Del II Analyse og konklusjon
4.3 Hvordan oppleves de faglige diskusjonene?
4.3.2 Uenigheter om videre plassering
Ter o conhecimento como produto das práticas humanas, construído na interação do sujeito com o mundo, implica pensar a Umbanda como face desta prática, possibilitando pensá-la como práxis constitutiva e transformadora. Pensá-la estimuladora de uma educação crítica, que promova esta transformação é uma tarefa desafiadora e instigante, pois como foi dito anteriormente, este aspecto, dentro dos estudos sobre as religiões afro- brasileiras e também da educação, ainda não foi refletida e sistematizada.
Dizer que a educação se dá em diferentes instâncias e de diferentes formas, fazendo parte das esferas social, cultural, política, econômica e religiosa, é falar da educação como um processo de formação do indivíduo, historicamente datado – individual e coletivamente – construído na interação com outros sujeitos. Assim, a abordagem dos processos educacionais umbandistas, pode ser pensada como movimento dinâmico, considerando a diferença e o conflito como faces da constituição do sujeito social.
Para pensar o processo educacional dentro do terreiro, devo pensar o conceito de educação como processo, considerando que o currículo – entendido aqui como uma ação, uma prática social e cultural que constrói conhecimento/s – possuí dinamicidade, interatividade, construção coletiva de pressupostos comuns ao grupo, que o constrói e o põe em prática.
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Falar em currículo na área religiosa pode parecer estranho num primeiro momento, mas o conceito pode auxiliar a reflexão sobre os processos de aprendizagem que ocorrem dentro do terreiro. Para esta reflexão tomarei como uma das referências o educador espanhol J. Gimeno Sacristán que tem como objeto de estudo o currículo e suas práticas. Em seu livro Currículo, uma
reflexão sobre a prática, coloca que o currículo “é uma práxis antes que um objeto estático emanado de um modelo coerente de pensar a educação ou as aprendizagens.” (SACRISTÁN, 2000) Se temos a educação como processo,
em constante movimento, podemos aceitar a definição que Sacristán nos oferece sobre o currículo e utilizá-la como uma construção social que facilita o acesso ao conhecimento e como uma forma particular de entrar em contato com cultura, no caso a umbandista.
A idéia de que existem processos educacionais nos terreiros e que estes podem propiciar a reflexão crítica, orientará meu olhar para o papel da oralidade e da escrita neste processo e de que forma estes dois mundos se encontram e se articulam no espaço sagrado do terreiro e conseqüentemente dos umbandistas. Portanto, aspectos como a possessão, o transe, a historicização da Umbanda, que já foram amplamente abordados, com maior propriedade até, por autores como Maria Helena Vilas Boas Concone, no primeiro caso, e de Lisias Negrão no segundo, entre outros, não serão temas centrais deste trabalho, embora presentes.
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O caminho pretendido para refletir sobre as questões apontadas partirá da identificação da cultura umbandista, através de dois instrumentos básicos, a pesquisa participante e o trabalho com memória (o papel da oralidade e do registro escrito), como formas de construção desta cultura e identificação dos processos de aprendizagem para esta construção.
Acredito que a partir de minha participação ativa no terreiro, das entrevistas e da leitura e análise dos cadernos de registro, poderei levantar categorias, identificando aspectos únicos da cultura umbandista, como é construída e se esta construção aponta para a idéia inicial da humanização e da emancipação do sujeito.
Quando penso no caminho a ser percorrido, penso também nas várias escolhas que terei que fazer, para chegar ao lugar desejado. As escolhas não são fáceis! Neste processo sempre temos a impressão de que alguma coisa muito importante está sendo deixada de lado.
Estas escolhas, portanto, se deram no caminhar. Várias situações contribuíram para a construção desta pesquisa, sejam com os colegas de classe e seus questionamentos, nas conversas com minha orientadora, que com seu modo sereno, ia escutando e interferindo de modo delicado nas construções apresentadas, no grupo de estudo sobre memória que formamos e nas inúmeras circunstâncias cotidianas que envolviam a religião. Nas tentativas de esclarecê-los e na inquietação do recorte a fazer, re-organizei este caminho.
