BERGSON, Henri. Matéria e memória. Ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 17. Obra original publicada em 1896.

37 matéria seria mais bem definida por um conjunto de imagens que compõem a construção de nosso entendimento sobre o mundo. Segundo ele todo conhecimento passa obrigatoriamente por uma elaboração por representações, ou seja, por imagens, mas tais imagens só podem ocorrer a partir de um corpo sensível. Daí a referência fundamental que faz ao corpo - “meu corpo” - como o lugar matricial de toda a experiência com o mundo e a partir do qual quaisquer observações e vivências ocorrem, sendo também filtro contumaz que dá sua indelével contribuição à percepção.

Há um sistema de imagens que chamo minha percepção do universo, e que se conturba de alto a baixo por leves variações de uma certa imagem privilegiada, meu corpo. Esta imagem ocupa o centro; sobre ela regulam-se todas as outras; a cada um de seus movimentos tudo muda, como se girássemos um caleidoscópio. Há por outro lado, as mesmas imagens, mas relacionadas cada uma a si mesma, umas certamente influindo sobre as outras, mas de maneira que o efeito permanece sempre proporcional à causa: é o que chamo de universo. Como explicar que esses dois sistemas coexistam, e que as mesmas imagens sejam relativamente invariáveis no universo, infinitamente variáveis da percepção?8

Para tentar responder essa questão, é importante ressaltar a diferença existente entre o sentir e o perceber, já que as sensações podem ser involuntárias e muitas vezes automatizadas e a percepção, por sua vez, estaria vinculada a uma elaboração capaz de transformar as sensações em representações e imagens. O sentir seria então uma qualidade interna do corpo, ligada ao real, e por isso mesmo ao efêmero das vivências pelas quais passamos em sucessões contínuas e fugidias. O perceber, intrinsecamente associado a esse sentir, elabora-o desde que aflore da sensação o interesse que faz impulsionar todo um complexo processo de elaboração cognitiva capaz de construir imagens e representações com um potencial de exteriorização, o que permite concluirmos que esse perceber possui uma duração. A essa elaboração corresponde uma condição de permanência possível a partir da imagem que, em sua virtualidade, mesmo que paradoxalmente, alcançaria assim uma materialização, uma forma concreta e passível de compartilhamento. Sobre esse mesmo tema da percepção Gaston Bachelard acrescenta que os valores sensíveis têm que se tornar sensuais para encontrar sua densidade no Ser. Segundo ele:

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38 Essa densidade que distingue uma poesia superficial de uma poesia profunda, nós a sentimos ao passarmos dos valores sensíveis para os valores sensuais. Acreditamos que a doutrina da imaginação só será esclarecida se pudermos fazer uma classificação correta dos valores sensuais em relação com os valores sensíveis. Só os valores sensuais dão “correspondências”. Os valores sensíveis proporcionam apenas traduções. 9

Assim, aliando os pensamentos desses dois filósofos poderíamos dizer que os valores sensíveis, estimulados por uma poesia, por exemplo - que nesse caso vamos tomar como um elemento do universo à maneira como Bergson conceitua -, só poderiam encontrar ressonância no indivíduo se transformados e adensados na experiência por seus valores sensuais, para assim encontrar sua forma como percepção. Ora, os valores sensuais se referem ao desejo e às escolhas de cada um e, muito especialmente, ao corpo e às suas afetividades. São oscilantes, dúbios, ambivalentes e paradoxais mas, por isso mesmo, dão uma consistência fundamental à vivência e são potentes „fabricantes‟ de imagens. Imagens que habitarão os sonhos, que buscarão sua substância nas palavras ou nas variadas linguagens da arte, imagens para serem compartilhadas. Uma sensação que „fisga‟ o indivíduo intimamente, sensualmente, alcança seu melhor aproveitamento como percepção que se estende naturalmente à categoria de reflexão, aqui compreendida também por uma definição apontada por Bergson e que alia os dois sentidos da palavra: (...) projeção exterior de uma imagem ativamente criada, idêntica ou semelhante ao objeto, e que vem moldar-se em seus contornos 10, sendo, portanto, uma construção imagética que procura dar vida e forma à experiência.

