Se o dispositivo for tomado como um conceito essencial para a compreensão da sociedade contemporânea, será possível compreender que toda obra de arte fundadora acaba sendo, em última instância, aquela capaz de gerar transformações significativas nos regimes de poder, de conhecimento e de estética, estabelecidos nos campos de prática aos quais pertence, gerando derivações e atravessamentos no contexto no qual está inserida.
! De certa forma, toda tentativa de se delinear uma história da arte se concentra na busca por identificar os deslocamentos gerados por obras e artistas que produzem linhas de fuga que escapam aos sistemas estabelecidos no campo artístico, para assim gerar algo da ordem do novo. Aqui, torna-se necessário retomar a noção de novo trabalhada na introdução deste texto. Não se trata aqui de tomar o novo como aquele que se opõe ao velho, ao antigo, ao passado, para proferir certa ideologia da obsolescência, tal como são formuladas as campanhas publicitárias das empresas de tecnologia. O novo se refere às operações feitas entre coisas (dados ou informações) conhecidas visando a algo ainda não conhecido, não redundante, algo da ordem do novo.
! A partir desta concepção de novo se propõe aqui definir as ações artísticas que acabam por criar obras que possam ser consideradas como ocorrências não redundantes em seu contexto estético, sejam elas quadros, objetos, filmes, instalações ou vídeos
single channel. Tais obras são o resultado das mais diversas operações no campo de
virtualidades em que consistem as relações possíveis entre os diferentes elementos que organizam as sensibilidades contemporâneas. Chega-se aqui à concepção do artista como um pesquisador, organizador e materializador de conceitos e sensibilidades estéticas do seu tempo. Tal conceito, é preciso dizer, está em grande parte em conflito com aquela visão romântica da arte que toma o artista como um gênio intermediário entre o mundo e a inspiração divina
! Por outro lado, muitas vezes, uma obra artística visa rearticular não apenas os vetores estéticos estabelecidos em seus campos de atuação, como também no conjunto de dispositivos dos quais a sociedade em geral é constituída. Pensada desse modo, cada obra de arte tem potencialmente a capacidade de proporcionar uma reorganização no
sociedade. Não são raros os exemplos de artistas e movimentos que se lançaram nesta direção, desde os readymades de Duchamp até os trabalhos artísticos mais recentes produzidos no contexto do ativismo político, passando pelas apresentações provocativas do Futurismo Italiano, pela inserção da cultura pop no restrito circuito das artes provocado por Warhol. Estes e tantas outras obras fizeram entrecruzar questões artísticas com o contexto ético e político da sociedade.
! Ao entrarem em rota de colisão com os valores sociais de suas épocas, estas obras artísticas podem assim ser pensadas então como métodos capazes de disparar mudanças em contextos específicos da sociedade. Assim é possível ver um importante aspecto de todo dispositivo: seu caráter de método. Nestes casos, a articulação conceitual da obra de arte como método para provocar crises que visam mudanças na sociedade ou nas sensibilidades. Mas a noção de dispositivo como método tem permeado o campo da criação também de outras maneiras.
O dispositivo como método de criação
Seguindo o caminho do dadaísmo grande parte da produção contemporânea opera a partir de dispositivos conceituais que se tornam métodos para a geração de textos, imagens, filmes e experiências sensoriais. Multiplicam-se os artistas que criam seus trabalhos a partir do estabelecimento de conjuntos de regras, mais ou menos rígidas, que se tornam verdadeiros algoritmos a serem seguidos (por eles ou pelo público).
! A poesia dadaísta e mais adiante a poesia concreta souberam explorar muito bem o potencial do dispositivo como método de criação literária. Estratégia também utilizada em muitas performances desde os anos 1960, feitas exclusivamente a partir de uma série de diretivas a serem seguidas pelo público em um ambiente determinado pelos artistas. Documentaristas criam estratégias para a abordagem de suas personagens e para a captação de imagens, baseadas em regras muito bem arquitetadas, já que estas são tão importantes para o filme quanto a narrativa construída na montagem. Mesmo no terreno da ficção, é grande o número de realizadores que criam dispositivos rigorosos de captação, de montagem ou ainda de trabalho com atores para dar corpo à narrativa do filme. Nas artes visuais, o que vemos muitas vezes, ao visitar uma exposição, são os resultados de processos precisamente delimitados por um conjunto de instruções criadas e seguidas pelo próprio artista.
! Ao estabelecer processos que se desdobram a partir de um conjunto de instruções e procedimentos, estas obras são o resultado do emprego do dispositivo como método de
criação. As regras instituem uma configuração determinada de linhas de força e faz surgir, como desdobramento dos processos internos do dispositivo criado, um determinado regime de sentido, que é base de uma estrutura formal e simbólica que marca a estética da obra. Nestas práticas, o artista não visa criar uma técnica nova para chegar a uma determinada forma; o que ele faz é estabelecer tensões entre as técnicas, os processos, a sociedade, colocando a si próprio (ou ao público) a tarefa de enfrentar os automatismos inscritos no dispositivo criado, tendo sempre em vista a atualização das virtualidades presentes no seu algoritmo particular. Cada dispositivo detém uma especificidade própria e dá forma a uma organização específica de vetores conceituais que orientam a obra. !
O dispositivo de criação frente ao automatismo da máquina
Os algoritmos de ordem conceitual que permeiam as artes contemporâneas tornam-se ainda mais complexos e passam a envolver outras dimensões quando pensados em relação às práticas artísticas que se dão no campo das tecnologias da mediação. Se concordarmos com Flusser, quando ele diz que as máquinas são produzidas para solucionar certos problemas, mas que, na medida em que representam modelos conceituais do mundo, acabam por impor um número ainda maior de questões, seremos levados a entender que, no campo dos aparatos técnicos, a complexidade de uma arte voltada ao dispositivo é ainda maior.
! Devido ao elevado grau de automatização, os aparatos técnicos são o resultado da sedimentação de diversas camadas de métodos que se sobrepõem, tornando ainda mais complexas as relações entre os vários vetores de sentido de um dispositivo. Se o dispositivo técnico se torna a corporificação destes métodos em todas as suas dimensões possíveis em uma máquina técnica, ao criar uma obra que se apresente ela mesma como um aparato capaz de gerar imagens e sons, o artista está articulando uma complexidade sem tamanho de vetores conceituais. Mas, como todo método existe em função de uma pragmática e como o dispositivo organiza modelos conceituais em visões de mundo, criar um dispositivo técnico se torna então uma maneira de pensar pragmaticamente sobre os regimes de mediação técnica que permeiam a sociedade contemporânea. Este é justamente o papel do artista dos dispositivos, pensar pragmaticamente por meio de suas obras as mediações de sentido que produzem o mundo codificado.
! A maior complexidade de se pensar em uma arte que se volta à criação de novos dispositivos se deixa ver em algumas das problemáticas que se desdobram no campo da artemídia, levantadas na introdução deste trabalho. Surgem questões sobre como se
relacionam arte e tecnologia, projeto artístico e técnico ou científico, e sobre qual deve ser o lugar do artista, do designer e do programador frente à produção simbólica contemporânea. Por outro lado, o conceito desenvolvido de dispositivo, entendido como sinônimo de aparelho ou aparato técnico, oferece base teórica para se pensar tal problemática, uma vez que desloca as questões técnicas e estéticas para fora de qualquer forma de determinismo. O texto que segue lança um olhar sistêmico sobre a produção crítica que emerge no campo da artemídia, visando a estabelecer uma base teórica para se pensar a obra de arte como um dispositivo que projeta de si fenômenos que elaboram o mundo codificado.