3. RESULTATER
3.1 V IABILITET
3.1.2 Udifferensierte PC12-celler med resazurin-analyse
A política e a sociedade vistas com ótica crítico-humorística talvez tenham sido os temas mais recorrentes das histórias em quadrinhos. Seja na charge, nas tiras ou nas histórias mais complexas, tais temas sempre foram oferecidos dos autores para os leitores em quantidades generosas ao lado das pequenas narrativas de costumes. Foi assim nos primórdios da nona arte com Rodolphe Töpffer, e assim continuam na atualidade, com notáveis autores, como Will Eisner e Quino. Eisner mostrou que em uma grande cidade como Nova York havia espaço para as pequenas belezas do cotidiano, assim como eram profundas e pertinentes as observações sócio-políticas certeiras da garota latino- americana Mafalda, de Quino.
Curiosamente, a guerra foi um tema que demorou a ser abordado pelos quadrinhos porque, segundo Mike Conroy (2009, p. 11), a linguagem era considerada por demais superficial para um assunto complexo. Ora, como se falar de política com humor em três quadros sequenciais não fosse por si só algo que exigisse astúcia e complexidade. Chargistas abordavam guerras assim como os grandes pintores. Suas imagens traziam sentidos profundos, mas nunca as tirinhas e as HQs. À época, a narrativa em quadrinhos ainda estava em desenvolvimento, atingida por comentários preconceituosos de críticos.
A primeira história de guerra em quadrinhos data de 1936, publicada na antologia
Famous Funnies #22. É uma narrativa de página única sobre momentos da batalha de Manila Bay, nas Filipinas, em 1898. Até o final da década de 1930, histórias de guerra seriam publicadas em meio a outras de humor. Os autores, em geral, eram judeus que assim se expressavam sobre os eventos que antecederam a Segunda Guerra Mundial. Ao passo que os Estados Unidos da América (EUA) ainda ignoravam a ascensão do chanceler alemão Adolf Hitler e do nazismo, esses artistas davam um grito num balão, um apelo para que sua terra adotiva ajudasse os seus pares em histórias que engrandeciam as forças armadas estadunidenses contra o inimigo alemão.
Foi o Capitão América quem deu o grande soco inaugural contra Hitler: cena literalmente ilustrada na capa de Captain America Comics n°1, lançada em março de 1941. Joe Simon (escritor) e Jack Kirby (ilustrador), criadores do “Cap” – apelido do personagem –, tiveram posteriormente experiências na Segunda Guerra Mundial: o primeiro foi convocado em 1943 e passou a guerra criando quadrinhos ideológicos de cunho militar, ao passo que o segundo esteve no front na Europa servindo à 11° infantaria, sob comando do general George Patton.
O sucesso do Capitão América e o apelo do momento histórico – especialmente após o ataque dos japoneses em Pearl Harbor, em dezembro de 1941 – fizeram as narrativas de guerras em quadrinhos proliferarem. A partir de 1942, editores e quadrinistas americanos passaram a produzir narrativas de guerra, ficcionais ou não, em revistas temáticas. Os personagens superpoderosos ajudavam na propaganda de guerra. Não apenas eles apontavam e batiam no inimigo a ser repudiado, como também ensinavam a população a ajudar o país, por exemplo, separando materiais para reciclagem, como pode ser observado na imagem.
Figura 1 – Propaganda na revista do Capitão América publicada em 1941.
O texto diz o seguinte:
Olá garotos! Vocês estão nesta guerra, mesmo que não possam carregar uma arma, guiar um tanque, um jipe, ou pilotar um
avião! Você pode fazer a sua parte para ganhar estar guerra juntando papéis desperdiçados. Reúna os garotos do seu bairro... façam uma varredura nas casas por papéis... qualquer papel velho, revistas, caixas, sacolas de mercado, envelopes, jornais, papelão! Papel é uma arma de guerra! Uma poderosa arma! Toda arma, bala... todo pedaço de munição usado para esmagar os profanos japoneses e nazistas é enviado em embalagens de papéis! O campo de ração “K” do exército americano é embalado em cartonagens dobráveis! E muitas outras coisas também! Para fazer papel novo, precisamos do velho! Hoje papéis são mais necessários que nunca! Guerra traz escassez... há escassez de papel... em um grau alarmante! Então entre em contato com o mais próximo comitê de salvamento local e pergunte a eles como vocês e seus companheiros podem contribuir com esse esforço de guerra (CONROY, 2009, p. 65).
