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4. STATUSBESKRIVELSE

4.3 K ONSEKVENSER OG EFFEKTER

Entretanto, não é sem motivos que Flusser restringe o uso do termo aparelho para aqueles dispositivos de ordem técnica. Por conta do alto grau de automatização e da abrangência dos processos de mediação na sociedade contemporânea, o filósofo dedicou grande parte dos seus textos aos aparatos técnicos, já que estes representam para ele o ponto mais agudo de uma cultura pós-histórica. Conceito central da filosofia flusseriana, o aparelho pode ser explicado a partir das influências da cibernética no seu pensamento, principalmente aquelas advindas das teorias quânticas, da biologia e da teoria da informação.

! Segundo tal perspectiva, o conceito de informação pode ser explicado como sendo um conjunto de dados organizados sintaticamente de acordo com uma formação capaz de lhes conferir significado. Na teoria da informação (FLORID, 2005), o dado é definido como um elemento desprovido de sentido, uma unidade puramente de registro, um elemento qualquer que, não tendo sido relacionado a outro, nada significa. Somente ao sofrer processo de associação é que o dado ganha forma e valor semântico para se tornar informação. Informação, portanto, é aquilo que surge de operações e associações realizadas sobre dados. Como resultado do processo de transformação de dados em informação é que surgem textos, teorias, conceitos, imagens etc.

! Segundo Flusser (2008: 24), os aparatos técnicos cumprem a função de organizar automaticamente os elementos pontuais (captados como dados computacionais ou do mundo concreto) para informar o mundo, de modo que estes elementos pontuais não são,

por si só, algo significante, mas apenas a matéria prima da qual algum signo pode surgir, ou seja, o mundo concreto é apenas o elemento de base para que o dispositivo produza múltiplos mundos possíveis por meio de fenômenos. De acordo com tal perspectiva, o aparelho pode ser entendido como uma máquina técnica que elabora signos (informação) automaticamente a partir do absurdo em que consiste tanto a natureza quanto o universo

dos dados. A partir desta concepção é possível verificar duas dimensões importantes de todo dispositivo, uma que se apropria dos elementos não significantes do mundo e outra que projeta as informações, sob a forma de imagens, à experiência do sujeito.

! Outro aspecto importante da abordagem que Flusser faz do aparato técnico é sua afirmação de que não são necessariamente os dados processados que conferem significado à informação, e sim as relações estabelecidas no interior do dispositivo que dão forma aos dados. Assim, Flusser compreende a informação como uma representação que não representa os dados (ou o mundo concreto), mas os próprios valores éticos, estéticos e ontológicos utilizados no processamento dos dados. É assim, na concepção de Flusser, que tudo aquilo que emerge a partir do aparelho representa uma forma específica de conhecimento e, também, certas intenções do criador. O modelo de conhecimento e as intenções daquele que cria o dispositivo se deixam ver, então, não apenas na maneira de se apropriar do mundo e de lançar imagens rumo à experiência do sujeito, mas, sobretudo, nas relações criadas entre dados programados em cada aparelho. De modo que é na forma como o dispositivo apreende o mundo, elabora o sentido e projeta as imagens como fenômenos que se pode ver intenções e modos de conceber o mundo do seu criador.

! Ao longo de sua obra, Flusser busca revelar o quanto essas apreensões que fazemos do mundo são resultados da automatização dos processos de codificação dos signos que surgem dos aparelhos. Para ele, existe uma lógica própria a cada dispositivo que se estabelece de acordo com certo modelo, formulado a partir de conceitos que, em última instância, representam valores. De modo que o mundo dos fenômenos é resultado desses modelos de ordem epistemológica, ética e estética, que se instalam nos programas inscritos nos dispositivos. Daí a importância dos processos de codificação programados no aparelho, uma vez que sua maneira de relacionar elementos não dotados de sentido anterior (dados de um database ou do mundo natural inapreensível) representa uma visão de mundo específica.

! Tais processos de codificação são o que Flusser chama de programas. Esta idéia de programa extrapola aquela a que estamos habituados a utilizar para fazer referência ao software produzido para ser executado nas unidades de processamento dos computadores. Um aplicativo de computador pode ser entendido como um conjunto de instruções escritas em uma determinada ordem, que informa ao computador quais as operações matemáticas que devem ser executadas e em qual ordem. Cada conjunto e subconjunto de instruções ordenadas é chamado de algoritmo. No entanto, o conceito de algoritmo não se restringe exclusivamente a um aplicativo de computador, mas se refere

aos procedimentos necessários para se realizar uma tarefa, qualquer que seja ela, de modo que algoritmo vem a ser uma abstração, um método para realizar algo, estando ele em um computador ou não.

! Assim, a concepção flusseriana de programa atravessa tanto os aplicativos quanto as coisas duras (hardware) da máquina técnica para se referir a procedimentos operados (como algoritmos) no conjunto de conceitos e valores de um dispositivo. As operações realizadas no campo conceitual pelos algoritmos dos programas flusserianos acabam por criar os modelos que representam visões de mundo. Em outras palavras, a operação destes modelos conceituais pelos algoritmos programados nos dispositivos técnicos elabora o mundo de acordo com uma dada estrutura de conhecimento. Para compreender melhor como se dão essas relações entre os conceitos de dispositivo e programa em Flusser torna-se necessário distinguir entre o que se pode entender como máquina

técnica, aparelho e instrumento.