Para melhor lidar com essa questão optamos por explorar a fundamental associação entre corpo (com todas as suas características: físicas, motoras, sensoriais, psicológicas) e sentido (em sua potência

9 BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos. Ensaio sobre a imaginação da matéria. SP: Martins Fontes, 1998. 202 p.

p.22.

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39 sígnica, expressiva, linguageira 11, passível de transmissão e contato), âmbitos que denominaremos aqui Sôma e Sêma, respectivamente.

Sôma é um vocábulo de origem grega e se refere à “expressão material de um corpo” ou “o corpo como um todo” 12

. Mas esse corpo que é pura fisicalidade, com seus membros, órgãos, tecidos e humores13, só encontra seu funcionamento pleno e sua plena expressão se compreendido como presença sensível, o que faz com que possamos avaliar sua saúde, sua vitalidade, seu estado de equilíbrio ou desequilíbrio, não apenas por simples aparência, mas por suas respostas e reações intrínsecas e também a partir de sua adaptação e aptidão para promover complexas trocas com o ambiente e com o outro. O corpo – Sôma – constituído por um conjunto de interações dinâmicas que entrelaçam condições anatômicas, fisiológicas, psíquicas, contextuais e sociais, será aqui compreendido a partir dessa complexidade que lhe confere também significativa fragilidade diante do mundo e da experiência de maneira geral. É esse corpo, físico e sensível, a observar o mundo e interagir com ele que focalizamos aqui, considerando sobretudo a experiência que empreende em relação à imagem: na construção de sua própria imagem e na experimentação das imagens do mundo.

Nesse sentido consideraremos ainda outro termo, Sêma, importante em nossa reflexão, e necessário para compor o território que desejamos delimitar. Vocábulo da mesma forma original do grego, designa “sinal; caráter distintivo”, indicando ainda a ideia de “significação” e “sentido”. Segundo Régis Debray, a palavra Sêma designou originariamente a “pedra tumular”, o que resultou na origem do signo como semelhança. Sabemos que o túmulo, para muitas civilizações antigas, representava a

11 Utilizamos aqui um termo apropriado da tradução que Noemi Moritz e Marise Levy optaram por fazer na obra

A imagem inconsciente do corpo, de Françoise Dolto, para a palavra francesa “langagier”, expressando a idéia de „comunicar-se a partir da linguagem falada‟.(Dolto, 2004. p.11)

12 HOUAISS, 2001.p.2605.

13 Humores aqui se referem ao conjunto de substâncias que circulam e são produzidas e secretadas pelo corpo

como sangue, suor e urina. Sendo um termo pouco utilizado atualmente, nos parece bastante expressivo por trazer com ele todo um repertório relativo à teoria humoral e aos temperamentos descritos por Hipócrates (460 – 377 aC): o melancólico, o sanguíneo, o fleumático e o colérico, os quais se baseavam justamente nas alterações orgânicas manifestas através das substâncias em circulação.

40 imagem do morto, mantendo então sua presença viva e, muitas vezes, revelando-se a partir daí sua verdadeira importância para a coletividade, já que trans-substanciado em imagem e assim, em representação simbólica. Sêma está então diretamente conectado com a presença do corpo, sendo essa uma vinculação primordial e, por mais abstrata e elaborada conceitualmente que tenha se tornado a semiótica contemporânea, o suporte de experiência e de vivência que a engendrou não pode ser ignorado. Nossa apropriação do termo Sêma está, por isso mesmo, menos vinculado a um estudo semiótico que se desdobra de uma postura hermenêutica diante da produção artística e que não interessa a essa investigação, e mais vinculado às plurais reverberações de sentido que afloram da imagem em sua condição naturalmente polissêmica, em confronto direto com a percepção de um também multifacetado observador, o que evidencia a experiência como principal eixo de expressão e construção de conhecimento. Tais questões encontram ressonância no pensamento de Maurice Merleau-Ponty:

