4. PRESENTASJON OG DRØFTING AV FUNN
4.4 I GANGSETTINGSFASEN
4.5.2 Rådgivningsforholdet
É nesse momento, de uma maior organização política, que os ―rebeldes‖ e os ―desertores‖ passam a ser chamados indiferentemente da origem ou da orientação política, de partigiano. Palavra inicialmente rechaçada pela sua etimologia – ―de parte‖ dava a ideia de alguém que luta em prol de uma parte e não de outra –, com o advento da politização entre os bandos, a palavra ganha o sentido histórico dos partizans russos e passa a designar ―resistentes‖, cobrindo semanticamente todos os envolvidos na luta pela liberação italiana, comunistas ou não.
O primeiro grande desafio dos partigiani foi aquele de se desvincular da ideia de que seu comportamento era de antipatriotismo ao desejar que a Itália perdesse a Guerra. Outra dificuldade era aquela de lutar contra seus compatriotas numa guerra fratricida30.
Os partigiani tentaram também criar um novo ideal de pátria, mas a empreitada não foi bem sucedida, porque a outra metade da Itália estava apenas arrasada com a Guerra e não motivada pela insurreição da Resistência31: ―O fato de que italianos combatessem contra italianos e que uns e outros invocassem a Itália tornava de fato mais difícil, mas também mais urgente, a reconquista de um seguro sentido de pátria‖ (PAVONE, 1991, p. 173).
Um orgulho partigiano foi o de ter rompido, ou desejado romper, com tudo o que o fascismo tinha representado. Marcado pela dureza da experiência da guerra, rechaçando qualquer comportamento religioso, o partigiano provou ser mais competente que os oficiais militares de carreira e poder fazer a Resistência sem o auxílio do ―hierárquico e burocrático‖ Exército Régio: ―A identidade nacional não podia então ser reconstituída que tirando de si o secular destino que tinha feito da Itália apenas o palco dos grandes dramas históricos recitados como protagonistas por outros povos‖ (PAVONE, 1991, p. 179).
30―Os italianos são o único povo (acredito) que tenham na base da sua história (ou da sua lenda) um
fratricídio‖ (SABA apud PAVONE, 1991, p. 267).
31 ―Una parte d‘Italia aveva subito la miseria della guerra, non la scossa morale dell‘insurezione‖ (PARRI
Muitos foram os paradoxos vivenciados pelos indivíduos envolvidos, entre eles a problemática relação entre legalidade e ilegalidade, voluntariado e financiamento partidário; ou, ainda, o dilema sobre até que ponto o direcionamento político diminuía a liberdade das formações, se receber ou não receber dinheiro dos partidos, e, caso optassem por receber, se deveria haver distinção entre o honorário dos chefes de bandos e dos outros partigiani; havia ainda a dúvida, às vezes política, outras aleatória, sobre em que grupo lutar; e, por último, os italianos se perguntavam se, uma vez expulsos os alemães e fascistas, em que medida a ocupação da Itália por ingleses e americanos consistia numa boa troca: ―Dos Aliados, então, não se podia prescindir, mas era necessário manter diante deles autonomia e dignidade, diferenciando-se, também nisso, do comportamento dos fascistas em relação aos alemães‖ (PAVONE, 1991, p. 193).
A intensificação da Resistência italiana após o 8 de setembro seria recebida com desconfiança e alguma admiração pelo países Aliados, o que reforçava ainda mais nos
partigiani a necessidade de provar seu rompimento com a Itália anterior. A relação entre Inglaterra e Itália estava abalada pelos primeiros anos de guerra, mas não se podia prescindir daquela massa de soldados que, voluntariamente, se colocava à disposição dos países Aliados para lhes ajudar a vencer a Guerra.
A admiração é maior enquanto – digamos francamente – no exterior era difusa a opinião de que uma coisa parecida os italianos não teriam feito nunca (...). A idéia que neles seja defeito não tanto a coragem física quanto a virtude militar e até a vontade de lutar, não é de hoje e não é de ontem32.
Já os fascistas da RSI demonstraram dificuldade em reconhecer a própria existência dos
partigiani.
Os fascistas têm de fato dificuldade em compreender como se possa não ser heróicos (...) e ao mesmo tempo não ser banais. Para além dos objetivos de propaganda, o uso de expressões como ―bandidos‖ (...) manifestava o forte desconforto diante de um fenômeno imprevisto, que se tentava exorcizar atribuindo
32
o nascimento e o desenvolvimento a agentes externos (PAVONE, 1991, p. 239).