A questão da determinação tecnologia

Flusser situa o aparelho como sendo um tipo específico de máquina, que, por sua vez, pertence a um gênero particular de instrumento. Como instrumento, Flusser (Nascimento de imagem nova: 13) define tudo aquilo que tomamos como extensões do nosso próprio corpo. As funções da mão humana, por exemplo, podem ser estendidas ora por um martelo ora por um garfo, ora por uma pinça ora por um alicate. Todos estes, tomados como aprimoramentos de certas funções do corpo, são entendidos como instrumentos. A máquina, por sua vez, é definida por Flusser como um instrumento elaborado a partir das teorias científicas. Como um instrumento complexo, a máquina é essencialmente tecnologia, na medida em que aplica a ciência na direção de algum objetivo, visando solucionar uma tarefa de modo a superar o instrumento simples.

! A partir das delimitações de instrumento e máquina, Flusser (Nascimento de imagem nova: 13) define aparelho como sendo uma máquina que visa a produção de significados. “(...) aparelhos são instrumentos que passam pelo crivo de teorias para fabricarem significados; ou: aparelhos são máquinas que não visam tanto mudar o mundo quanto lhe dar significado”. Para Flusser (2004: 26), o aparelho se configura quando uma máquina técnica (uma tecnologia) visa criar, preservar e transmitir informações. Devido à sua essência semiótica, tudo que o aparelho é capaz de gerar (imagem técnica, artefato, gesto, aula) passa a ser então uma “represa de informação” gerada a partir da automatização tecnológica. Mas se a máquina técnica implica a utilização das teorias

científicas, ao colocar em operação algoritmos baseados em modelos epistemológicos (visões de mundo) e não em operações matemáticas, o aparato se desvincula definitivamente da determinação tecnológica impregnada na máquina. Assim, Flusser explica o dispositivo a partir da teoria cibernética, sem, no entanto, se deixar restringir pelos imperativos objetivistas das ciências exatas e biológicas e nem, tampouco, pelo funcionalismo que permeia o desenvolvimento da tecnologia.

! A filosofia de Flusser avança, portanto, em oposição a uma concepção funcionalista do aparato técnico que permeia tanto os discursos motivados pelo poder comercial de setores da indústria e de serviços que lucram com o mercado de tecnologia, quanto o engajamento ingênuo no fetiche estimulado por tal ideologia. Segundo esta perspectiva ufanista, o aparato técnico se converte em um instrumento a ser utilizado em favor das intenções do seu operador, estando este habilitado a criar, comunicar, gravar, editar, distribuir conteúdo livremente. Entretanto, a análise deste discurso mostra uma contradição em seus fundamentos, importante o suficiente para fazer confundir muitos teóricos, críticos e artistas.

! Entender o aparato técnico como um instrumento a ser usado significa fazer prevalecer seu aspecto de máquina em detrimento do seu aspecto de dispositivo. Trata- se então de duas posturas que se contrapõem uma à outra. A análise desta oposição parte da concepção de instrumento como um objeto produzido para um determinado propósito, ou, nas palavras de Flusser (1994: 189), um objeto bom para algo. Este algo, motivo e propósito do instrumento, a um só tempo, faz parte e dá forma ao instrumento de modo a formatar tudo que pode ser gerado por meio dele. Assim, por sua falta de consciência dos modelos operados no âmbito do dispositivo, o sujeito que toma o aparato técnico como instrumento passa a proceder automaticamente de acordo com os programas do aparelho e acaba por se tornar o próprio objeto de tais modelos.

! Esta é, portanto, a base da concepção de “funcionário” de Flusser: aquele que, acreditando usar o aparato como instrumento de seu propósito acaba não percebendo que o resultado de sua ação está condicionado às virtualidades das formas previamente programadas no aparato. Na tentativa de objetificar o aparato, o funcionário acaba sendo usado pelos modelos de conhecimento, poder e estética que estão inscritos na máquina, sendo assim incorporado ao programa do dispositivo.

! Flusser acredita que, se o aparato técnico apresenta uma dimensão maquínica, isto é, tecnológica, ele mantém também essências de ordem epistemológica, política e estética, de modo que lidar com um aparato técnico consiste, primeiro, em desvendar essas dimensões que se apresentam codificadas pelas tecnologias, para então, passar a

jogar com elas de modo a operar efetivamente no nível dos fenômenos que são lançados aos sentidos.

O aspecto instrumental do aparelho passa a ser desprezível, e o que interessa é apenas seu aspecto brinquedo. Quem quiser captar a essência do aparelho, deve procurar distinguir o aspecto instrumental do seu aspecto brinquedo, coisa nem sempre fácil, porque implica em problema de hierarquia de programas, problema central para a captação do

funcionamento. (FLUSSER, 2002a: 26)

Se for possível pensar uma arte que vise à criação de obras que se apresentem como dispositivos esta deve ser entendida como resultado das articulações entre a técnica e a estética de questões de ordem da ontologia, da ética e da epistemologia dos fenômenos que emergem dos processos de mediação, tais como imagens, sons, gestos, textos, conceitos e teorias. Uma análise de tal prática implicaria então que cada obra fosse tomada como um dispositivo técnico específico, para então proceder a uma análise do programa empregado pelo artista na elaboração de seus próprios modelos e de como esses modelos se relacionam com os regimes de sentido em vigor no contexto no qual a

obra-dispositivo encontra-se inserida. O dispositivo surge, então, como uma estratégia

viável para pensar a artemídia para além dos determinismos de toda ordem, permitindo que se desvie tanto das questões restritas ao desenvolvimento tecnológico quanto do engajamento ingênuo na tecnologia que faz crer que é possível atuar unicamente no campo estético sem se ater aos problemas que emergem da máquina técnica.!