4. METHODS AND DATA USED TO TEST THEORY
4.1 D ATA USED
4.1.2 Income data
Em 1914, Freud escreve o trabalho Sobre o narcisismo: uma introdução, elevando o termo ao estatuto de conceito psicanalítico. Neste estudo, o narcisismo é definido como um período primitivo da infância em que as pulsões parciais e auto-eróticas que coexistiam de modo anárquico e sem objeto específico se reúnem numa unidade e investem o ego de catexias libidinais. Desta forma se origina o ego, bem como a sua libido. Trata-se de uma fase do desenvolvimento infantil na qual o ego, agora se unificando, é tomado como objeto de
amor, é idealizado e engrandecido, como dotado de toda a onipotência, completude e perfeição. Tal idealização também recebe a contribuição do narcisismo dos pais – outrora perdido em suas infâncias –, que, por sua vez, idealizam seu bebê como perfeito e onipotente. Contudo, a necessidade de abandonar este estado chega para o bebê progressivamente, em função de imposições e limites do ambiente, e então ele é forçado a renunciar ao estado narcísico. Em função do principio de realidade que se impõe, o narcisismo precisa ser renunciado pelo bebê. O processo de desidealização do ego acaba por originar o que Freud chamou de “ego-ideal”. O narcisismo não é abandonado, mas deslocado, dando origem às chamadas “instâncias ideais”, nas quais se refugia.
Ele (1914) afirma que esta fase, que chama de “narcisismo”, não é passível de ser constatada pela observação direta de bebês. Ele a deduz através de inúmeras outras situações. A admiração incondicional que os pais têm pelo seu bebê, por exemplo, indicaria o narcisismo da infância destes pais que fora renunciado no passado. O tratamento das paranóias e das esquizofrenias, bem como o estudo do homossexualismo, também contribuíram para que Freud deduzisse a existência de um narcisismo primário na infância, no qual a libido estaria investida toda no ego. Novamente encontramos o método freudiano de acesso e de compreensão da mente normal através da psicopatologia.
Outra contribuição importante contida no estudo sobre o narcisismo é a introdução à noção de instâncias ideais. O bebê, ao ter de renunciar a seu narcisismo primário, o abandona, formando o ego ideal. As instancias ideais, que mais tarde resultam no conceito de superego, são responsáveis pelos anseios narcísicos do sujeito. São elas que instituirão no indivíduo obrigações e metas a cumprir. Nas palavras de Freud (1914, p.100-01): “esse ego ideal é
agora o alvo do amor de si-mesmo (self-love) desfrutado na infância pelo ego real”. E ainda: “Assim, o que o ser humano projeta diante de si como seu ideal é o substituto do narcisismo
perdido de sua infância, durante a qual ele mesmo era seu Ideal”.
Temos de nos deter, assim, sobre vários acontecimentos importantes nesta fase. O narcisismo primário é fase em que a libido está investida no ego e que antecede o investimento libidinal nos objetos. Green (1988, p.275) refere-se a ela como um narcisismo
primário inicial. Sua principal característica é o estado de indiferenciação entre sujeito e objeto, marcado por um amor narcisista do bebê pela mãe. E, como Freud nos mostrou, há também um amor narcisista da mãe pelo bebê, frente ao fato de que este já foi parte daquela. As funções de auto-preservação do bebê são todas realizadas pelo objeto primário, a mãe, que está com todas as atenções votadas para o recém-nascido para satisfazer imediatamente suas necessidades. Assim, a indiferenciação é marcada pela extrema dependência do bebê em
relação ao objeto primário. Fusão, indiferenciação e dependência marcam esta fase inicial do narcisismo primário. O resultado disto é a criação, no bebê, de uma ilusão de onipotência, na medida em que o seio (objeto metafórico) está sempre à disposição para satisfazer suas necessidades. Com isto ele não percebe o objeto e o seio se torna sua criação, uma parte de si mesmo. A dependência não é percebida e o desamparo inicial do nascimento torna-se suportável: “nessa fase o bebê vive um experiência de onipotência absoluta, porque sua
indiferenciação do objeto lhe dá a ilusão de que todo o poder do objeto lhe pertence” (ANDRADE, 1999, p.638). A função da mãe seria a de sustentar esta ilusão onipotente e de auto-suficiência narcisista do bebê, através de seus cuidados exclusivos para ele, permitindo, com isto, a criação de condições básicas para a estruturação primitiva do aparelho psíquico. Por isto costuma-se dizer que sujeito e ideal se coincidem. Aqui, não existiria para o bebê um investimento objetal propriamente dito, mas tão somente identificações primárias – a identificação do bebê com o objeto primário. Segundo Green (1988, p.24),
[...] a identificação primária é a mais fundamental. Ela suprime a representação do objeto, o próprio Eu tornando-se este objeto, confundindo-se com ele. [...] No começo, a identificação primária é dita narcisista, o Eu fundindo-se com um objeto que é muito mais uma emanação dele mesmo do que um ser distinto reconhecido na sua alteridade.
