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A UDITORIA , SUPERVISÃO E CONTROLO

In document Orçamento, Estado e Povo CMIREPORT (sider 63-68)

4. O PROCESSO DE ORÇAMENTO EM ANGOLA

4.7 A UDITORIA , SUPERVISÃO E CONTROLO

A barbárie é a antítese do comportamento social. Com a intervenção da educação a barbárie dá lugar à humanidade, pois dissipa-se a corrupção da natureza humana, privilegiando-se a razão em detrimento da indeterminação da mente humana143, haja vista o homem só conseguir

conferir intencionalidade à sua vontade quando supera o estado de natureza.

Efetivamente, através do estudo do desenvolvimento do mundo civil na “história ideal eterna”, denominada de arte diagnóstica por Vico, tornou-se possível avaliar os graus de desenvolvimento civil e os perigos a que estão submetidas as nações. Com base nessa arte diagnóstica, Vico empreendeu, então, críticas à maneira como o conhecimento (englobando a ciência e a educação) é considerado pelos modernos de sua época.

Tais críticas não se detiveram apenas em observações e considerações, mas lançaram as bases de uma ação, através da proposta de um enfoque que superasse o império da Mathesis Universalis, para contemplar, igualmente, a possibilidade de conhecimento dos universos ético, político e humano, interagindo numa mesma ciência. Uma proposta de

143 A indeterminação da mente humana decorre da impossibilidade de a criança já nascer com todos os

conhecimento que pudesse manter a idade dos homens, evitando a barbárie da reflexão e sua inevitável consequência, o ricorsi, representado pela queda da civilização.

E foi na educação que Vico depositou suas esperanças quanto à

perenidade da idade dos homens, conforme bem observa Guido144.

De fato, na sintetização entre filogênese e ontogênese das constantes analogias presentes na Scienza nuova, Vico aponta a emancipação individual como caminho para as nações. Nesse sentido, Guido destaca que “o curso dos estudos deve conduzir à emancipação individual e à consolidação da idade dos homens”145. Citando Vico:

O conhecimento das coisas naturais e das divinas é alcançado com estas doutrinas. A

experiência das coisas humanas torna

possível isto, que cada um cumpra o próprio dever, como homem e como cidadão. A doutrina moral forma o homem probo, a civil o cidadão sapiente, e uma e outra, em conformidade com os ditames da nossa religião, constituem a teologia que é chamada moral, e estas três

doutrinas alargam e confluem na

jurisprudência.146

Em sua Oração inaugural, de 1699, Vico retoma o célebre adágio filosófico “conhece a ti mesmo”, promovendo-o à primeira tarefa educativa do homem147.

144 Guido, H. op. cit, p. 83. 145

Ibidem, p.89.

146

Vico, G. Le orazioni inaugurali I – VI, p.199-201.

147 Ibidem, p. 81 Mooney, M. Vico in the tradition of rethoric, Princeton: Princeton University Press,

Observando o que é mais adequado a uma idade e menos a outra, respeitando rigorosamente as peculiaridades da mente humana, a escola deve oferecer o ensino das ciências respeitando o desenvolvimento cognitivo do estudante. Pelo tanto, primeiramente a gramática, acompanhada do estudo da poesia, da eloquência, da geografia e da história das nações devem propiciar o conhecimento correto do uso da linguagem à criança e ao adolescente. A geometria, igualmente uma disciplina tópica, se junta às disciplinas anteriores para fechar o primeiro ciclo dos estudos. O ciclo seguinte abrange o aprendizado das coisas naturais, com a instrução da física e da anatomia, preparando a mente para o ciclo seguinte, que é o dos estudos superiores: a metafísica, ou a filosofia, que – já na juventude – enseja o estudo das coisas divinas como realidades verdadeiras, Deus e o pensamento humano, além de promover, neste ciclo, a promoção para as aptidões necessárias à vida prática, assim entendido o exercício da cidadania.

Trata-se da proposta do saber dos sentidos, que privilegia as faculdades sensíveis em contraposição ao método de estudos de sua época, de orientação analítica, que Vico considerava ter efeito deletério pois:

podem podar nos jovens aqueles dotes da mente juvenil, que deveriam ser regulados e promovidos, cada um, por uma arte própria, como a memória com o estudo das línguas, a fantasia com a lição de poesias, história e oratória, o engenho com a geometria linear, que, de certa forma, é uma pintura que revigora a memória com o grande número de seus elementos, enobrece a fantasia com suas figuras delicadas, assim como com tantos desenhos com sutilíssimas linhas, acelerando o engenho em percorrê-las todas, e entre

todas recolher as que necessita para

demonstrar a grandeza que almeja; e tudo isso para aflorar, em tempos de juízo

maduro, uma sabedoria bem expressada, viva e aguda.”148

A condução do estudo à crítica, ensinada aos jovens para eliminar da verdade primeira todo falso e toda suspeita de falsidade, posta, com antecedência, fora e acima de todas as imagens sensíveis antes do amadurecimento do juízo “contraria o curso natural das ideias, de antes aprender, depois ajuizar e, finalmente, raciocinar; torna a juventude árida e seca no desempenho, e sem mais fazer, quer ajuizar antes de qualquer coisa.”149

Com efeito, os jovens são excelentes apenas na fantasia e na memória; a velhice potencializa a razão. Assim a crítica, prematuramente, ensinada aos jovens, impede que se cultive a fantasia e a memória, bem como as artes que se valem destas, como a pintura, a poesia, a oratória e a jurisprudência. Vico remete aos antigos, para os quais a geometria era a lógica dos jovens: essa ciência que não pode ser bem aprendida sem a capacidade de configurarem-se imagens.