Na base dessa negação fascista, estava uma profunda incredulidade na possibilidade real dos antifascistas de pegar em armas. Dessa incredulidade advinha a maior dificuldade em sair vitoriosos daquela guerra civil contra os partigiani: ―A segurança por muito
tempo gozada pela cobertura institucional, o desprezo pelo adversário (...) tornava os fascistas não preparados para enfrentar uma verdadeira guerra civil combatida por ambas as partes‖ (PAVONE, 1991, p. 240).
Quanto ao dia a dia daqueles vinte meses, é importante lembrar que tanto o governo do rei quanto o governo fascista evitaram, em comum acordo com seus respectivos aliados, provocar um enfrentamento direto entre seus exércitos. O enfrentamento se daria entre RSI e partigiani, levantando mais uma vez a discussão sobre a relação inexistente entre Exército Régio no sul da Itália e partigiani no norte.
Esta é uma confirmação de que a guerra civil não foi combatida entre Reino do Sul e República Social Italiana. Foi uma guerra combatida entre os fascistas e anti- fascistas, sobre o único território que os via ambos presentes politicamente e militarmente, numa partida que assumia também um significado envolvendo todo o povo italiano (PAVONE, 1991, p. 238).
Os fascistas da RSI nada ofereciam de novo em relação aos fascistas dos primeiros anos de guerra; ao contrário, se mostravam desesperados. O surgimento do partigiano trará outra possibilidade de identificação e uma nova perspectiva para o acerto de contas com o passado, cheio de esperança e projetos. O aparecimento desse novo oponente levará os fascistas a um ulterior desgaste em sua função e naquilo que representavam para o povo italiano.
O persistente uso de ―fascista‖ como epíteto injurioso, global e resumidor das ignomínias capazes de se instalar em um ser humano, pode se considerar uma extrema conseqüência desta dilatação, em que a RSI deu uma conclusiva contribuição no conteúdo semântico da palavra além dos limites historicamente verificáveis (PAVONE, 1991, p. 260).
No final da Guerra, a escolha pela Resistência tornou-se ainda mais dramática. O inverno de 1944 foi rigoroso; os fascistas e alemães, já cientes de que perderiam a guerra, tinham se tornado mais cruéis e menos tolerantes com os partigiani; havia uma maior escassez de comida e as batalhas diminuíam entre RSI e partigiani com a avançada aliada. Nos últimos meses de guerra, muitos foram os partigiani, que, não suportando tantas provações físicas, se esconderam em lugar mais confortável, esperando a Guerra acabar.
Contínua era a necessidade de renovar a escolha [pela Resistência] cada vez em condições ainda mais difíceis daquelas dos primeiros meses (…). A escolha deve ser, portanto, considerada, muito mais do que como uma instantânea iluminação, como um processo que a cada vez abre o caminho por meio de provações, porque cansados estão os homens que a vivem (PAVONE, 1991, p. 39).
A República Social Italiana, ou República de Salò, o governo-fantoche sob domínio alemão, durou até abril de 1945, quando Benito Mussolini e sua amante Clara Petacci foram capturados, julgados rapidamente e fuzilados, e seus corpos expostos em praça pública, em Milão. Era o verdadeiro fim da Segunda Grande Guerra. Como tinham esperado os italianos em 25 de julho e em 8 de setembro de 1943 e como tinham desejado nos 20 meses seguintes.
E aí? – gritei a eles diminuindo a velocidade da bicicleta. E tanta era naqueles dias a identidade de sentimentos e pensamentos que eles entenderam muito bem o sentido da minha pergunta e, embora não me conhecessem como eu não os conhecia, responderam com um gesto alegre de mão: – Foram embora!33.
33
2 O Neorrealismo
A Resistência foi na história, na política, na cultura e na sociedade italiana a herança mais importante deixada pela Segunda Grande Guerra para a Itália (enquanto que dos três primeiros anos de guerra fala-se pouco ou nada, como que num recalque do fascismo): a experiência de desobediência em massa, vivida pela primeira vez na história da Itália unida34, deixou muitos frutos: politicamente, a Itália foi um prolongamento daquele cenário até os anos 1990, com o início da Segunda República, e ainda é, hoje, o que se organizou entre os partidos naquele período; socialmente, ainda vive a problemática de classes e sindicatos alavancada com o proletariado naquele momento; e, culturalmente, ainda se remete, com frequência, para reafirmar ou negar, às questões estéticas levantadas a partir daquela guerra civil.