Mais uma vez, o alvo de tais revistas não eram apenas as crianças. Soldados também gostavam de ler quadrinhos. De acordo com Ciro Inácio Marcondes (2012, p. 26), em 1943, uma a cada quatro revistas enviadas aos soldados nas tropas americanas eram quadrinhos. Narrativas de guerra em quadrinhos não apenas se espalharam nos Estados Unidos, como também pela Europa e Ásia. No Japão, durante a Segunda Guerra, a produção de mangás27 foi reduzida devido à escassez e à censura do governo, porém as
narrativas de propaganda que colocavam o inimigo na berlinda eram estimuladas e distribuídas entre a população.
O fim da Segunda Guerra Mundial e a ascensão da televisão, veículo de entretenimento número 1 nos Estados Unidos, fizeram os números de vendagens dos quadrinhos caírem. O Comics Code foi a pá de cal que deixou as editoras operando à beira da falência por quase três décadas, uma vez que elas tinham de trabalhar sob de forte censura, ao mesmo tempo que não conseguiam desenvolver histórias suficientemente atraentes para o público jovem e adulto. Mas a temática da guerra continuou a ser explorada de inúmeras maneiras. Os super-heróis continuaram a ser um instrumento de propaganda ideológica para apoiar qualquer guerra em que os estadunidenses estivessem envolvidos no momento (Coréia, Vietnã, Guerra Fria, etc.). Algumas revistas com temas de guerra sobreviveram ao longo da década de 1950 e 1960. Os grupos fictícios de combatentes se tornaram populares entre os leitores28.
27Quadrinhos japoneses.
28 O grupo G. I. Joe, por exemplo, foi um dos mais populares. Ao contrário do que o senso comum diz, o
grupo não veio de uma ação de marketing para vender bonecos, mas foi criado por Dave Breger e lançado na Yank Magazine em 1942.
Visões alternativas sobre a guerra também foram exploradas, em especial por artistas do underground. Como foi comentado acima, ainda nos anos 1950, Harvey Kurtzman publicou histórias nas revistas Two-fisted Tales e Frontline Combat, editadas pela EC Comics, que traziam algumas inovações na condução da narrativa em quadrinhos. Eram enredos que tratavam a guerra com ironia peculiar e, de certa forma, se opunham às políticas do governo dos EUA. Essa coragem não era comum em outras publicações de entretenimento à época.
Bernard Krigstein – artista que inovou o tempo da narrativa nos quadrinhos –, baseado no roteiro de Al Feldstein, ilustrou a história Master Race, sobre o reencontro de um sobrevivente de um campo de extermínio com um ex-comandante nazista numa estação de metrô. A história de oito páginas (considerada uma das precursoras das novelas gráficas) desenvolvida em 1954, mas só publicada no ano seguinte, foi a primeira a falar sobre o Holocausto. Além de ousar tocar num tema tabu, Master Race apresenta inovações narrativas que viriam a romper com a influência da estética cinematográfica dentro dos quadrinhos para estabelecer algo novo. Art Spiegelman, David Kasakove e John Benson escreveram o célebre ensaio An Examination of Master Race, publicado pela primeira vez na revista underground Squa Tront #6 em 1975. Eles fizeram a seguinte análise:
De fato, muito do poder que Krigstein trouxe para a história é devido a sua escolha por um estilo que é a antítese da narrativa regular dos quadrinhos. Em vez de empregar o exagerado visual que revistas em quadrinhos geralmente usam para claramente denotar ação e emoção (linhas de velocidade, largas gotas de suor, etc.), Krigstein usa padrões de delimitação mais objetivas. Em vez dos frequentes close-ups, uma técnica muito usada para se aproximar dos sentimentos dos personagens, Krigstein mantém distância física dos personagens. Em vez de usar o tipo dramático cinematográfico de efeitos de luz, Krigstein usa paletas de escuro e claro de maneiras mais abstratas. Em vez do uso humanizador das livres formas, Krigstein se concentra no uso de ângulos agudos e linhas retas sempre que possível (BENSON; KASAKOVE; SPIEGELMAN, 2009, p. 288, tradução nossa)29.
