Segundo Goffman (1988, p. 11), o termo estigma advém da Grécia Antiga e foi criado com referência “aos sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinária ou mau sobre o status moral de quem os apresentavam”. Logo após, no cristianismo, as marcas corporais tinham um outro significado: referiam-se à “graça divina” e eram consideradas também como referência médica, representando distúrbios físicos. Na atualidade, o estigma é representado como uma ameaça social, um mal que deve ser evitado, uma identidade deteriorada por uma ação social. Como afirma o autor:
A sociedade estabelece os meios de caracterizar as pessoas e o total de atributos considerados como comuns e naturais para os membros de cada um dessas categorias: Os ambientes sociais estabelecem categorias de pessoas que têm probabilidade de serem neles encontradas (GOFFMAN, 1988, p.11).
Assim, a sociedade estabelece estereótipos e institui como as pessoas devem ser, determinando um padrão para o individuo e tornando-o normal. Quando não se consegue estabelecer parâmetro com o grupo, nasce o conceito de estigma, um sinal, visível ou não, que diferencia o outro da normalidade. Goffman (1988, p. 13) conclui que:
O termo estigma, portanto será usado em referência a um atributo profundamente depreciativo, mas que é preciso, na realidade é uma linguagem de relações e não de atributos. Um atributo que estigmatiza alguém pode confirmar a normalidade de outrem, portanto ele não é nem honroso e nem desonroso.
No pensamento de Goffman (1988), a sociedade é apresentada com expectativas que orientam as relações sociais que abrangem demandas referentes ao que o indivíduo deveria possuir: a sua identidade social virtual e a sua identidade
social real. O autor explica:
[...] enquanto o estranho está à nossa frente, podem surgir evidências de que ele tem um atributo que o torna diferente do outro que se encontram numa categoria em que pudesse ser incluído, sendo, até de uma espécie menos desejável - num caso extremo, uma pessoa completamente má, perigosa ou fraca. Assim deixamos de considerá-lo criatura comum e total, reduzindo-o a uma pessoa estragada e diminuída. Tal característica é um estigma, especialmente quando seu efeito de descrédito é muito grande – algumas vezes ele também é considerado um defeito, uma fraqueza, uma desvantagem- e constitui uma discrepância entre a identidade social virtual e a identidade social real. (p.12).
sobre as classificações de estigma ligadas aos tipos de relações sociais: endógenas, que ocorrem quando existe interação entre os grupos estigmatizados; e exógenas, que dizem respeito às relações sociais entre os indivíduos estigmatizados e os indivíduos “normais”. É importante esclarecer que a dinâmica social faz com que o estigma tenha uma dimensão dialética:
[...] o estigmatizado é aconselhado a agir como se os esforços dos normais para facilitar-lhes as coisas fossem efetivos e apreciados. Oferecimentos não solicitados de interesse, simpatia e ajuda, embora quase sempre percebido pelo estigmatizado como uma intromissão em sua intimidade e uma demonstração de presunção, devem ser aceitos com tato. (GOFFMAN, 1988, p.129-130).
Assim, consideramos como objeto de pesquisa a relação exógena que se dá entre os técnicos da HABITAFOR e os moradores dos conjuntos habitacionais, na qual os primeiros impõem práticas para ordenar a ocupação do espaço e as práticas cotidianas.
Os atributos, em si, não produzem estigma – tanto é que, no caso da favela, sabe-se que não se trata de um lugar estático, lócus de pobreza, pois ela engloba espaços heterogêneos, muitos com boas condições de habitabilidade, como foi mencionado no Capítulo 1. No entanto, o estigma persiste, recaindo, inclusive, sobre moradores beneficiados com Programas de Habitação de Interesse Social. Como ressalta um deles,
[...] muitos moradores estendem as roupas na janela, aí as pessoas que passam não sabem da nossa realidade e até criticam, dizem: Ó, ainda continua favela porque ficam estendendo roupa, peça de roupa na janela. (Entrevista nº 06, 17/02/2012).
A persistência do estigma é explicada por Gondim (1981/1982, p. 28):
[...] o estigma de favelado permanece, na medida em que se mantêm de pé as condições que o originaram: situação de inferioridade econômica, social e política do grupo favelado com relação aos grupos estigmatizadores. E para estes, a estigmatização continua servindo como justificativa ideológica para essa situação de desigualdade.
Pode-se considerar, então, que além de uma situação de desigualdade, o estigma decorre do exercício de poder simbólico, construído socialmente e internalizado pelos indivíduos (BOURDIEU, 2005). No caso desta pesquisa, esse poder simbólico como uma forma de dominação que continua persistindo tanto entre os moradores dos conjuntos habitacionais, quanto entre os profissionais que atuam nos Conjuntos Habitacionais de Interesse Social.
O habitus é outro conceito de grande valia para se compreender como funcionam as relações entre o poder e o estigma, visto que o habitus é um conjunto de habilidades, comportamentos e maneiras construídas socialmente com o objetivo de garantir uma ordem social. Daí tratar-se de um conceito útil para entender as ações e representações que são construídas pelos moradores dos conjuntos habitacionais após a transferência da favela. Os técnicos da HABITAFOR buscam implementar a formação de um novo habitus, como se percebe na fala de um morador:
Tem gente andando aqui, tão fazendo um trabalho, tão querendo organizar a mente da população, não é? Mudar porque a Maravilha, a Favela Maravilha, se sumiu, mas a população é a mesma não é? Então tem que ter organização, tem que educar essas pessoas assim mal-educadas. Tem tipo de gente assim muito suja, minha casa é assim bagunçada, mas eu tento manter a estrutura aqui e tem gente que não tem condição nem de se manter, cria cinco cachorro dentro de casa e num sei quantos gatos. Tem casa aqui que de longe você passa e sente a catinga. Tem pessoas aí que tinham que ser mais organizadas, não é? Dá uma orientação de como manter uma casa, limpar duas vezes na semana, passar um pano, não é? (Entrevista nº 05, 28/10/2011).