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1. INNLEDNING

1.3 N ERVESYSTEMETS UTVIKLING

Os quadrinhos não chegaram aos Estados Unidos pelos jornais, e sim pelas revistas e semanários ilustrados. No entanto, os quadrinhos modernos, como nós os conhecemos hoje, foram desenvolvidos a partir desses diários – mais notoriamente nas edições dominicais do jornal New York World, de Joseph Pulitzer, em 1889. O pesquisador em jornalismo estadunidense Michael Schudson (2010) faz algumas reflexões que elucidam porque Pulitzer introduziu uma página dominical de ilustrações e quadrinhos. O New York World veio da tradição dos chamados penny press – tabloides que circulavam desde a década de 1830 e praticavam o jornalismo de ideal literário, com ênfase nas histórias do cotidiano, crimes e escândalos.

Pulitzer percebeu na prática que caricaturas e ilustrações usadas para incrementar tal autopromoção aumentavam as vendagens, mesmo que ele próprio não fosse um entusiasta pelos desenhos. Uma das explicações para o ganho nas vendas vinha da imigração. Naquele final de século XIX e começo de século XX, o movimento imigratório de cidadãos europeus para os Estados Unidos era intenso. Apenas no ano de 1881, de acordo com Schudson (2010), mais de meio milhão de estrangeiros entraram no país, números que seriam repetidos e até superados ao longo daquela década. Esses imigrantes, que muitas vezes não falavam inglês, viam nas ilustrações e nos textos de gramática mais simples uma forma de se informar e de aprender o idioma. As ilustrações satíricas, as caricaturas e as tiras de quadrinhos ainda serviam de entretenimento para essas pessoas.

As primeiras histórias em quadrinhos foram publicadas numa página especial dominical em 1894. Sobre a escolha do dia da semana, havia duas razões para que as tiras e as ilustrações ganhassem os domingos. A primeira porque o primeiro dia da semana era usado pelos editores para lançar cadernos especiais e para testar experimentações. A segunda razão era atribuída aos imigrantes: domingo era o dia de descanso dessa massa de trabalhadores. Era quando essas pessoas tinham tempo de comprar jornais.

Em 1850, após forte imigração irlandesa, um entre nove nova- iorquinos passou a comprar um jornal de domingo. Os irlandeses e outros posteriores imigrantes chegavam ao país desprovidos do conservadorismo norte-americano relativo à obediência do sabá. Isso, somado à prática desenvolvida pelos jornais durante a Guerra Civil de imprimir edições especiais de domingo com as notícias bélicas, facilitou aos jornais a possibilidade de mergulhar no jornalismo dominical e atrair diretamente o interesse dos leitores para a diversão no dia de descanso. Por volta de 1889, um em cada dois nova-iorquinos comprava um jornal de domingo, constituindo mais leitores de jornais dominicais do que leitores de diários, naquele ano (SCHUDSON, 2010, p. 119).

A investida bem-sucedida do jornal World às ilustrações e quadrinhos foi seguida por outras publicações, em especial àquelas que também vinham da tradição da penny

press15: quadrinhos coloridos tomaram conta das edições dominicais em jornais por todo

Estados Unidos. Por causa do teor cômico do conteúdo, aquelas pequenas narrativas passaram a ser chamadas de comics. Mas é bom deixar claro que o conteúdo dos comics, mesmo que intencionalmente engraçado, não era feito para as crianças. Era um humor adulto, feito para o pai e chefe da família consumir primeiro, mas que depois ficava à disposição dos outros integrantes da casa: a esposa e os filhos. Era natural que as crianças se sentissem particularmente entusiasmadas com os jornais de domingo: os desenhos também se comunicavam bem com elas. Muitos dos quadrinistas que atuaram na chamada época de ouro dos quadrinhos, anos 1930 e 40, cresceram lendo tais jornais dominicais levados por seus pais, sendo influenciados por um tipo de humor adulto. Na mesma proporção, muitos dos ataques aos quadrinhos partidos de grupos conservadores – geralmente de elite –, criticaram duramente o suposto conteúdo dito impróprio dos comics para “suas crianças”.

