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4. PRESENTASJON OG DRØFTING AV FUNN

4.2 U TFORSKINGSFASEN

Nesse momento, e em relação ao fenômeno já instaurado da Resistência, as instituições da Itália ocupada também passaram a desempenhar novos papéis. Se ao longo dos anos do fascismo suas diretrizes haviam sido pautadas numa retórica tão fanática quanto frágil por seu caráter ditatorial, com as alterações libertárias seguidas à Resistência as duas principais instituições da Itália ocupada, Igreja e Exército, foram obrigadas a rever seu lugar no novo conflito instaurado. Além disso, com a aproximação do fim da Guerra, novas entidades representativas foram criadas para mediar a transição e/ou fundar as bases políticas para a nova Itália.

Após a Primeira Guerra e ao longo de todo o fascismo, a Igreja mantinha uma aliança com os ideais do Império Fascista com base em interesses recíprocos e se ocupava da

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reconstrução da Itália e das almas. Com a entrada da Itália em guerra, a Igreja tentou não se pronunciar abertamente enquanto instituição e permanecer acima de todas as partes envolvidas, mas, na prática, três vertentes distintas operavam nos discursos da instituição. Um incutia nos fiéis a ideia de que a Guerra é punição aos pecados; um segundo justificava a Guerra como uma vontade divina, ―Deus quer, a História precisa‖; e um terceiro pregava que um cristão não deve odiar nem matar. Juntamente com isso, a Igreja pregava ainda que em guerra ―morrem sempre os melhores‖, o que justificava as mortes e gerava culpa nos sobreviventes. Com a decadência do fascismo e o advento da RSI, a Igreja foi se afastando do fascismo e, enquanto instituição, tentou continuar acima de todas as partes. Mas voltou a viver inúmeros dilemas no nível do indivíduo: o debate sobre a ―guerra justa‖ volta às consciências no embate entre RSI e Resistência. Pois, se um soldado mata em guerra, ele está defendendo seu povo e cumprindo seu dever. Mas se uma guerra se dá no interior de um mesmo país, o quinto mandamento estaria, sem justificativas, ferozmente violado, e a Igreja não poderia apoiar uma guerra fratricida.

Já o Exército, cujos soldados dos primeiros três anos de guerra eram ―bons e não viam motivo naquela guerra‖, quando desfeito, dá lugar a soldados lutando numa guerra violenta e cruel, de uma violência política que nada guardava da falta de engajamento do Exército Régio. A Resistência seria para os jovens aventureiros e desertores do exército uma oportunidade para, rompendo com o caráter hierárquico da instituição, realizar um acerto de contas. Neste acerto, o Exército Régio foi fortemente penalizado pela traição feita, e seus oficiais de carreira, em sua grande maioria, ficaram de fora da Resistência, enquanto que os soldados rasos do Exército Régio seriam a base da Resistência. O fato de que ex-soldados – rasos ou não – tenham constituído a Resistência gerou a dificuldade em diferenciar ex-fascistas de resistentes, confusão que fez com que os criminosos de guerra do Exército Régio nunca tenham sido entregues aos Aliados (esse objetivo nem mesmo chegou a fazer parte dos planos da Resistência).

As distintas posições no interior das instituições podem ser pensadas também a partir de suas divisões hierárquicas. Tanto na Igreja quanto no Exército era radical a diferença entre o que pregavam – antes ou depois da Resistência – o alto clero e as altas patentes do Exército, ambos comprometidos política e ideologicamente com o fascismo, em oposição ao baixo clero e aos soldados rasos, que dada a distância hierárquica das

decisões tomadas no interior das instituições, viviam perplexidades subjetivas e dispunham de certa liberdade para agir no registro de um cotidiano inserido na comunidade.

