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6. CONCLUSIONS

6.5 Q UESTIONS FOR FUTURE RESEARCH

O vínculo narcísico com um objeto como pré-condição da melancolia é ponto de destaque para Freud. Neste vínculo, frente a uma situação de ameaça, a libido poderia regredir ao ego, através do mecanismo de identificação. É um vinculo paradoxal, que guarda ao mesmo tempo uma forte fixação no objeto e uma fragilidade de vinculação. Trata-se de uma frágil ligação libidinal na qual, frente a qualquer situação de decepção, ameaça, omissão, abandono ou falta por parte do objeto, a libido pode abandonar o objeto e retrair-se para o ego.

Mas em que consiste este vínculo do tipo narcísico? Segundo Bleichmar, (1983), podemos distinguir basicamente – no artigo de Freud sobre o narcisismo – dois tipos de vínculos narcísicos: aquele em que o sujeito se vincula ao objeto porque este o engrandece, e

aquele em que o objeto é semelhante ao ego do sujeito. Neste último, Freud (1914) aponta que o sujeito se liga ao objeto que, ou é semelhante ao que o sujeito é, ou foi, ou ainda, ao que o sujeito deseja ser. Um último caso também é possível: aquele que se liga a quem um dia fez parte de si-mesmo, como a relação da mãe com seu bebê, por exemplo.

No outro tipo de escolha, aquela em que o sujeito se liga a algo que o engrandeça, Freud (1914) oferece o exemplo da mulher que se apaixona pelo homem que a elogia e a admira, que lhe permita se sentir linda e perfeita. Bleichmar (1983, p.33) comenta sobre estas duas possíveis definições de eleição narcísica de objeto contida no artigo sobre o narcisismo de Freud:

Vemos então que em Freud a eleição narcísica de objeto abarca tanto a eleição que se realizou à imagem e semelhança do ego como a que se realizou para elevar a auto-estima, a vivência de perfeição, de plenitude, de onipotência.

Frente ao que foi considerado, entendemos que a vinculação narcísica ocorre sempre com o objetivo de incremento, de manutenção do amor próprio. A pessoa, na tentativa de sentir-se segura quanto ao seu auto-conceito, liga-se aos objetos segundo esta lógica da vinculação narcísica; podemos arriscar a dizer que ela se relaciona com o mundo e consigo mesma sempre em função do incremento de si mesmo. Mesmo a pessoa que toma para si como objeto alguém em função do que gostaria de ser está visando a este incremento. A manutenção da organização narcísica é o objetivo principal deste tipo de vínculo.

Seria este o significado da escolha narcísica? Acreditamos que sim, na medida em que a ligação narcísica visa sempre a uma manutenção do amor próprio, no sentido de que o objeto seja a via de realização, de recuperação, de encontro com o ideal, deste sentimento de amar-se, de valorizar a si mesmo. É uma opção louvável, já que o indivíduo desta maneira deseja manter ou recuperar a sua auto-estima. Esta lógica, porém, como bem sabemos, é muito arriscada, já que, se a vinculação com o objeto é do tipo narcisista aumentando a valorização de si-mesmo – a sua perda produzirá a diminuição do valor de si. Se na melancolia o objeto perdido é de natureza narcisista, quer dizer, aumenta a valorização do sujeito, sua perda produzirá uma diminuição desta (BLEICHMAR, 1983, p.37).

Contudo, devemos ressaltar que a vinculação narcísica predominante é característica de situações normais de desenvolvimento em extrema dependência, como o bebê que necessita de sua mãe para desenvolver suas capacidades e sua autonomia. Sabemos que o narcisismo do bebê é o narcisismo de seus pais, renunciado e projetado no infante. A ligação narcísica nem sempre é problemática, em muitas situações ela pode ser necessária. Quando temos bases narcísicas suficientes, não necessitamos depender dos objetos de forma absoluta e

totalmente idealizada – como no caso em que se constituiria um tipo de ligação narcísica, em que o narcisismo do sujeito está sempre em risco. Ter bases narcísicas suficientes significa dizer que não necessitamos nos vincular narcisicamente aos objetos de maneira absoluta.

Aqui temos uma questão que pode ser entendida a partir da noção de quantidade, pois sempre há uma quantia de narcisismo presente nos vínculos objetais. O predomínio deste tipo de ligação é que se torna preocupante e, de certa forma, uma pré-condição para o estabelecimento da melancolia.

Outra característica da vinculação narcísica é a de que o sujeito se torna exigente com seu objeto de satisfação, no sentido de que ele satisfaça suas exigências narcísicas, ao mesmo tempo em que se desenvolve uma extrema dependência do objeto para manter o valor de si mesmo. O problema de se ligar aos objetos com esta intenção – de se engrandecer, de buscar asseguramento narcísico, de recuperar seu narcisismo – é que gera uma ambigüidade: ao mesmo tempo em que satisfaz parcialmente o narcisismo do sujeito, este condiciona seu valor à relação com o objeto, isto é: o ego passa a depender do objeto para assegurar seu valor, passa a depender do objeto para sobreviver, para manter sua auto-estima, seu amor próprio. Neste ponto, retomamos o que afirmamos sobre a característica do vínculo narcísico: totalitário e frágil. À menor decepção causada pelo objeto, o ego põe em funcionamento um estado de mente melancólico, caracterizado pela identificação narcísica e pela ambivalência.

A percepção por parte do sujeito de que não pode sobreviver sem o objeto gera ódio e raiva. E tais sentimentos são completados pela percepção, ainda por parte do sujeito, de que o objeto pode sobreviver sem ele, que é autônomo e, em certa dose, independente. A dificuldade é perceber-se separado do objeto. Por este motivo, neste tipo de vínculo vemos a existência do controle onipotente do objeto: o sujeito passa a controlar o objeto e fazer de tudo para que este sinta também que não pode sobreviver sem ele. Assim se assegura a dependência também por parte do objeto. Faz-se com que o objeto também desenvolva uma dependência extrema da relação, isto é, com que o objeto sinta também que não pode sobreviver fora desta relação. Uma das características marcantes do vínculo narcísico é o desejo de fusão com o objeto. O sujeito busca indiscriminar-se do objeto, já que seu narcisismo encontra-se depositado neste.

Os sentimentos de ambivalência também atuam nesta lógica, já que se ama o objeto por ser este essencial a sua sobrevivência. Mas, por outro lado, também se odeia o objeto, pois a sobrevivência narcísica do sujeito está totalmente condicionada a ele, que, muitas vezes, é sentido por parte do sujeito como autônomo e independente.

Vale assinalar também que o objeto narcísico, representado em muitos casos por uma pessoa, pode ser também um trabalho, uma tarefa a cumprir, qualquer coisa que esteja vinculada à provação de valor do ego, como um ideal, por exemplo. Algo que satisfaça os ideais narcísicos do sujeito. Isto significa dizer que o objeto é idealizado? Que há um ideal no sujeito exigindo ser satisfeito? Eis algumas questões que serão retomadas adiante.