Este momento de indiscriminação entre sujeito e objeto, entre ego e ideal, seria uma fase ainda muito inicial na qual o bebê estaria identificado com a mãe (o bebê é a mãe, a mãe é o bebê) e que antecederia o nascimento e a estruturação do psiquismo humano (WINNICOTT, 1954). Frente a isto, é essencial que a mãe mantenha um grande interesse (investimento) pelo seu filho neste momento inicial e esteja disponível psiquicamente para cuidar (investir) dele, para assim garantir a sua saúde mental.
O momento que sucede, segundo Green (1988), é o narcisismo primário tardio, no qual os investimentos do ego podem ser colocados finalmente em oposição aos investimentos objetais. Aqui se insere a metáfora da perda do seio, utilizada para se referir ao momento de separação entre a mãe e o bebê, no qual acontece a discriminação entre ego e objeto e o decorrente conhecimento da realidade. É nesta fase que os objetos passam a ser investidos libidinalmente e são, em seguida, trazidos para o ego por um processo denominado “identificação secundária”. Este narcisismo secundário seria a libido retirada dos objetos em direção ao ego via identificação narcísica. Vamos, no entanto, examinar mais de perto como se realiza este processo.
Um registro capital se introduz neste momento, a experiência de perda. Por meio da metáfora da perda do seio, Freud (1938, p. 202) oferece um modelo do nascimento psíquico e de narcisação do ego enquanto unidade:
Não há dúvida de que, inicialmente, a criança não distingue entre o seio e seu próprio corpo; quando o seio tem de ser separado do corpo e deslocado para o “exterior”, porque a criança tão frequentemente o encontra ausente, ele carrega consigo, como um “objeto”, uma parte das catexias libidinais narcísicas originais.
Recapitulando, no início há uma identificação entre o sujeito e o objeto – a mãe (enquanto representante do mundo externo) é parte do bebê. A imensa dedicação dada por ela a seu filho no início da vida, visando satisfazer suas necessidades de maneira imediata, e não deixá-lo sofrer, seria o protótipo fenomenológico desta situação. Para o bebê, não há ausência, nem frustração neste tempo. Já a fase em que nos detemos agora é marcada pela ausência do seio. Os diversos momentos que começam a acontecer com mais freqüência, em que o seio materno se encontra ausente e não satisfaz mais imediatamente às necessidades do bebê, impondo a frustração, levam-no a perceber que o seio é um objeto separado dele, que não está disponível para gratificá-lo a seu bel-prazer. Isto começa a destruir a ilusão de ser o centro do mundo, de independência e autonomia, de auto-satisfação, enfim, é a consciência do desamparo em função da dependência materna que emerge. Esta postergação da experiência de satisfação é necessária pois é o movimento pelo qual o sujeito é descentrado de si mesmo e é colocado em contato com a alteridade. Este momento de ”perda” apresenta o bebê à realidade. É, no entanto, o momento da consciência da separação e da renúncia à onipotência narcísica: trata-se do princípio de realidade que começa a se impor sobre o principio do prazer. A experiência da perda da ilusão de fusão com o objeto primário – a mãe – constitui- se, assim, em uma das metáforas poderosas da teoria psicanalítica que explicam o nascimento da vida psíquica:
A teoria psicanalítica mais genericamente compartilhada admite duas idéias: a primeira é a da perda do objeto como momento fundamental da estruturação do psiquismo humano durante o qual instaura-se uma nova relação com a realidade. O psiquismo seria, a partir de então, governado pelo princípio da realidade, que passa a frente do princípio do prazer, que ele salvaguarda além do mais. Esta primeira idéia é um conceito teórico, não um fato da observação, pois esta nos mostraria menos um salto mutativo do que uma evolução gradual. A segunda idéia comumente aceita pela maioria dos autores é a de uma posição depressiva diferentemente interpretada pelos diversos autores. Esta idéia vai ao encontro de um fato da observação e de um conceito teórico em Melanie Klein e Winnicott. Estas duas idéias, convém insistir, vinculam-se a uma situação geral que se refere a um acontecimento inelutável do desenvolvimento. Se perturbações anteriores da relação mãe-criança tornam sua travessia e sua ultrapassagem mais difícil, a ausência de tais perturbações e a boa qualidade dos cuidados maternos não podem evitar este período que desempenha um papel estruturante para a organização psíquica da criança (GREEN, 1988, p.248-49).