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Modalidade de jornalismo surgida em 1830, que priorizava notícias curtas e de interesse geral. Os jornais de centavos tinham a classe trabalhadora e os imigrantes como público alvo.

O primeiro grande sucesso dos quadrinhos foi o personagem Mickey Dugan: uma criança observadora sarcástica que morava num lugar fictício chamado Hogan’s Alley. Por causa da coloração da folha do jornal, logo o personagem foi apelidado de “Yellow Kid” e assim tornou-se conhecido. Criado por Richard Felton Outcault, o Yellow Kid foi publicado no World pela primeira vez em 17 de fevereiro de 1895. O pesquisador e jornalista estadunidense David Hajdu (2008, p. 10) chama a atenção para o retrato cru que Yellow Kid fazia do imigrante pobre: “descalço, feio, inarticulado, preocupado apenas com os prazeres básicos, e disposto à violência”. Em vez de se sentirem insultados, os imigrantes tinham empatia com tais personagens que falavam como eles falavam. Os quadrinhos não procuravam criar aproximações e conversar com a classe social que tinha papel majoritário nas vendas desses diários.

O próprio Joseph Pulitzer era um imigrante nascido na cidade de Makó no então Império Austro-Húngaro (hoje, cidade da Hungria). Foi um judeu que se tornou um jornalista autodidata. Muitos dos ilustradores e primeiros quadrinistas também eram imigrantes ou pessoas provindas das classes sociais mais pobres.

Em sua mundanidade, o seu cepticismo em relação à autoridade, e o prazer que tinham com a liberdade, os primeiros quadrinhos nos jornais falaram às dilatadas populações imigrantes em Nova York e outras cidades onde eram distribuídos, principalmente através de syndication (embora cartoons feitos localmente aparecessem nos jornais em todos os lugares). Os funnies eram deles, feito para eles e sobre eles. Ao contrário de movimentos nas artes plásticas que cruzaram linhas de classe para evocar a vida das pessoas que trabalham, histórias em quadrinhos de jornal foram proletárias de um modo inclusivo (HAJDU, 2008, p. 11, tradução nossa)16.

Yellow Kid, além de ser o maior sucesso dos quadrinhos em seu tempo, também foi o primeiro produto de merchandising vindo desta narrativa. O personagem não apenas vendia jornais, como também estampava broches, era usado na propaganda de produtos, entre outros. Ele também foi alvo de uma disputa judicial entre Joseph Pulitzer e William Randolph Hearst – milionário da imprensa americana, dono de vários títulos, entre eles o

Morning Journal, maior concorrente do New York World em Nova York. Hearst, que

16No original: “In their earthiness, their skepticism toward authority, and the delight they took in freedom,

early newspaper comics spoke to and of the swelling immigrant populations in New York and other cities where comics spread, primarily through syndication (although locally made cartoons appeared in papers everywhere). The funnies were theirs, made for them and about them. Unlike movements in the fine arts that crossed class lines to evoque the lives of working people, newspaper comics were proletarian in a contained, inclusive way”.

também investiu pesado nos quadrinhos nas edições dominicais, contratou Richard Outcault. Pulitzer perdeu o criador, mas não o personagem: conseguiu na justiça deter os direitos de Yellow Kid, que passou a ser roteirizado e desenhado por outros artistas.

Ao tirar o controle artístico de Outcault sobre Yellow Kid, Pulitzer reforça um dos aspectos comentados por Edgar Morin (1997) sobre a cultura de massa e que se tornaria uma prática no mercado editorial estadunidense: a divisão de tarefas e a especialização dos processos. Mesmo que o autor original não esteja mais presente, a obra pode ser continuada por inúmeros outros profissionais que se sucedem. No entanto, para Morin, tal divisão de tarefas também pode ser vista como um retorno da lógica coletivista da arte que existia em seus primórdios (como nas construções de catedrais, dos painéis de anônimos). A diferença é que, a partir da perspectiva industrial, é da divisão do trabalho que faz surgir a unidade da criação (MORIN, 1997, p. 30). Ainda que muitas das tiras em quadrinhos permanecessem essencialmente autorais ao longo do tempo, essa divisão de produção viria a ser observada melhor quando os quadrinhos ganharam, mais uma vez, o formato de revista no início do século XX.