29No original: “In fact, much of the power that Krigstein brings to the story is due this choice of a style
which is the antithesis of standard comics storytelling. Instead of employing the exaggerated visual comic book phrases usually used to clearly denote action and emotion (speed lines, large beads of sweat, etc.), Krigstein uses a much more objective standard of delineation. Instead of frequente close-ups, an often used technique to get close to a character’s feelings, Krigstein keeps a physical distance from the characters. Instead of using dramatic motion Picture-type lighting effects, Krigstein uses patterns of dark and light in much more abstract ways. Instead of humanizing use of free shapes, Krigstein concentrates on using sharp angles and straight lines wherever possible”.
Essas novas formas de contar uma história em quadrinhos influenciaram artistas, como Art Spiegelman, que dali a alguns anos também explorariam narrativas de guerra que apresentavam também valor literário.
Após 1960, com os artistas underground, a guerra ganhou novos contornos, a começar pela do Vietnã. Ao passo que os heróis superpoderosos das grandes editoras sobreviventes, em especial a Marvel e a DC Comics, continuavam empenhados em combater um inimigo soviético ou asiático, os artistas undergrounds viviam a contracultura, o movimento hippie, as notícias transmitidas pelos correspondentes de guerra que denunciavam as atrocidades no front.
Surgiram histórias como Jesus Meets the Armed Services, criada por Foolbert Sturgeon em 1970. Nela, Jesus Cristo retorna no século XX e vai até uma unidade de alistamento para levar sua mensagem de amor ao próximo, mas termina por ser chutado pelos comandantes. Em Vietnam, de 1967, escrita pelo ex-congressista negro Julian Bond que após ser destituído de seu cargo por se opor à guerra, é questionado por que os negros deveriam lutar numa “guerra de brancos” por uma pátria que ainda os tratava como cidadãos de segunda classe e por que os Estados Unidos deveriam se meter no assunto de outros países e impor a própria vontade. Na história ilustrada por T.G Lewis, Julian Bond constrói o argumento refutando as várias justificativas usadas pelo governo para manter a guerra.
Alguns americanos dizem que Ho Chi Minh é um comunista e desde que outros membros da Frente Nacional de Libertação são comunistas, eles não falam pela população ordinária do Vietnam. Mas Harry Cabot Lodge, o embaixador americano do Vietnam do Sul, disse que ‘as únicas pessoas que têm feito algo pelo pequeno, pelo homem das bases, para erguê-los, são os comunistas (BOND & LEWIS, 1991, p. 12).
Nos anos 1980, Art Spiegelman escreve um dos capítulos mais importantes da história das HQs ao publicar Maus, a princípio como fascículo da revista Raw, editada por ele à época. Ao contar as experiências do pai, um sobrevivente do campo de extermínio Auschwitz, na Polônia, Spiegelman usa o discurso da memória para abrir feridas mal curadas do Holocausto, e isso assustou críticos, intelectuais e público: de repente, uma história representada por animais antropomórficos (judeus como ratos e nazistas como gatos) tinha tons tão reais que deixavam seus leitores desconcertados.
Para boa parte dos críticos literários que se sentiram desconcertados diante da potência de Maus, a história em quadrinhos que se atrevia a contar o tema mais traumático de todo século XX no Ocidente, era impossível compreendê-la, já que a primeira reação, quando por fim aceitaram a obra, foi dizer que Maus não era uma HQ. (...) Maus não só era uma história em quadrinhos, mas funcionava precisamente por ser uma história em quadrinhos e porque tinha suas raízes firmemente consolidadas na tradição das HQs de massa (GARCIA, 2012, p. 226).
Maus legitimou as histórias em quadrinhos (ou algumas delas) como uma forma de arte. A credibilidade alcançada pelo texto de Spiegelman – além dos diversos outros autores que escreveram obras autobiográficas em quadrinhos – Maus inspirou e abriu portas para o uso do jornalismo inserido na linguagem em quadrinhos. É onde entra Joe Sacco.