4. STATUSBESKRIVELSE
4.2 N OEN FLERE EKSEMPLER PÅ AVHENGIGHETER
Flusser foi um dos primeiros filósofos a perceber a importância que as tecnologias de informação teriam na sociedade contemporânea, e se notabilizou por seus textos sobre o que ele definiu como aparato técnico. Malgrado seu mais conhecido livro ter sido lançado com o título original Für eine Philosophie der Fotografie (Para uma filosofia da fotografia), e continuar sendo lido por alguns como uma crítica à fotografia, suas reflexões extrapolam esta ou qualquer outra mídia em especial.
! Nesse aspecto, o título refeito por ele após a revisão que fez da obra para posterior lançamento no Brasil é mais adequado. Filosofia da caixa preta, portanto, trata dos processos de mediação por meios tecnológicos tomando a fotografia como objeto para uma análise que abrange todos os aparatos técnicos de comunicação, ou, como no título brasileiro, da “caixa preta”. O livro foi sua primeira investida teórica de fôlego sobre as questões que surgem a partir das tecnologias de mediação. Nos textos que se seguiram, ele amadureceu este pensamento, elaborando uma apurada filosofia sobre o aparato técnico. Em seu Elogio à superficialidade, publicado no Brasil como O universo das
imagens técnicas: um elogio à superficialidade, Flusser apresenta uma mais bem
orientada abordagem do tema aos aspectos abrangentes do aparato técnico, em meio ao cenário pós-histórico. Mais adiante, em textos como Nascimento de imagem nova4, De
sujeito em projeto5, Os gestos (1994), também em outros textos, aulas e entrevistas que
mais recentemente vêm sendo publicadas Flusser sistematiza a versão derradeira e madura da concepção de aparato em sua filosofia.
! Embora Flusser seja reconhecido como um dos primeiros, e mais importantes, pensadores das tecnologias de mediação que se estabeleceram nas últimas décadas, tanto sua filosofia quanto sua teoria da mediação atravessam o horizonte do aparelho técnico para refletir sobre a condição existencial humana, que surge juntamente à disseminação de tais tecnologias. Em geral, Flusser reserva o termo aparelho para tratar das tecnologias voltadas à produção de imagem; no entanto, um exame atento sobre sua produção revela que a noção de aparato extrapola o universo das imagens técnicas para tornar-se uma das bases mais essenciais do seu pensamento. A lógica de sustentação do seu conceito de aparato técnico permeia igualmente suas análises dos mais diversos sistemas expressivos. Ponto fundamental do método de análise de Flusser, a noção de dispositivo não se refere, portanto, exclusivamente ao conceito de aparato técnico, mas se estende a todos os modos de codificação de sentido que acabam por dar significado ao mundo, ou, em outras palavras, a partir dos dispositivos é que são produzidos os fenômenos que formam aquilo a que Flusser concebe como o mundo codificado.
! Para entrar no universo filosófico de Flusser é fundamental compreender como ele relaciona os conceitos de mundo concreto (ou natural), de mundo codificado e de aparato. As análises de Flusser partem da idéia de que o mundo concreto, aquele da natureza, é essencialmente absurdo, termo que acumula diferentes significados ao longo da história da filosofia.
! Em geral, absurdo é considerado como tudo aquilo que está fora da razão, que viola a lógica ou que é contraditório. Mas, tomando como referência o pensamento de Kant, Flusser entende o absurdo como tudo aquilo desprovido de sentido ou vazio de
consciência (2008: 23). A partir de então, Flusser assume o pressuposto de que, por
conta da existência absurda do mundo concreto, este se torna completamente desprovido de sentido e, portanto, inacessível a qualquer leitura. Mais adiante em seu pensamento, esta concepção será fundamental para pensar o fenômeno, e especialmente a imagem, não como uma leitura do mundo, mas como a criação de múltiplas realidades que se sobrepõe, imbricam e entrechocam. Isso porque, para o filósofo, toda apreensão que fazemos do mundo passa por um processo de elaboração que se dá não apenas pelos nossos sentidos, mas, sobretudo, pelos processos de mediação.
! O mundo codificado, este com o qual é possível toda experiência é, para Flusser, aquele concebido por Kant (1994) como “o conjunto de todos os fenômenos”, de modo que todo acesso ao mundo pode se dar somente por meio dos símbolos (signos, no sentido peirceano do termo) que emergem de tais fenômenos sejam eles artísticos, midiáticos ou, mesmo, científicos. A condição humana é, portanto, paradoxal: embora estejamos mergulhados no mundo concreto, não podemos nos agarrar às coisas imediatamente, pois existe sempre algo que nos separa do mundo, algo que deve ser transpassado por meio e através dos símbolos.
Há sempre, entre nós e o mundo, um mundo de segunda ordem, um mundo codificado, o qual procura lançar pontes sobre o abismo que nos separa das coisas, a fim de nos ʻdesalienarʼ. E ʻviverʼ significa, em grande parte, transitar por tais pontes construídas de ʻcódigosʼ, isto é, de símbolos
ordenados. (FLUSSER, Nascimento de imagem nova: 1)
!
! Desta maneira, Flusser desvia sua abordagem teórica tanto do subjetivismo quanto de uma postura existencial concebida por ele como histórica, a partir da qual tais códigos estariam previamente inscritos no mundo e caberia a nós desvendá-los a fim de revelar um mundo codificado anteriormente e que precisa ser decifrado, explicado, interpretado. Ao contrário disso, em sua concepção de pós-história, ele concebe o mundo como resultado dos processos de elaboração de sentido que se dão por meio das codificações que ocorrem tanto nos meios tecnológicos, quanto na escrita, no gesto, na sala de aula, nas embalagens, nos jornais, nos filmes, no futebol e em tudo o mais que é capaz de conferir sentido ao absurdo do mundo, inclusive na ciência.
Não são os números que são adequados ao mundo, mas o contrário: nós montamos o mundo de modo que se tornasse adequado ao nosso código
numérico. (FLUSSER, 2007b: 82)
! É a partir de tal constatação que se pode afirmar que a noção de dispositivo na filosofia de Flusser não se refere apenas ao conceito de aparato técnico, mas se estende a todos os modos de codificação de sentido que acabam por conferir significado ao mundo concreto. Com efeito, um dos pontos fundamentais de sua filosofia é a idéia de que o mundo que nos é acessível não existe fora dos dispositivos e que estes operam em função de tornar o mundo concreto apreensível, seja por meio de sensações, indícios, ou símbolos, no sentido em que Peirce deu a estes termos. Para Flusser (Nascimento de imagem nova: 1), todos os nossos conhecimentos, valores, desejos, projetos e esperanças são resultantes de informações em forma de textos ou imagens codificados por dispositivos de ordens diversas.
! Segundo a concepção aqui desenhada, os dispositivos não são apenas as estruturas de poder mais evidentes como aquelas descritas por Foucault, nem mesmo exclusivamente os aparatos técnicos, mas todo o sistema capaz de conferir algum sentido ao mundo. Como ponto importante da concepção de Flusser está o imperativo de que todo dispositivo é necessariamente de essência semiótica, ou seja, o motivo da existência de todo dispositivo é a criação de sentido, seja por meio da fala, dos gestos, de símbolos matemáticos, da escrita ou das imagens.