A perda e a depressão decorrente desta são colocadas totalmente em relação com o conceito de narcisismo. A perda do seio traz a consciência da separação – e a vivência desta consciência é depressiva – no sentido de uma perda que tem de ser elaborada. O bebê, frente à vivência desta perda, recorre aos mecanismos de identificação para a manutenção de seu psiquismo. A identificação, neste caso secundária, é o meio de se conservar uma relação ou um estado que o princípio de realidade obrigou a abandonar (HORNSTEIN, 1989). Esta noção, do uso de uma identificação secundária com o objeto diante da vivência de perda, permite ao ego se apropriar do objeto, ou de traços deste, formando assim o ego, a identidade e os ideais: “é incorporando em si as características de um objeto privilegiado que o ego se
constitui como unidade autônoma e diferenciada do não-ego” (SIMANKE, 1994).
Se for possível definir as identificações de maneira esquemática, nós as diferenciaríamos da seguinte maneira: a identificação primária é aquela que antecede um investimento objetal propriamente dito, é uma etapa prévia ao investimento libidinal de objeto e coincide com o narcisismo primário. A identificação secundária se caracteriza pela retração para o ego do investimento libidinal no objeto; seu significado é incorporar novos objetos no ego. Este último é um narcisismo secundário, contemporâneo à formação do ego. Assim, “o
narcisismo do ego é um narcisismo secundário, que foi retirado dos objetos” (FREUD, 1923, p.59).
Neste interjogo se estabelecem as instâncias ideais. O narcisismo absoluto onipotente do momento inicial é quebrado pelo desenvolvimento do princípio de realidade. Esta onipotência é renunciada na forma de um eu ideal ao qual o sujeito se esforçará para conformar-se. A introjeção do objeto idealizado como onipotente se realizará em um processo de identificação secundária (a libido retirada dos objetos para o ego), enriquecendo desta maneira o ego. Há a formação de um ego ideal que servirá de modelo para o ego real, que, por sua vez, guarda a onipotência renunciada do narcisismo primário e a onipotência retirada dos pais por meio da identificação (ANDRADE, 1999):
Quando as condições são favoráveis à inevitável separação entre a mãe e a criança, ocorre no seio do Eu uma mutação decisiva. O objeto materno se apaga enquanto objeto primário de fusão, para dar lugar aos investimentos próprios ao Eu, fundadores de seu narcisismo pessoal, Eu doravante capaz de investir seus próprios objetos distintos do objeto primitivo (GREEN, 1988, p.273-74).
Na realidade, estes dois momentos do narcisismo, que são marcados pela experiência da perda do seio, compõem um processo de evolução progressiva que se efetua passo a passo, indo de um ego não discriminado do objeto até um ego formado e discriminado do mundo
externo e dos objetos. Para Freud, o ego não é uma organização psíquica que está presente desde o início da vida. Ele precisa se constituir nesta operação marcada pelo narcisismo, a partir de um estado de indiferenciação com o mundo. Green (1988, p.21) explica que existe uma tendência em aceitar que o “desenvolvimento do Eu e da libido se manifesta, em
particular, pela capacidade do Eu de reconhecer o objeto em si mesmo, e não mais como simples projeção do EU”.
O que presenciamos com a introdução do conceito do narcisismo e seus desdobramentos é este processo de constituição do ego – de forma mais ampla, do sujeito desejante – em uma operação de inter-relação com o objeto primário (inicialmente), os objetos secundários e, por fim, com a realidade e o mundo externo.
Com a virada da teoria freudiana dos anos vinte – a última dualidade pulsional e a segunda tópica – ocorrem modificações no conceito de narcisismo. Freud deixa de distinguir o estado de auto-erotismo e narcisismo, que foi estabelecido desde o início da história do conceito. Como vimos, o narcisismo seria uma fase que corresponderia ao investimento das pulsões auto-eróticas e parciais em um único objeto de satisfação, o ego. Assim, no narcisismo, ocorreria a unificação das pulsões visando a uma única meta e a constituição do primeiro objeto de desejo: o próprio ego. Por isso narcisismo: um investimento libidinal no ego. Segundo Simanke (1994), os dois fatores que levaram Freud a abandonar esta distinção entre narcisismo e auto-erotismo foram a necessidade da formação do conceito de id e a crescente importância que o conceito de identificação vinha assumindo. Esta modificação lhe permite formular uma explicação para o surgimento do ego como unidade psíquica, “que se
formaria pela assimilação identificatória da imagem do outro, percebido como igual a si” (SIMANKE, 1994, p. 130).
Frente ao exposto, o narcisismo pode ser entendido como um estado muito inicial do desenvolvimento de indiferenciação entre o bebê e o mundo e, mais tardiamente, uma fase de investimento libidinal no ego contemporânea à separação do objeto, ao início da percepção da realidade e da constituição do ego.