Há que se distinguir ainda os soldados regulares do rei, servindo no sul da Itália sob dominação dos Aliados, e os rebeldes do Norte, que, embora pudessem ter o mesmo objetivo – a expulsão dos alemães e a extinção do fascismo –, eram movidos por princípios e motivos radicalmente distintos. No Sul, o poder do rei ditava as regras e os combatentes lutavam sob a dominação de um líder, a quem deviam fidelidade e lealdade. No Norte, os partigiani não serviam a ninguém e se organizavam muito livremente em grupos – muitas vezes lutando entre si – para, na tentativa de romper definitivamente com tudo o que a Itália representava, gerar algo novo, livre das amarras do passado, livre de fascistas, invasores, igrejas e até reis.

Com o passar do tempo e a demora da avançada aliada, a Resistência foi se tornando um fenômeno organizado. Surgem os Comitati di Liberazione Nazionali, órgãos semilegais que negociavam com os aliados a avançada, quase como que preparando o terreno para o fim da Guerra e o retorno do país a mãos italianas. Nesse segundo momento da Resistência, surgem também os partidos, principalmente o Partido Comunista Italiano, fortemente ligado à URSS comunista. Os partidos se opunham abertamente apenas no que dizia respeito ao futuro da Itália, mas concordavam na parte mais relevante: a Itália deveria ser liberada de fascistas e alemães e, como não havia outra possibilidade, a luta armada realizada por grupos de resistentes deveria prosseguir e, com o fim da Guerra, a Itália deveria tomar um novo rumo nas mãos dos novos representantes democráticos. Para que isso acontecesse, os partidos, totalmente legais, através dos CLN, que transitavam entre legalidade e ilegalidade, financiavam a Resistência: ―O enraizamento dos partidos na sociedade italiana do pós-guerra teve certamente um dos seus pressupostos nessa presença resistencial dos partidos, que ainda hoje legitima o arco constitucional dos partidos da República Italiana‖ (PAVONE, 1991, p. 148).

À medida que os partidos tinham mais acesso aos grupos de resistentes, com o objetivo de organizar o fenômeno da Resistência para obter resultados, começaram também a interferir politicamente na formação de seus componentes, moldando as consciências para o pós-guerra: ―Um material, por assim dizer, politicamente amorfo, quem chegou

primeiro para ajudá-los, para estimulá-los, para lhes dar conselhos com uma maior experiência, pôde orientá-los em direção às próprias posições políticas‖ (PAVONE, 1991, p. 151).

Compostos por jovens que tinham crescido sem conhecer nenhuma outra forma de política que não fosse o fascismo, os grupos de resistentes começaram a se dividir entre os apoiados por partidos – dependendo do partido variava também a orientação política e o nome recebido – e os autônomos, que não recebiam auxílio regular de nenhum partido e não expressavam direcionamento político a priori. As formações dos grupos apoiados pelo Partido Comunista denominavam-se I Rossi– os Vermelhos – e aquelas

sem orientação política, apenas patriotas, e por vezes monarquistas, Gli Azzurri – os

Azuis. Embora a problemática da presença política na Resistência seja bem mais ampla e não se limite à adesão ou não aos partidos por parte das formações (PAVONE, 1991, p. 161).

A questão relacionada à escolha de em que formação lutar, trouxe ainda maiores problemas para os resistentes:

Bastava tornar-se anti-alemães para deixar de ser fascistas? O documento comunista (...) parece negá-lo; e certamente nenhum ―anti-alemão‖ continuou a se qualificar como fascista. Mas se fascista se assumia em sentido forte, aí a perspectiva se tornava menos linear; e a suspeita com que foram vistas, por aquelas politizadas, as formações ―autônomas‖, meramente militares ou patriotas, parece poder ser atribuída não apenas a sectarismo político, mas à percepção de uma diferença de substância e de um não resolvido emaranhado da consciência nacional lidando com o problema da própria responsabilidade diante do fascismo e da guerra (PAVONE, 1991, p. 259).

Como vemos, as consciências em jogo na Itália do período resistencial estavam lidando com um número não facilmente delimitado de variáveis, em que rompimentos e retomadas tanto institucionais quanto subjetivas alteraram o desenrolar dos fatos no pós- guerra italiano.