Seguir o curso natural das ideias implica em não violentar a natureza da mente dos jovens, que é altamente ligada ao sensível e ao concreto, e deixar que eles se habituem gradualmente à razão segundo a índole de sua idade. Pelo tanto, Vico defende que a tópica, como matéria de ensinamento, deve preceder a crítica, considerando, ainda, pelo mesmo ponto de vista, que a lógica formal deveria ser ensinada por último, pois,

148 Vico, G. Vita di Giambattista Vico, 1728, p. 169: con che si vengono a convellere ne’giovinetti quelle

dotti della mente giovanile, le quali dovrebbero essere regolate e promose ciascuna da un’arte propia, come la memoria con lo studio dele lingue, la fantasia con la lesione de poeti, storici, ed oratori, l’ingegno con la geometria lineare, che in un certo modo è una Pittura la quale invigorisce la memoria con gran numero de suoi elementi, ingentilisce la fantasia con le sue delicate figure come con tanti disegni descritti con sottilissime linee e fa spedito l’ingegno in dover correrle tutte, e tra, tutte raccoglier quelle che bisognano per dimonstrare la grandeza che si domanda: e tutto ciò per fruttare a tempo di maturo giudizio, una sapienza ben parlante, viva ed acuta.”

149

Ibidem, p. 170: “contro il corso natural dell’idee, che prima apprendono, poi giudicano, finalmente ragionano;ne diviene la gioventù árida e secca nello spiegarsi e, senza far mai nulla, vuol giudicar d’ogni cosa.” À guisa de exemplo da relação ontogênese – filogênese, vide a Dignidade LIII na Scienza nuova, onde Vico apresenta a mesma progressão natural, mas aplicada à história.

sem uma bagagem empírica de imagens e opiniões, a lógica ou é útil por incompreensível, ou é compreensível, porém inútil.

Por conseguinte, a proposta pedagógica de Vico prioriza o processo natural do conhecimento e do aprendizado em contraposição ao método cartesiano e suas implicações pedagógicas; foca mudanças ao método de ensino de seu tempo, propugnando pela revalorização do ensino de assuntos éticos que, segundo ele, haviam sido esquecidos pela pedagogia moderna; pela volta do ensino da tópica dos antigos, a fim de que se fomentasse nos jovens o engenho, ou inteligência aguda, que seria melhor facultado para constituir uma prudência civil; e pela promoção do engenho (o engenho é próprio para conhecer ou fazer, isto é, para a teoria e a práxis) como a faculdade certa para qualquer investigação, dotado de capacidade de observação e da perspectiva de encontrar o novo.

Sua proposta de formação intelectual é integralista, partindo de uma instrução em todas as ciências e artes, exercitando as faculdades humanas para enriquecer a mente com a invenção argumentativa da tópica. Privilegia o senso comum visando o desenvolvimento da prudência e da eloquência, para, então, e só então, incutir a crítica cartesiana e formar inteligências aptas a julgar o verdadeiro e o verossímil, versando os jovens a experienciar todos os campos do saber, valendo-se igualmente de técnicas retóricas e analíticas.

Assim como na concepção de sua nova arte crítica Vico sintetiza filosofia e filologia, promovendo o entrelaçamento do conhecimento do particular com o universal, do verossímil com a verdade, do senso comum com a ciência, a sua proposta pedagógica concilia tópica e crítica.

Destarte, Vico vê na educação uma instância capaz de promover a atividade escolar e científica como práxis social, o que habilita a escola para, além da instituição necessária para a reforma do pensamento, auxiliar

efetivamente a emancipação da humanidade na perspectiva coletiva, ou, por outras palavras, proporcionar a perenidade na idade dos homens.

CONCLUSÃO

Contextualizando o surgimento da ciência moderna à partir de um processo de rompimento com a tradição científica medieval, iniciado no Renascimento e definido no meado do século XVII, com a assunção dos limites, dos critérios e do entendimento do que é a ciência e do que a ciência deve ser, apontando o caminho que a ciência deve seguir, apontando a vertente prevalente da ciência, a presente dissertação logrou apresentar a tensão característica da época de Vico: uma época tumultuada pelas disputas entre partidários da tradição humanista e os modernos, entusiastas do desenvolvimento científico e adeptos do cartesianismo; tumultuada pelo grande obstáculo epistemológico representando pela autoridade da religião cristã e pelas disputas entre ortodoxos e heterodoxos.