A produção cultural do pós-guerra na Itália, principalmente literária e cinematográfica, é conhecida pela ―etiqueta‖ Neorrealismo. A palavra tem origem no movimento alemão de reação ao Expressionismo, denominado Neue Sachlichkeit, de onde quase certamente deriva o vocábulo italiano Neorrealismo, também em final dos anos 192035. Mas a palavra permanece pouco utilizada na língua italiana até o ano de 1942, quando é empregada, no sentido que conhecemos hoje, por Mario Serandrei, montador do filme
Ossessione, de Lucchino Visconti. Em uma carta ao diretor, Serandrei diria: ―Não sei como poderia definir este tipo de cinema se não com o apelativo de neorrealístico‖. Em 1943, a etiqueta se estende do cinema à literatura, assegurando assim a autonomia do vocábulo em relação à sua origem alemã 36 e ao seu uso literário – Realismo – na Itália dos anos 1930, de que o Neorrealismo não é uma retomada.
O Neorrealismo não foi um movimento organizado, apesar de no cinema ter tido um grande amadurecimento da discussão teórica. Não tem manifestos nem artistas reunidos nem obras de caráter exclusivamente panfletário ou engajado. Embora as raízes do rompimento que o Neorrealismo realizou estejam localizadas no começo do regime fascista, segundo Maria Corti, filóloga e crítica italiana, são nos últimos anos de Guerra, 34 PAVONE (1991). 35 BRUNETTA (1972, pp. 129-136). 36 CORTI (1978, p. 29).
principalmente pela influência da Resistência – ―de onde [deriva] o seu caráter mais coletivo e ligado a um processo generalizado de liberação‖37– que tal rompimento se manifesta. Assim, por ―Neorrealismo‖ entende-se aqui um conjunto de manifestações artísticas fruto de um mesmo ambiente, nem sempre produzidas durante os anos de imediato pós-guerra, mas contaminadas pela experiência de uma Itália arrasada por uma guerra perdida, apoiada moralmente numa Resistência vitoriosa38. Esteticamente, poderia dizer, com André Bazin, que o que justifica o epíteto de ―Neorrealismo‖ é certa ―vontade de realismo‖, em oposição ao esteticismo39
.
O Neorrealismo, tanto cinematográfico quanto literário, teve como matriz a Segunda Grande Guerra e diante daquele cenário elaborou a renovação das linguagens na tentativa de uma nova forma de fazer arte, no caso, e não por acaso, naquele momento, fortemente marcada pela cinematografia. O cinema, filho da possibilidade técnica surgida com a fotografia, representava a possibilidade de ―mostrar‖ a realidade ―exatamente como ela se dava‖, foi a linguagem preferencial para uma tentativa de ficcionalização/transliteração do real. Numa profunda relação com o documentário, o cinema neorrealista extrapolaria as fronteiras do real e do ficcional, através de estratégias conscientes de manejo das duas matrizes, o ―sublime‖ e o ―humilde‖40, ora aproximando-as, ora afastando-as.
Apesar de todas as especificidades, algumas recorrências daquele cinema merecem atenção. São elas: a descoberta da paisagem italiana e o gosto pelos ambientes naturais, aqui não estáticos, mas determinantes à ação; a escolha por mostrar uma ―Itália proletária, suburbana, anti-heróica‖41; o emprego dos dialetos presente em muitos filmes42; o valor de documentário de algumas películas; o uso de atores não 37 CORTI (1978, p. 29). 38 FABRIS (1996). 39 BAZIN (1981). 40
A terminologia é de Maria Corti (1978). Corti entende por sublime tudo o que advém da tradição literária e por humilde, o que era colhido na oralidade das classes menos favorecidas, agora, através das operações formais do Neorrealismo, inseridas no sublime.
41
POGGIOLI apud FABRIS (1981, p. 67).
42 ―Os dialetos, considerados pelo fascismo como uma força desagregadora da almejada unidade
profissionais43; o gosto pela crônica do dia a dia e pelos sentimentos dos humildes44.