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No meu caso, a inquietação aparece quando percebo que dos vários itinerários que posso traçar dois em particular me chamam, e de certa forma é o caminho que percorri até aqui como pessoa: como articular dois mundos aparentemente tão diferentes de forma que ambos possam dialogar, e como umbandistas e não umbandistas, podem se apropriar dos conceitos aqui utilizados de forma a compreenderem este universo, e vê-lo como espaço propiciador da humanização e da emancipação do sujeito?
Estas duas questões aparentemente tão simples envolvem escolhas, que foram se fazendo no caminhar. O trabalho com os registros escritos, que trazem a memória do grupo, foi uma delas. Os cadernos que durante décadas foram sendo escritos, serão utilizados como documentos memorialistas e através deles re-construir a história do grupo e da Umbanda, identificando momentos de aprendizagem, de transmissão de conhecimentos, que vão construindo a cultura da Umbanda. O aparente paradoxo entre a afirmação do aprendizado prático e o ensinamento oral e trabalhar com os textos escritos, será retomado adiante.
Ao reler os cadernos, verifico elementos desta aprendizagem e desta cultura, ainda hoje existentes no terreiro, como o Ritual de Sacodimento8, descrito no
caderno de 1975, quando o terreiro que meus pais freqüentavam na Mooca, foi
8 O caderno citado é de 1975, quando meus pais freqüentavam a Tenda de Umbanda Caboclo Pena
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ao sítio para as obrigações, com todos os filhos.
Assim está descrito uma parte destas obrigações:
“Foi dado o banho de sacudimento que é jogado no filho pelas costas, feito isso o filho cobre a cabeça deita esteira, colocando ao lado uma vela de 7 dias, que já esta acesa, fica deitado pelo menos 3 horas. A toalha da cabeça não pode ser tirada mais, só é tirada no fim da engira pelo Pai de Santo. O banho é para afastar todos os maus fluídos que a pessoa tem.”
Cerca de vinte anos depois, lemos:
Ervas para o banho, colhidas em 15.04.1995. saia branca (flor), saia branca (folha), manjericão, alecrim, folha de amora, confrei, balsamo folha larga, melicia, assa peixe, hortelã, folha gengibre, samambaia, picão preto, sapé, folha de maracujá, novalgina, arruda, samambaia de bugre, folha de pitanga, alecrim do campo, pinhão roxo, balsamo, carobinha, folha de goiaba, louro, erva de bicho, são Gonçalo, eucalipto, carqueja, gervão, balsamo, tansagem, hortelã, dente de leão, erva de santa maria, folha de laranja, folha de zeduaria, balsamo folha pequena, espada de são Jorge, chá de estrada e marcelinha.” (1995)
Este ritual embora ressignificado, ainda existe. É feito uma vez por ano, e já passou por algumas modificações, como ficar menos tempo deitado na esteira (1h somente) e não ser obrigatório. O modo de preparo do banho continua basicamente o mesmo, o que muda é a diversidade de ervas utilizada e a retirada de alguns ingredientes que foram considerados “ofensivos”, como o estrume e as vísceras.
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Para o banho de sacudimento vai as seguintes ervas que é posta em fusão dias antes do banho. Carqueja, arruda, guanchuma, alecrim do campo, erva de bicho, catinga de mulata, carrapichinho, urtiga, cipó abre corpo, cipó abre caminho, cipó de trabalho, carobinha, esterco de vaca, esterco de cavalo, vísceras de galinha com pena, espada de são jorge, palha de alho. (1975)
Ao reler os cadernos dúvidas foram surgindo e os questionamentos foram se acumulando. O que fazer com o volume de informações que iam aparecendo diante de meus olhos? De que forma identificar se aqueles registros possuíam as informações pretendidas? Muita coisa está registrada, mas uma grande parte de acontecimentos não o foi. Seja por falta de agilidade em registrar no ato dos acontecimentos tudo o que ocorria ou pela seleção do que registrar. Então como poderia trabalhar estas informações?
A meu ver pelo caminho das entrevistas, da observação e principalmente da própria participação no terreiro. Através da oralidade destes sujeitos – eu inclusive – confrontar este mundo com a cultura identificada nos cadernos de registro e com o próprio discurso dos sujeitos umbandistas.
Mas antes de pensar no caminho a seguir, é necessário saber a partir de que bases este caminho será construído. Ou seja, quando falo em educação, aprendizagem, humanização, emancipação e na própria Umbanda, falo a partir de que olhar? A partir de qual estrada estou falando?
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