Nesse contexto, Vico desenvolveu sua Scienza nuova, conciliando vantagens do método dos antigos com as vantagens do método dos modernos, apresentando uma proposta de ampliação do paradigma do saber, que deveria abranger a possibilidade de conhecimento dos universos humano, ético e político em interação numa mesma ciência. Dito de outra forma, não intencionava o Napolitano, a criação de uma nova ciência, mas tão somente valer-se da sabedoria humana representada pela sabedoria poética, pela retórica, pelo direito, pela filosofia, para renovar a ciência demonstrando a possibilidade de desenvolvimento científico livre do império exclusivo da Mathesis Universalis.

Entretanto, nada obstante o desenvolvimento de seu pensamento filosófico se verificar pelo propósito de conciliação entre a tradição humanista e a ciência moderna, que despontava, há que se reconhecer a originalidade de Vico e de sua obra.

Com efeito, à partir de uma concepção inovadora da metafísica, que deixa de ocupar-se com a contemplação e com a especulação sobre Deus, trazendo seu foco para a terra, buscando na história aquilo que buscava até então na mente divina, a Scienza nuova de Vico aponta o conhecimento das coisas humanas como a chave para responder à grande questão de todas as épocas sobre o que é o homem.

Valorizando todas as faculdades humanas, o Napolitano identifica o engenho como a faculdade específica do saber, por sua capacidade de unir coisas separadas e diversas. Desse modo, aliando filosofia e filologia desenvolveu a nova arte crítica como método hermenêutico, no qual revitaliza a antiga teoria do verum-factum, aplicando-a, com originalidade, para a descoberta histórica. Também com originalidade, valoriza o senso comum como princípio objetivo da evolução histórica, ao mesmo tempo em que é considerado como a fundação subjetiva de uma compreensão histórica.

Da aplicação de seu método hermenêutico, Vico desenvolve sua teoria de evolução cíclica da história, com seus “corsi” e “ricorsi”, para, à partir de então, estruturar a arte diagnóstica de avaliação do grau de desenvolvimento e dos riscos aos quais as nações estão sujeitas.

Com base em sua arte diagnóstica, Vico alerta para o risco representado pela barbárie da razão, fase que identifica com a Europa de seu tempo e que prenuncia a queda da civilização, ou o “ricorso” de seus ciclos históricos.

A Scienza nuova empreende, então, críticas aos erros intelectuais dos modernos, à vaidade dos doutos e das nações e à cultura científica hermética e afastada de sua função social, pois fundada na filosofia monástica e nos valores individualistas do racionalismo cartesiano. Essas críticas não se restringem apenas em observações e considerações, mas propugnam por ação, caracterizando, pelo tanto, a proposta de uma ciência também política.

Assim, a Scienza nuova propõe uma orientação filosófica para a ciência que considere o ideal de integralidade humana, propondo uma reflexão filosófica e uma concepção científica que abranja o humanismo cívico e retórico, sempre conciliando os saberes antigos da tradição humanista com o pensamento moderno dos adeptos do desenvolvimento da ciência.

Propõe, igualmente, um projeto pedagógico, enfatizando a finalidade pública e social do saber; uma proposta educativa que leve em consideração as peculiaridades da mente humana, respeitando o desenvolvimento cognitivo do estudante e que propicie a instrução em todas as ciências, privilegiando o senso comum e integrando – no devido tempo – a crítica cartesiana para a formação de inteligências aptas a experienciar todo o potencial da mente humana.

A Scienza nuova de Vico, pelo tanto, é a proposta de uma alternativa para a vertente que prevalece como paradigma da ciência. A proposta da vertente Vico é a orientação de um caminho para a ciência por uma terceira via, a qual dista tanto do racionalismo absolutista, quanto do relativismo empirista; a qual dista tanto do dogmatismo, quanto do ceticismo. Uma vertente que conjuga a razão e a historia; a teoria e a práxis.

Essa vertente Vico pode ser identificada na história do pensamento social, na evolução da tradição da jurisprudência romana, passando por

Vico, para seguir até o desenvolvimento das ciências sociais contemporâneas.

Trata-se, a vertente Vico, de uma alternativa fundada na síntese entre universal e particular; entre o ideal da perenidade na idade dos homens e o factual dos ciclos históricos; entre o verdadeiro e o real, conforme explícito na concepção da nova arte crítica, que une a Filosofia – a ciência do verdadeiro, que se desenvolve sobre a temática da justiça – e a Filologia – a ciência do fato, do certum, que se desenvolve sobre a temática da linguagem e tradições dos povos.

Destarte, lembrando a ênfase do humanista Pico della Mirandola sobre a dignidade do homem essencialmente representada pelo poder de escolha, a esperança de emancipação vislumbrada na vertente Vico reside no conhecimento, ou, mais especificamente, na educação que prepara o individuo para suas escolhas, propiciando a autonomia para a permanência na idade dos homens, emancipando da heteronomia dos “corsi” e “ricorsi” o homem em sua perspectiva coletiva.

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