Um corpo humano está aí quando, entre vidente e visível, entre tocante e tocado, entre um olho e o outro, entre a mão e a mão se produz uma espécie de recruzamento, quando se acende a faísca do senciente-sensível, quando se inflama o que não cessará de queimar, até que um acidente do corpo desfaça o que nenhum acidente teria bastado fazer... 14

Merleau-Ponty, ao considerar que a consciência é perceptiva indica que não basta pensá-la como uma relação ou uma intencionalidade, mas que é preciso integrá-la à nossa experiência e às vivências do nosso corpo, como uma „subjetividade encarnada‟, fazendo com que o visível e o tangível se interceptem e se entrelacem. A possibilidade de experimentar a construção sensível que se processa em nosso confronto com a imagem, a partir de nossa percepção e, portanto, a partir de nosso corpo, é uma importante dimensão da experiência e de construção de conhecimento. Em última instância, se refere à integração entre a experiência sensível e a experiência cognitiva, onde a linguagem tem papel privilegiado como forma de expressão e compartilhamento. Não sendo exclusividade da arte, tal experiência aponta para a já antiga discussão sobre as relações entre essas duas operações: tanto a

41 ciência quanto a filosofia, mesmo que exaltando a experiência como fonte de conhecimento, muitas vezes isolaram ou encararam separadamente tais domínios, privilegiando um sobre outro ou vice-versa. Somos, entretanto, favoráveis à compreensão de sua interação e do enriquecimento que proporciona a conquista de sua associação. Henrique de Lima Vaz, filósofo e teólogo brasileiro contemporâneo comenta:

A oposição entre experiência e pensamento é o primeiro falso lugar-comum que convém remover. Uma tradição que corre paralela, seja na sua inspiração sensista, seja na sua inspiração intelectualista, costuma estabelecer entre experiência e pensamento ou entre o experimental e o teórico uma oposição fictícia que condenaria as espiritualidades contemplativas a um seco racionalismo e as espiritualidades da experiência a um cego irracionalismo (...). Com efeito, a experiência não é senão a face do pensamento que se volta para a presença do objeto. Daqui se infere imediatamente uma proporção direta entre a plenitude da presença e a profundidade da experiência, ou seja, a penetração dessa plenitude pelo ato de pensar. 15

A explicação dada por Lima Vaz traz uma enorme vitalidade à relação existente entre experiência e pensamento, numa associação poética onde os mistérios da criação e do conhecimento poderiam ser evocados como pulsão e como desejo, sugerindo que Sôma e Sêma se constituem mutuamente como numa relação amorosa. Tal afirmação feita por um teólogo alcança potente densidade já que reconhece que o espírito é igualmente alimentado pelos sentidos e pela razão. Os sentidos, em seu corpo a corpo com o real, possibilitam e engendram a experiência e a construção do conhecimento onde a imagem tem papel fundamental sendo linguagem e estruturação do pensamento.

Procurando compreender melhor nossa relação com a imagem pareceu inevitável recorrer a estudos e autores que se dedicaram a esse tema a partir da psicanálise, área que, historicamente, sempre se ocupou dessa relação entre o corpo e o sentido, e que tem como uma de suas áreas de interesse o estudo do desenvolvimento da criança, compreendendo-o como momento instaurador e decisivo para

15 LIMA VAZ, Henrique C. Escritos de filosofia. Problemas de Fronteira. Col. Filosofia Vol.3. São Paulo: Ed. Loyola,

42 a formação das bases para essa interação que todo indivíduo possui com o mundo e com a imagem, na sua percepção simbólica e no seu imaginário.